Um abraço em Moacyr Scliar

* Texto de José Castello | A literatura na poltrona

No ano de 1992, quando eu ainda acreditava que a função do crítico literário fosse a de produzir avaliações, vereditos e sentenças, caiu-me nas mãos Sonhos tropicais, o décimo-segundo romance de Moacyr Scliar. Há muito deixei de ver no crítico um espécie de juiz de peruca, que interroga, absolve, ou condena uma obra. Naquela época, contudo, por insegurança, por teimosia, por medo de errar, ainda insistia em dizer se um livro era bom, ou era ruim.

Não gostei de Sonhos tropicais e, em uma resenha que escrevi para uma revista semanal, disse isso com todas as letras. Baseado na vida do sanitarista Oswald Cruz _ figura central na vida de Scliar, ele próprio um médico sanitarista _, Sonhos tropicais me pareceu um livro temeroso em que seu autor, refém das rigorosas exigências da pesquisa, não conseguiu se dar a liberdade que deveria e merecia se dar.

Hoje não sei se teria a mesma opinião. De fato, não aprecio as biografias romanceadas, gênero que me parece, em geral, preguiçoso e frouxo. Ocorre que Scliar não apresentava seu livro como uma biografia romanceada, mas como um romance _ e foi isso, talvez, o que me incomodou. Talvez, pensei, ele não tivesse se decidido muito bem a respeito do livro que queria escrever. Talvez… mas o que importa! Nunca mais voltei a ler Sonhos tropicais, mas planejo fazer isso em breve, para matar um pouco as saudades do amigo que hoje perdi.

Publicada minha desagradável resenha, pensei: Scliar me odiará para sempre. Não o procurei mais, nem ele me procurou, o que parecia provar a tese da ruptura. Quase um ano depois, porém, caminhava eu pela Rua da Praia, em Porto Alegre, quando o avistei de longe. Vinha em minha direção. Pensei em mudar de caminho, mas o correto era seguir em frente e enfrentá-lo, e foi o que fiz.

“Precisamos nos falar por dois minutos”, ele me disse, sem disfarçar a ansiedade. Pensei: “Pronto: chegou a hora de ouvir o que mereço ouvir”. Não me deixou pensar, foi rápido: “Por que não tomamos um café?” Aceitei; eu não tinha escolha. Na esquina, nos perfilamos diante do balcão de uma confeitaria. Durante um ou dois minutos, nem eu, nem Scliar conseguíamos dizer qualquer coisa. Até que ele, num desafogo, me disse: “Você sabe no que estou pensando”. Não podia negar que sabia: “É claro, no livro do Oswaldo Cruz”.

Admitiu, então, que, ao ler minha resenha, ficara furioso. Mais ainda, ficara decepcionado, pois nela sentira a ponta secreta de uma traição. Durante alguns dias, recordou ainda, ensaiou respostas incisivas que me daria em um telefonema. Aos pouco, contudo, a dor abrandou e, me disse Scliar já com um esboço de sorriso, ele conseguiu enfim a pensar.

Não adoçou as palavras: “Quero lhe dizer que você tem toda razão no que escreveu”. Abriu, então, um sorriso vasto e longo, de alívio, mas também de gratidão. Enfim, continuou: “Depois que a raiva passou e que controlei a vaidade, consegui enfim aceitar o que você me dizia”. Nos dias seguintes, refletiu sobre seu caminho literário, lutou para se observar desde fora. Quanto a mim, estava imobilizado. Cedesse à vaidade, e passaria a acreditar, enfim, que era um “grande crítico”. Quanta tolice! Minha resenha era não só pequena, mas despretenciosa. Limitei-me a esboçar uma impressão muito breve. Forte era Scliar que, machucado por minhas palavras, soube, ainda assim, lhes emprestar uma grandeza que não tinham.

Vitória do leitor: são os leitores, no fim das contas, que fazem os grandes livros. Era só nisso, na verdade, que eu conseguia pensar. Se ainda tinha dúvidas a respeito do destino de nossa conversa, elas se dissiparam quando Scliar me disse: “Deixe eu lhe dar um abraço. De agradecimento. Agradecer pela sua coragem, e lhe dizer que você me obrigou a ser corajoso também”. É com dificuldades que recordo as palavras que trocamos. Não só porque muitos anos se passaram, mas também porque estávamos, ambos, engolfados pela emoção. Em silêncio, nos abraçamos _ e aquele abraço foi mais eloquente que qualquer palavra. Guardava uma força crítica que, em minhas resenhas literárias, jamais consegui. Não era uma crítica para me destruir, era uma crítica para me acolher. Era para dizer: “Podemos divergir e, apesar disso, caminhar juntos”.

