Por anos José Ramos Tinhorão viveu em uma quitinete de 31m2 na Rua Maria Antonia, em São Paulo, com todo o arcevo que reuniu em décadas de pesquisa sobre a música brasileira. Mas os tempos duros já haviam ficado para trás quando, em 2000, ele negociou sua biblioteca e discoteca com o Instituto Moreira Sales.
De acordo com o IMS, o acervo, que passava pelo processo de catalogação na sede do instituto em São Paulo desde 2001, é composto por cerca de 6,5 mil discos de 76 e 78 rpm, 6 mil discos de 33 rpm, fotos, filmes, scripts de rádio, cartazes, jornais, revistas, rolos de pianola, folhetos de cordel, press releases de gravadoras e uma biblioteca com mais de 14 mil obras especializadas na cultura popular urbana, tema central de toda sua obra. Até o final de 2010, todo o material será disponibilizado para consulta.
Para comemorar a chegada do acervo ao Rio, o IMS promoveu nesta terça-feira o lançamento da biografia e de outros dois livros de Tinhorão A música popular que surge na era da revolução (Editora 34) e Crítica cheia de graça (Empório do Livro), além de uma exposição que ficará aberta apenas até o dia 16 de abril, com curadoria do próprio Tinhorão.
A jornalista Elizabeth Lorenzotti fala um pouco mais sobre seu objeto de estudo.
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Por que e quando a senhora decidiu que escreveria sobre Tinhorão?
Em 2007, após lançar o livro Suplemento Literário-Que falta ele faz!- sobre o caderno cultural criado pelo professor Antonio Candido no Estadão em 1956, editado pela Imprensa Oficial, o jornalista Paulo Moreira Leite, então vice –presidente, resolveu reeditar a coleção imprensa em Pauta, de biografias de jornalistas, e me convidou para escrever sobre Tinhorão. Eu já o havia entrevistado algumas vezes, e conhecia sua carreira de jornalista e depois pesquisador.
Como ele recebeu a idéia de uma biografia?
Eu o entrevistei durante alguns meses na livraria Metido a Sebo, da Vila Buarque, seu ponto de encontro, seu ”escritório” aonde vai todos os sábados, antes de passar pela padaria da esquina. Lá ele recebe amigos, pesquisadores, jornalistas, fãs. A princípio ele relutou, mas depois aceitou bem e colaborou muitíssimo. Conversei com seus contemporâneos, hoje poucos – ele tem 82 anos – da época do Diário Carioca, Jornal do Brasil, Correio da Manha – Janio de Freitas, que também escreveu a contracapa do livro, Gilson Campos, repórter e fotógrafo, Wilson Figueiredo, Reynaldo Jardim, Nilson Lage e o amigo e colega de Editora Abril, nos anos 80, jornalista Antonio Romane. Além de pesquisar livros e internet.
Tinhorão cultivou por muitos anos a fama de se um crítico com ‘língua ferina’. A senhora acredita que isso o atrapalhou?
Sua ironia e sua pena afiada, seu talento na escrita podem ter criado desafetos, mas não mais do que a grande legião de leitores que o seguiam no Jornal do Brasil e em O Pasquim.
Ele sempre colecionou opiniões polêmicas sobre ‘ícones’ do mundo da música. Quais a senhora destacaria e por quê?
Tom Jobim, por causa de suas criticas à Bossa Nova – que compara a um carro, apenas montado no Brasil, mas importado–, e também sobre o que chama de “anterioridades jobinisticas”, 16 musicas que arrolou e provou serem inspiradas em outras, sem a devida citação, inclusive Águas de Março. E Caetano Veloso, que disse em 2008 carregar “uma pulga atrás da orelha há 40 anos”, quando escreveu, no jornal de sua faculdade na Bahia, o primeiro artigo contra Tinhorão. O livro se encerra com essa polêmica.
Como Tinhorão vive hoje?
Mora com sua mulher, a professora Maria Rosa, nas imediações da redação da Folha. Tem uma vida simples, viaja religiosamente uma vez por ano para Portugal, para onde segue agora em maio, após o lançamento de São Paulo, na Livraria da Vila, da rua Fradique Coutinho, no dia 28 de abril. Tem ótima saúde, raciocínio afiado como sempre, gosta de boa comida e de bons vinhos. Lê todos os jornais de São Paulo diariamente, continua recortando e colecionando livros.
Em relação ao estilo, a senhora enxerga ‘seguidores’ de José Ramos Tinhorão na imprensa?
Não, porque o estilo é o homem. E um homem com sua vivência e sua cultura, só mesmo na geração de Tinhorão.
Como biógrafa, onde a senhora situaria José Ramos Tinhorão, considerando o cenário atual da crítica musical brasileira?
Há pouco espaço para a crítica de música na mídia impressa, lugar privilegiado de Tinhorão. E esse lugar que ocupou, é singularíssimo.
Qual a avaliação que ele próprio faz de sua performance como crítico? Ele se vê como um crítico ‘linha dura’?
Ele continua com as mesmas ideias e o mesmo método – o materialismo dialético, seu modo de ver e analisar o mundo. E quando relê para nós algumas de suas críticas mais ferinas, concorda que os objetos dessas críticas tinham por que ficar furiosos…
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