Para ouvir rezando

A excelência técnica na construção de harmonias envolventes, casada com o jogo de cintura de um canto que tem o domínio de brincar com as palavras com graça e suingue. Esse é o resultado do amálgama de Roberta Sá, com o Trio Madeira Brasil e Roque Ferreira.

Quando o canto é reza, disco em que o cancioneiro de Roque é interpretado pelos outros quatro, foi prometido, comentado, aguardado quase que além da conta, antes de seu lançamento nesse início de agosto. Um processo que, não raro, é gerador de frustrações e decepções incontornáveis.

O resultado da alquimia musical da cantora e do trio de instrumentistas, no entanto, confirma a qualidade esperada e eleva o trabalho do baiano do Recôncavo a níveis de primazia. Tudo é soma num projeto com 13 canções (oito inéditas), escolhidas a dedo num trabalho idealizado há três anos.

Se trabalharmos com imagens, a que chega é de Clara Nunes mexendo assim as mãos e o corpo no terreiro de Vovó Maria Joana, no Morro da Serrinha, em Madureira. Esse álbum poderia ter sido feito por Clara (e isso é um elogio). Ou melhor: talvez ele não pudesse existir sem passar por ela. É a impressão imediata ao ouvir Roberta Sá revirando ‘Mandingo’, faixa de abertura do CD e parceria de Roque Ferreira com Pedro Luís, produtor do disco.

A canção faz a junção da Fuga Bachiana com o Barravento, toque de angola para evocar orixás no candomblé, na linha do Trio Madeira Brasil de unir erudito e popular em seus trabalhos.

Mas o segredo é não se agarrar em referências outras, muito embora elas insistam em jorrar aos borbotões pelos alto falantes. E vão chegando ‘Viola, meu bem’, de dona Edite do Prato, ‘Zera Reza’ e ‘13 de maio’ de Caetano Veloso; ‘Santo Antônio’, com Maria Bethânia; ‘Oló’, de Nei Lopes; e ‘Milagre’, de Dorival Caymmi.

O disco é um passeio charmoso pelos ritmos do Recôncavo e de outras regiões do país, passando pelo clássico samba de roda, pelo coco, ciranda e ijexá. Com fortes concorrentes, a faixa ‘Menino’ leva ligeira vantagem diante das demais para candidata a melhor música do álbum.

“Eu acho que se o rock’n roll tivesse nascido na Bahia, teria esse ritmo. Porque é muito contagiante. É interessante porque nem o rock define muito ele. Ele é próximo do afoxé, mas não é exatamente afoxé; tem um toque ifá, que é um toque cubano, que o Zero (um dos percussionistas do disco) é estudioso. Mas ninguém consegue definir muito esse ritmo”, confunde para explicar o violonista Marcelo Gonçalves, diretor musical do álbum, em entrevista de divulgação.

Em janeiro de 2010, Roberta e o trio fizeram quatro apresentações na casa de shows Centro Cultural Carioca, na Praça Tiradentes, no Rio, para testar o repertório de Quando o canto reza. Os ensaios abertos foram uma decisão acertada, considerando que o trabalho no estúdio foi concluído sem arestas a aparar.

‘A mão do amor’ e ‘Festejo’ (com citação de ‘Samba pras moças’), as duas últimas faixas do CD, fecham os trabalhos resumindo a tal excelência da primeira frase do texto. Ali, é possível identificar com mais precisão o prazer de fazer música. A festa, o culto ecumênico em homenagem a Roque, termina com os músicos mostrando, de fato, “como é bom poder tocar um instrumento”. E o canto também é um deles.

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A memória das coisas

Revirando os livros, procurando algo interessante para um ‘trabalho’ que vão fazer aqui em casa, encontrei um papel dobrado dentro de um deles que dizia mais ou menos assim:

Irmão, estou com muita saudade dos nossos voos pela cidade. Como que você está, rapaz? O que anda fazendo da vida? Quem me ligou ontem (por engano) foi a Jô. Sempre que falo com essa turma, bate uma nostalgia bacana.
(…)
Incentivado por tudo isso, resolvi apelar e deixar minha ‘Bíblia torta’ aí na tua portaria. Lembrei daquela matéria que nós fomos fazer lá em Nova Iguaçu, em que o cara pedia o autógrafo para o pastor da Igreja Universal na Bíblia. Está lembrado. Puro nonsense.

Lembro que dias depois do despacho da encomenda, recebi uma ligação dizendo que o pacote já havia retornado. O resultado está abaixo.

Sem palavras, sem palavras.

Eu trabalhava em um jornal popular…

Corações solitários
Rubem Fonseca

Eu trabalhava em um jornal popular como repórter de polícia. Há muito tempo não acontecia na cidade um crime interessante envolvendo uma rica e linda jovem da sociedade, mortes, desaparecimentos, corrupção, mentiras, sexo, ambição, dinheiro, violência, escândalo.

Crime assim nem em Roma, Paris, Nova York, dizia o editor do jornal, estamos numa fase ruim. Mas daqui a pouco isso vira. A coisa é cíclica, quando a gente menos espera estoura um daqueles escândalos que dá matéria para um ano. Está tudo podre, no ponto, é só esperar. Antes de estourar me mandaram embora.

– Só tem pequeno comerciante matando sócio, pequeno bandido matando pequeno comerciante, polícia matando pequeno bandido. Coisas pequenas, eu disse a Oswaldo Peçanha, editor-chefe e proprietário do jornal Mulher.
– Tem também meningite, esquistossomose, doença de Chagas, disse Peçanha.
– Mas fora da minha área, eu disse.
– Você já leu Mulher?, Peçanha perguntou.

Admiti que não. Gosto mais de ler livros. Peçanha tirou uma caixa de charutos de dentro da gaveta e ofereceu um. Acendemos os charutos. Em pouco tempo o ambiente ficou irrespirável. Os charutos eram ordinários, estávamos no verão, de janelas fechadas e o aparelho de ar condicionado não funcionava bem.

– Mulher não é uma dessas publicações coloridas para burguesas que fazem regime. É feita para a mulher da Classe C, que come arroz com feijão e se ficar gorda azar o dela. Dá uma olhada.

Peçanha jogou na minha frente um exemplar do jornal. Formato de tablóide, manchetes em azul, algumas fotos fora de foco. Fotonovela, horóscopo, entrevistas com artistas da televisão, corte-e-costura.

– Você acha que poderia fazer a seção De Mulher para Mulher, o nosso consultório sentimental? O cara que fazia se despediu.

De Mulher para Mulher era assinado por uma tal Elisa Gabriela. Querida Elisa Gabriela, meu marido chega toda noite embriagado e…

– Acho que posso, eu disse.
– Ótimo. Começa hoje. Que nome você quer usar?

Pensei um pouco.

