Nós dançamos

O ‘estaleiro’ forçado às vezes ajuda em alguns aspectos, e fazer escoar leituras encalhadas é uma delas. Então, por conta de uma gripe que me fará perder o prazo da vacina contra uma outra gripe, resolvi diminuir a pilha dos ‘textos para ler depois’. Depois de descartar coisas que não deveriam estar ali, tive a grata surpresa em descobrir, meio ao acaso, um texto de Felipe Hirsch (Pop cult 3), escrito para coluna d’O Globo, de 24 de maio.

Ele usa o programa ‘Desert island discs’ (Discos da ilha deserta), da BBC Radio 4, como mote para falar de suas próprias referências (musicais, de preferência). Explica que o programa pede, a cada semana desde de 1942, que um convidado escolha oito gravações para levar para uma mítica ilha deserta, além de um livro (não vale a Bíblia, outro livro religioso ou as obras completas de Shakespeare) e um objeto inanimado.

Não vou reescrever aqui a coluna de Hirsch; quem quiser saber mais que procure o jornal. Fato é que lembrando as escolhas de alguns convidados, Hirsch expõe ali suas escolhas, como se ele próprio fosse o próximo a ser mandado para a tal ilha. E durante a leitura, entre um parágrafo e outro, eu também fazia minhas listas na cabeça. E lembrava a todo momento de ‘Alta fidelidade’, livro do também inglês Nick Hornby – já citado aqui -, que virou filme produzido e estrelado por John Cuzack.

No livro/filme, o protagonista vive às voltas com listas: cinco músicas para funeral, cinco músicas para comer gente, cinco melhores últimas músicas do lado A (muito, muito antigamente, os discos – pais dos CDs, avôs dos MP3 – tinham lado A e lado B).

Depois da leitura, fui atrás das colunas anteriores de Hirsch (Pop cult 2 e Pop cult 1). A 2 tratava de situar a figura de Morrissey (ex-líder do grupo The Smiths) dentro de um contexto ‘político’ ou quase isso. A 1 não encontrei ainda.

Então, como parte do processo de reabilitação, passei boa parte do dia me divertindo com o iBrinquedo novo. E redescobrindo canções nem tão velhas assim, que foram parar ali sem um critério específico.

Mas foram os dois últimos parágrafos do texto de Hirsch que me fizeram deixar a modorra de lado, sentar aqui para escrever e procurar o vídeo abaixo. Ele diz:

“A verdade é que todos temos o álbum preferido dos Beatles, a preferida do Marvin Gaye, um livro, filme, show ou peça inesquecível. Use seu espaço no Twitter, Blog, Orkut, Facebook, para dividir suas paixões.

Para despertar paixões. Esqueça um pouco do que você não gosta ou pensa não gostar. Fale sobre o que é capaz de tirar seus pés do chão. Do que é capaz de te fazer feliz, mesmo numa ilha deserta”.

Esses dois parágrafos curtos acima são o extrato, o sumo torrado e moído desse Café Escuro, a razão dele existir – um espaço para compartilhar coisas bacanas. Se elas forem capazes de ‘tirar seus pés do chão’, ponto para nós.

* * *

Quando você não sabe o que dizer, ou quando quer dizer algo e não consegue, sempre haverá uma canção com as palavras certas. Esse disco estava perdido nas prateleiras. Devo essa ao iBrinquedo. A interpretação é demolidora.

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‘Não vou mais nessa estrada’

Em 1989 Lulu Santos pariu Popsambalanço e Outras levadas, disco que fazia a equalização do emaranhado de referências do músico, sempre atento às ondas sonoras interferindo em sua antena parabólica. Além das levadas explícitas no RG do álbum, aquele era um disco sobretudo de alma funk, ‘body and soul’.

“Incompreendido”, “subestimado”, “à frente de seu tempo”, “pretencioso” e um tanto mais foi usado para descrevê-lo. Fato é que o disco não aconteceu. Demolidor em potencial, ficou em ponto-morto, no estéril terreno do ‘quase’. Hoje, olhando em perspectiva, até se poderia enxergar algo premonitório no release assinado pelo antropólogo Hermano Vianna – um ser que pensa e conhece (por dentro) as entranhas da música contemporânea brasileira.

