“É uma louca, uma devassa. Já veio aqui, ficou gritando aqui embaixo o meu nome. Imagina, nessa rua super silensiosa! É maluca, mas é um espetáculo, um mulherão, cachorra demais. Até escrevi uma coisa sobre isso. Peraí, que eu vou te mostrar. Tu vai curtir”.
Ele foi lá e pegou um calhamaço de folhas impressas e com alguns rabiscos. E disse: “Lê aí as primeiras páginas”. Começava mais ou menos assim:
Não sou mau com as mulheres.
Beijo, lambo, mordo, xingo, aperto, meto, puxo os cabelos e dou muito tapa.
Gosto de bater.
Bato na bunda.
Bato com o pau.
Gosto de amarrá-las na cama.
Mas se sou desse jeito, é porque elas me querem assim.
E as mulheres que não querem, não me interessam.
São as mulheres certinhas, comportadas, recatadas.
Mulheres fiéis que casaram virgens e têm medo do orgasmo.
Fiéis aos maridos e infiéis a si próprias.
Aliás, muitas nunca gozaram mesmo.
Fingem que gozam, como as putas fazem, para não criar problemas.
Perfeitas infelizes.
São indiferentes ao pênis, ou quase isso.
A verdade é que não lembro se o trecho era o mesmo reproduzido acima, mas algum tempo depois descobri que as folhas lidas no apartamento da pacata rua do Jardim Botânico integravam o primeiro romance de Zeca Fonseca, O Adorador. (Zeca já foi personagem do post 9 milímetros)
Honra das grandes essa, de ter sido um leitor privilegiado; ter nas mãos o texto ainda em fase de preparo. Não me lembro se agradeci a ele quando rabiscou meu nome, junto à dedicatória, no dia do lançamento, em junho de 2007.
Três anos depois, O Adorador ganha sua versão virtual, com o lançamento marcado para esta quarta-feira, 16 de junho, na livraria Blooks (no Unibanco Artplex), na Praia de Botafogo. A brincadeira é uma pechincha: só R$ 7,90.
Va lá!
