Sobre feridas e curandeiros

Invictus, longa-metragem de Clint Eastwood, que conta o empenho de Nelson Mandela para fazer de um time de rugby a chave para um modelo de união ambicionado para a África do Sul, é um bom filme para se assistir em ano de Copa do Mundo. Guardadas as devidas proporções que distanciam o rugby do futebol.

Há algumas semanas em exibição, Invictus até pode ganhar um gás extra se for condecorado com uma das duas estatuetas a que concorre no Oscar: Melhor Ator (Morgan Freeman), Melhor Ator Coadjuvante (Matt Damon). Conseguiria, assim, uma sobrevida em uma meia dúzia de cinemas país afora. Mas isso é o de menos.

O grande barato do filme, descontando o pano de fundo político, é o poder de mobilização de um líder negro, recém liberto de 30 anos de cadeia, sobre uma população esgarçada, dividida e ruminando ódios seculares.

Retratar a tarefa metódica de (senão exterminar) minimizar esses danos é a razão de existir do filme. Ali, Mandela mostra como uma alegoria da exclusão (o esporte) poderia, sim, servir como linha reta entre pontos tão distante.

E aqui, exatamente nesse ponto do filme, já não conseguia pensar em nada que não fosse o trabalho de José Júnior à frente do AfroReggae. Sim, estou comparando um filigrama do trabalho de Mandela ao que é feito por José Júnior e seu grupo em favelas suburbanas do Rio e Minas Gerais, com todos os ‘senões’ e as tais propoções guardadas lá do início.

De certa forma, as atuações político-sociais do sul-africano e do brasileiro em muito tem pontos semelhantes – ambos tratam de feridas profundas, por exemplo. Mas existe uma diferença sensível na importação do modus operandi, além do fato de Mandela focar (no filme) no esporte e José Júnior na arte: enquanto lá Mandela empurra sutilmente a classe média para os campinhos de terra batida do gueto; aqui, José Júnior consegue pôr o gueto tocando nos melhores palcos do país.

Não vou aqui entrar no mérito de dizer que a atuação de Mandela “é muito mais ampla e tal…” e que “a favela é muito mais que blá blá blá…”. O alcance de Nelson Mandela não pode nem deve ser mensurado por um pequeno post perdido no universo da blogesfera. Os livros de história estão aí nas prateleiras para os interessados. Da mesma forma, o trabalho do AfroReggae está para quem ainda não conhece e quer conhecer.

O resumo das duas situações é grosseiro, sim, mas a associação feita acima não é uma obra de ficção. Se você duvida, vá ao cinema, alugue um DVD, pegue um avião para a África do Sul ou, simplemente, visite Vigário Geral.

Não vai perder a viagem.

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