Uma mãe etérea

“Saiba que quando você menos imaginar, eu vou estar vendo ou sabendo o que você está fazendo”.

Hoje é difícil imaginar o que uma frase como essa pode fazer na cabeça de uma criança. Mas era com ela que minha mãe, quase em sempre, ia me visitar na porta do colégio, de surpresa. E nos dias seguintes, na iminência de fazer uma bobagem, eu pensava: “Será que agora ela tá vendo?”

Acho que agora todas as bobagens, de uma maneira geral, já foram feitas. E ela está vendo, mas nem pode fazer mais nada. Acho que isso é parte do pensamento cristão, da culpa, do olhar impiedoso do Criador e por aí vai. Um pouco do que nós ouvimos desde novos, uns mais outros menos.

Sempre fiz questão de dizer que não tinha culpa, de nada. Mesmo que de alguma forma estivesse agarrado lá no medo da mãe rondando os muros da escola. Agora a escola é a vida e, não bastasse o Criador, sempre onipresente como reza o lenga-lenga que ela me obrigava a ouvir nos bancos da igreja aos domingos, agora eu ganho prematuramente uma mãe etérea, que estará em todos os lugares e não está em nenhum, sempre espiando e reprimindo possíveis bobagens.

Que agora, pelo menos, ela tenha o poder maior de impedir os desvios que não tinha quando estava aqui.

Acho que minha mãe, como meu tios Natanair, Lúcia e Nilton, que nem bem acabou de partir resolveu vir buscá-la, foram, talvez, as criaturas que mais se prestaram à tarefa de proporcionar alegria aos moleques que estão grandes aqui hoje: eu, Kátia, Beth, Gordo, Júnior, Tânia, Gleyse, César e Guilherme.

(Era ela que, sozinha, levava a penca de pivetes para o Tivoly Park ou para ver Papai Noel no Maracanã. Em alguns casos, com agregados. Só para citar dois exemplos.)

Nada pode ser mais eficaz na vida de uma pessoa do que o fato dela ser amada. E eu, e nós, fomos muitíssimos amados e paparicados e mimados pela dona Bernadete (ou tia Detinha, pra eles). Não há, na vida (ou na morte), saldo mais positivo que esse.

Ela há de descansar em paz. E amada.

Mandrake

Trecho da matéria de Roberta Pennafort para O Estado de S.Paulo

Quando vestiu pela primeira vez o terno de Mandrake, o advogado criminalista sedutor, obsessivo e astuto saído dos livros de Rubem Fonseca, Marcos Palmeira ganhou fios brancos na sala de maquiagem. Sete anos, duas novelas, uma peça, seis filmes e uma filha depois, o ator volta a Mandrake já mais grisalho, ainda que não aparente ter 48 anos.

De janeiro e até março – inclusive no carnaval -, sob o sol cruel de verão e a direção de Zé Henrique Fonseca, filho do escritor e idealizador do projeto, ele grava Mandrake, o telefilme, que será exibido em duas partes na HBO, emissora que produziu os treze episódios da série em 2005 e em 2007. A estreia deve ser no segundo semestre.

A equipe é a mesma, a qualidade da imagem é de cinema (era película, agora é digital). Mandrake é que aparece com novos conflitos, reflexivo, com a autoestima e a credibilidade em baixa – e um caso nada fácil para frente, que envolve adultério e assassinatos. As locações são carioquíssimas, como ele: a praia, o centro antigo, a região dos inferninhos de Copacabana.

Foi na segunda-feira, dia em que os termômetros chegaram a apontar 41 graus, que o Estado acompanhou a gravação. O cenário era a mansão na Barra da Tijuca escolhida para ser a casa de João Paulo Birman, o ricaço vivido por Carlos Alberto Riccelli que é o cliente da vez. É Mandrake mais uma vez nas altas rodas, assim como na Avenida Prado Junior das prostitutas e dos cafetões.