Dizia ele:

Ser pop é gostar do mundo e da descartabilidade do real. Ser pop é destruir as hierarquias que separam o raro do vulgar, o original da cópia, o eterno do transitório. Fazer música pop é inventar um lugar-comum-ideal, isento de negatividade, capaz de seduzir (por um breve tempo, mas intensamente) o maior número de ouvintes.

Recapitulando: o compositor pop trabalha assumidamente com o lugar-comum, remanejando conhecidos elementos melódicos, harmônicos e rítmicos. Sua mágica é a conexão instantânea que às vezes liga o “novo” lugar-comum e o desejo do público. Tudo tem que ser feito na hora certa. No reino pop a figura do gênio incompreendido, aguardando o julgamento da história, é patética e desnecessária.

No Brasil, é dificílimo encontrar um pensamento sintonizado com o fenômeno pop, capaz de relativizar seus preconceitos diante da arte que a massa gosta ou, o que seria mais sensato, capaz de não ter preconceitos diante da arte que a massa gosta. Os críticos se consideram donos da verdade e do bom gosto. Quem não gosta daquilo que eles gostam está sendo manipulado pela indústria cultural.

‘Meio diferente de hoje em dia’

E, assim, Popsambalanço e Outras levadas foi posto de volta ao escaninho, e por lá ficou, escondido, empoeirado, sem cuidado, por longos 20 anos. O tempo passa rápido e a tal metáfora do vinho que fica melhor ao envelhecer não cabe aqui, por desnecessária.

Corta para 2009. Zilhões de beats e encruzilhadas musicais depois, a decisão de Ivete Sangalo de incluir ‘Brumário’ em seu despojado projeto ‘Pode entrar’ joga, novamente, luz sobre o rejeitado álbum. E traz consigo a sensação de incompreensão, e de querer outra vez o que não se teve antes.

Mas eis que, aos 46 do segundo tempo das comemorações de duas décadas de Popsambalanço, Lulu pôs na praça ‘Singular’ (em dezembro de 2009). Com ele, o ‘rei do pop’ fez uma caminhada nostálgica em direção ao ponto que, talvez, seja próximo àquele que startou a feitura do álbum de 89. Ele voltou, ressalte-se, por caminhos já trilhados e, por isso, a sensação de dejá vù causou certo desconforto de início.

‘E eu nem imaginava…’

Fosse um LP, a cacetada pegadora teria sido dada na última música do ‘lado A’. Eletrificada na potência 9 e com uma batida quase marcial, ‘Atropelada’ é um susto sem referências, uma espécie de grito na noite da alma (olha ela aí novamente). Lulu fez e refez tudo certo ali. Mas atrapalhou a evolução das faixas restantes. Com medo da indefinição, o repeat travou. Dezenas de audições depois, a declaração do autor de ‘A coisa certa’ dava um Norte: “É das mais gratas e surpreendentes revelações artísticas que tive nos últimos tempos…”. O alvo dos elogios era Jorge Ailton, autor de ‘Atropelada’ em parceria com Apoena Frota.

A curiosidade acabou por desaguar em O Ano 1, álbum de estréia de Ailton. Lá, as referências da soul music e, por que não?, do funk, estão ainda mais entranhadas, curtidas, marcadas em cada sulco. Cassiano é uma espécie de eminência parda. Que dúvida (ou medo) não deve dar a um autor ver sua canção sendo moldada por um ouríves como Lulu Santos. O que fazer depois, quando seu próprio processo ainda está em andamento, e seu primeiro disco ainda em fase de montagem?

Ouvir a ‘Atropelada’ de Jorge Ailton, na voz do próprio, é ver as dúvidas do último parágrafo dissipadas. O dilaceramento contido ali é resultado de outras mágoas, outras dores, tão profundas ou intensas quanto as de Lulu, mas outras. Versões díspares e igualmente belas. Nos dois casos, a canção vale os discos de ambos, e estão à altura deles.

