Solto (aprendendo a ler)

Circo - Foto: Moskow

Sábado, Mendes chegou à drogaria atrasado.

– Agora eu me chamo Adriano – disse, afoito.

Seu Wilson fez que não ouviu:

– Mendes, me ajude com essas caixas.
– Meu nome é Adriano.
– Outro dia era Pedro, hoje é Adriano. E amanhã?
– Agora é para valer: Adriano.
– Que história é essa, rapaz? Mais de quarenta anos e ainda não assumiu o próprio nome?
– Assumi hoje: Adriano.

Seu Wilson rendeu-se.

– Então tá, Adriano. Me ajude com essas caixas.

A razão da mudança fora a visita à velhota da vila Efigênia. Seria uma entrega a domicílio, como outras. Mas deu-se o inesperado, um encontro memorável, uma longa jornada feita sem que Mendes precisasse deixar o sofá onde era mimado com chá, biscoitos – e com a fé que nenhuma igreja lhe incutira.

Trecho do romance ‘Propósitos do Acaso’, de Ronaldo Wrobel (Ed. Nova Fronteira – 1998)

* * *

Na última vez que troquei meu nome
Por um outro nome que não lembro mais
Tinha certeza: ninguém poderia me encontrar
Mas que ironia minha própria vida
Me trouxe de volta ao ponto de partida
Como se eu nunca tivesse saído de lá


Trecho da música ‘Um móbile no furacão’, de Moska (EMI – 1999)

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