Como se nunca houvera sido

Lembrei da história ontem e já não sei onde e quando ouvi, nem mesmo se os ingredientes estão corretos. Mas estou quase certo que foi contada pela própria Adriana.

Homem embrenhado das solas dos pés aos cachos dos cabelos com o que se fez de relevante na música popular brasileira das décadas de 60 a 90, o poeta Wally Salomão em dado momento acreditou que poderia desvincular-se das canções.

O período coincidiu com a produção do terceiro álbum de Adriana Calcanhotto. Quando, no processo de escolha de repertório, a cantora pediu uma música para o novo disco, Wally, irritadiço, deu-se à tarefa de elaborar um ‘poema imusicável’. Depois de alguns dias, enviou algo.

– Tome aí. Veja o que você consegue fazer – disse Wally, em tom desafiador.

O resultado está abaixo.

* * * * *

A fábrica do poema
(Adriana Calcanhotto, Waly Salomão)

Sonho o poema de arquitetura ideal
Cuja própria nata de cimento
Encaixa palavra por palavra, tornei-me perito em extrair
Faíscas das britas e leite das pedras.
Acordo!
E o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo.
Acordo!
O prédio, pedra e cal, esvoaça
Como um leve papel solto à mercê do vendo e evola-se,
Cinza de um corpo esvaído de qualquer sentido
Acordo, e o poema-miragem se desfaz
Desconstruído como se nunca houvera sido.
Acordo!

Os olhos chumbados pelo mingau das almas
E os ouvidos moucos,
Assim é que saio dos sucessivos sonos:
Vão-se os anéis de fumo de ópio
E ficam-me os dedos estarrecidos.
Metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros
Sumidos no sorvedouro.
Não deve adiantar grande coisa permanecer à espreita
No topo fantasma da torre de vigia
Nem a simulação de se afundar no sono.
Nem dormir deveras.
Pois a questão-chave é:
Sob que máscara retornará o recalcado?

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(des)conto

– Sabe aquele escritor que criou aquele personagem?
– Sei.
– Então… sabe aquela escritora?
– Sei, sei.
– E também tem aquele que começou escrever agora, né?
– É, tem sim.
– Então… se todo mundo bebe naquela fonte, por que eu que sou filho, não posso?

O diálogo acima, em tom de deboche, foi travado com o escritor e fotógrafo Zeca Fonseca, em meados dos anos 2000. Ele falava sobre as possíveis comparações de seu primeiro livro, na época ainda em produção, com o trabalho de seu pai, Rubem Fonseca – um dos maiores contistas do país.

Pois é exatamente nesse gênero literário (contos) que Zeca estreia agora com ‘Artérias’, que será lançado nesta quarta-feira, 23 de novembro, 19h, na Livraria Argumento, no Leblon.

Já havia falado de Zeca Fonseca nos posts ‘Não sou mau com as mulheres’ e ‘9 milímetros’. ‘Artérias’ é o terceiro livro de Zeca, lançado após os romances ‘O adorador’ (2007) e ‘Pandemônium’ (2010).

‘O adorador’ deve ganhar uma adaptação para o cinema, dirigida pelo irmão de Zeca, José Henrique Fonseca, que acaba de filmar ‘Heleno’, sobre a vida o jogador de futebol Heleno de Freitas, vido nas telas por Rodrigo Santoro.

Melô do amor

“Estou no fundo do poço / meu grito lixa o céu seco”. Eram esses os primeiros versos da canção ‘José’, que em 1987 abriam o álbum Caetano e expunham as vísceras da separação do músico baiano com sua primeira mulher, Dedé Veloso.

Em uma época pré-revista Caras, era no terreno das artes, sobretudo da música, onde se podia observar com relativa sutileza os descaminhos dos relacionamentos amorosos. Em alguns casos, eram os discos (ou LPs) que anunciavam que algo não ia bem naquela seara, que os ídolos também vacilavam como simples mortais.

Em um sem número de exemplos, os rasgos sentimentais estão escondidos sob uma pseudo carcaça pop, rock ou o coisa que a valha.

