Toca no vazio

Não está certo. Era preciso um cuidado maior com o disco, um dos melhores de 2009. Mas ainda vale o alerta: comprem, peguem emprestado, baixem, copiem e ouçam ‘Sem nostalgia’, de Lucas Santtana (Diginóis).

Pesquei das prateleiras há coisa de um mês e tal, muito pelo pouco que já tinha ouvido (e gostado) dos trabalhos anteriores do baiano. Um susto. Rodou dezenas de vezes, mas a sensação de surpresa não se desfaz.

O texto deveria ter saído antes, mas a cada audição a inspiração tomava um rumo diferente. Empaquei. Abandonei a ordem linear e parti para a randômica. Confusão.

‘Sem nostalgia’ tem o mérito de não parecer com nada. Talvez nem seja por meter o bedelho sem preconceito em diversas searas, coisa que cada vez mais gente tem feito. Funk, eletrônica, algo da velha bossa e passos, saltos adiante — tudo junto e misturado. A brincadeira é toda em cima do violão, voz e MPC, que formam uma espécie de manta sonora com o auxílio de ruídos aleatórios.

A abertura com Super Violão Mashup é um gancho sem possibilidade de defesa. Ouça no volume máximo e tente imaginar Fatboy Slim perdido no baile da Furacão na Riosampa. “Ih, caraca!”

Entre um intervalo e outro, lembrei de ‘O Bidu: Silêncio do Brooklin’, de Jorge Ben. Há ecos fortes em Cira, Regina e Nana e também Amor em Jacumã (Dom Romão e Luiz Ramalho).

Na primeira, é possível ouvir a lixa alisando o coração que ‘toca no vazio’. Repare.

Todo ouvidos

mansur – fiz uma seleção das 25 músicas mais legais de 2009 no Sedativo, com seus respectivos clipes, links para download e dois ou três comentários sobre a obra: http://sedativo.wordpress.com

mim – não ouvi nenhuma (NENHUMA) das indicadas.
vou voltar pra Júpiter.
tchau!

mansur – tem júpiter maçã lá no meio, serve?

mim – só se a maçã for do amor.

mansur – tá sensível, hein?

(…)

Sempre rindo…

Quinta-feira, dez e alguma coisa da manhã. A mulher espera atendimento no setor de ginecologia do Hospital de Ipanema. Tenta sem sucesso fazer ligações num velho celular sem créditos. Anda pra lá, anda pra cá, faz um rápido rastreamento com os olhos e senta à frente de uma gorda que tem uma senhorinha (a mãe) ao lado.

A primeira mulher pergunta para a gorda se ela pode fazer uma ligação a cobrar para o telefone de seu marido. Ele foi levar o irmão dela ao médico (no Gafrée Guinle), é desligado, e ela precisa lembrá-lo de que ele tem que entregar o exame de sangue do irmão.

– Eu não consigo falar com ele –, diz a primeira mulher.

A gorda responde que tudo bem, pergunta o número e liga. Espera. Expectativa. Pergunta o número de novo. Digita. Espera. Outras pessoas prestam atenção. Ela balança a cabeça negativamente.

– Fora de área ou desligado.

A primeira mulher aparenta preocupação. O marido é desligado, ela repete. Para ilustrar, diz que ela dorme numa cama de solteiro, ele noutra. Ele não pode sentar na cama dela. Ele sabe disso. Na noite passada, distraído, ele sentou na cama dela. Caiu tudo: ela, ele, cama, tudo no chão.

– Tô morrendo de dor nas costas aqui – reclama, passando a mão esquerda nas costas.

Diz que os sobrinhos abandonaram seu irmão, e quem tem que cuidar dele agora é ela. Não querem saber do pai. A filha trabalha em uma empresa de telefonia, mas desliga o telefone quando percebe que é ela ligando. Disse que ia lá cuidar dele em São Gonçalo. Tudo mentira. Os vizinhos o encontraram desmaiado em casa, há três dias sem comer. O irmão se envolveu com drogas, por isso os filhos o rejeitam.

– Meu ex-marido era assaltante de banco e seqüestrador. Não roubava gente em ônibus, não. Só banco.

Apesar disso, os filhos nunca deixaram de visitá-lo na cadeia, ela diz. Um dia sequer. Um dia de visita, claro. O ex-marido passou 20 anos na cadeia. Morreu lá, de ataque do coração. Mas não é esse que está no hospital, não; é o outro. Ela diz que esse é muito bonzinho.

O outro era do grupo do Escadinha, aqueles caras todos, os ladrões. Mas os filhos são honestos. Um deles se formou em advogado. É policial civil. Já passou para a Polícia Federal e está esperando ser chamado. De tanto ver aquele ambiente da cadeia, o filho disse que queria ser da polícia para entender tudo aquilo.

– E era desse tamanho – diz ela, com a mão direita levantada a um metro do chão. – A senhora pode tentar novamente? – pede para insistir no celular.

– Nada. Nenhum sinal – diz a gorda.

Entre conformismo e lamento, a primeira mulher diz que deveria ter dado seu celular para o marido (o bonzinho).

O ex-marido, ela continua, era de classe alta, morava na Ataulfo de Paiva, no Leblon. Era filho de general, mas gostava da bandidagem, do crime. Era seqüestrador e assaltante de banco, gostava era disso.

– Se afeiçoou, né? – diz a gorda, meio sem saber o que dizer.

A primeira mulher repete que o ex-marido foi condenado a 20 anos de cadeia e sempre que completava um sexto da pena, colocavam um novo crime na sua conta. Ele poderia ser condenado a 100 anos, “mas no Brasil não tem isso”. Ela diz que o pai dele sempre tentou tirá-lo de lá, mas não conseguiu. E era general. Montado na grana.

O ex-marido morreu na cadeia. Tinha 18 anos de preso. O pai também morreu, de desgosto – ela acha.

– Tá demorando, né – diz a primeira mulher. – Eu fiz meu exame no Bronstein, fiz no particular. Se ainda fosse pedir aqui… – fala, deixando à mostra alguns dentes estragados e um ligeiro pedantismo.

– A senhora é de onde – pergunta a primeira mulher.

– De Nova Iguaçu – responde a gorda.

– E não tem hospital lá, não? Tem que vir pra cá? – indaga, demarcando o território.

– Eu tava na Posse, mas encaminharam pra cá – tenta explicar a gorda, meio sem paciência.

Depois de um certo silêncio, a primeira mulher e a gorda falam sobre os exames e as consultas que esperam. A ex-mulher do seqüestrador diz que tira tudo de letra, e que só tem medo mesmo da mamografia.

– Você vê a Hebe, né? Nunca teve nada, sempre rindo… olha aí.

Os outros pacientes já não prestam atenção à conversa.