– Nathanael Lessa.
– Nathanael Lessa?, disse Peçanha surpreendido e chocado, como se eu tivesse dito um nome feio, ou ofendido a mãe dele.
– O que é que tem? É um nome como outro qualquer. E estou prestando duas homenagens. Peçanha deu baforadas no charuto, irritado.
– Primeiro, não é um nome como outro qualquer. Segundo, não é nome da Classe C. Aqui só usamos nomes do agrado da Classe C, nomes bonitos. Terceiro, o jornal só homenageia quem eu quero e eu não conheço nenhum Nathanael Lessa e finalmente – a irritação de Peçanha aumentara gradativamente, como se ele estivesse tirando um certo proveito dela – aqui, ninguém, nem mesmo eu, usa pseudônimo masculino. Meu nome é Maria de Lourdes!

Dei outra olhada no jornal, inclusive no expediente. Só tinha nome de mulher.

– Você não acha que um nome masculino dá mais credibilidade às respostas? Pai, marido, médico, sacerdote, patrão – só tem homem dizendo o que elas devem fazer. Nathanael Lessa pega melhor do que Elisa Gabriela.
– É isso mesmo que eu não quero. Aqui elas se sentem donas do seu nariz, confiam na gente, como se fôssemos todas comadres. Estou há vinte e cinco anos nesse negócio. Não me venha com teorias não comprovadas. Mulher está revolucionando a imprensa brasileira, é um jornal diferente que não dá notícias velhas da televisão de ontem.

Ele estava tão irritado que não perguntei ao que Mulher se propunha. Cedo ou tarde ele me diria. Eu apenas queria o emprego.

Meu primo, Machado Figueiredo, que também tem vinte e cinco anos de experiência, no Banco do Brasil, costuma dizer que está sempre aberto a teorias não comprovadas. Eu sabia que Mulher devia dinheiro ao banco. E em cima da mesa de Peçanha estava uma carta de recomendação de meu primo.

Ao ouvir o nome de meu primo, Peçanha empalideceu. Deu uma mordida no charuto para se controlar, depois fechou a boca, parecendo que ia assobiar, e os seus lábios gordos tremeram como se ele tivesse um grão de pimenta na língua. Em seguida arreganhou a boca e bateu com a unha do polegar nos dentes sujos de nicotina, enquanto me olhava de maneira que ele devia considerar cheia de significações.

– Eu podia acrescentar dr. ao meu nome. Dr. Nathanael Lessa.
– Raios! Está bem, está bem, rosnou Peçanha entre dentes, você começa hoje.

Foi assim que passei a fazer parte da equipe de Mulher. Minha mesa ficava perto da mesa de Sandra Marina, que assinava o horóscopo. Sandra era também conhecida como Marlene Kátia, ao fazer entrevistas. Era um rapaz pálido, de longos e ralos bigodes, também conhecido como João Albergaria Duval. Saíra há pouco tempo da escola de comunicação e vivia se lamentando, por que não estudei odontologia, por quê?

Perguntei a ele se alguém trazia as cartas dos leitores na minha mesa. Ele me disse para falar com Jacqueline, na expedição. Jacqueline era um crioulo grande de dentes muito brancos.

– Pega mal eu ser o único aqui dentro que não tem nome de mulher, vão pensar que eu sou bicha. As cartas? Não tem carta nenhuma. Você acha que mulher da Classe C escreve cartas? A Elisa inventava todas.

Prezado dr. Nathanael Lessa. Eu arranjei uma bolsa de estudos para minha filha de dez anos, numa escola grã-fina da zona sul. Todas as coleguinhas dela vão ao cabeleireiro, pelo menos uma vez por semana. Nós não temos dinheiro para isso, meu marido é motorista de ônibus da linha Jacaré-Caju, mas disse que vai trabalhar extraordinário para mandar Tânia Sandra, a nossa filhinha, ao cabeleireiro. O sr. não acha que os filhos merecem todos os sacrifícios? Mãe Dedicada. Vila Kennedy.

Resposta: Lave a cabeça da sua filhinha com sabão de coco e coloque papelotes nela. Fica igual ao cabeleireiro. De qualquer maneira, sua filha não nasceu para ser bonequinha. Aliás, nem a filha de ninguém. Pega o dinheiro do extraordinário e compra outra coisa mais útil. Comida, por exemplo.

Prezado dr. Nathanael Lessa. Sou baixinha, gordinha e tímida. Sempre que vou na feira, no armazém, na quitanda, eles me passam para trás. Me enganam no peso, no troco, o feijão está bichado, o fubá bolorento, coisas assim. Eu costumava sofrer muito mas agora estou resignada. Deus está de olho neles e no juízo final eles vão pagar. Doméstica Resignada. Penha.

Resposta: Deus não está de olho em ninguém. Quem tem que se defender é você mesma. Sugiro que você grite, ponha a boca no mundo, faça escândalo. Você não tem nenhum parente na polícia? Bandido também serve. Te vira, gordinha.

Prezado dr. Nathanael Lessa. Tenho vinte e cinco anos, sou datilógrafa e virgem. Encontrei esse rapaz que disse que me ama muito. Ele trabalha no Ministério dos Transportes e disse que quer casar comigo, mas que primeiro quer experimentar. O que achas? Virgem Louca, Parada de Lucas.

Resposta: Olha aqui, Virgem Louca, pergunta pro cara o que ele vai fazer se não gostar da experiência. Se ele disser que te chuta, dá pra ele, pois é um homem sincero. Tu não és groselha nem ensopadinho de jiló para ser provada, mas homens sinceros existem poucos, vale a pena tentar. Fé e pé na tábua.

Fui almoçar. Na volta Peçanha mandou me chamar. Estava com a minha matéria na mão.

– Tem qualquer coisa aqui que eu não gosto, ele disse.
– O quê?, perguntei.
– Ah! Meus Deus! a idéia que as pessoas fazem da Classe C, exclamou Peçanha, balançando a cabeça pensativamente, enquanto olhava para o teto e fazia a boca de assobio. Quem gosta de ser tratada a palavrões e pontapés são as mulheres da Classe A. Lembre-se daquele lorde inglês que disse que o seu sucesso com as mulheres era porque ele tratava as ladies como putas e as putas como ladies.
– Está bem. Então como devo tratar as nossas leitoras?
– Não me venha com dialéticas. Não quero que as trate como putas. Esquece o lorde inglês. Ponha alegria, esperança, tranqüilidade e segurança nas cartas, é isso que eu quero.

Dr. Nathanael Lessa. Meu marido morreu e me deixou uma pensão muito pequena, mas o que me preocupa é estar só, aos cinqüenta e cinco anos de idade. Pobre, feia, velha e morando longe, tenho medo do que me espera. Solitária de Santa Cruz.

Resposta: Grave isto em seu coração, Solitária de Santa Cruz: nem dinheiro, nem beleza, nem mocidade, nem um bom endereço dão felicidade. Quantos jovens ricos e belos se matam ou se perdem nos horrores do vício? A felicidade está dentro de nós, em nossos corações. Se formos justos e bons, encontraremos a felicidade. Seja boa, seja justa, ame o próximo como a si mesma, sorria para o tesoureiro do INPS, quando for receber a sua pensão.