Esse talvez fosse o caso do álbum Bora Bora, dos Paralamas do Sucesso, que embora começasse jogando o ouvinte desavisado ‘pra cima’ com ‘O beco’, trazia em si versos subterrâneos como “descobri mil maneiras de dizer o seu nome com amor, ódio, urgência ou como se não fosse nada”. E, mais adiante, ainda falava em “paixão, insônia, doença, liberdade vigiada”.

Ainda que não precisasse, havia contudo o lado B do LP aberto por ‘Uns dias’, onde Herbert Vianna jorrava o fel de um casamento turbulento com Paula Toller. “Eu nem te falei que te procurei pra me confessar / Eu chorava de amor e não porque eu sofria / Mas você chegou já era dia e não tava sozinha / Eu tive fora uns dias / Eu te odiei uns dias / Eu quis te matar”. Mais passional, impossível.

O jornalista Arthur Dapieve conta no livro Brock – o Rock Brasileiro dos Anos 80 que foi justamente esse lado B de Bora Bora que fez Cazuza atirar-se aos pés de Herbert Vianna, quando os dois se cruzaram em um aeroporto, logo após o lançamento do álbum, dizendo que queria ter composto aquela parte do disco.

Não por acaso Cazuza regravaria ‘Quase um segundo’ (a segunda do lado B de Bora Bora) em seu disco Burguesia. A canção parecia suplicar por respostas e vagar no terreno nebuloso do amor e ódio. “Às vezes te odeio por quase um segundo depois te amo mais / Teus pêlos, teu gosto, teu rosto, tudo que não me deixa em paz”, sussurrava Herbert e, depois, Cazuza.

São pródigos os exemplos de álbuns escancaradamente confessionais, desbragadamente passionais. Não é improvável que Ângela Ro Ro esteja próxima do recorde de pontuar sua carreira com o espelhamento de sua tumultuada vida amorosa. Como se uma estivesse intrinsecamente ligada à outra. E com direito a cenas policialescas. A síntese disso talvez esteja na canção ‘Escândalo’, composta por Caetano para Ro Ro. “Eu marquei demais, tô sabendo / Aprontei de mais, só vendo / Mas agora faz um frio aqui / Me responda, tô sofrendo”, canta Ro Ro, perguntando e dando resposta.

Despedidas não são fáceis. Em alguns casos, a tradução em palavras se faz através das canções que, ao mesmo tempo que geram identificação, parecem funcionar como anzóis que fisgam artérias importantes bem no meio do peito. É o caso de ‘Tudo que vai’, de Alvin L, gravada por Toni Platão e Capital Inicial. “Hoje é o dia e eu quase posso tocar o silêncio / A casa vazia / Só as coisas que você não quis me fazem companhia”. Versos que se ouvem como se estivesse a empacotar caixas, separar livros e, por que não?, discos. “Fica o gosto, ficam as fotos / Quanto tempo faz? / Ficam os dedos, fica a memória / Eu nem me lembro mais”.

São citações sem fim. Isso sem enveredarmos no mundo do samba, sem pensarmos em Herivelto Martins, nem lembrarmos Vinícius de Moraes, o que poderia render uma enciclopédia do desamor (ou do amor demais). Alguns casos de canções sobre amores desfeitos causam repulsa no próprio compositor, tamanha a carga do que ali foi exposto. Certa vez, quando já estava no bis de um show no Canecão, no Rio, Adriana Calcanhotto perguntou o que o público queria ouvir e alguém gritou do meio da platéia: “Mortaes”. Imediatamente ela retrucou: “Essa eu não canto. De jeito nenhum”.

Na música em questão (penúltima de seu álbum de estreia, Enguiço), ela dramatizava: “Não quero nem ouvir falar de ti, eu quero ensurdecer / Quero perder-te no mofo das esquinas / Esquecer tuas manias e morrer”. E como que para não deixar dúvidas de que algo de muito profundo havia acontecido naquela relação, ela concluía: “Eu quero é nesse verão atracar meu navio no caos / Sinto que o meu coração tá cansado de momentos maus / Maus bocados passamos mas eu sinto que estamos atentos / Penso que até o fim do ano nós estaremos solteiros”, lamentava, dando pistas de que no próximo ano…

Hoje as sutilezas poéticas das canções têm de competir com a ‘evasão de privacidade’ oferecidas às revistas de fofoca, com o auxílio luxuoso das notícias ‘em tempo real’. Para que esperar a gravação de um disco se a última separação já está online?