A beleza comovente de ‘Atropelada’ (quase uma obsessão) está refletida tanto em Singular (Lulu Santos) quanto em O Ano 1 (Jorge Ailton). Mas ela é, ainda mais, um brinde à chegada deste segundo ao cenário da música brasileira. Talvez sem saber, talvez plenamente consciente, Jorge Ailton construiu um álbum que, por vias tortuosas, seja algo que não seria possível sem existência de Popsambalanço e Outras levadas.

Da mesma maneira, só que em sentido contrário na rodovia de influências indiretas, a inclusão de sua canção em ‘Singular’ poderia ser um reconhecimento e homenagem a isso. O que tornaria tudo ainda mais bonito (e também sofrido).

*Falar de dois discos ‘novos’ tendo como base uma única canção e um outro disco, feito há 20 anos, é uma não-resenha, ok. Mas quem quiser tirar a prova dos nove, o show de lançamento de O Ano 1 acontece nessa quinta-feira, 13 de maio, no restaurante Zozô, na Urca, a partir das 22h. Bons sons.


Atropelada (Jorge Ailton – Apoena)

Cortando caminho falando sozinho na beira da estrada
Me pego fugindo, não sei, de mim mesmo nessa madrugada
O tempo me larga, me esquece, me deixa…
É só mais um

E eu nem imaginava
Que seria ao som de “Body and Soul”
Que lenta, distante e mesmo atropelada
Cantava assim

Com você não volto mais
Não vou mais nessa estrada
Correndo o risco de louco assim que te rever
Eu sei vou logo te esquecer
Você não vale nada
Então me deixa em paz

As pernas me levam, pessoas rodeiam,cabeça pesada
E a minha garganta reclama que quer alguma coisa gelada
Que tire da minha cabeça essa frase arranhada
Foi sem querer

Ouvindo besteira saindo da boca de qualquer mimada
Me apoio na mesa olhando pra baixo sem chão, sem nada
No fundo o refrão de uma dessas me engana de cara lavada
Tá tudo bem

Com você não volto mais
Não vou mais nessa estrada
Correndo o risco de louco assim que te rever
Eu sei vou logo te esquecer
Você não vale nada
Então me deixa em paz

E eu nem imaginava
Que seria ao som de “Body and Soul”
Que lenta, distante e mesmo atropelada
Cantava assim

Com você não volto mais
Não vou mais nessa estrada
Vendo o risco de louco assim que te rever
Eu sei vou logo te esquecer
Você não vale nada
Então me deixa em paz
Então me deixa deixa em paz
Então me deixa em paz

Feios

O norte-americano James Newell Osterberg, mais conhecido na pele do sequelado roqueiro Iggy Pop, acaba de ganhar um título nada invejável: o de ‘pior rosto’ entre as celebridades. A eleição foi realizada pelo site britânico The Good Surgeon Guide (Guia do Bom Cirugião) que, de acordo com matéria do Globo Online, ouviu cerca de 1.300 pessoas.

Pop bateu concorrentes ‘de peso’, como os atores Mickey Rourke, Melanie Griffith e Cher (também cantora), deixando em segundo e terceiro lugares, respectivamente, a modelo Jodie Marsh e estilista Donatella Versace. A pesquisa foi realizada no Reino Unido e, pela foto abaixo, o leitor talvez considere o resultado justo, mas há controvérsias. (Aqui, Mr. Pop dançando para Moskow; aqui seus concorrentes)

Iggy Pop - Foto: Moskow

No entanto, um outro dado chama a atenção: 39% dos entrevistados disseram respeitar mais as celebridades bonitas do que as bem sucedidas. Resultado sintomático para uma sociedade (global) histericamente preocupada com a beleza (ou falta dela).

Diante do resultado da enquete bizarra (estranhamente os ingleses tem se dedicado mais e mais a elas), lembrei de um livro recém-lançado pela Ed. Record. Esta é a segunda ou terceira vez que escrevo aqui sobre livros não lidos. De todo modo, como me foi indicado com relativo entusiasmo, dei uma fuçada na web atrás de informações.