No dia seguinte Peçanha me chamou e perguntou se eu podia também escrever a fotonovela. Nós produzimos as nossas próprias fotonovelas, não é fumeti italiano traduzido. Escolha um nome.

Escolhi Clarice Simone, eram outras duas homenagens, mas não disse isso ao Peçanha. O fotógrafo das novelas veio falar comigo.

– Meu nome é Mônica Tutsi ele disse, mas pode me chamar de Agnaldo. Estás com a papa pronta?

Papa era a novela. Expliquei para ele que acabara de receber a incumbência de Peçanha e que precisava pelo menos dois dias para escrever.

– Dias? ha, ha, gargalhou ele fazendo o som de um cachorro grande, rouco e domesticado, latindo pro dono.
– Qual é a graça?, perguntei.
– Norma Virgínia escrevia a novela em quinze minutos. Ele tinha uma fórmula.
– Eu também tenho uma fórmula. Dá uma volta e aparece daqui a quinze minutos que você terá: sua novela pronta.

Esse fotógrafo idiota pensava de mim o quê? Só porque eu tinha sido repórter de polícia isso não significava que eu era um bestalhão. Se Norma Virgínia, ou lá qual fosse o nome dele, escrevia uma novela em quinze minutos, eu também escreveria. Afinal li todos os trágicos gregos, os ibsens, os o’neals, e beckets, os checovs, os shakepeares, as four hundred best television plays. Era só chupar uma idéia aqui, outra ali, e pronto.

Um menino rico é roubado pelos ciganos e dado por morto. O menino cresce pensando que é um cigano verdadeiro. Um dia ele encontra uma moça riquíssima e os dois se apaixonam. Ela mora numa rica mansão e tem muitos automóveis. O ciganinho mora numa carroça. As duas famílias não querem que eles se casem. Surgem conflitos. Os milionários mandam a polícia prender os ciganos. Um dos ciganos é morto pela polícia. Um primo rico da moça é assassinado pelos ciganos. Mas o amor dos dois jovens apaixonados é maior do que todas essas vicissitudes. Eles resolvem fugir, romper com suas famílias. Na fuga encontram um monge piedoso e sábio que sacramenta a união dos dois em um antigo, pitoresco e romântico convento no melo de um bosque florido. Os dois jovens se retiram para a câmara nupcial. Eles são lindos, esbeltos, louros de olhos azuis. Tiram a roupa. Oh, diz a moça, que cordão de ouro com medalha cravejada de brilhantes é esse que tens no peito? Ela tem uma medalha igual! Eles são irmãos! Tu és o meu irmão desaparecido! grita a moça. Os dois se abraçam.

(Atenção, Mônica Tutsi: que tal um final ambíguo? fazendo aparecer na cara dos dois um êxtase não-fraternal, hein? Posso também mudar o final e torná-lo mais sofocleano: os dois só descobrem que são irmãos depois do fato consumado; desesperada a moça pula da janela do convento se arrebentando lá em baixo.)

– Gostei da tua história, disse Mônica Tutsi.
– Uma pitada de Romeu e Julieta, uma colherzinha de Édipo Rei, eu disse modestamente.
– Mas não dá para eu fotografar, garoto. Tenho que fazer tudo em duas horas. Onde vou arranjar a mansão rica? Os automóveis? O convento pitoresco? O bosque florido?
– Esse problema é seu.
– Onde vou arranjar, continuou Mônica Tutsi, como se não tivesse me ouvido, os dois jovens louros esbeltos de olhos azuis? Nossos artistas são todos meio para o mulato. Onde vou arranjar a carroça? Faz outra, garoto. Volto daqui a quinze minutos. E o que é sofocleano?

Roberto e Betty estão noivos e vão se casar. Roberto, que é muito trabalhador, economizou dinheiro para comprar um apartamento e mobiliá-lo, com televisão a cores, aparelho de som, geladeira, máquina de lavar roupa, enceradeira, liquidificador, batedeira, máquina de lavar pratos, torradeira, ferro elétrico e secador de cabelos. Betty também trabalha.

Ambos são castos. O casamento é marcado. Um amigo de Roberto, Tiago, pergunta a ele, vais casar virgem? Precisas ser iniciado nos mistérios do sexo. Tiago, então, leva Roberto na casa da Superputa Betatron. (Atenção, Mônica Tutsi, o nome é uma pitada de ficção científica). Quando Roberto chega lá verifica que a Superputa é Betty, sua noivinha. Oh! céus! surpresa terrível! Alguém dirá, talvez um porteiro, crescer é sofrer! Fim da novela.

– Uma palavra vale mil fotografias, disse Mônica Tutsi, estou sempre na banda podre. Daqui a pouco eu volto.

Dr. Nathanael. Gosto de cozinhar. Gosto muito também de bordar e fazer crochê. E acima de tudo gosto de colocar um vestido longo de baile, pintar os meus lábios de batom carmesim, botar bastante ruge, passar rímel nos olhos. Ah, que sensação! É pena que eu tenha que ficar trancado no meu quarto. Ninguém sabe que eu gosto de fazer essas coisas. Estou errado? Pedro Redgrave. Tijuca.

Resposta: Errado por quê? Você está fazendo mal a alguém com isso? Já tive outro consulente que, como você, também gostava de se vestir de mulher. Ele levava uma vida normal, produtiva e útil à sociedade, tanto que chegou a ser operário padrão. Vista seus vestidos longos, pinte sua boca de escarlate, ponha cor na sua vida.

– Todas as cartas devem ser de mulheres, advertiu Peçanha.
– Mas essa é verdadeira, eu disse.
– Não acredito.
– Entreguei a carta a Peçanha. Ele a olhou fazendo a cara de um tira examinando uma nota grosseiramente falsificada.
– Você acha que é uma brincadeira?, perguntou Peçanha.
– Pode ser, eu disse. E pode não ser.

Peçanha fez a sua cara reflexiva. Depois:

– Acrescente na sua carta uma frase animadora, como, por exemplo, escreva sempre. Sentei na máquina:

Escreva sempre, Pedro, sei que esse não é o seu nome, mas não importa, escreva sempre, conte comigo. Nathanael Lessa.
Porra, disse Mônica Tutsi, fui fazer o teu dramalhão e me disseram que é chupado de um filme italiano.

Canalhas, súcia de babões, só porque fui repórter de polícia estão me chamando de plagiário.

– Calma, Virgínia.
– Virgínia? Meu nome é Clarice Simone, eu disse. Que coisa mais idiota é essa de pensar que só as noivas dos italianos são putas? Pois olha, eu já conheci uma noiva daquelas sérias mesmo, era até freira de caridade, e foram ver, também era puta.
– Tá bem, garoto, vou fotografar a história. A Betatron pode ser mulata? O que é Betatron?
– Tem que ser ruiva, sardenta. Betatron é um aparelho para a produção de elétrons, dotado de grande potencial energético e alta velocidade, impulsionado pela ação de um campo magnético que varia rapidamente, eu disse.
– Porra! Isso é que é nome de puta, disse Mônica Tutsi, com admiração, retirando-se.

