Na semana do Carnaval, período em que há uma profusão de nus nas ruas, TVs, bailes e passarelas, a jornalista, ex-apresentadora e, já há algum tempo, política, Soninha Francine, também apareceu sem roupas.

Soninha posa junto a bicicletas para foto de calendário.
A divulgação de uma foto sua para o calendário da Instituto ClicoBR, que defende o uso das bicicletas como meio de transporte viável e alternativo, causou um alvoroço incomum para o período momesco. Em entrevista concedida por e-mail ao Café Escuro, Soninha explicou que a reação era esperada e que isso foi usado em favor da causa. Ela deu como exemplo as “pedaladas peladas”, que há anos acontecem em vários lugares do mundo.
“Os cicloativistas – como outros ativistas – sabem que a nudez chama atenção e também por isso recorrem a ela”, explicou.
Sobre a campanha, Soninha ressaltou que o trabalho de toda a equipe envolvida (modelos, técnicos, fotógrafos, assistentes e produtores) foi voluntário e ninguém ganhou cachê.
Atual subprefeita da Lapa, em São Paulo, Soninha admitiu que nessa gestão pouco conseguiu fazer para facilitar a vida dos ciclistas da região. “O que me mata de frustração”, diz. Ela ressalta, no entanto, que conseguiu avanços importantes para a questão durante o período em que era vereadora.
Apenas para termos comparativos, a cidade de São Paulo tem cerca de 23 km de malha cicloviária contra os 132,5 km do Rio de Janeiro. Menos de um quinto da extensão. De acordo com Instituto CicloBR, 275 km deveriam ter sido entregues aos paulistanos em 2006 e outros 92 km até o final de 2012. A primeira parte não foi cumprida.
Possível futura candidata ao governo de São Paulo, a ciclista Soninha Francine afirma que não pretende abandonar a rotina de pedalar ao menos três vezes por semana e, caso seja eleita, chegar ao Palácio Bandeirantes de bike. Quando for possível ou as ladeiras do Morumbi permitirem.
Em uma coincidência infeliz, no dia em que respondeu às perguntas abaixo, Soninha postou em seu twitter que o estagiário da subprefeitura havia sido atropelado de bicicleta. O veículo ficou destruído, mas o rapaz não sofreu maiores ferimentos, ao menos.

A idéia de posar nua para o calendário era chamar atenção para a questão da utilização da bicicleta como meio de transporte viável. No entanto, a questão da nudez provocou um alarido enorme na imprensa. O tiro saiu pela culatra?
No fim a própria nudez vira motivo de discussão, mas isso não é um contratempo, faz parte da militância. Queremos mudanças não só na engenharia de tráfego, mas culturais. E, de um jeito ou de outro, o tema das bicicletas aparece – como menção de passagem ou como discussão mais a fundo. Várias rádios me ligaram e, feita a pergunta sobre a nudez, começaram a discutir as bicicletas: “Por que vc defende a causa? É viável mesmo? Não é perigoso? O que falta?”
É mais difícil aceitar a nudez de uma personalidade política?
Acho que sim. Ou de qualquer “personalidade” cujo perfil (ou estereótipo) esteja mais associado à formalidade e sisudez. Político de calção ou biquini já provoca reações.
Em um país em que posar nu é, muitas vezes, a única atitude relevante de uma nova personalidade, por que a exibição do corpo ainda provoca tanto alvoroço?
Boa pergunta! Não só por ser uma atitude “relevante” de celebridades ou aspirantes, mas porque a gente convive com erotismo com a maior naturalidade, mesmo que ele esteja completamente deslocado do contexto (em anúncios exibidos em programas infantis, por exemplo).
Qual o objetivo da Instituto CicloBR?
Promover a cultura da bicicleta – reforçar a viabilidade e pertinência da locomoção não motorizada, questionar o fetiche e o uso abusivo ou compulsivo do automóvel, promover o respeito aos ciclistas e pedestres, pressionar por mudanças nas políticas de trânsito e transporte.

