Por Jaime Gonçalves Filho
e Sônia Oliveira Pinto
Ainda por e-mail, ele segue a maior parte dos convidados e pede mais detalhes sobre o interesse na visita. Após as explicações, responde com outra pergunta, lacônica e receptiva: “E o que eu tenho que fazer?”. As portas virtuais ainda estavam entreabertas, quando dá um jeito de entregar a primeira confidência: “Vou ter que arrumar o escritório”.
A rua discreta parece bem mais curta que a realidade, mas dobra-se e desdobra-se em curvas ladeira acima, ganhando um clima típico de bairro serrano e perdendo os ruídos dispensáveis da cidade, dos carros, das pessoas que correm. Lá em cima, em nosso ponto de destino, meio do caminho entre o cume e sopé da ladeira, o tempo é outro.

Militante dedicado e delicado da literatura, o jornalista e escritor Marcelo Moutinho acorda, dorme, come, bebe, abre, fecha, escreve e lê em um charmoso apartamento no bairro de Laranjeiras, na zona sul do Rio. Separados em diversos cômodos, os livros são, aparentemente, divididos em comunhão parcial de bens com sua mulher, Flávia.
É ela quem abre a porta, nos convida a entrar, e, enquanto aguardamos o entrevistado, nos fala sobre o golpe de sorte que os levou até ali, discorre sobre a vizinhança pacata e o clima bucólico que dá ao lugar um quê de onírico, comum aos romances de um João Gilberto Noll, por exemplo. Moutinho chega. Traz um sorriso sincero e contido, um tênis All Star estampado no peito e um ar despojado que pouco ou nada tem a ver com sua literatura.
De maneira um tanto dispersa, tenta explicar a logística da divisão literária nos escaninhos privados. Os livros ali não apenas fazem parte da paisagem, parecem mais que integrados, estão entrelaçados a ela. A literatura estrangeira, as coisas do Rio, os livros de cinema ou música (há uma música tocando, embora som algum esteja ligado), tudo isso parece a razão de ser de todo o resto. O entorno, este sim – e isso inclui a nós, curiosos visitantes –, parece estar a serviço dos objetos literários.

Provocado, Moutinho lembra que foi o interesse pela política que o levou pela mão ao encontro da literatura, e que essa união se tornou ainda mais intensa ao perceber que a política não poderia, sozinha, “dar conta do mundo”. Já a literatura…
Ela estava bem lado, ainda na casa dos pais, nos contos e romances que circulavam pelas estantes que compartilhava com a irmã. Ao alcance das mãos, o peso pesado da literatura de Caio Fernando Abreu, que tem como de hábito arremessar incautos para o fundo do poço da existência e depois expulsá-los de lá aos solavancos. Isso era Madureira, anos 1980. Uma cabeça, há de se considerar, ainda suburbana. E o que quer que isso significasse.
A partir daí, o mundo. Os mofados morangos do escritor gaúcho lhe jogaram uma dezena de iscas literárias (e musicais) que se multiplicaram como fractais e, mais uma rasteira, lhe fizeram cair no colo de Clarice Lispector. O lobo mau que veio da Ucrânia. “Eu queria entender o que fazia aquela mulher ser tão admirada por alguém que eu admirava tanto”, lembra. E se pôs a tatear o vazio do desconhecido. Hoje Moutinho assume sem medo a obra da escritora como uma referência para seu tear literário.

Com a página da política virada, o escritor vê em retrospecto que um primeiro livro ruim “salvou” sua segunda incursão nas letras. E deve isto, sobretudo, a uma crítica de Flávio Carneiro. “Sempre que o encontro, agradeço por ter salvado o Somos todos iguais esta noite”, diz, meio a brinca, meio sério. Da mesma forma, ele atribui ao acaso o fato de, aos 36 anos, já ter organizado três antologias literárias. Em uma delas, reuniu jovens escritores em uma cartografia literária do Rio de Janeiro, onde cada autor pariu um conto tendo um bairro como protagonista. A ele próprio coube a Urca, onde morava à época.
A uma pergunta clichê e pouco inspirada, Marcelo Moutinho diz que se tivesse que escolher um único livro e partir com ele para nunca mais, levaria consigo as obras completas do poeta Fernando Pessoa. “Eu o considero o maior escritor que já existiu”, resume. Com o escritório em ordem, ele está, enfim, à vontade por entre os livros seus.

Por um instante, o sol do dia limpo de inverno é encoberto. A harmonia derrapa e o escritor reconhece que o pecado capital predileto de seus pares (e dele, inclusive) é o da vaidade, e que isso tem maculado relações que poderiam ser mais saudáveis ao nível do mar, não das nuvens. Máquinas eletrônicas desligadas, põe os devidos pingos nos ‘is’. O céu se abre, o ambiente é novamente iluminado e o assunto fica para trás.
Atento, Moutinho digere as perguntas com um pensamento rápido. E ao tempo que seu olhar parece antever aonde o entrevistador quer chegar com tais questões, vai soltando o que pode com um cuidado visível, mas sem morosidade. Hoje, diz enxergar semelhanças entre seus textos e aqueles produzidos por de Adriana Lisboa, João Anzanello Carrascoza e Flávio Izhaki. Está bem acompanhado.
Como porta-retratos, vasos e flores, Albert Camus, Zuenir Ventura, Ariano Suassuna, Noel Rosa, Arthur Shopenhauer, Fabrício Carpinejar, Franz Kafka, Paulo Francis, Fernanda Young, Inês Pedrosa e tantos outros abarrotam suas estantes. A todo o momento novas picadas precisam ser abertas na mata doméstica. O leitor Moutinho segue como um desbravador.
* O encontro acima aconteceu em 27 de junho de 2009, para um projeto literário que só agora começa a tomar forma. Além de Moutinho, outros escritores nos abriram as portas e estarão presentes no projeto em questão. Aguardem.
** Correções: Ao contrário do que publicado inicialmente, o autor da resenha ‘salvadora’ é Flávio Carneiro e não Antônio Torres. Também estava equivocada a informação de que Moutinho havia escrito sobre Madureira em seu ‘Prosas Cariocas’. O bairro que lhe coube, como já corrigido, foi o da Urca.