Compreensivo Nathanael Lessa. Tenho usado gloriosamente os meus vestidos longos. E minha boca tem sido vermelha como o sangue de um tigre e o romper da aurora. Estou pensando em colocar um vestido de cetim e ir ao Teatro Municipal. O que achas? E agora vou lhe contar uma grande e maravilhosa confidência, mas quero que faças o maior segredo de minha confissão. Juras? Ah, não sei se digo ou se não digo. Toda a minha vida tenho sofrido as maiores desilusões por acreditar nos outros. Sou basicamente uma pessoa que não perdeu a sua inocência. A perfídia, a boçalidade, o despudor, a calhordice me deixam muito chocada. Oh, como gostaria de viver isolada num mundo utópico feito de amor e bondade. Meu sensível Nathanael, deixe-me pensar. Dê-me tempo. Na próxima carta contarei mais, talvez tudo. Pedro Redgrave.

Resposta: Pedro. Aguardo tua carta, com os teus segredos, que prometo guardar nos arcanos invioláveis da minha recôndita consciência. Continue assim, enfrentando altaneira a inveja e a insidiosa aleivosia dos pobres de espírito. Adorne o seu corpo sequioso de sensualidade, exercendo os desafios de sua mente corajosa.

Peçanha perguntou:

– Estas cartas são verdadeiras também?
– As de Pedro Redgrave são.
– Estranho, muito estranho, disse Peçanha batendo com as unhas nos dentes, o que é que você acha?
– Não acho nada, eu disse.
– Ele parecia preocupado com alguma coisa. Fez perguntas sobre a fotonovela, sem porém se interessar pelas respostas.
– Que tal a carta da ceguinha?, perguntei.

Peçanha pegou a carta da ceguinha e a minha resposta e leu em voz alta: Querido Nathanael. Eu não posso ler o que você escreve. Minha avozinha adorada lê para mim. Mas não pense que eu sou analfabeta. Eu sou é ceguinha. Minha querida avozinha está escrevendo a carta para mim, mas as palavras são minhas. Quero enviar uma palavra de conforto aos seus leitores, para que eles, que sofrem tanto com pequenas desgraças, se mirem no meu espelho. Sou cega mas sou feliz, estou em paz, com Deus e com os meus semelhantes. Felicidades para todos. Viva o Brasil e o seu Povo. Ceguinha Feliz, Estrada do Unicórnio, Nova Iguaçu. P.S. Esqueci de dizer que também sou paralítica.

Peçanha acendeu um charuto. Comovente, mas Estrada do Unicórnio soa falso. Acho melhor você colocar Estrada do Catavento, ou coisa assim. Vejamos agora sua resposta: Ceguinha Feliz, parabéns por sua força moral, por sua fé inquebrantável na felicidade, no bem, no povo e no Brasil. As almas daqueles que se desesperam na adversidade deviam se nutrir do seu edificante exemplo, um facho de luz nas noites de tormenta.

Peçanha me devolveu os papéis. Você tem futuro na literatura. Isto aqui é uma grande escola. Aprenda, aprenda, seja dedicado, não esmoreça, sue a camisa. Sentei na máquina:

Tésio, bancário, morador na Boca do Mato, em Lins de Vasconcelos, casado em segundas núpcias com Frederica, tem um filho, Hipólito, do primeiro matrimônio. Frederica se apaixona por Hipólito. Tésio descobre o amor pecaminoso entre os dois. Frederica se enforca no pé de manga do quintal da casa. Hipólito pede perdão ao pai, foge de casa e vagueia desesperado pelas ruas da cidade cruel até ser atropelado e morto na Avenida Brasil.

– Qual o tempero aqui? perguntou Mônica Tutsi.
– Eurípides, pecado e morte. Vou contar uma coisa: eu conheço a alma humana e não preciso de nenhum grego velho para me inspirar. Para um homem da minha inteligência e sensibilidade basta olhar em volta. Olhe bem para os meus olhos. Você já viu pessoa mais alerta, mais acordada?

Mônica Tutsi olhou bem para os meus olhos e disse:

– Acho que você está é maluco.

Continuei:

– Cito os clássicos apenas para mostrar o meu conhecimento. Como fui repórter de polícia, se não fizer isso os cretinos não me respeitam. Li milhares de livros. Quantos livros você acha que Peçanha já leu?
– Nenhum. A Frederica pode ser preta?
– Boa idéia. Mas o Tésio e o Hipólito têm que ser brancos.

Nathanael. Eu amo, um amor proibido, um amor interdito, um amor secreto, um amor escondido. Eu amo outro homem. E ele também me ama. Mas não podemos andar na rua de mãos dadas, como os outros, trocar beijos nos jardins e nos cinemas, como os outros, deitar abraçados nas areias das praias, como os outros, dançar nas boates, como os outros. Não podemos nos casar, como os outros, e juntos enfrentar a velhice, a doença e a morte, como os outros. Não tenho força para resistir e lutar. É melhor morrer. Adeus. Esta é a minha última carta. Mande rezar a missa para mim. Pedro Redgrave.

Resposta: Que é isso Pedro? Vai desistir agora, que encontrou o seu amor? Oscar Wilde sofreu o diabo, foi esculhambado, ridicularizado, humilhado, processado, condenado, mas agüentou a barra. Se você não pode se casar, se amasie. Façam testamento, um para o outro. Defendam-se. Usem a Lei e o Sistema em seu benefício. Sejam, como os outros, egoístas, dissimulados, implacáveis, intolerantes e hipócritas. Explorem. Espoliem. É legítima defesa. Mas, por favor, não faça nenhum gesto tresloucado.

Mandei a carta e a resposta para Peçanha. As cartas só eram publicadas com o visto dele. Mônica Tutsi apareceu com uma garota.

– Esta é Mônica, disse Mônica Tutsi.
– Que coincidência, eu disse.
– Que coincidência o quê?, perguntou a garota Mônica.
– Vocês terem o mesmo nome, eu disse.
– Ele se chama Mônica?, perguntou Mônica apontando o fotógrafo.
– Mônica Tutsi. Você também é Tutsi ?
– Não. Mônica Amélia.

Mônica Amélia ficou roendo uma unha e olhando para Mônica Tutsi.

– Você me disse que o seu nome era Agnaldo, ela disse.
– Lá fora eu sou Agnaldo. Aqui dentro eu sou Mônica Tutsi.
– Meu nome é Clarice Simone, eu disse.

Mônica Amélia nos observou atentamente, sem entender nada. Via duas pessoas circunspectas, cansadas demais para brincadeiras, desinteressadas do próprio nome.