Hoje, já não interessam apenas os queixumes dos artistas; os dissabores do mais simples dos mortais estão a um clique. As redes sociais ajudaram a compartilhar uma avalanche de ‘vidas felizes’ e acabaram com pudores maiores, como dividir para centenas de ‘amigos’ uma frustração amorosa. Um teatro virtual da vida, que faz pensar nos versos finais de ‘Acrilic on Canvas’, da Legião Urbana.

“Mas então, por que eu finjo que acredito no que invento? / Nada disso aconteceu assim, não foi desse jeito / Ninguém sofreu e é só você que me provoca essa saudade vazia / Tentando pintar essas flores com o nome de ‘amor-perfeito’ e ‘não-te-esqueças-de-mim’”.

O filho de Luiza Mahin

por Zeca Borges

Dia da Consciência Negra, 20 de novembro, uma homenagem a Zumbi dos Palmares, morto pelos paulistas, uma gente estranha naquele tempo, que nem português falava direito. Eram pardos. Descendentes de tupiniquins, acabariam desbravando e conquistando o país. Nem sempre se deram bem. Levaram uma corrida dos reinóis nas Geraes. Mas hoje em dia fazem o que bem entendem com o país.

É de um grande paulista, nascido na Bahia, que o dia de Zumbi me faz lembrar: Luiz Gama, um negro, que como Zumbi, tinha conhecimento das letras. Zumbi aprendeu Português e Latim ainda criança, desde cedo teve boa formação. Luiz Gama, bem mais tarde: foi alfabetizado aos 17 anos. Fugiu aos 18. Assentou praça na Força Pública de São Paulo em 1848. E ali teve acesso a uma rica biblioteca, de seu protetor e mestre, o conselheiro Furtado. Ele mesmo nos relata: ”o exmo. sr. Conselheiro Furtado, por nímia indulgência, acolheu benigno, em seu gabinete, um soldado de pele negra, que solicitava ansioso os primeiros lampejos da instrução primária. Ao entrar nesse gabinete, consigo levava ignorância e vontade inabalável de instruir-se.”

Quando ouço falar de grandes vultos brasileiros, não encontro nenhum que se compare ao advogado (rábula) Luiz Gama, filho de uma quitandeira em Salvador, Luiza Mahim, nagô livre e sempre envolvida nas diversas rebeliões locais. Há um tempo a revista Época fez uma pesquisa entre seus leitores sobre qual o maior dos brasileiros. Rui Barbosa foi o escolhido. Baiano por baiano, sou mais o filho de Luiza Mahim. Rui concordaria comigo, conhecia e admirava Gama. Não sei se houve leitores que votaram em Zumbi. Mas o meu voto foi para Luiz Gama, não só o maior dos brasileiros, como também o mais corajoso. E herói, não mártir. Vitorioso e reverenciado em vida. Temido pelos inimigos da liberdade. Seu enterro foi o mais emocionante acontecimento da história de São Paulo. Um dia vocês verão isso em uma minissérie da Globo, e, aí, vão acreditar.

Nem em São Paulo ele hoje é reconhecido. Num artigo em que comenta o desrespeito às leis contra o tráfico negreiro pelo Império Brasileiro, Marcelo Coelho perdeu uma boa oportunidade de citar Luiz Gama, que libertou centenas e centenas de escravos com base nessas leis. Todos haviam chegado ao Brasil após a proibição. Também Boris Fausto, em outro artigo na Folha de SP, fez comentários sobre o Conselho de Estado e sobre um parecer de Pimenta Bueno que tratava da condição dos escravos perante a constituição brasileira de sua época (cerca de 1860). Seria oportuno também citar Luiz Gama, que em um longo artigo – “Questão Jurídica”, em 18 de outubro de 1880, em A Província de São Paulo – relata e praticamente esgota o assunto das tentativas de interpretação dos escravocratas a respeito da lei de 7 de novembro de 1831 (“para inglês ver”), e onde bate pesado no então conselheiro Nabuco de Araújo (pai de Joaquim Nabuco).