Zé Henrique, que sempre teve o apoio do pai na empreitada (“ele assiste, comenta, acha que o Marquinhos faz muito bem e não reclama de nada”), escreveu os primeiros episódios com base nas peripécias de Mandrake em livros como Lúcia McCartney (1967) e A Grande Arte (1983), e em Mandrake, a Bíblia e a Bengala (2005). Depois passou a criar histórias originais.

A do filme foi encomendada há seis meses pela HBO, que agora banca a produção (em parceria com a produtora de Zé, a Goritzia), tamanho foi o sucesso da série, que concorreu duas vezes ao Emmy. “Eu estava doido para que essa volta acontecesse. Marquinhos faz o personagem até dormindo, já tem o tom”, diz o diretor, que vislumbra a retomada da série.

A HBO não confirma. Em janeiro, foram disponibilizadas para locação as duas temporadas; em junho, os DVDs chegam às lojas para venda.

Próximo ao chão a penúltima descoberta…

Nora tem belos dentes e dias difíceis. Semanas contraditórias, com encadeamento de notícias desagradáveis e, por outro lado, uma certa estagnação. Desfez-se do telefone de casa depois que recebeu a terceira ligação, no meio da noite, comunicando-lhe mais uma morte. Sonhar com dentes não é bom, alguém lembrou. Foram muitas mortes nesse mês e tanto. Físicas e filosóficas. Nora dia desses lembrou que há anos não soluça. Lembrança estranha, pensou. Quem vai ficar lembrando quando soluçou pela última vez? Enfim… Quando viu a pele do braço descascando, lembrou que teria de dar fim às cinzas do primo. Em uma floresta na serra, de preferência. Alguém poderia fazer isso por mim, pensou. Alguém poderia fazer uma dezena de coisas por ela, que por anos tem se esmerado em fazer centenas aos outros. Nora abriu os olhos e demorou alguns segundos para se dar conta em qual estação estava. Será que eu passei?, perguntou-se distraída, alto o suficiente para o passageiro ao lado ouvir. Qual a sua?, ele disse, assustando-a. Como?, replicou surpresa. A sua estação. Para saber se você passou ou não, ele insistiu. Ah, não. Eu falei alto sem querer, ela disse. Mas isso não me impede de responder e ajudá-la, falou. Como se ela não respondesse e, um tanto desconcertada, continuasse procurando com os olhos o nome da estação, ele disse: Batista, a próxima. Na ânsia de encerrar a conversa inesperada, agradeceu, caçou os fones de ouvido como se fossem uma caverna portátil e, em poucos segundos, pôs-se de pé. Ele, que estava na ponta do banco, virou-se e deixou-a passar. Enquanto a composição já se deslocava para a estação seguinte, foi a vez dele revirar a mochila atrás de um caderno e escrever algo com letras de forma grandes. Destacou a folha e colocou-a colada ao vidro da composição. Nora e os demais passageiros dentro do vagão ficaram curiosos, mas só se poderia ler o escrito do lado de fora. Não vou ler, prometeu-se Nora, um tanto nervosa e sem saber bem se cumpriria a promessa tola. A estação chegou, as portas se abriram e ela dobrou à esquerda, lado contrário onde estava a janela com o papel que ele insistia manter preso ao vidro. As portas fecharam, alguns passageiros já do lado de fora liam e riam da mensagem. A composição começou a se mover e, logo à frente, Nora havia se sentado esperando passar, talvez a 20 ou 30 quilômetros por hora, o bilhete que sabia ser pra ela. Ela leu, moveu os lábios discretamente, ele sorriu. Ela sabia que ele não havia falado a verdade, mas mentira também não poderia ser. Nora ficou mais um tempo ali, sentada, lembrou de quem era, pensou em quantas Noras morreram e nasceram naquele mês e meio, quase dois. Levantou, cruzou toda a estação pensando no que iria fazer com aquela informação dada por um estranho. Optou pela escada de alvenaria e, antes mesmo de passar a roleta que a levaria até a rua, o bilhete do desconhecido já havia se tornado fato. Dias difíceis ficam mais fáceis com belos dentes à mostra.