– Quando me casar meu filho, ou minha filha, vai se chamar Hei Psiu, eu disse.
– É um nome chinês?, perguntou Mônica.
– Ou então Fiu Fiu, eu assobiei.
– Estás virando niilista, disse Mônica Tutsi, retirando-se com a outra Mônica.

Nathanael. Sabe o que é duas pessoas se gostarem? Éramos nós dois, eu e Maria. Sabe o que é duas pessoas perfeitamente sintonizadas? Eramos nós, eu e Maria. Meu prato predileto é arroz, feijão, couve à mineira, farofa e lingüiça frita. Imagina qual era o de Maria? Arroz, feijão couve à mineira, farofa e lingüiça frita. Minha pedra preciosa preferida é o Rubi. O de Maria, estás a ver, era também o Rubi. Número da sorte o 7, cor o Azul, dia Segunda-Feira, filme, de Faroeste, livro O Pequeno Príncipe, bebida Chope, colchão o Anatom, clube o Vasco da Gama, música o Samba, passatempo o Amor, tudo igualzinho entre eu e ela, uma maravilha. O que nós fazíamos na cama, rapaz, não é para me gabar, mas se fosse no circo e a gente cobrasse entrada nós ficávamos ricos. Na cama nenhum casal jamais foi tomado de tamanha loucura resplandecente, foi capaz da performance tão hábil, imaginativa, original, pertinaz, esplendorosa e gratificante quanto a nossa. E repetíamos várias vezes por dia. Mas não era apenas isso que nos ligava. Se você não tivesse uma perna eu continuaria te amando, me dizia ela. Se você fosse corcunda eu não deixaria de te amar, eu respondia. Se você fosse surdo-mudo eu continuaria te amando, dizia ela. Se você fosse vesga eu não deixaria de te amar, eu respondia. Se você fosse barrigudo e feio eu continuaria te amando, dizia ela. Se você fosse toda marcada de varíola eu não deixaria de te amar, eu respondia. Se você fosse velho e impotente eu continuaria te amando, ela dizia. E nós estávamos trocando essas juras quando uma vontade de ser verdadeiro bateu em mim, funda como uma punhalada, e eu perguntei a ela, e se eu não tivesse dentes, você me amaria? e ela respondeu, se você não tivesse dentes eu continuaria te amando. Então eu tirei a minha dentadura e botei em cima da cama, num gesto grave, religioso e metafísico. Ficamos os dois olhando para a dentadura em cima do lençol, até que Maria se levantou, colocou um vestido, e disse, vou comprar cigarros. Até hoje não voltou. Nathanael, me explica o que foi que aconteceu. O amor acaba de repente? Alguns dentes, míseros pedacinhos de marfim, valem tanto assim? Odontos Silva

Quando eu ia responder, surgiu Jacqueline e disse que o Peçanha estava me chamando. Na sala de Peçanha estava um homem de óculos e cavanhaque.

– Este aqui é o dr. Pontecorvo, que é — o que que o senhor é mesmo?, perguntou Peçanha.
– Pesquisador motivacional, disse Pontecorvo. Como eu ia dizendo, primeiro nós fazemos um levantamento das características do universo que estamos pesquisando. Por exemplo: quem é o leitor de Mulher? Vamos supor que é mulher e da Classe C. Em nossas pesquisas anteriores já levantamos tudo sobre a mulher da Classe C, onde ela compra seus alimentos, quantas calcinhas ela tem, a que horas faz o amor, a que horas vê televisão, os programas de televisão que assiste, em suma, um perfil completo.
– Quantas calcinhas ela tem?, perguntou Peçanha.
– Três, respondeu Pontecorvo, sem vacilar.
– A que horas ela faz o amor?
– As 21:30, respondeu Pontecorvo prontamente.
– E como é que você descobriu tudo isto? Vocês batem na porta da D. Aurora, no conjunto habitacional do INPS, ela abre a porta e vocês dizem, bom dia D. Aurora, a que horas a senhora dá a sua trepadinha? Olha aqui, meu amigo, eu estou há vinte e cinco anos neste negócio e não preciso de ninguém para me dizer qual é o perfil da mulher da Classe C. Eu sei por experiência própria. Elas compram o meu jornal, entendeu? Três calcinhas… Ha!
– Usamos métodos científicos de pesquisa. Temos sociólogos, psicólogos, antropólogos, estatísticos e matemáticos em nosso staff, disse Pontecorvo, imperturbável.
– Tudo para tirar dinheiro dos ingênuos, disse Peçanha com indisfarçável desprezo.
– Aliás, antes de vir para cá, coligi algumas informações sobre o seu jornal, que acredito sejam do seu interesse, disse Pontecorvo.
– E quanto custa?, perguntou Peçanha com sarcasmo.
– Esta eu lhe dou de graça, disse Pontecorvo. O homem parecia feito de gelo. Nós fizemos uma minipesquisa sobre os seus leitores, e, apesar do tamanho reduzido da amostra, posso lhe assegurar, sem sombra de dúvida, que a grande maioria, a quase totalidade dos seus leitores é composta de homens, da Classe B.
– O quê?, gritou Peçanha.
– Isso mesmo, homens, da Classe B.

Primeiro Peçanha ficou pálido. Depois foi ficando vermelho, e depois arroxeado, como se estivesse sendo estrangulado, a boca aberta, os olhos arregalados, e levantou-se da sua cadeira e caminhou cambaleante, os braços abertos, como um gorila doido em direção a Pontecorvo. Uma visão chocante, até mesmo para um homem de aço, como Pontecorvo, até mesmo para um ex-repórter de polícia. Pontecorvo recuou ante o avanço de Peçanha até que, com as costas na parede, disse, tentando manter a calma e a compostura: Talvez os nossos técnicos tenham se enganado.

Peçanha, que estava a um centímetro de Pontecorvo, teve um violento tremor e, ao contrário do que eu esperava, não se atirou sobre o outro como um cão danado. Agarrou os próprios cabelos com força e começou a arrancá-los, enquanto gritava, farsantes, vigaristas, ladrões, aproveitadores, mentirosos, canalhas. Pontecorvo, agilmente, escapuliu em direção à porta, enquanto Peçanha corria atrás dele atirando-lhe os tufos de cabelo que arrancara da própria cabeça. Homens! Homens! Classe B!, rosnava Peçanha com ar aloprado.

Depois, já tudo serenado — creio que Pontecorvo fugiu pelas escadas — Peçanha, novamente sentado atrás de sua escrivaninha me disse: É a esse tipo de gente que o Brasil está entregue, manipuladores de estatísticas, falsificadores de informações, empulhadores com seus computadores, todos criando a Grande Mentira. Mas comigo eles não têm vez. Coloquei o sacripanta em seu lugar, não coloquei?