Duas citações deste grande herói brasileiro bastam para fazê-lo o maior de todos:
“O escravo que mata o senhor, seja em que circunstância for, mata sempre em legítima defesa” – Tribunal do Júri de Araraquara (o presidente do júri se viu obrigado a suspender a sessão, devido ao tumulto provocado).
“O Brasil americano e as terras do Cruzeiro sem rei e sem escravos” – São Paulo, 2 de dezembro de 1869, dia do aniversário de D. Pedro II.

* * *

Decidi compartilhar aqui no Café Escuro o texto de Zeca Borges, coordenador do Disque-Denúncia, em homenagem ao Dia da Consciência Negra, comemorado neste 20 de novembro.

O que escrever agora?

Isso se arrastou por umas boas semanas. A tarefa era ler e resenhar Cartas a um jovem escritor e suas respostas (Record), livro de correspondências trocadas entre o então iniciante escritor Fernando Sabino e o já consagrado poeta Mário de Andrade. Função de facilidade aparente.

Topei, muito por conta de um outro livro que havia me caído nas mãos meses antes: Mário de Andrade – A morte do poeta (Civilização Brasileira). Na última Bienal do Livro do Rio troquei umas poucas palavras com o professor e filósofo Eduardo Jardim, autor do livro, sobre os últimos anos do poeta no Rio.

A pretensão agora era sobrepor, ou melhor, por diante um do outro dois Mários: o primeiro aquele que se dizia “mentalmente fatigadíssimo, num bem completo esgotamento intelectual”; o segundo aquele capaz de despertar, no mesmo período, ressalte-se, um estado de absoluta euforia em um jovem Sabino, prenhe por “continuar querendo saber”.

É este segundo Mário (o primeiro estaria sempre à sombra, rondando) que daria o empurrão salvador ao escritor mineiro e com ele se corresponderia entre os anos de 1942 e 1945, ano de sua morte. Entender como um desencantado poeta pôde ser um sopro de vida em uma já pulsante criatura era o que buscava.

As leituras dos dois livros, no entanto, se embaralhavam e atrapalhavam. Enquanto buscava na obra de Jardim referências ao Mário epistolar, encontrava neste o retrato de um artista desiludido dando esperanças ao garoto. Enquanto houve tempo, ambos sugaram e entregaram o que puderam entre si.

Cartas a um jovem escritor… é uma espécie de diário múltiplo. Nele é possível observar a transformação de um discípulo em par de seu mentor; é possível acompanhar, quase que passo a passo, a angústia existencial do poeta que vê a morte aproximar-se; e, sobretudo, o florescer de uma sincera amizade que teria papel fundamental na carreira e na vida de Fernando Sabino.

No prefácio de Cartas a um jovem escritor… Fernando Sabido diz a certa altura: “Eu lhe confiava as minhas dúvidas e preocupações literárias com o ardor dos que querem vencer a todo custo: o problema da sinceridade do artista, a importância ou desimportância do sucesso, a necessidade de escrever e ao mesmo tempo ganhar a vida, o aprimoramento do estilo, a opção entre a arte social e a arte pela arte, e outros temas em moda na época”.

Depois desse ponto, leitura estanque, pensava apenas em quais seriam as dúvidas dos novos escritores – isso no caso daqueles que se permitem ter dúvidas. Pois a impressão mais freqüente (particular e possivelmente torta, dirão), é de que questionamentos são associados à insegurança, algo que, de forma alguma, condiz com a postura altaneira dos novíssimos.

Não há dúvidas, penso. Encaminhá-las, quando surgem, a nomes “consagrados” da literatura, ligados ao que vem sendo produzido há séculos e a possível representação do que de mais arcaico há, seria a subserviência elevada à enésima potência. “Flaubert não me diz nada”, já ouvi. Os novos não perguntam; respondem, respondem, respondem apenas. Raras são as exceções.

