Metalinguagem

Muito bacana a matéria da Revista do Globo, deste domingo (20), sobre o Music Sweet Home. Com uma ideia simples, o site se propõe a unir pessoas + imagem + som. O objetivo é que cada usuário envie uma foto de um espaço que considera importante em sua casa e o vincule com uma música. Tão banal quanto especial. É como uma invasão a domicílio autorizada, com belas imagens e canções surpreendentes. Já enviei as minhas.

Para não concorrer com o site e correr o risco de não ver minha foto publicada, envio aqui um outra imagem da mesma série. E uma outra canção que, de certa forma, dá sentido ao título deste post.

*Ps. Quem quiser mandar sua imagem e música, o endereço é: msh@gomus.com.br

Almas de pé

Offline durante toda a sexta-feira (18), fiquei sabendo da morte de José Saramago apenas ao acessar o e-mail, quando já era noite alta ou quase. Curiosamente não fui abatido pela tristeza, mas lamentei a falta de oportunidade de vê-lo novamente divagar sobre as coisas do mundo.

Tive o prazer de ouvi-lo em, ao menos, duas ocasiões inesquecíveis. A primeira, em 1999, na conferência de abertura da Bienal do Livro do Rio; a segunda, no ano seguinte, em uma palestra no Museu Histórico Nacional, durante o lançamento de seu romance ‘A Caverna’.

Dez anos depois, em julho de 2009, fui à Paraty apenas para assistir as palestras do jornalista norte-americano Gay Talese e do escritor português Antônio Lobo Antunes, desafeto histórico de Saramago. Durante a conversa de Antunes com Humberto Werneck, pensava o quão próximos (embora quisessem acreditar-se distantes) eram os dois portugueses.

As palestras de Saramago (habitué no Brasil) e a de Antunes (há mais de 20 anos sem pisar aqui) martelaram por dias, meses na cabeça e, em alguns momentos, ainda insistem em piscar como flashes fora de hora.

Leia também:

Saudade não tem remédio (texto do editor Luiz Schwarcz)
Saramago mar adentro (sobre a adaptação de ‘Jangada de pedra’)
Sutilezas terrivelmente escuras (sobre a adaptação de ‘Ensaio sobre a cegueira’)

Foi com Saramago que redescobri, em determinado momento (mais precisamente com ‘A Caverna’), que a literatura pode, sim, salvar vidas. Furando como anzóis e esticando para cima o couro dos corpos cansados, desprendendo-os da carne, dos ossos, e enfim colocando almas de pé.

Devo a Saramago e àquele livro emprestado a salvação de, pelo menos, uma vida. Ele se foi sem que pudesse saber disso. Mas eu sei, eu vi. E a alma segue aí, de pé, circulando fagueira. Graças à literatura, graças à vida. Isso é o que importa.

José Saramago - Foto: Kiko Coelho

‘Não sou mau com as mulheres’

“É uma louca, uma devassa. Já veio aqui, ficou gritando aqui embaixo o meu nome. Imagina, nessa rua super silensiosa! É maluca, mas é um espetáculo, um mulherão, cachorra demais. Até escrevi uma coisa sobre isso. Peraí, que eu vou te mostrar. Tu vai curtir”.

Ele foi lá e pegou um calhamaço de folhas impressas e com alguns rabiscos. E disse: “Lê aí as primeiras páginas”. Começava mais ou menos assim:

Não sou mau com as mulheres.
Beijo, lambo, mordo, xingo, aperto, meto, puxo os cabelos e dou muito tapa.
Gosto de bater.
Bato na bunda.
Bato com o pau.
Gosto de amarrá-las na cama.
Mas se sou desse jeito, é porque elas me querem assim.
E as mulheres que não querem, não me interessam.
São as mulheres certinhas, comportadas, recatadas.
Mulheres fiéis que casaram virgens e têm medo do orgasmo.
Fiéis aos maridos e infiéis a si próprias.
Aliás, muitas nunca gozaram mesmo.
Fingem que gozam, como as putas fazem, para não criar problemas.
Perfeitas infelizes.
São indiferentes ao pênis, ou quase isso.

A verdade é que não lembro se o trecho era o mesmo reproduzido acima, mas algum tempo depois descobri que as folhas lidas no apartamento da pacata rua do Jardim Botânico integravam o primeiro romance de Zeca Fonseca, O Adorador. (Zeca já foi personagem do post 9 milímetros)

Honra das grandes essa, de ter sido um leitor privilegiado; ter nas mãos o texto ainda em fase de preparo. Não me lembro se agradeci a ele quando rabiscou meu nome, junto à dedicatória, no dia do lançamento, em junho de 2007.

Três anos depois, O Adorador ganha sua versão virtual, com o lançamento marcado para esta quarta-feira, 16 de junho, na livraria Blooks (no Unibanco Artplex), na Praia de Botafogo. A brincadeira é uma pechincha: só R$ 7,90.

Va lá!