Comédia da vida privada

A partida foi um tanto tensa, com o fotógrafo se esforçando em dar um teor dramático ao momento pré-decolagem, lembrando a todo momento as medidas mínimas da aeronave. Dentro do meio de transporte mais seguro do mundo, depois do elevador, o primeiro impasse: uma das bagagens de mão não cabia sob o banco do assistente responsável por transportá-la.

Primeiro cogitou-se colocá-la sobre uma poltrona vazia, o que foi prontamente recusado pela comissária, alegando questões de segurança. “Em caso de emergência…”, dizia ela. Um outro funcionário entrou para tentar uma solução e, sem meias palavras, disse que colocaria a bagagem (uma câmera de vídeo avaliada em R$ 28 mil) em uma área traseira do avião e que ela só poderia ser retirada na esteira. E isso incluía todos os riscos de danos possíveis (e prováveis). O que foi prontamente recusado pelo assistente.

Diante do vai-não-vai, o número de cabeças e corpos que se viravam na poltrona para tentar entender o que acontecia só aumentava. Tudo, no entanto, não passou de uns agoniantes cinco minutos, até que se decidiu tirar a câmera do case (na verdade, uma bolsa de lona) e levá-la no colo. Com a bolsa, não podia; sem a bolsa, podia. Em caso de emergência…

Depois de um voo tranquilo e de uma aterrissagem em que parecíamos estar montados em um boi rufião com as partes pudendas amarradas com nailon, estavam lá no saguão do aeroporto os motoristas responsáveis por nos transportar cidade adentro. Aqui vale um adendo relevante: dos quatro viajantes, três têm pouquíssima paciência para conversas fiadas. Isto posto, nos dividimos. O cinegrafista e assistente em um dos carros; repórter e fotógrafo noutro.

Escolhemos mal. Em pouco mais dez minutos, no percurso entre o aeroporto e o hotel, ficamos sabendo: o motorista era antigo piloto de uma fábrica de cerveja que fechou as portas da sede na cidade há anos; depois de demitido ficou na pindaíba por uns tempos; a mulher foi trabalhar fora, numa conhecida loja de eletrodomésticos com nome de um estado do Nordeste, e depois largou dele; com o tempo, ele conseguiu um emprego de motorista, depois de piloto de avião freelancer; foi se reerguendo; conseguiu a guarda “da menina”, que hoje estuda em uma respeitada universidade pública paulista; ele disse que há pouco a ex-mulher chegou ao posto gerente na loja; sugeriu que ela poderia ter usado seus dotes não profissionais para a promoção; hoje ele tem dois apartamentos alugados e a mãe foi morar com ele para cuidar “da menina” (é como se refere à filha); afirmou que a ex-mulher agora insiste em voltar para ele e, então, depois de uma pausa curta, fez uma pergunta retórica:

– Vocês acham que eu devo voltar para ela?

Ele não queria ouvir a resposta. Nós não respondemos. Foram os dez minutos mais longos da viagem.

No dia seguinte, ele nos encontrou na porta do hotel com as feições de quem havia entendido o recado da véspera: “Boca fechada não entra mosca”. Se você não falou, ele e nós tampouco. Foi um dia bom, silencioso, por longas e entediantes estradas retas, margeadas por muito verde. Sem notícias descartáveis da vida privada alheia. De barulho, só o do pneu no asfalto. Uma parada aqui, uma fotinha ali, uma entrevista acolá. E pouco mais. Gostei.

O terceiro dia tinha tudo para repetir a ‘correria sem impasses’ do dia anterior. Mas não. Nosso motorista, sabe-se lá por quais sentidos alterados, voltou à carga. Dessa vez, encarnou o ‘Sr. Sabe Tudo’. Para tudo tinha opinião. Apontava locais vagos, sempre com informações inúteis sobre eles. Antes do primeiro um sexto do dia, o enfado e o desejo de pegar um táxi já tinha nos tomado. Foi difícil. Passamos o dia driblando a inconveniência do piloto que confessou ter medo de pousar no Santos Dumont.

E aí, começou a se dar algo interessante. Numa tentativa tosca de ‘conquista’, ele passou a manifestar suas (p)referências pelo Rio. O Centro da cidade? O do Rio era melhor. O aeroporto? O Rio era melhor localizado. Mulheres? As do Rio eram as mais bonitas. Policiais? O Rio tinha o Bope. E por aí vai…

Na última esticada, de volta para o hotel, como se nós tivéssemos ignorado-o num primeiro momento, o motorista insistiu: “eu era piloto da fábrica de cerveja que fechou; fui demitido e fiquei na pindaíba por uns tempos; minha mulher foi trabalhar fora e nos separamos; com o tempo, consegui um emprego de motorista, depois de piloto de avião freelancer; fui me reerguendo; consegui a guarda “da menina”, que hoje está na universidade; minha ex-mulher foi promovida à gerente”. Aqui ele perguntava, malicioso:

– Você acha que foi porque ela é competente?

Nesse ponto, o fotógrafo resolveu interagir e acabar com o monólogo:

– Cara, estou sentindo que você ainda está apaixonado por essa mulher. Você não para de falar dela desde que a gente chegou nessa cidade. Por que você não volta pra ela? Pega a moça e vai fazer uma viagem – disse, casando psicologia e impaciência.

Sem conseguir esconder o sorriso, o motorista lançou a mesma pergunta da antevéspera. Dessa vez, sem retórica.

– Você acha mesmo que eu devo voltar para ela?

– Acho.

– Mas ela não está mais aquela gracinha toda.

– Nem tu.

– É. Isso é verdade.


Volta, Leci

Zé do Caroço
(Leci Brandão)

Num serviço de auto-falante
No morro do Pau da Bandeira
Quem avisa é o Zé do Caroço
Amanhã vai fazer alvoroço
Alertando a favela inteira

Ai! Como eu queria que fosse Mangueira
Que existisse outro Zé do Caroço
Pra falar de uma vez pra esse moço
Carnaval não é esse colosso
Nossa escola é raiz, é madeira

Mas é morro do Pau da Bandeira
De uma Vila Isabel verdadeira
E o Zé do Caroço trabalha
E o Zé do Caroço batalha
E que malha o preço da feira

E na hora que a televisão brasileira
Destrói toda a gente com sua novela
É que o Zé bota a boca no mundo
Ele faz um discurso profundo
Ele quer ver o bem da favela

Esta nascendo um novo líder
No morro do Pau da Bandeira
Esta nascendo um novo líder
No morro do Pau da Bandeira
No morro do Pau da Bandeira
No morro do Pau da Bandeira

Num serviço de auto-falante…