Manifestação 'Pedalada Pelada' - São Paulo, 2008
Você ainda anda de bicicleta todos os dias? Em média faz quantos quilômetros? Qual a distância de sua casa para o trabalho?
Não, ando duas ou três vezes por semana em média. De casa para o trabalho é pertíssimo, não dá 3 km. A volta para casa é mais chatinha porque é ladeira acima, mas nada de mais… Também vou para o Centro, onde fica a sede da prefeitura, não deve passar muito disso, e vou para algumas reuniões e vistorias aqui perto. Mas tem dias em que a minha agenda prevê compromissos em 4 ou 5 lugares distantes uns dos outros, aí não dá tempo de ir de bike.
Como subprefeita da Lapa, você pôde fazer algo para facilitar a vida dos paulistanos que usam suas bicicletas diariamente?
Por enquanto, muito pouco (o que me mata de frustração). O que depende só de mim, eu fiz – instalei centenas de paraciclos por aqui. Andar de bicicleta já não é muito fácil, e estacionar pode ser um problema terrível. Mas algumas medidas não dependem só de mim, então o que me cabe é levar minhas demandas a outros órgãos. Tenho o maior orgulho de ter pleiteado ao Secretário de Transportes Metropolitanos, qdo ainda era vereadora e ele estava prestes a assumir a pasta, a integração oficial de bicicletas com o metrô e os trens urbanos. Ele topou imediatamente e foi conquistando terreno aos poucos, com a inauguração de bicicletários nas estações (que no começo serviam só como estacionamento e hoje, por meio de uma parceria, servem também para empréstimo de bicicletas) e permitindo, nos horários de menor movimento, entrar com bicicletas nos trens.
E de ter conseguido também que a CPTM começasse a transformar uma via de serviço em ciclovia (junto ao Rio Pinheiros), que a EMAE fizesse uma ciclovia no outro lado do mesmo rio… Mas meu papel foi só pedir, justificar, persuadir – se os outros não aceitassem, não adiantaria nada. Voltando para a SubLapa – esse ano devemos ter um orçamento mais folgado do que em 2009, que foi MUITO apertado, então estamos prestes a contratar a elaboração de um projeto de Sistema Cicloviário completo para a Sub.

Manifestação 'Pedalada Pelada' - São Paulo, 2008
Quantos quilômetros de ciclovia tem São Paulo? Para uma cidade com mais de seis milhões de carros, quantos quilômetros seriam preciso? Quais as alternativas às bicicletas?
Fora de parques, acho que são 12 km. Precisamos de muito mais, mas ciclovias não são a única necessidade ou possibilidade. Em alguns casos, conforme a largura e características da via, o indicado é uma ciclofaixa ou simplesmente uma sinalização que alerte para o tráfego compartilhado entre motorizados e não motorizados. E, numa cidade deste tamanho, a integração de bicicletas com o transporte coletivo é muito importante – sonho com o dia em que ônibus e trens terão espaço para carregar bicicletas em qualquer hora do dia… Mas isso é difícil também por uma razão estrutural muito mais complicada: a desigualdade brutal entre as regiões, fazendo com que a distância entre moradia e trabalho seja imensa para milhões de pessoas e resulte em muitos deslocamentos forçados diários. Assim, o transporte não é lotado apenas por falta de oferta, mas muito por excesso de demanda. Só reduzindo essas distâncias teremos melhor mobilidade em São Paulo.
De acordo com a Folha Online, você deve deixar o cargo de subprefeita no mês que vem para se candidatar ao governo de São Paulo. Caso seja eleita, pretende continuar indo de bicicleta para o Palácio Bandeirantes?
Não toda semana… Ele fica ladeira acima, no topo das colinas do Morumbi… É perfeitamente possível pedalar até lá, mas com calma. Ladeira a gente sobe devagar. Com a pressa de todo dia, vai ser difícil. Mas se eu sair de casa com tempo, pedalo sim.
Sua atuação politica sempre tangenciou, de alguma forma, a questão do meio ambiente. Considerando isso, como você vê uma possível candidatura da ex-ministra Marina Silva à presidência da República?
Excelente, não só porque ela é expoente de um tema que me interessa muito, mas porque é ELA – de uma integridade fabulosa, uma conduta esclarecida, elegante, enriquecedora para um debate presidencial. Marina não entra no tiroteio, na troca de ofensas, no jogo de distorções, mentiras e exageros tão comum na disputa eleitoral.