9 milímetros

Logo no início do século XXI fui chamado para trabalhar em um jornal carioca – projeto novo, proposta diferenciada, coisa e tal. Era um oásis, quase uma mentira, uma espécie de alucinação coletiva de algumas dezenas de pessoas. Por alguns meses.

Lá pela terceira ou quarta semana, no meio de uma entrevista, ali no Centro do Rio, nas vizinhanças do Arco do Teles, o entrevistado diz para o fotógrafo:

– Acho que lhe conheço, mas não sei exatamente de onde.

– Eu sou filho do Rubem, respondeu o outro.

Demorei três segundos para gelar e tremer, depois de considerar o sobrenome. Não era possível. Aquilo não poderia mesmo ser aquilo. Não era possível.

Na volta para a redação, ainda no carro de reportagem, eu tomava coragem para voltar ao assunto. E enfim avancei:

– Como assim, filho do Rubem?

– É, sou. Mas não é uma coisa que eu fico falando por aí para qualquer um. Pode parecer pedante.

Fiquei ali entre tudo. Pasmo, surpreso, incrédulo, orgulhoso e mais um tanto. Chegando em casa, falei para ela:

– Você não vai acreditar com quem estou trabalhando.

– Quem?

– O filho do Rubem.

Em uma confusão que só viríamos entender muito mais tarde, a reação foi quase indiferente.

– Nossa, que coincidência!

Alguns meses depois, em uma festa que jogava a pá de cal naquele sonho coletivo, ela me questionou ao ser apresentada ao ‘filho do Rubem’.

– Não é possível que ele tenha um filho dessa idade.

Só então nos tocamos que ela falava de um Rubens, e eu falava de Rubem Fonseca. Muitas risadas depois, ela entendeu minha surpresa quase histérica. Afinal, era o filho do homem.

– Ahhh, tá. Agora, sim, faz todo sentido, disse ela.

* * *

A historia acima é apenas uma introdução para lembrar que, após o lançamento de ‘O seminarista’, no fim de 2009, começam a chegar às livrarias relançamentos de clássicos do velho Zé Rubem. Há desde romances, como ‘Agosto’, ao definitivo ‘A coleira do cão’. Ou ainda ‘Lúcia McCartney’ e ‘Os prisioneiros’.

Se você é um neófito no mundo fonsequiano, avance logo sobre os hards, tipo ‘Feliz Ano Novo’, e depois vá amaciando. De todo modo, não há uma receita de bolo. O livro tem que bater verdadeiramente. Pode ser que, no fim, o leitor se deixe levar pelas viagens oníricas de ‘Vastas emoções e pensamentos imperfeitos’.

Nada impede, no entanto, que o caminho possa ser feito de trás para adiante. Se for assim, vale um aperitivo.

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3 Respostas para “9 milímetros

  1. Eu queria ter um pai assim. Até confesso q já me imaginei várias vezes dizendo por aqui, onde ng me conhece:

    – meu pai é escritor
    – como ele chama? Tem algo traduzido q esteja a venda aqui?

    E eu responderia, no fundo orgulhosa:

    – prefiro nao dizer mais, ele é muito famoso lá

    Devaneios ao estilo fabiane…

    Bj

  2. Pingback: ‘Não sou mau com as mulheres’ | Café escuro

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