sessão de terapia: ivan martins

não é exatamente uma parceria, mas bem que poderia. e seria inovadora. a revista época online e o canal de tv a cabo gnt estão, respectivamente, publicando e transmitindo conteúdos muito parecidos. eles tratam de coisas da alma, reflexões, questionamentos, dúvidas comuns a todos, e isso inclui eu e você.

a coluna do jornalista ivan martins, publicada semanalmente no site da revista, reúne um apanhado de emoções comuns até ao mais banal dos relacionamentos. emoções essas que em geral nos envolvem os tornozelos feito cipós e nos puxam ladeira abaixo. ivan escreve muito bem; é bom ler seus textos e ainda mais fácil identificar-se com eles, mas o resultado é danoso. as escoriações são internas, como hemorragias.

no início de outubro o gnt estreou a série ‘sessão de terapia’, dirigida por selton mello, e que também trata de dúvidas, questionamentos, reflexões e de coisas da alma comuns a nós. a série mostra de segunda a quinta-feira um psicanalista em combate diário com seus analisados – cada dia um. na sexta-feira, moído, é o dia do terapeuta ocupar o divã de sua analista.

as histórias se juntam quando entendemos que, não fosse um personagem real, como eu, você e tantos outros que ele cita em seus textos, ivan poderia ocupar uma das poltronas de ‘sessão de terapia’. mais como analista que analisado. da mesma forma, theo (o analista da série) poderia, por exemplo, cobrir as férias de ivan na revista – óbvio, não fosse ele, por sua vez, um ser ficcional.

tão bom quanto ler os textos de ivan é assistir a batalha dos ‘pacientes’ de teo para conseguirem verbalizar o que já sabem, mas não entendem. curioso que são dificuldades em que expectadores da série e leitores de ivan se reconhecem: “aquela fala poderia ser minha”; “ela age assim também”; “esse cara parece que me conhece”.

mas por que é bom ler ou assistir isso? por que é bom esperarmos por uma análise cruel e semanal de nossas perdas? por que o outro precisa dizer que erramos, de novo, e que é muito provável que cometeremos os mesmos (não novos) erros novamente. nenhum de nós quer morar em abismos profundos pra sempre, ninguém quer viver insone noite após noite e ter de encontrar forças em espaços vácuos quando o dia, enfim, resolve surgir.

pois são desses anzóis que falam júlia, breno, nina, joão, ana, theo e dora, todos personagens de ‘sessão de terapia’, mas que bem poderiam estar nas colunas semanais de ivan. a mulher que após cinco anos de tratamento para engravidar tem dúvidas sobre abortar o filho; o atirador de elite que matou o traficante ‘mais procurado’, mas levou junto uma criança inocente. escolhas, enfim.

o estresse desnecessário, a resposta torta, o pedido de desculpas não feito são algumas pequenas escolhas diárias, recorrentes e banais, que acabam nos empurrando para lados ruins, caminhos que não deveriam ser trilhados. e quando temos uma outra oportunidade, quando podemos rever atitudes e ‘fazer diferente dessa vez’, para onde vamos? escolhemos o caminho mais fácil: o mesmo, o já conhecido.

assistir tv e ler colunas é mais fácil que fazer escolhas, que tomar decisões. talvez, no fundo de nosso abismo cotidiano, queremos que nossas angústias sejam curadas ali no consultório da ficção, esperamos que o terapeuta olhe para câmera, nos enxergue do outro lado, e diga algo como: “você está certo”. mas não é o que acontece. nem na ficção.

nos resta apenas crescer. e esperar o próximo episódio ou coluna.

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