Abaixo, a segunda parte do bate papo com o músico jean mafra, sobre a trajetória dos artistas independentes (e ‘fora do eixo’) no país, a internet no processo de divulgação e possibilidades surgidas da troca de experiências.
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Fiquei pensando se não é uma questão cultural mesmo. O que leva o ‘blogueiro cool’ daquele jornal a olhar pra cá e não pra lá? Falar desse e não daquele artista? A questão do gosto é muito subjetiva, acho que já falei disso no Café Escuro… Mas enfim, o periférico Brasil e os brasileiros teria preconceito com suas próprias periferias? Por que não ouvimos os latinos, por exemplo? Essa é uma questão que me intriga. Quando perguntei sobre ‘tocar para seus iguais’ estava também querendo confirmar a tese de que o parâmetro é o mesmo em diversas regiões (em maior ou menor escala). Em geral, fica tudo limitado ao fato de conhecer as pessoas certas e que apontam (os mesmos) caminhos. O resto é comodismo e falta de interesse mesmo. Penso eu, num reducionismo absurdo.
Quanto ao fato do “blogueiro cool” olhar para isso ao invés de lançar seu olhar sobre aquilo, penso que esta não é uma questão apenas cultural, mas também política (e uma coisa se soma a outra). parte da imprensa do brasil, e em santa catarina a coisa não é diferente, prefere olhar para o que o primeiro mundo vende como bom. seguir este modelo é mais confortável. nesse caso minha fala casa perfeitamente com a sua colocação de que “não ouvimos os latinos“… é complicado abordar esta questão, pois ela é bastante complexa, mas não me furto de dizer que o grande problema do
pop brasileiro é que o que comumente chamamos pop brasileiro é a menor parcela do que pode ser chamado de pop do brasil - quando digo nós, quero dizer, nós que temos acesso a informação e que somos letrados o suficiente para nos consideramos acima da média da população deste país. um livro mudou o modo como ouço música: eu não sou cachorro, não do paulo cesar de araújo… Ele lança luz sobre esta e outras questões, e por isso penso que há, sim, uma parcela enorme do brasil que tem vergonha da sua periferia, ou de si. claro, pedro alexandre sanches e hermano vianna já disseram isso com mais propriedade que eu.
Mas a Internet, que deveria ser uma maneira melhor de divulgar o trabalho de ‘artistas independentes’, tem ajudado, no seu caso?
Bom, mas a internet, por mais clichê que seja dizer, possibilita que um artista independente de fora e de dentro do centro do país possa construir novos canais de comunicação com as mais diferentes pessoas. eu, por exemplo, tenho “fãs” em lugares em que nunca estive (e no qual minha música só chegou por causa da rede) – gente que manda mensagem comentando música, que diz que quer ver o show, essas coias… obviamente, este espaço – internet – não é tão plural quanto tentam nos vender.
Agora, uma coisa que aprendi com o pessoal do teatro mágico (sou amigo do fernando e do fabrício anitelli – por causa do mpb, música pra baixar, do qual fazemos parte), que o mais inteligente a se fazer com uma ferramenta como a internet é estabelecer um canal de comunicação com um público, sem mediador (parece óbvio, mas, de modo geral, muitos artistas se preocupam mais em enviar material para jornalistas, blogueiros, sites (da oi, do faustão, etc) do que em apresentar seu trabalho para uma menina que conheceram através do facebook).
O fato de também ser DJ lhe abre outros caminhos?
Ser dj é um desdobramento natural do que faço. Mas é mais importante para mim financeiramente que “artisticamente”, pois as vezes essa minha função confunde um pouco as pessoas… Por outro lado, gente como lucas santtana, por exemplo, também se apresenta como dj para facilitar suas idas a lugares em que não poderiam visitar com suas bandas (já viajei assim também).
Você diz que “ainda será preciso bastante trabalho para construirmos novos canais que independam das grandes corporações midiáticas do centro do país”. Que pontos não foram postos em prática até aqui que poderiam mudar esse cenário?
Por fim, um dos pontos que não foram colocados em prática para se construir novas possibilidades neste cenário musical brasileiro que se (re)desenha, é o da criação de um circuito musical que efetive uma comunicação entre artistas e produtores musicais de diferentes regiões brasileiras. num esquema parecido ao do fora do eixo, mas sem o viés político ideológico e que abrace diferentes formas musicais, não apenas o rock. Fui convidado para me apresentar em um festival de teatro, dança, música, no crato (no vale do cariri, ceará), mas como não havia grana suficiente para pagar minha ida com uma banda, acabei por fazer um show com músicos de lá. Foi ótimo, mas se tivesse o mesmo dinheiro do cachê, passagem aérea e hotel e pudesse somar a ele a grana de umas duas apresentações em pernambuco, outra na bahia, duas em minas e uma em são paulo, meu show no cariri seria MUITO MELHOR. E eu faria uma tour, não uma apresentação apenas. Qual é a dificuldade de isso acontecer? É que ainda não temos canais de comunicação entre pequenos produtores e casas e artistas. isso é difícil de ser feito?!? Não. Aqui em florianópolis temos casas para 100, 150 pessoas que poderiam receber artistas nesse esquema. Mas isso ainda não acontece para além de algumas regiões. mundo livre s.a. já fez curitiba-joinville-blumenau-floripa-porto alegre graças ao interesse de um produtor daqui, mas isso se deu porque eles já eram uma banda conhecida no centro do país… O que falta para que isso role com quem está longe da mtv? Comunicação. Note: não estou propondo a invenção da roda, mas algo óbvio e relativamente fácil de ser construido.