Eu disse qualquer coisa, concordando. Peçanha tirou a caixa de ata-ratos da gaveta e me ofereceu um. Ficamos fumando e conversando sobre a Grande Mentira. Depois ele me deu a carta de Pedro Redgrave e a minha resposta, com o visto dele, para eu levar para a composição.
No meio do caminho verifiquei que a carta do Pedro Redgrave não era aquela que eu havia enviado para ele. O texto era outro: Prezado Nathanael, tua carta foi um bálsamo para o meu coração aflito. Deu-me forças para resistir. Não farei nenhum gesto tresloucado, prometo que…

A carta terminava aí. Tinha sido interrompida no meio. Estranho. Não entendi. Havia algo de errado. Fui para a minha mesa, sentei, e comecei a escrever a resposta ao Odontos Silva:

Quem não tem dentes também não tem dor de dentes. E como disse o herói da conhecida peça Papo Furado, nunca houve um filósofo que pudesse agüentar com paciência uma dor de dentes. Além do mais, os dentes são também instrumentos de vingança, como diz o Deuteronômio: olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé. Dentes são desprezados pelos ditadores. Lembra-se do que Hitler disse para Mussolini sobre um novo encontro com Franco?: Prefiro arrancar quatro dentes. Você teme estar na situação do herói daquela peça Tudo Legal se no Fim Ninguém se Ferra – sem dentes, sem gosto, sem tudo. Conselho: ponha os dentes novamente e morda. Se a dentada não for boa, dê murros e pontapés.

Eu estava no meio da carta do Odontos Silva quando entendi tudo. Peçanha era Pedro Redgrave. Em vez de me dar de volta a carta em que Pedro me pedia para mandar rezar uma missa e que eu havia lhe entregado junto com a minha resposta falando sobre Oscar Wilde, Peçanha me entregara uma nova carta, inacabada, certamente por engano, e que deveria chegar às minhas mãos pelo correio.

Peguei a carta de Pedro Redgrave e fui até a sala de Peçanha.

– Posso entrar?, perguntei.
– O que é? Entre, disse Peçanha.

Entreguei a ele a carta de Pedro Redgrave. Peçanha leu a carta e percebendo o engano que havia cometido empalideceu, como era do seu feitio. Nervoso, mexeu nos papéis sobre a sua mesa.

– Era tudo uma brincadeira, disse depois, tentando acender um charuto. Você está aborrecido?
– A sério ou a brincadeira, para mim tanto faz, eu disse.
– Minha vida dá um romance… disse Peçanha. Isto fica entre nós dois, está certo?
– Eu não sabia bem o que ele queria que ficasse entre nós dois, a vida dele dar um romance ou ele ser o Pedro Redgrave. Mas respondi:
Claro, só entre nós dois.
– Obrigado, disse Peçanha. E soltou um suspiro que cortaria o coração de qualquer outro que não fosse um ex-repórter de polícia.

Uma oferenda literária

Ouvi-la’ pensar, elaborar ideias, é como deixar-se levar pelo voo elegante e imprevisível das borboletas. Não há obviedade no pensamento de uma mulher feliz. Andréa del Fuego, que lança nesta terça-feira, 20, seu primeiro romance, ‘Os Malaquias’ (ed. Língua Geral),  diz encontrar na literatura de um outro – no caso, o escritor português José Luis Peixoto –, a escuridão que cultua. Uma contradição tolerável, já que tudo ali remete à luz, das vírgulas e pontos ao sobrenome emprestado.

É no artesanato das tias mineiras, que urdem e tecem tapetes de barbante, que ela encontra o referencial para a construção de sua prosa. Amante distante do cinema e colaboradora esporádica de revistas como Vogue e Gloss, a escritora diz hoje achar mais tangível viver para a literatura e não de literatura.

– Os livros atraem trabalhos de colaboração. Há alguns meses dei muitas oficinas de minicontos, foi uma satisfação gigante dividir o artesanato da escrita, estimular a leitura e a discussão sobre os próprios textos. Os livros e a escrita constante vão te capacitando para atuar em muitas áreas -, explica.

Entre as angústias que costumam assolar escritores diante da chegada iminente do livro às prateleiras, del Fuego confessa ter aflição moderada em relação à crítica. Autora de uma trilogia de contos e dois livros juvenis, ela  afirma que ao ler algo sobre seu texto, sente-se refém daquela leitura, mas “depois passa”.

A tentativa de fazer um conto erótico no primeiro livro “falhou bonito” e foi abandonada. A protagonista em questão tinha sonhos com São Jorge. Da experiência, restou (em um oposto nem tão extremo assim) a religiosidade.

– Como o mundo não termina onde os olhos alcançam, a religiosidade (ou o fato de acreditar no que ainda não há explicação) é muito próxima da literatura–, relaciona.

Em entrevista ao Café Escuro, Andréa del Fuego tece um pedaço diminuto da trama que o leitor pode conferir concluída nos balcões das livrarias. Se quiser fitar seus olhos siderais, será preciso deslocar-se até a Livraria da Vila, na Vila Mariana, em São Paulo, a partir das 18h30.

*Leia o primeiro capítulo de ‘Os Malaquias’ aqui.

* * * * *

Em um texto sobre o livro, o escritor português José Luís Peixoto diz que a linguagem e os nomes são a “matéria da literatura”. Curiosamente, o livro parece ter tido outros nomes antes de se tornar ‘Os Malaquias’. Que crise de identidade foi essa?

O livro se chamava Serra Morena, nome do lugar onde se passa a trama. Esse lugar é o personagem central do livro e achava pertinente que esse fosse o título. Quando o livro chegou na Língua Geral, um dos apontamentos que recebi do editor Eduardo Coelho, foi que eu pensasse melhor nisso. Malaquias é o sobrenome da família em questão, dos personagens principais. Saí do continente para o conteúdo. No processo de reescrita rolou mesmo uma crise de identidade, o livro passou por inúmeras versões.

Por que um romance agora, considerando que seus três livros anteriores foram de contos? Como você vê ‘Os Malaquias’ em relação a esses trabalhos?

Escrevi os livros de contos e os juvenis enquanto reescrevia o romance. No segundo livro de contos, em 2005, Os Malaquias já existia. Esse primeiro romance existe para que eu possa seguir adiante, ele deixa todas as oferendas pagas ao meu passado familiar. Acho que todo escritor é cobrado, precisa pagar uma oferenda ao mito familiar. Com essa fatura acertada, agora sigo adiante, zerada.

Emoções, sobressaltos, deslumbres e vertigens estão entre as sensações ‘possíveis’ provocadas pelo livro. Em que turbilhão o leitor deve estar preparado para ser jogando quando iniciar a leitura de ‘Os Malaquias’?

A história é baseada num episódio real, e por ser também familiar, tenho intimidade com o ambiente e os personagens. A grande questão é ter deixado a narrativa também familiar para quem nunca soube da existência daquele lugar e daquelas pessoas.

A década passada e a anterior foram pródigas para o surgimento (ou criação) de novos escritores – penso que talvez tenha ocorrido com mais força em São Paulo e no Rio Grande do Sul, e com intensidade um tanto menor no Rio de Janeiro. Hoje, tentando uma análise em perspectiva (talvez ainda precipitada), você percebe algum ponto negativo nessa torrente literária?