‘Feios’, do também norte-americano Scott Westerfeld, é a primeira parte de uma tetralogia a ser completada por ‘Perfeitos’, ‘Especiais’ e ‘Extras’. O livro é uma trama com algo de ficção científica envolvendo a modificação física e emocional de adolescentes. Esses, ao completarem 16 anos são submetidos a uma cirurgia plástica obrigatória que corrigirá todas as suas imperfeições. Uma resenha da Folha Online o definiu como um casamento entre ‘1984’, de George Orwell, e ‘Diário da Princesa’, de Meg Cabot. Fiquei, no mínimo, curioso.

*Esse post foi escrito ao som de Avenue B, de Iggy Pop.

Leia, abaixo do vídeo, o primeiro capítulo de ‘Feios’.

NOVA PERFEIÇÃO

O céu de início de verão tinha cor de vômito de gato.

Obviamente, Tally pensava, quando a dieta do seu gato se resume por um bom tempo a ração sabor salmão. Movendo-se rapidamente, as nuvens até lembravam peixes, desfeitas em escamas pelos ventos das altitudes elevadas. À medida que a claridade se ia, lacunas azuis da cor do mar apareciam, como um oceano de cabeça para baixo, frio e infinito.

Num verão qualquer, um pôr do sol como esse teria sido lindo. Mas nada era lindo desde que Peris havia se tornado perfeito. Perder seu melhor amigo é uma droga, mesmo que apenas por três meses e dois dias.

Tally Youngblood esperava pela noite.

Ela podia ver Nova Perfeição da janela. Os prédios onde as festas aconteciam já estavam todos iluminados. Linhas sinuosas destacadas por tochas indicavam os caminhos por entre os jardins. Balões de ar quente puxavam suas cestas em direção ao céu rosado levando passageiros que atiravam rojões de artifício contra outros balões e paraquedistas que passavam. O som de risos e música vinha como uma pedrinha sobre a água, arremessada com a força certa, as pontas ferindo os nervos de Tally. Nos limites da cidade, isolada pela forma oval do rio, tudo estava escuro. Àquela hora, todos os feios estavam dormindo.

Tally tirou seu anel de interface e disse:

– Boa noite.
– Bons sonhos, Tally – respondeu a sala.

Ela mastigou uma pílula de escovar os dentes, afofou os travesseiros e enfiou um antigo aquecedor portátil – um que gerava tanto calor quanto um ser humano do tamanho de Tally – embaixo dos lençóis. E então saiu de fininho pela janela.

Do lado de fora, com a noite finalmente tomando o céu por completo, Tally se sentiu bem. Talvez fosse um plano idiota, mas qualquer coisa era melhor do que outra noite acordada na cama, afogada em lamentações. No familiar caminho coberto de folhas que levava à beira d’água, era fácil imaginar Peris andando nas pontas dos pés atrás dela, segurando o riso, pronto para uma noite espionando os perfeitos. Juntos. Ela e Peris haviam aprendido a enganar o inspetor aos 12 anos, uma época em que parecia que os três meses de diferença entre suas idades nunca teriam importância.

– Amigos para sempre – murmurou Tally, tocando a pequena cicatriz na palma de sua mão direita.

A água reluziu por entre as árvores. Ela podia ouvir as pequenas ondas produzidas por uma embarcação no rio se chocando contra a margem. Agachou-se atrás dos juncos. O verão era a melhor época para as expedições de espionagem. A grama estava alta, nunca fazia frio e não era preciso encarar um dia inteiro de aula no dia seguinte.

Obviamente, agora Peris podia dormir o quanto quisesse. Era apenas uma das vantagens de ser perfeito.

A antiga ponte se estendia, grandiosa por sobre a água. Sua imensa estrutura de metal estava escura como o próprio céu. Tinha sido construída há tanto tempo que suportava seu próprio peso, sem ajuda de qualquer estrutura suspensa. Em um milhão de anos, quando o resto da cidade estivesse em escombros, a ponte provavelmente continuaria de pé, como um osso fossilizado.

Ao contrário das outras pontes que levavam à Nova Perfeição, a antiga não falava – e, mais importante, não denunciava invasores. No entanto, mesmo em seu silêncio absoluto, sempre parecera sábia aos olhos de Tally; serenamente astuta, como uma árvore ancestral.

