Perder

Há um ditado ou uma máxima no mundo dos comunicólogos que afirma que se algo não foi visto, não aconteceu. Em 2012 muitas coisas aconteceram para este escriba aqui, mas muitas delas não foram vistas por Dona B.

Depois lutar por longos meses contra um câncer de mama e de sobreviver à bomba venenosa que lhe injetaram a cada 21 dias nas veias, Dona B. venceu. Acontece que nem bem tinha ficado de pé, foi atacada sordidamente por uma isquemia gradativa que lhe confundiu as palavras, atrapalhou os passos e jogou-a de cabeça no chão do corredor.

No início da tarde de um sábado de fevereiro, o médico me comunicou que Dona B. havia desaparecido de nossa existência. Meia hora depois ele afirmava que as tentativas de reanimá-la tinham sido bem sucedidas e que eles ainda lutavam. Nesse momento vácuo, entre o nada e a possibilidade do talvez, eu vi abrir uma porta.

Quando nova, Dona B. cuidou por quase dez anos de um senhor doente, que permaneceu em coma durante todo esse período. Em todos esses anos, ela deve ter me levado lá umas três ou quatro vezes. Lembro bem de como ela falava, nunca na presença dele, de como era difícil aquela situação. Lembro também de um episódio específico: certa vez, um dos netos, que cresceu vendo aquele homem na cama imóvel, conversando com outras pessoas da família, disse que ‘aquilo não era vida’. No fim da reunião, quando todos já tinham deixado o quarto, Dona B. disse que pela primeira vez, em todo aquele período, o paciente chorou.

Pedi autorização ao médico e fui até ela. Lá, falei, falei e falei (na impossibilidade de uma conversa) como não falei nos últimos dez anos, dez anos em que EU pareci estar em coma diante de Dona B. Ali, ao lado da cama, dos tubos e sondas, pedi a ela que fosse generosa consigo mesma; pedi que tivesse gratidão pela bela vida que viveu. Disse que tinha tristeza em meu coração, mas que todos torciam por ela e que a luta que ela travava ali deveria ser tão somente por ela, para mais ninguém, por mais ninguém. Quem conhecia seus limites era ela.

Apesar do monólogo, o que disse ali remetia a papos longos que tivemos na minha adolescência e que foram rareando ao longo dos anos. Ali, ao lado da cama, não havia mais sentido em falar ‘verdades’; verdades que não fossem agradecer sinceramente pela integridade dela em conduzir a própria vida e a vida desse sujeito que ela ajudou a formar. Os erros, os tropeços, as falhas já não tinham espaço. Meu tempo era curto. Pedi desculpas, disse obrigado e lhe dei um beijo.

Deitei, dormi e acordei minutos depois com a informação de que Dona B., de fato, havia desaparecido. Não estaria ali no dia seguinte, na semana seguinte, nos meses seguintes… De lá pra cá, dias, semanas e meses passaram-se sempre com uma sucessão de acontecimentos encobertos pela névoa da não-presença, inclusive outras perdas, agressivas, silenciosas, burras. Com o tempo isso se dissipa, mas a sensação de que algo está incorreto ainda é forte. Isso é perder. E não saber administrar perdas é continuar perdendo, todos os dias.

Oxalá chegue novamente o tempo em que se possa respirar sem névoas, sem vácuos, sem limbos existenciais. E ganhar. E recomeçar. Amém.