Nenhum ponto negativo. Parte da produção atual é colocada de lado, é jogada no balde de roupa suja, tratada assim por não se encaixar em teses literárias ou no que se espera historicamente da linguagem. E amanhã? Qualquer juízo de valor hoje poderá ser ultrapassado amanhã. O escritor não tem todo o tempo do mundo, o livro tem, e seu percurso é lento, mas constante. A opinião atual não será a mesma que a futura, a produção farta deixa um acervo extraordinário para o futuro.

Em uma entrevista concedida a mim, em 2005, à época do do lançamento de + 30 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira, você dizia não escrever pensando na sua imortalidade, mas na do livro: “Isso a internet ainda não superou. O livro não dá pau, não corre o risco de se apagar como na rede. Ele vai estar quieto em alguma estante esperando uma boa alma que o folheie”. De lá para cá, tivemos novidades como Kindles e iPads lutando para capturar ainda  mais leitores. Como você percebe essa convivência daqui para diante? Pacífica?

Reafirmo o que disse em 2005. O livro foi o melhor suporte para a literatura até aqui. Livro não precisa de bateria, não precisa de conexão. Os livros numa estante é de tal materialidade que dá ao conteúdo do livro o seu melhor altar. O religioso pode rezar onde quiser, mas a materialidade dos bancos, dos vitrais e da bata do vigário impõem seu poder de forma vertical. Bem, pensando agora e assim, o livro está ligado mesmo às formas de poder e opressão se pensarmos no seu custo, o que o faz deixar de pertencer a todos. Nesse sentido, a internet tirou a sacralidade do acesso, isso é fenomenal. A biblioteca, templo maior do livro, pode não ser frequentada, mas sua materialidade se liga ao livro. Simbolicamente, o texto se locomove de sua virtualidade para a presença física.

Em entrevista ao jornalista e também escritor Miguel Conde, em O Globo, o dinamarquês Karl Erik Schollhammer, autor de Ficção brasileira contemporânea e professor de literatura da PUC-Rio, cita o filósofo italiano Giorgio Agamben com o objetivo de desconstruir “a ideia do contemporâneo como algo representativo de uma atualidade”. (“Ele coloca a questão de maneira paradoxal: a contemporaneidade está em realidade no desconforto, na inadequação, na impossibilidade de se adaptar com a atualidade. No próprio esforço do escritor de se relacionar com seu tempo, seu mundo, sua realidade, essa dificuldade se torna flagrante”, diz Karl Erik). Considerando isso, como você percebe o seu papel? Onde está a Andrea del Fuego neste cenário?

As teorias são tantas, os textos são muitos, que época para se viver! Essa impossibilidade de se adaptar com a atualidade é muito interessante. No momento em que se escreve, todas as influências do tempo estão presentes, o tempo marca o texto. Mas também não é só isso, o que o filósofo chama de dificuldade em se relacionar com seu tempo talvez seja a vocação literária pela transcendência. A literatura de Julio Verne que previu invenções futuras como o submarino, por exemplo. Talvez a invenção seja uma poderosa forma de conhecimento. Nesse cenário, assim como todos que inventam, sou mais um pixel, um pontinho entre milhares.

O quanto as antologias produzidas pelo Nelson Oliveira ou pelo Luiz Ruffato, por exemplo, foram importantes nesse mecanismo de atualizar e ‘dar uma cara’ à essa produção?

Com certeza, as antologias chamam a atenção dos leitores e da crítica, inclusive para os próprios autores, pois dão alguma beira nesse rio incerto. Ainda que se negue a geração x ou y, para negá-la é preciso antes afirmá-la. Uma das características das antologias é a irregularidade dos textos, e por vezes isso é visto de forma negativa. Mas essa irregularidade não seria própria da proposta? Da diversidade?

Você é uma blogueira ‘intensa’ há pelo menos cinco anos, sendo que tem uma relação próxima com a web há mais de dez. É possível dizer que a internet tornou o papel da crítica literária menos relevante para o ‘leitor médio’? Ou seria o contrário: a proliferação de textos e escritores catapultados na rede fazem da crítica um filtro cada vez mais indispensável?

Sempre teremos os críticos autorizados que selecionarão alguns nomes. Mas os textos, as resenhas, as críticas espontâneas feitas por leitores, sem vínculo acadêmico ou muito embebidos em teorias literárias, não podem ser descartados. Acho que quem exerce o filtro agora é também o leitor sobre o crítico e o escritor. Hoje, como leitora, posso escolher o crítico que melhor aborde meus autores prediletos, seleciono o selecionador, o leitor hoje é mais importante do que o escritor e o crítico. No máximo, escritor e crítico são interessantes por serem leitores assíduos. Pesquisadores também são criadores, alguns mais criativos do que seus objetos de estudo. Todo mundo criando e defendendo uma convicção, nem o livreiro escapa dessa.

Ainda na linha da questão sobre crise de identidade, você usa um pseudônimo sonoro como sobrenome – já disse antes que não é necessariamente uma homenagem à Luz Del Fuego. Já pensou em trocar novamente de nome ou voltar a usar o seu próprio, real?

Inclusive já me foi proposta a mudança de nome, por uma editora. Nessa ocasião eu teria mudado, fazemos qualquer coisa pelo livro, mas agora não vejo necessidade de mudar o nome, continuo gostando muito da sonoridade dele. Esse pseudônimo é carregado nas tintas, quem é de uma geração mais velha, conheceu a dançarina Luz Del Fuego e relaciona meu nome ao erotismo. De fato, meu primeiro livro foi uma tentativa de livro erótico, que hoje sei, falhou bonito. Já no segundo livro de contos, o erostismo deixa de ter importância.

Você já disse que tinha como livro de cabeceira O Simbolismo do Corpo Humano, da ocultista francesa Annick de Souzennelle. Em uma simplificação absurda, o livro trata dos elos entre o corpo e o sagrado. Considerando isso, qual a sua relação com a religiosidade e onde ela está representada (se está) na sua literatura?

Está representada, claro. Tem um conto do primeiro livro (onde tentei ser erótica) chamado Eucaristia, nele a personagem tem sonhos eróticos com São Jorge. Esse conto foi traduzido em alemão por uma pesquisadora de tradução, justamente por tratar do sexo e da religião no mesmo texto. A religiosidade me interessa, acho que há um instinto que busca a transcendência, uma força inata que precisa, inclusive, ser domesticada pela razão, pois ficaríamos a vida toda olhando para as estrelas esperando a grande nave. Como o mundo não termina onde os olhos alcançam, a religiosidade (ou o fato de acreditar no que ainda não há explicação) é muito próxima da literatura. Quando escrevemos ficção, tentamos de imediato um pacto de cooperação entre o que está escrito e o leitor, que não saberemos nunca se é gordo ou magro, onde dormirá o livro depois que ele sai da livraria. Esse pacto acontece quando a narrativa é certeira, buscamos sempre essa “receita” da cooperação que faça com que a verossimilhança convença o leitor e o carregue até a última página, transportado para o mundo que ele construirá sobre as bases do que está escrito. A religião faz isso como ninguém, ela é imbatível, faz o sagrado sair de um texto.