Agora seus olhos estavam totalmente acostumados ao escuro. Precisou de poucos segundos para achar a linha de pesca amarrada à pedra de sempre. Ela deu um puxão e ouviu o barulho da corda se revirando onde ficava escondida, entre as colunas da ponte. Continuou puxando até que a linha invisível se transformou  numa corda úmida cheia de nós. A outra ponta permanecia atada à estrutura metálica da ponte. Tally esticou bem a corda e a amarrou à árvore de costume.

Ela teve de se agachar por entre a grama novamente quando outra embarcação passou no rio. As pessoas que dançavam no convés não notaram a corda que ia da ponte à margem. Nunca notavam. Os novos perfeitos estavam sempre ocupados demais em se divertir para perceberem pequenas coisas fora do lugar.

Depois que as luzes do barco sumiram na escuridão, Tally testou a firmeza da corda, usando o peso do seu corpo. Uma vez, ela havia se soltado da árvore, fazendo com que Tally e Peris pendessem para baixo e depois fossem arremessados para o meio do rio, caindo na água gelada. Tally sorriu com a lembrança.

Preferiria estar na expedição – encharcada, no frio, ao lado de Peris – a estar seca e aquecida naquela noite, mas sozinha.

Pendurada por baixo da corda, com as mãos e os pés agarrados aos nós, Tally foi se arrastando até a estrutura sombria da ponte. Então subiu no esqueleto metálico e completou a travessia até Nova Perfeição.

Ela sabia onde Peris morava graças à única mensagem que ele tinha se dado ao trabalho de enviar desde que se tornara perfeito. Não era exatamente um endereço, mas Tally conhecia o truque para decodificar os números aparentemente aleatórios no fim do texto. Os dados a levaram a um lugar chamado Mansão Garbo, na parte alta da cidade.

Chegar lá seria complicado. Em suas aventuras, Tally e Peris sempre se mantinham perto do rio, onde a vegetação e a escuridão de Vila Feia deixavam mais fácil a tarefa de se esconder. Desta vez, Tally estava a caminho da área central da ilha, onde carros enfeitados e festeiros enchiam as ruas iluminadas a noite toda. Novos perfeitos, como Peris, gostavam de viver onde a diversão era mais intensa.

Embora tivesse decorado o mapa, se entrasse numa rua errada, Tally estaria perdida. Sem seu anel de interface, era invisível aos veículos. Seria atropelada como se nem existisse. De certa forma, Tally não existia por lá.

Pior do que isso: ela era feia. Mas tinha esperança de que Peris não visse as coisas daquele jeito. Ou, pelo menos, não a visse daquele jeito.

Tally não tinha ideia do que aconteceria se fosse pega. Não era como ser flagrada sem o anel, matando aula ou convencendo a casa a tocar sua música num volume mais alto do que o permitido. Todo mundo fazia aquele tipo de coisa – e todo mundo acabava se dando mal. Mas ela e Peris tomavam muito cuidado para não serem pegos nas expedições. Atravessar o rio era assunto sério.

Àquela altura, porém, era muito tarde para se preocupar. O que poderiam fazer com ela, afinal? Em três meses também se tornaria uma perfeita.

Tally avançou lentamente, acompanhando o rio, até alcançar um jardim. Penetrou a escuridão se enfiando embaixo de uma fileira de salgueiros-chorões. Sob sua proteção, foi percorrendo um caminho iluminado por pequenas candeias.

Havia um casal de perfeitos passeando pelo mesmo caminho. Tally ficou imóvel, mas os dois estavam distraídos, ocupados demais trocando olhares para notá-la agachada no escuro. Num silêncio absoluto, ela os viu passar e sentiu algo que costumava sentir ao observar um rosto perfeito. Mesmo quando ela e Peris os espiavam das sombras, rindo das idiotices que os perfeitos diziam e faziam, não conseguiam deixar de reparar. Havia algo mágico naqueles olhos grandes e perfeitos, algo que praticamente obrigava as pessoas a prestar atenção ao que diziam, a protegê-los dos perigos, a fazê-los felizes. Eles eram tão… perfeitos.

