Perdemos Midlin

A morte do bibliófilo José Midlin, 95 anos, na manhã deste décimo domingo de verão, em São Paulo, nos leva a questionar o que o Rio tem feito de suas bibliotecas e de seus leitores.

O município do Rio conta hoje com 29 bibliotecas populares e uma volante, que circula preferencialmente pelos bairros desprovidos de livros. É pouco ou menos que isso. E, noves fora uma ou outra iniciativa isolada, as unidades que deveriam ser focos ‘multiplicadores de cultura’ vivem às moscas. Na maior parte das vezes têm a existência ignorada pela população e passam, apenas, como mais um prédio feio e sujo na paisagem.

A biblioteca popular do Leblon é um (mau) exemplo disso. A foto abaixo não deixa ver que um muro de mais de dois metros de altura isola o prédio do público (leitor). E com os portões fechados boa parte do dia, o acesso só é possível por um outro prédio público vizinho. Ou seja, o estudante que quiser ler ali, ou supera a prova de obstáculos antes, ou desiste.

Passado um ano e dois meses do atual governo à frente da máquina municipal, a secretária de Cultura Jandira Feghali ainda há de mostrar a que veio. Acredita-se. ‘Multiplicar cultura’, até então, resume-se a espalhar barraquinhas de artesanato e barbante colorido por bairros boêmios do Rio. Um tanto mais de ousadia seria não só saudável como vital para a cultura da cidade. Bibliotecas não são corredores de hospitais, onde só se vai quando estritamente necessário. Livros não cheiram a éter.

E se as formas de leitura estão mudando, com áudio-livros, com Kindles e afins, as bibliotecas podem, sim, acompanhar a revolução. Como? Só descobriremos deixando-as abertas às transformações, não condenando-as a um ostracismo precoce, retrógrado e conservador.

Talvez fosse o caso de as bibliotecas serem transferidas para o chapéu administrativo da secretaria de Educação, que teria condições de transformá-las numa extensão das escolas municipais, tornando-as referências locais. A secretária Cláudia Costin já mostrou ter competência para ir ainda mais longe.

Pense bem: que biblioteca é referência na sua vida? Ela é municipal? Não precisa responder agora.

Leitor e colecionador voraz, Mindlin começou a montar sua biblioteca particular ainda na adolescência, alcançando um acervo de cerca de 30 mil volumes (de não-ficção histórica até a poesia). Membro da Academia Brasileira de Letras, Midlin e a mulher Guita doaram em 2006 parte relevante de sua bliblioteca à Universidade de São Paulo (Brasiliana).

Pense mais: o que o Rio tem feito para gerar leitores apaixonados como Midlin? Insisto: nossas bibliotecas têm ajudado?

Pode responder.

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