Não que, quando escrevi minha resenha de Sonhos tropicais, eu tenha desejado destruir a reputação de Scliar _ tarefa, aliás, em que eu teria sido derrotado. Ao contrário: julguei que, ao escrever, apenas me submetia às exigências da verdade _ e Scliar foi grande o bastante para entender isso. Existem, porém, muitas maneiras de dizer uma mesma coisa. Só um coração corajoso como o de Scliar suportaria meus restos de imaturidade (aos 40 anos!) e meus atropelos.

“Você tira um elefante de minhas costas”, consegui, enfim, dizer. “Eu sempre me perguntei se tinha sido cruel. Se errara não só no que pensava, mas na maneira de dizer o que pensava”. Nesse momento, o médico Scliar se impôs ao escritor Scliar. Ele me interrompeu: “A verdade é sempre dolorosa, mas precisa ser dita”. Desde então, uma amizade muito funda, sincera, um forte laço de confiança, nos ligou. Nunca fomos amigos íntimos, mas nos tornamos amigos intensos.

Encontrei-o, pela última vez, em dezembro, na Bienal do Livro de Campos, onde chegamos escoltados por Suzana Vargas. Logo percebi o cansaço imenso que carregava. “Soube que ainda temos um jantar pela frente”, ele me disse. “Não sei se conseguirei ficar até muito tarde”. Fui rápido, talvez até ríspido: “Você não vai a jantar algum, meu amigo. Vai direto para o hotel, pedirá um lanche no quarto e irá para a cama”. Abraçou-me em outro imenso silêncio. Os abraços silenciosos são os mais belos: eles simplesmente nos acolhem, sem nada exigir em troca, e sem nos impor significado algum.

Não resisti e lhe dei um beijo no rosto. Senti que levou um susto, porque se empertigou um pouco, como se fosse fazer uma continência. Depois percebi que tinha a face vermelha e dela arrancou, com força, um sorriso. A que correspondi sorrindo também. Achei que nos reveríamos logo, em alguma outra bienal, ou feira literária. Mas não: era um sorriso de adeus.

Obrigado, Scliar, por me levar a entender a insignificância de minhas pequenas opiniões. Obrigado, também , por me ensinar que a grandeza é a falência da vaidade. Nossa amizade nasceu de um desencontro. Como somos misteriosos! Vá se entender os homens! Até hoje sinto o calor de seu abraço e é só isso o que interessa.

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Com surpresa / Sem surpresa

A história é curta, para não perder a objetividade. Era uma tarde modorrenta e suada de sábado e eu balançava na rede à procura de vento quando o celular tocou. A voz de André Mansur do outro lado parecia grave. Entre um atropelo e outro, ele dizia que precisava de ajuda, que havia discutido com a menina Tanaka, que algo tinha saído errado e, insistia, precisava de ajuda. Urgente.

Eu estava de visita na casa da minha mãe, na Baixada Flumiunense. Portanto, longe algumas dezenas de quilômetros de casa, na Zona Sul do Rio. Questionei: o que saiu errado? urgente quanto? Respostas evasivas.

Pensei, sem censura: ‘Fudeu. Matou a garota. Vai pedir para se enconder lá em casa’. Ao menos que eu soubesse, não tinha amigos criminosos. Até ali. Deixei a rede e fui (ou vim, dependendo do ponto de vista). Foi uma viagem tensa. Hora e meia, se muito.

Numa segunda ou terceira ligação ele questionou o quão perto estava. O tom ainda grave. Logo que cheguei, avisei-o. Ele disse: ‘Estou aqui embaixo. Pode descer?’. Desci imaginando o pior: mãos manchadas de sangue e uma faca para sushi suja no bolso da bermuda.

Saí, ainda perambulei um pouco pela calçada até encontrá-lo.

Ele estava acompanhado de sua suposta vítima, a menina Tanaka, e de Augusto Sales. Tinham, sei lá, uma meia dúzia de bolas de gás coloridas nas mãos. Era 16 de novembro de 2002. Era a festa surpresa do meu aniversário.

Surpresa multiplicada, se considerarmos que nasci em 27 de maio. Aniversário fora de época, foi como chamaram.