Mais adiante, ainda no prefácio, Sabido prosseguia: “Foram numerosas cartas de parte a parte (…). Representavam o que poderia haver de mais precioso para um jovem que pretendesse ser escritor. Teria adiantado? Relidas agora, diante dos problemas de hoje, parecem falar de um tempo morto e de assuntos já sem memória, como se estivéssemos discutindo o sexo dos anjos”.

Era o que dizia. Por ora, penso na humildade de um escritor como Antônio Dutra trocando cartas com Sérgio Sant’Anna; imagino a eletricidade verborrágica de Mariel Reis diante de um pacato Antônio Torres; e aguardo, ainda, novas indagações de Simone Paterman, cheias de pausas longuíssimas, a uma elegante e inebriada Nélida Pinõn (a exemplo da publicada por Paralelos).

Noves fora o arremedo de resenha, resta apenas um pedido: perguntem, perguntem, perguntem.

Cartas a um jovem escritor e suas respostas
Fernando Sabino e Mário de Andrade
Editora Record
224 páginas

. . .

Publicado originalmente em Paralelos.org – 19 de novembro de 2005. (Somente poucos segundos antes de clicar no botão ‘Publicar’ foi que me dei conta que essa ‘republicação’ acontece exatamente seis anos após a primeira).

“OK, vamos lá”

Um dia após as forças de segurança do Estado tomarem a favela da Rocinha, lembrei de uma história acontecida em 2004 na comunidade, na época controlada por outro “bandido mais procurado do Estado”. De lá para cá, outros bandidos “número 1” surgiram e sumiram do mapa. Acredita-se que, na Rocinha, essa sequência de algozes tenha chegado ao fim na madrugada deste domingo, 13 de novembro de 2011.

Alguns meses depois daquele episódio, contei essa história em um email para um grupo de amigos. Email esse que eu recuperei e colo abaixo. Hoje ele certamente tem uma graça que eu não vi naquele dia.

* * *

Favela da Rocinha / Foto: Moskow - 2005

De: Jaime Filho
Enviada em: terça-feira, 15 de março de 2005 13:46
Para: Stafff
Assunto: [stafff] …mas o Chacrinha continua balançando a pança

O Bope (Batalhão de Operações Especiais) tinha subido a Rocinha no dia anterior e barbarizado. Aquilo que todo mundo já sabia e repetia: tapa na cara de morador, entram nas casas, mandam fazer suquinho e tal, mas vagabundo mesmo não pegam.

Estavam atrás do Lulu, chefe do tráfico na favela. Na “troca de tiros” com a bandidagem (a desculpa é sempre essa – quem troca tiro não atira em caixa d’água) perfuraram meia favela.

Dia seguinte estavam lá os “reporti” pra registrar tudo. O presidente de uma das associações perguntou se queríamos ver o local que “tinha virado peneira” com os fuzis do Bope (que também poderiam ser do tráfico). Breve silêncio. Enfim, um “OK, vamos lá”. Foram equipes de quatro veículos.

Sobe, sobe, sobe, no meio da favela ele parou numa praça e disse: “É aqui. Olha ali, olha ali, olha ali. E tudo destruído, furado. Aí fomos fazendo o caminho que teoricamente os caras teriam feito. A ‘rua’ vai estreitando até virar um beco de, no máximo, 80 centímetros de largura. Barracos de dois, três, quatro pavimentos, deixando tudo ainda mais claustrofóbico. Várias fotos dos buracos, closes e tal, até que um fotógrafo do JB, mirando uma perfuração de bala pegou, lá trás, um cara do bicho no fundo.

– ME PEGARAM, ME PEGARAM. CARALHO, ME PEGARAM! – gritava o traficante, acreditando ter sido fotografado.

Do beco transversal onde ele estava encostado, observando o movimento, saíram mais de 12 cabeças (exibindo armamento de soldado americano no Iraque) atrás da bendita câmera. Pânico nível vermelho, daquele que te transforma numa estátua de sal.