Depois que os dois sumiram na curva seguinte, Tally sacudiu a cabeça, tentando tirar aquelas imagens piegas da cabeça. Não estava ali para espiar. Era uma infiltrada, uma penetra, uma feia. E tinha uma missão a cumprir. O jardim se estendia pela cidade, serpenteando como um rio negro por entre casas e torres brilhantes que abrigavam festas. Após se esgueirar por mais alguns minutos, ela surpreendeu um casal escondido no meio das árvores (afinal, estavam no Passeio Público). No escuro, porém, eles não conseguiam ver seu rosto. Puderam apenas reclamar enquanto ela murmurava um pedido de desculpas e se afastava.

Tally também não tinha conseguido ver muita coisa; apenas um emaranhado de pernas e braços perfeitos.

Finalmente, a poucos quarteirões de onde Peris morava, o jardim chegou ao fim.
Tally deu uma olhada de trás de uma cortina de trepadeiras. Estava num ponto a que ela e Peris nunca tinham chegado juntos. Também era o ponto final do seu planejamento. Naquelas ruas movimentadas e bem-iluminadas, não havia como se esconder. Ela levou os dedos ao próprio rosto e sentiu o nariz largo, os lábios finos, a testa grande demais e o volume dos cabelos crespos. Bastaria botar um pé fora do mato para ser notada imediatamente. Seu rosto parecia queimar sob a luz. O que estava fazendo ali? Devia ter ficado nas sombras de Vila Feia, à espera da sua vez.

Mas ela precisava se encontrar com Peris, falar com ele. Não sabia exatamente a razão, além de já estar cansada de imaginar milhares de conversas, todas as noites, antes de dormir. Tinham passado todos os dias juntos, desde a infância, e agora… nada. Talvez, se pudessem conversar por alguns minutos, seu cérebro parasse de falar com o Peris imaginário. Três minutos poderiam permitir que suportasse outros três meses.

Tally percorreu a rua com os olhos, à procura de jardins para invadir e entradas escuras que lhe servissem de abrigo. Sentiu-se como uma alpinista diante de um paredão imponente, buscando fendas e apoios para as mãos.

O movimento de carros diminuiu um pouco, e ela decidiu esperar, distraindo-se com a cicatriz em sua mão direita. Um pouco depois, soltou um suspiro e sussurrou: “Amigos para sempre.” E deu um passo em direção à luz.

A explosão de sons que veio do seu lado direito a fez pular de volta para a escuridão, tropeçando por entre as trepadeiras e desabando de joelhos na terra macia, por alguns instantes certa de que havia sido descoberta.

A barulheira, contudo, logo se organizou num ritmo pulsante. Era uma bateria eletrônica que se arrastava pela rua. Do comprimento de uma casa, reluzia com os movimentos de suas dezenas de braços mecânicos, que golpeavam tambores de todos os tamanhos. Atrás, vinha uma multidão crescente de festeiros, dançando no ritmo, bebendo e arremessando as garrafas vazias contra a imensa e impenetrável máquina. Tally sorriu. Os festeiros usavam máscaras.

A máquina lançava máscaras pela parte de trás na tentativa de atrair mais pessoas para a parada improvisada: diabos, palhaços horripilantes, monstros verdes, alienígenas cinzas com grandes olhos ovais. Gatos, cachorros, vacas. Rostos com sorrisos tortos e narizes gigantes.

Com a procissão avançando devagar, Tally se enfiou no mato novamente. Algumas pessoas passavam tão perto que a doçura inebriante das garrafas dominava seu olfato. Um minuto depois, quando a máquina já estava meio quarteirão adiante, Tally saiu do esconderijo e pegou uma máscara abandonada do chão. O plástico, recém-modelado no interior da máquina, ainda tinha uma textura macia.

Antes de pôr a máscara no rosto, Tally percebeu que era da mesma cor rosada de vômito de gato que lembrava o pôr do sol. Havia um longo focinho e duas orelhinhas rosas. Podia sentir a gosma aderindo à sua pele e se ajustando ao seu rosto.

Tally abriu caminho por entre os festeiros bêbados para sair do outro lado da procissão, e pegou uma rua transversal que levava à Mansão Garbo. Usava uma máscara de porco.

Pós???

Deixa eu ver se entendi direitinho.