Outros pontos que ajudarão nesta luta estão sendo construidos por artistas e produtores de fora do centro do país já há alguns anos. Pelo mpb, posso dizer que se as mudanças na lei de direito autoral do brasil que propomos para o minc, e que passou por consulta pública recentemente, seguir pelo congresso sem muitas alterações que a transformem em algum frankestein, poderemos ter novos espaços em rádios, sites, tvs para quem sempre foi ignorado por não estar em uma major ou ter aqueles (criminosos) “investimentos em publicidade”… (a diminuição do poder do ecad e o fortalecimento de rádios comunitárias também contribuirão neste sentido). Mas não apenas o mpb se mobiliza. Há o circuito fora do eixo, a abrafin e a rede música brasil que vem, juntos e independentemente construindo novas possibilidades. (Há hoje em minas uma cena fortíssima, graças ao empenho dos músicos de lá em se associarem… você conhece o israel do vale?)
Quando li teu segundo e-mail, fui procurar uma entrevista que o André Mansur, do Sedativo, tinha me mandado há algumas semanas, ou meses. Enfim, o papo era com o Rômulo Fróes aqui e tem pontos em comum com o que você diz.
Como o papo está bom, vou me atrever a comentar algumas das tuas novas colacações. Estou indo ler a entrevista do rômulo fróes, mas gostaria de dizer que também noto que alguns músicos independentes tem o hábito de se fecharem em si, de se bastarem, como se o que interessasse a eles fosse fazer música apenas para entendidos (como no encarte de araçá azul). Mas isso pode tanto ser ligado aquilo que conversavamos nas mensagens anteriores, do fato de alguns setores da música e do jornalismo musical ignorarem propositalmente uma comunicação mais ampla (ou a parcela mais pop do pop do brasil), quanto a questão de que o mundo em que a gente vive e no qual fazemos nosso trabalho, é tão seguimentado que dificulta a comunicação para além de seu círculo… Mas mais que isso: noto que de modo geral, para uma parcela dos quem vivem neste meio, o sucesso para além dele (o meio) é algo condenável… sei lá, é uma impressão. Também sinto que existe uma parte dos artistas da minha geração que só não alcançam o grande público porque não tem canais para se comunicar com ele – não é este o caso de max de castro e curumin?!? (que poderiam tranquilamente tocar em qualquer rádio do país?)
Tô falando isso, pq isso também me fez pensar noutra coisa: salvo casos muito excepcionais, a impressão que eu tenho é que os artistas da música deixaram, talvez da década de 70 ou 80 pra cá, de dialogar com outras formas de expressão artísticas. Eu não sei se estou falando alguma bobagem, mas acontece que não percebo conexões entre música e cinema, artes plásticas, teatro, por exemplo. Parece que antes, em um momento ou outro, tudo se confundia. Essa mistura era mais freqüente ao menos.
Agora, quanto a outra fala do rômulo fróes, sinto que hoje temos alguns artistas que transitam por áreas além música (lirinha, thiago pethit e karina bhur, por exemplo). Eu mesmo, além de ter cursado letras e ter a literatura como um norte para o meu trabalho, sou contador de histórias e também trabalho com áudio visual (em duas semanas lanço o clipe de rosebud – que tem direção minha).
Você, por exemplo, citou o Machado de Assis como referência do teu trabalho. Mas talvez isso seja muito mais uma construção de uma memória remota (mas constante), do que algo que você percebe como urgente, presente, e que sente a necessidade de chamar pra si, na sua música, entendeu? Antes tínhamos lá os Rolling Stones e o Velvet Underground namorando a Pop Art de Andy Waroll; Chico Buarque com João Cabral; os tropicalistas com Oiticica e Lina Bo Bardi, e muitos outros exemplos. E aí você pode levar essa dificuldade ou incapacidade para grupos, gêneros, regiões… e aí teremos o retrato da música brasileira hoje. Milhares de artistas falando só pra si, e satisfeitos com isso. O que houve com a ambição? O que um músico independente ambiciona hoje?
Acho que você fez uma pergunta maravilhosa no fim do seu imeiu, “o que um músico independente ambiciona hoje?”. As respostas são várias, mas lamentavelmente, sei que muitos responderiam que gostariam de deixar de ser independentes… mas esta é uma pergunta para um ou dois artigos…
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Com um estilo irônico e elegante, Sanches torcia e retorcia seus alvos, com especial dedicação para personalidades ‘intocáveis’ da música popular brasileira. Com o tempo, Sanches intensificou gradativamente o nível das críticas, até decidir se despir (como ele mesmo explica) da fantasia de menino mal.
De acordo com o IMS, o acervo, que passava pelo processo de catalogação na sede do instituto em São Paulo desde 2001, é composto por cerca de 6,5 mil discos de 76 e 78 rpm, 6 mil discos de 33 rpm, fotos, filmes, scripts de rádio, cartazes, jornais, revistas, rolos de pianola, folhetos de cordel, press releases de gravadoras e uma biblioteca com mais de 14 mil obras especializadas na cultura popular urbana, tema central de toda sua obra. Até o final de 2010, todo o material será disponibilizado para consulta.