‘Quero acabar de viver o que me cabe’

‘O Amor’
Vladimir Maiakovski

Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça numa alameda do zoo, sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.

Ela é tão bela, que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século ultrapassará o exame
de mil nadas, que dilaceravam o coração.

Então,
de todo amor não terminado
seremos pagos
em enumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava

como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
Ressuscita-me,

nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos, concupiscência, salários.

Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,

que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:

– Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.
Para viver livre dos nichos das casa.
Para que doravante a família seja o pai,
pelo menos o Universo;
a mãe, pelo menos a Terra.

(1923)
(Tradução de Haroldo de Campos)

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Radicalismos

Paulinho da Viola já havia pedido silêncio para que pudesse escutar ‘um pouco a dor do peito’ em seu clássico Para ver as meninas, de 1971. Mesmo ali, a angústia vinha acompanhada da canção, da música. Portanto, não existia de fato o silêncio ambicionado, desejado.

Nunca há. Ao menos é o que se conclui ao se assistir o teaser do documentário ‘Silêncio’, sobre a vida reclusa de João Mello, dirigido por Cid César e Alberto Bellezia (diretor de fotografia de ‘Santiago’, de João Moreira Salles). Cid, que se define como um “antropologo/sociologo frustado”, e que já havia se embrenhado Mata Atlântica adentro atrás do ‘maluco-beleza’ Guilherme de Souza, o Hemp, agora radicaliza.

silêncio _ teaser versão zero from CCA on Vimeo.

Segundo Cid, ‘Silêncio’ rompe com a tradição documental brasileira: a maldição da entrevista. “Filmamos o silêncio. E o resultado é incrível. Sorte minha contar com uma equipe de fotografia e som tão boa. Fazer cinema com três pessoas é um exercício incrível”, surpreende Cid, que já tinha ousado bastante em Hemp.

Nada nos dois minutos e quarenta e oito segundos de teaser fazem lembrar o nome do filme. É um encadeamento de sons, ruídos, barulhos e toda espécie de atritos sonoros que, contraditoriamente, parecem dar sentido a decisão do protagonista, tomada há 27 anos, de decidir morar em uma caverna, de frente para o mar do Recreio.

“A sociologia do desvio é um assunto que estudo com pouca frequencia. Meu interesse por esses personagens é que eles nos dão grandes lições. O mundo precisa conhecer essas pessoas”, ambiciona o cineasta, dando um caráter de urgência ao que está levando às telas.

Acompanhado do canto dos grilos, do soprar dos ventos, dos matos, do chacoalhar das ondas nas rochas, o silêncio do homem conhecido como silêncio ajuda-nos, de certa forma, e minimamente, a atentar para os males que atingem (e afligem) a sociedade moderna: o excesso de fala, a deficiência de audição.

João Mello fez a opção contrária, radicalmente oposta. Cid César vai pelo mesmo caminho.

Mora na filosofia

Reproduzo abaixo um texto do jornalista Flávio Gomes, publicado em seu blog (http://flaviogomes.warmup.com.br/), sobre a partida de Sócrates. Não sei se concordo muito com a última frase, mas é um belo texto.

* * *

PORRA, DOUTOR

SÃO PAULO – Aí quando eu estava lá embaixo no meio daquele milhão de pessoas pedindo para votar para presidente, o cara sobe lá no palanque, em cima do viaduto, ergue o punho direito, ou o esquerdo, e grita que queria a mesma coisa. Do meu lado, gente de todas as cores e credos ludopédicos erguem seus punhos, também, e aplaudem o cara, que resolveu não jogar na Europa porque queria estar aqui para ver de perto o fim daqueles anos em preto e branco.

Não deu nada certo, não votamos para porra nenhuma, e dias depois, ou semanas, não me peçam para lembrar os quandos e ondes, mas acho que era no Morumbi, e o cara enfia a bica da intermediária, nosso goleiro sem pescoço pula e não pega nada, ele ergue o punho de novo e eu xingo o cara com todas as minhas forças, doutor do caralho, filho da puta, vai tomar no cu.

Antes, Copa do Mundo na Espanha, Brasil versus União Soviética. Estamos lá na zona leste, num puxadinho junto com um monte de gente que eu também não conhecia direito, uma TV com bombril na antena, umas brahmas, gol dele, o empate, se bem me lembro. Abraços e beijos, doutor do caralho, filho da puta, joga demais, vamos, porra.

Depois daquela Copa acho que não torci mais para seleção nenhuma, depois daquela ninguém mais nos representou, talvez em 1986, era um restinho daquela, o cara estava lá de novo, com faixa na cabeça, quatro anos mais velho, mais cabeludo e mais desgostoso, perdeu um pênalti, nem xinguei de doutor do caralho. Já tinha feito muito, tudo bem, entre uma e outra ele tinha ido e voltado da Itália, aí foi jogar no Rio, queria ficar junto do povo, do povo inteiro, jeitão de fim de carreira, mas era médico, ia parar e vestir o jaleco para cuidar do povo, e ele dizia povo com autoridade, sabia bem quem era o povo, e cada um para o seu canto. Eu, que o conhecia da TV, do estádio e do Anhangabaú, para cuidar da minha vidinha besta; ele, para cuidar do povo — no falar, escrever, pensar.

Avança a fita.

Ano passado, um velho e empoeirado e querido pub em Pinheiros, faz frio, as portas já fechadas, o dono não quer nem saber, quem quiser fumar, fume, fumem e bebam antes que o mundo acabe, o amigo tocando violão, a gente ali, tentando entender o que estava acontecendo com nossas vidas, aí ele entra alto, forte, senta, pede um vinho, sorri, canta, sorri, bebe, sorri, fuma, e a gente tira foto com ele, e o mundo é um lugar até aceitável quando a gente vê que tem gente como ele, que jogava bola, que só vencia a timidez diante da multidão falando e tocando de calcanhar, e que sorria, e bebia e fumava.

Sócrates morreu de tanto viver, que é uma boa forma de morrer.

Tudo era bom ali

Curioso que o cara que tenha, por tantos anos, alegrado a vida de um bando de moleques e meninas vestido de Papai Noel (e distribuído uma infinidade de brinquedos bacanas), tenha ‘escolhido’ justo dezembro para partir.

Ainda assim, Natal sempre estará associado às festas na casa fodona que todo mundo queria morar, naquela rua barrenta. Já seria demais, se ainda não fossem os rolês no kart amarelo, os passeios de Jipe, de Landau, de Dodge Dart, as voltas no Puma lotado de moleques se achando o Michael Jackson, o Opalão emprestado para as voltas na pracinha, os discos-formação do Rei Roberto Carlos dados de presente, os grandes bolos confeitados e, por tabela, as aulas ‘abre-cabeça’ de matemática. Grandes momentos, seu Nilton, grandes lembranças…

Valeu, Tarzan!