O caderno novo,  todo bacaninha, vanguardeiro, descolado, mas com um abre chamando de pós-rebolation a dancinha (mistura de funk e frevo) que já está rolando, pelo menos, desde de 2007-2008?

A reforma gráfica pode até ter dado uma cara meio ‘Estadão’ pro boneco, mas o jornal ainda é carioca, não? Implicâncias à parte, as mudanças vão arejar as páginas. Vida longa!

Só pra constar, o vídeo abaixo foi postado no YouTube em 07 de setembro de 2008.

Vá, agora! Ainda dá tempo

Pedro Alexandre Sanches, já falei dele aqui, trabalhou por dez anos na Folha de S.Paulo, como repórter e crítico musical. Depois se transferiu e produziu por um período para a revista Carta Capital.

Em 2000, Sanches publicou o livro Tropicalismo: decadência bonita do samba, com análises das obras de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Jorge Ben, Chico Buarque e Paulinho da Viola. É um livro ‘fundamental’ para quem se interessa pela história da música popular brasileira. E ‘fundamental’ não é uma expressão qualquer.

Na época do lançamento, me chegou por e-mail um arquivo digital com o pdf do livro. Levei cerca de mês e meio para lê-lo. Acontece que nunca o comprei, mesmo sabendo de sua importância e que, logo logo, precisaria relê-lo. Como castigo para o ‘pirata’, o arquivo se perdeu em um computador antigo. Acontece, ainda, que a publicação (lançada pela Ed. Boitempo) esgotou-se. De alguma forma, essa experiência foi como ver aquele show imperdível, daquele músico imperdível, no DVD. Arrependimento não mata… Mas, enfim.

Em em 2004 Pedro Alexandre Sanches lançou Como dois e dois são cinco – Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa). Este, de acordo com o site da Ed. Boitempo, “é uma análise social e ao mesmo tempo emotiva da obra e trajetória de Roberto Carlos e dos dois outros grandes ícones (o ‘Tremendão’ e a ‘Ternurinha’) da Jovem Guarda. Um diálogo entre a música e a política, as mudanças no comportamento e no cenário musical das várias épocas que atravessaram”.

Com estímulos de todos os lados, tantas solicitações, acaba-se dando prioridade a coisas erradas. Vacilei de novo. E sabe-se lá porque, nenhum pdf pingou na caixa de entrada dessa vez. Acontece.

Mas por que tudo isso?, deve se perguntar o assoberbado leitor, já angustiado com o ‘nariz de cera’ do blogueiro. A questão é que há cerca de um mês troquei alguns e-mails com Sanches para a elaboração dos posts sobre José Ramos Tinhorão.

O crítico
– A escrivinhadora
– Aquele outro

E aí, passadas algumas semanas, eis que recebo outro e-mail de Pedro, dessa vez com os links de sua versão sobre o crítico/pesquisador/historiador para o portal IG.

Um crítico linha dura chamado Tinhorão
O historiador explica
Petardos do crítico irascível

Lendo a ‘conversa’ de Sanches e Tinhorão (não, entrevista é outra coisa), o leitor poderá ter uma vaga noção do que encontrará nos livros que ainda não adquiriu para suas prateleiras. Ouça um bom conselho, eu lhe dou de graça: não cometa o mesmo erro deste escriba. Voe para sua livraria virtual mais próxima e procure Como dois e dois são cinco – Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa).

Depois, deixe a tecnologia de lado e vá às ruas, vá aos sebos, e faça o favor de encontrar Tropicalismo: decadência bonita do samba. Pra ontem.

Boa sorte e boa leitura.

Conflitos

José Mariano Beltrame, secretário de Segurança do Estado do Rio, concedeu uma entrevista a Fábio Varsano e Vania Cunha do jornal O Dia, publicada na edição impressa deste domingo. Na conversa, Beltrame analisa as recentes ações da política de pacificação de favelas, com destaque para a Zona Norte do Rio.

Delegado da Polícia Federal, que está no cargo de secretário há quase 1200 dias (uma proeza para a função), Beltrame é experiente e trabalha com relativa frieza diante dos problemas que enfrenta. Até na hora das respostas. Em relação ao futuro recente, ele quase minimiza os problemas que irá enfrentar com a prometida ‘tomada’ dos complexos do Alemão e da Penha, que no início do Governo Sérgio Cabral foram palco de um dos mais longos e sangrentos conflitos urbanos das últimas décadas.