O que você está lendo atualmente?

Agora estou lendo Papéis inesperados, inéditos de Cortázar para uma colaboração para o programa Entrelinhas, da TV Cultura. Cortázar é obrigatório, esses inéditos fazem um recorte do autor passando por trechos de livros como O Jogo da  Amarelinha, Historias De Cronópios e de Famas, além de autoentrevistas. Fascinante.

Algo visto (ou lido ou ouvido) nos últimos tempos lhe despertou interesse especial?

Nos últimos tempos tenho lido filosofia, estou especialmente impressionada pela fenomenologia pura do alemão Edmund Husserl. A tal redução fenomenológica que propõe uma suspensão da tese do mundo para a “intelecção” do fenômeno em si. Fazer a distinção entre o ato de pensar e o conteúdo pensado. Parece um delírio, mas não é, acho que a filosofia é um gênero literário.

Como é a sua relação com seus pares? Com quem você lida com mais proximidade?

Tenho convivência com alguns autores daqui de São Paulo. Alguns são mais reclusos, outros mais angustiados, como eu, que precisam beber uma cerveja para desabafar, dar risada das trapalhadas. Amigos como a Ivana Arruda Leite, Indigo e Marcelino Freire, que além da companhia adorável, me emocionam com seus livros, é um privilégio ter o calor deles. Bebemos juntos, por qualquer motivo, desde um churrasco na casa da Indigo até para esquecer alguma raiva. Na mesa passam Joca Reiners Terron, Marçal Aquino, Xico Sá, Ronaldo Bressane, Rodrigo Lacerda, Luiz Roberto Guedes, Maria José Silveira, Paulo Scott, Michel Laub e quem mais chegar, todos eles fazem uma literatura poderosa. Quase sempre na Mercearia São Pedro, cujo dono, o Marquinhos, nos recebe como irmãos.

Que outro escritor você percebe ter relação direta com seu trabalho?

Não é uma relação direta, mas a literatura de José Luis Peixoto traz uma escuridão que cultuo. O livro Nenhum olhar de José Luis Peixoto é um dos mais importantes da minha biblioteca interior, ele é gótico e rural. Seus personagens pairam no ar, os lugares respiram, é uma leitura vertical e inesquecível.

Redescobertas

Desculpa – diz o cantor, depois de errar os primeiros versos da canção. – Tem dias que eu fico pensando: por que diabos eu insisto nessa profissão? – diz para divertimento da plateia. – Eu estou dando tudo de mim, juro que estou.

Não exagera – rebate o outro cantor, enquanto o público gargalha.

A cena acima poderia estar em um stand up comedy, se não tivesse sido protagonizada por Chico Buarque e Caetano Veloso, enquanto tentavam cantar juntos O Quereres, sendo Buarque o atrapalhado e Veloso o complacente.

Ensaio fotográfico para a revista Bravo, realizado em abril de 2009, por ocasião do lançamento do álbum Zie e Zii (de Caetano Veloso) e do livro Leite Derramado (de Chico Buarque) - Foto: Murillo Meirelles / Revista Bravo

Quem perde tempo fuçando velharias no youtube há de já ter topado com os vídeos do programa Chico & Caetano, que os dois comandaram na TV Globo, durante alguns meses de 1986.

Como ambos já tinham a estatura cultural de ‘grandes mestres’, construída há pelo menos duas décadas de militância na música popular brasileira, o programa dirigido por Daniel Filho e Nelson Motta foi saudado como ‘O’ acontecimento musical do ano – não só pela reunião dos dois, mas ainda mais por promover encontros memoráveis.

Passaram por ali nomes como a divina Elizeth Cardoso acompanhada pelo viloão de Baden Powell; Cazuza cantando uma premonitória ‘Luz negra’, de Nelson Cavaquinho; além de Mercedes Sosa, Jorge Ben, Astor Piazzola, Fundo de Quintal, Tom Jobim e tantos outros.

Dez anos adiante, a Som Livre pôs nas ruas o LP/CD Melhores Momentos de Chico e Caetano, com uma seleção modesta do que o programa conseguiu apresentar em apenas nove edições – uma exibida a cada mês. Noves fora os convidados, a parceria dos dois rendeu duetos antológicos, como o de Você não entende nada/Cotidiano – recriando o clássico encontro do álbum Chico e Caetano Juntos e Ao vivo, de 1972.

Outra das participações especiais memoráveis, incluída no disco, mas que não pode ser encontrada no youtube, é a de Elza Soares ‘recebendo’ (como uma entidade) o ‘Tiro de misericórdia’, de João Bosco.

Foi quando estava à procura desse vídeo que reencontrei (ou redescobri) a versão do próprio Bosco, gravada para o disco Acústico MTV (1992) – o álbum seminal da série que se tornaria um filão do mercado fonográfico.

É quase impossível dissociar o ‘ídolo de poeira’, barbarizado com mais de cem tiros, cantado por Bosco, da morte do facínora Mineirinho, regurgitada no texto de Clarice Lispector. Desde então, é com as espadas de prata de Oxulufã e o machado de asa de Caô-Xango que a caixinha de música tem sido despertada dia sim, outro também, quase como um mantra torto.

A música, às vezes, parece um “jogo cercado pelos sete lados”.

Nada é perfeito

Lou Reed cancela participação na Flip

A organização da Flip lamenta informar que o compositor Lou Reed cancelou sua participação no evento. Em comunicado, o escritório do compositor alegou “motivos pessoais” como razão da desistência. A presença de Reed estava confirmada desde o mês de março e seus assessores mantinham contato regular com a Flip e com a Companhia das Letras, sua editora no Brasil, para acertar os detalhes de sua participação. A Companhia das Letras também lamenta o ocorrido e informa que o livroAtravessar o fogo terá seu lançamento mantido, chegando às livrarias no dia 22 de julho.

A nova composição da mesa será anunciada em breve. A organização da Flip sugere aos que já tenham adquirido ingressos para a mesa de Reed que aguardem o anúncio do novo convidado. Os ingressos adquiridos para a mesa do Lou Reed serão válidos para a nova programação. Aos que desejarem mesmo assim a restituição do valor do ingresso, será possível fazê-lo na bilheteria do evento em Paraty. Para mais informações, entrar em contato com flip@ticketsforfun.com.br

A seguir, o comunicado de Tom Sarig, empresário do cantor:

“Lou Reed teve que cancelar por motivos pessoais, lamentamos profundamente o ocorrido e esperamos poder visitar o Brasil num futuro próximo. Pedimos desculpas pelo transtorno ocasionado àqueles que lutaram para conseguir os ingressos e à organização do festival”.