* * *

Lembrei dessa história porque nesse dia ganhei dois livros, ambos de crônicas. ‘Para uma menina com uma flor’, de Vinicius de Moraes; e ‘Conversa com a Memória’, de Villas-Bôas Corrêa.

Este último volume foi a primeira coisa que lembrei quando fiquei sabendo há pouco que Villas-Bôas escreveu neste 2 de fevereiro de 2011 o que ele afirma ser a derradeira coluna para o Jornal do Brasil (ou o que ainda resta dele, com todo o respeito).

Hoje mesmo, sem saber, conversei sobre o ‘Jotinha’ com Anna Luiza Guimarães e falamos sobre o respeito que temos (nós, que de certa forma nos educamos ali) quando precisamos ou queremos nos referir a ele (JB).

* * *

Hoje mesmo, também, conversei sobre o nível dos deputados e senadores que enviamos para o Distrito Federal neste início de 2011 e que acabam de assumir suas cadeiras.

Desta forma, não deixa de ser emblemática a decisão de Villas-Bôas de pôr um ponto final em sua história de cronista político (resumida em apenas dez parágrafos) justo hoje.

Sem surpresas, diria.

* * *

A coluna, para os que não leram:

Villas-Bôas Corrêa – Coisas da Política

Ensaio da despedida

Este é provavelmente o último artigo que batuco para o JB Premium e demais fregueses. Uma decisão que não cobrou preço para ser tomada, pois resulta da imposição de evidências.

Durante mais de 60 anos batuco desde as velhas máquinas que exigiam o esforço dos indicadores até entortá-los em aleijões que impõe o esforço dobrado. Não dá para exigir mais dos venerandos com décadas de sacrifício.

Esta é a razão principal e decisiva. No mais, o caldo grosso da monotonia. Eu vivi os grandes momentos da queda do Estado Novo, como presidente do Centro Acadêmico da Faculdade Nacional de Direito – o Caco que virou nome da praça em frente ao velho e restaurado edifício que frequentei durante cinco anos, até a colação de grau da turma de 1947.

Casado e com dois filhos, conquistei por concurso a vaga de técnico de propaganda, pomposo apelido de redator da Seção de Propaganda. No Saps conheci e fiquei amigo até a morte do diretor, major Umberto Peregrino, o maior administrador que conheci em toda a minha longa vida.

E sempre gostei de escrever, de improvisar comentários políticos, como fiz na TV Manchete durante anos. A TV sem censura reconquistou a vaga do comentarista político, como o Boechat, da TV Bandeirantes, e o casal William Bonner e Fátima Bernardes, da Rede Globo, além de outros craques do Rio, São Paulo, Belo Horizonte e outras capitais.

Trabalhei como redator e depois diretor da Sucursal de O Estado de S.Paulo. Assinei o primeiro comentário político do Jornal do Brasil, quando da reforma do meu saudoso amigo Odylo Costa, filho.

Nos dois mandatos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o comentário político renasceu, adubado pelas fofocas, as entrevistas, as frases gaiatas do mais popular presidente de todos os tempos.

Da queda da ditadura do Estado Novo de Getulio Vargas até a ditadura militar dos cinco generais presidentes – Castello Branco, Costa e Silva, a Junta Militar formada pelo general Aurélio de Lira Tavares, do Exército, almirante Augusto Rademaker, da Marinha, e brigadeiro Márcio de Sousa e Melo, da Aeronáutica, foram anos de chumbo, censura à imprensa, cassações de mandatos parlamentares: a ditadura militar sem disfarce.

E que se prolongaria nos governos do general Emílio Garrastazu Médici e Ernesto Geisel para a transição nos seis anos do mandato do presidente general João Batista de Oliveira Figueiredo.

Daí em diante os governos civis de José Sarney, o curto mandato de Fernando Collor de Mello, que renunciou passando o cargo ao vice-presidente Itamar Franco. De lá para cá Fernando Henrique Cardoso em dois mandatos e Luiz Inácio Lula da Silva, em mais dois, até a eleição da atual presidente, Dilma Rousseff.

Muita conversa para um recado tão curto. Hoje gosto mais de ler do que de escrever.

Estou lendo as 1.077 páginas da fantástica biografia de Adolf Hitler, o clássico de Ian Kershaw. Já passei do meio.

Conversando, a gente se entende. E não briga.