Alheia a toda gritaria e armamento pesado, a fotógrafa que estava comigo (ótima fotógrafa, mas míope) continuava fotografando as perfurações de bala como se estivesse fotografando borboletas. Universo paralelo.

Eu, que não movia um músculo, consegui pedir, com um fio de voz:

– Kita, por favor, chega de fotos. Dá um tempinho, por favor.
– O que houve?
– Olha prali Kita. A gente tá fudido

(Pense em um beco minúsculo e quase vinte homens armados gritando coisas como: “Acabou. Ninguém sai daqui hoje. Leva lá pra cima”, e coisas do tipo)

Depois de o fotógrafo convencer que não tinha pego o malaco no clic, o presidente da associação conseguiu acalmar a rapaziada e tirar a gente da cova já quase fechada.

Nos arrastamos para fora do beco e quando estávamos quase lá fora, o suposto fotografado gritou:

– Ei, ei! Quer tirar foto? Tira daqui, ó. (Nesse momento ele vem em nossa direção, levantando a camiseta e mostrando duas pistolas na cintura. Para, cruza os braços com as duas armas em punho e faz pose). Quem teve forças agradeceu e disse: – Não, obrigado.

Muita calça imprestável, naquele dia, foi pro lixo.

Fricções

Cortinas fechadas

Tinha que começar primeiro pela arrumação da mesa do escritório improvisado sobre um pedaço de madeira apoiado em dois cavaletes, comprados em uma promoção nessas lojas de coisas para casa. Reformas e afins. A bagunça, que há tempos parecia sazonal sem uma lógica definida, agora estava instalada semanas após semanas, num acúmulo de papéis diversos, notas fiscais de padarias e farmácias, caixas de remédios para a gripe crônica, tampas sem canetas, blocos usados, revistas velhas, fios inúteis, livros empoeirados… Se algo havia de mudar, se algo havia de andar para algum canto, de certo teria de começar por ali.

Quem lê tanta notícia?

O verso da canção tropicalista parecia ecoar pelos cantos da casa, onde se aglomeravam os encartes de jornais de ontem, anteontem, de dias passados e de semanas tão distantes que o papel já havia ganhado uma coloração amarelada. Há dias tinha recolhido uma parte daqueles jogados no chão do quarto, juntado e posto dentro de uma sacola plástica “para olhar depois” e ver o que lhe interessava. Juntou a sacola à outra, do mês passado, só deixando de fora os de sexta-feira. A edição grossa de domingo e a de sexta já pareciam uma só sobre o sofá. A elas se juntaram mais três revistas, sem que as do mês anterior tivessem sido lidas. Era informação desinteressante demais.

Coleções

Junto com o jornal de domingo e com as novas revistas vieram também dois novos DVDs da série de filmes clássicos que lhe havia sido indicada. A coleção estava incompleta, mas não pulava nenhum número. Aliás, estava atrasada; não incompleta. Se comprasse dois números a cada semana, conseguiria se ajustar aos lançamentos em um mês. Se não conseguisse completar a série, tinha decidido se desfazer dos filmes enfileirados na prateleira.

Algumas mudas de roupas

Já chovia há algumas horas. Quando chegou chuviscava, mas não tão forte. A calça preta e blusa branca molhada ficaram lá jogadas pelo chão e móveis da sala. Já eram quase dez peças de roupas espalhadas pela casa. Havia dias. Notou que na segunda-feira, quando levantasse para trabalhar, não haveria roupa preta limpa.

Resto

Comeu a sobra da semana que ainda vagava pela geladeira. Procurou sem sucesso um doce. A chuva agora fazia um barulho maior e constante, quase como o som de uma TV fora do ar durante a madrugada. Madrugada de outros anos, outros tempos, pensou. Pegou uma revista, folheou, largou de lado. Apagou uma luz, acendeu outra. Vagou entre cozinha, sala e corredor umas cinco ou seis vezes, antes de apagar de vez a luz. Eram 4h17 de quarta ou quinta-feira. Foi dormir sem sono.