Da mesma maneira, meio que banaliza a guerra travada entre integrantes da cúpula do jogo do bicho no Rio de Janeiro, que matou dezenas de pessoas – duas delas em seu episódio mais recente – um atentado à bomba na mais movimentada avenida da Barra da Tijuca.

Até por todas essas questões, a entrevista é esclarecedora sobre o (indecifrável) modo de pensar e agir do secretário. Seguem abaixo os melhores trechos. O link para a entrevista completa no Dia Online está aqui.

* * *

A secretaria sabe que os criminosos se refugiam em outras favelas. É uma estratégia isolá-los para facilitar as prisões?

O Comando Vermelho realmente foge para o Complexo do Alemão. Mas quem se refugia lá são um ou dois, e olha lá! Na verdade, são pessoas se metendo no ‘negócio’ de outras. Quantos migraram? Quinze, 20 ou cinco? A Inteligência captou que as lideranças foram para lá. Eles não têm condição de dar guarida para muitos bandidos, não têm cacife para isso. Sei que lá tem arma, tem criminosos de grande porte, mas falar em refúgio, não é assim. E pelo nosso planejamento, feliz ou infelizmente, a gente vai se encontrar. Mas vai ser a última vez.

Falando em Alemão, quando a UPP vai chegar ao complexo?

Levamos em conta o peso social de entrar lá. Não vou buscar três ou quatro criminosos e correr o risco de uma pessoa ser alvo de bala perdida. Mas se tiver a informação para entrar com a UPP e que faça virar a última operação, vamos. O pessoal do Bope comemora: ‘É a última vez que vou entrar no Pavãozinho. Chegava na esquina e tomava tiro. É menos uma na minha lista’. Vou fazer isso no Alemão, Rocinha, Jacarezinho, para implantar um sistema que recupera o que acho de mais caro para o ser humano, que é a liberdade. Quando fomos lá, detectamos um barraco com 15 mil cartuchos de 7.62. Diante de uma potencialidade bélica dessas, tinha que ir. Vai ser uma operação complexa, mas vou tirar das mãos dessas pessoas um equipamento desgraçado.

* * *

Depois do atentado ao contraventor Rogério Andrade, quais as medidas da secretaria para evitar um banho de sangue?

Em primeiro lugar, é bom que a sociedade saiba que esse desentendimento entre essas duas ou três pessoas que dizem dominar a contravenção no Rio é uma briga de família. Pessoas que estiveram longe do estado e que tentaram desmoralizá-lo por mais de 20 anos. Isso é um problema de família, o que não quer dizer que nós não tenhamos que entrar, intervir.

Mas, secretário, houve um atentado.

É verdade, mas aquilo ali são coisas muito pessoais. É lógico que a sociedade viu e, obviamente, aquela cena choca, mas aquilo não é um atentado dirigido a dezenas de pessoas. Em relação à investigação, não posso dizer o andamento, mas não vamos deixar isso passar.

* * *

Este é um ano eleitoral. Pelas informações da Inteligência, é possível saber se milicianos já estão se articulando, apesar das prisões realizadas?

A polícia nunca havia prendido deputado, vereador, prefeito, e nós fizemos isso. Agora, nós, policiais, temos que buscar a prova. Desde que entramos, nunca mais abandonamos a Zona Oeste. Volta e meia tem um, dois presos. E qualquer indício será remetido ao Tribunal Regional Eleitoral, temos uma parceria firmada.

Qual a principal conquista desses quase quatro anos de sua gestão? E o maior desafio que ainda não conseguiu superar?

O principal desafio não alcançado vamos deixar para o fim do ano (risos). A maior conquista foi o povo do Rio ter comandantes de batalhão, delegados, chefe de polícia, comandante-geral escolhidos por critérios técnicos e não por indicação política. Como vou fazer UPP na Cidade de Deus se o comandante não fui eu quem coloquei, o delegado não fui eu quem indiquei? Tudo o que estamos começando a colher hoje é fruto desta autonomia que o governador nos deu lá atrás.