Uma mãe etérea

“Saiba que quando você menos imaginar, eu vou estar vendo ou sabendo o que você está fazendo”.

Hoje é difícil imaginar o que uma frase como essa pode fazer na cabeça de uma criança. Mas era com ela que minha mãe, quase em sempre, ia me visitar na porta do colégio, de surpresa. E nos dias seguintes, na iminência de fazer uma bobagem, eu pensava: “Será que agora ela tá vendo?”

Acho que agora todas as bobagens, de uma maneira geral, já foram feitas. E ela está vendo, mas nem pode fazer mais nada. Acho que isso é parte do pensamento cristão, da culpa, do olhar impiedoso do Criador e por aí vai. Um pouco do que nós ouvimos desde novos, uns mais outros menos.

Sempre fiz questão de dizer que não tinha culpa, de nada. Mesmo que de alguma forma estivesse agarrado lá no medo da mãe rondando os muros da escola. Agora a escola é a vida e, não bastasse o Criador, sempre onipresente como reza o lenga-lenga que ela me obrigava a ouvir nos bancos da igreja aos domingos, agora eu ganho prematuramente uma mãe etérea, que estará em todos os lugares e não está em nenhum, sempre espiando e reprimindo possíveis bobagens.

Que agora, pelo menos, ela tenha o poder maior de impedir os desvios que não tinha quando estava aqui.

Acho que minha mãe, como meu tios Natanair, Lúcia e Nilton, que nem bem acabou de partir resolveu vir buscá-la, foram, talvez, as criaturas que mais se prestaram à tarefa de proporcionar alegria aos moleques que estão grandes aqui hoje: eu, Kátia, Beth, Gordo, Júnior, Tânia, Gleyse, César e Guilherme.

(Era ela que, sozinha, levava a penca de pivetes para o Tivoly Park ou para ver Papai Noel no Maracanã. Em alguns casos, com agregados. Só para citar dois exemplos.)

Nada pode ser mais eficaz na vida de uma pessoa do que o fato dela ser amada. E eu, e nós, fomos muitíssimos amados e paparicados e mimados pela dona Bernadete (ou tia Detinha, pra eles). Não há, na vida (ou na morte), saldo mais positivo que esse.

Ela há de descansar em paz. E amada.

Às cegas


Um bocado de mim treme ainda de paixão atrás de uma porta onde já não mora ninguém, onde eu nunca morei. Nestas águas-furtadas que não conhecestes morava um homem e no corpo dele era a minha morada. Mas eu não sabia. E neste noante já nada posso contra essa ignorância, não tenho como honrar o contrato carnal de habitação que estabelecêramos, às cegas. Imaginas um não-corpo a implorar beijos, saliva, suor e pele? A minha única âncora és tu, amigo sem lugar de perdição. Em ti, fuga das fugas, chama de segurança, fujo da paixão que me arrancou à vida.

E não procuro nenhum dos outros homens que amei, talvez porque nenhum deles tenha podido guardar mais do que o sabor breve do meu corpo. Amavam a novidade do nosso prazer, o meu sorriso, a minha paixão, o que eu tinha para dar.

Tu, sombriamente, amavas o que eu não dava – o ressentimento, a insegurança, a maternidade. Gostavas de me ver falhar, e não era por vaidade ou piedade, como geralmente acontece entre amigos. O meu lado medíocre não lhe excitava os melhores instintos. Amavas simplesmente a minha terra como uma criança ama uma pedra, um bocado de bonecos, um urso sem olhos. É esse amor que agora me falta – o sujo, quotidiano amor dos momentos maus, das frases adversas, das ausências. Fotografas-me em fúria, descabelada, a dormir de boca aberta, a lamber a tampa do iogurte. Ou, tantas vezes, com os olhos inchados de chorar. E eu ficava bem na fotografia.

Tão efêmeras, as cumplicidades radiosas. Encontros de pele, de ideias, de atmosferas, flutuando como nuvens para o paraíso do esquecimento. Acreditava que o sentido da minha vida estava nesses encontros, e conforto-me agora com a falta que tu me fazes. Tu roubas-me o sentido, viciei-me nesse roubo, talvez seja ainda um vício do sentido, o supremo. Nós nunca fomos cúmplices, sabíamos demais um do outro.

Trecho do livro ‘Fazes-me falta’, de Inês Pedrosa.

Um abraço em Moacyr Scliar

* Texto de José Castello | A literatura na poltrona

No ano de 1992, quando eu ainda acreditava que a função do crítico literário fosse a de produzir avaliações, vereditos e sentenças, caiu-me nas mãos Sonhos tropicais, o décimo-segundo romance de Moacyr Scliar. Há muito deixei de ver no crítico um espécie de juiz de peruca, que interroga, absolve, ou condena uma obra. Naquela época, contudo, por insegurança, por teimosia, por medo de errar, ainda insistia em dizer se um livro era bom, ou era ruim.

Não gostei de Sonhos tropicais e, em uma resenha que escrevi para uma revista semanal, disse isso com todas as letras. Baseado na vida do sanitarista Oswald Cruz _ figura central na vida de Scliar, ele próprio um médico sanitarista _, Sonhos tropicais me pareceu um livro temeroso em que seu autor, refém das rigorosas exigências da pesquisa, não conseguiu se dar a liberdade que deveria e merecia se dar.

Hoje não sei se teria a mesma opinião. De fato, não aprecio as biografias romanceadas, gênero que me parece, em geral, preguiçoso e frouxo. Ocorre que Scliar não apresentava seu livro como uma biografia romanceada, mas como um romance _ e foi isso, talvez, o que me incomodou. Talvez, pensei, ele não tivesse se decidido muito bem a respeito do livro que queria escrever. Talvez… mas o que importa! Nunca mais voltei a ler Sonhos tropicais, mas planejo fazer isso em breve, para matar um pouco as saudades do amigo que hoje perdi.

Publicada minha desagradável resenha, pensei: Scliar me odiará para sempre. Não o procurei mais, nem ele me procurou, o que parecia provar a tese da ruptura. Quase um ano depois, porém, caminhava eu pela Rua da Praia, em Porto Alegre, quando o avistei de longe. Vinha em minha direção. Pensei em mudar de caminho, mas o correto era seguir em frente e enfrentá-lo, e foi o que fiz.

“Precisamos nos falar por dois minutos”, ele me disse, sem disfarçar a ansiedade. Pensei: “Pronto: chegou a hora de ouvir o que mereço ouvir”. Não me deixou pensar, foi rápido: “Por que não tomamos um café?” Aceitei; eu não tinha escolha. Na esquina, nos perfilamos diante do balcão de uma confeitaria. Durante um ou dois minutos, nem eu, nem Scliar conseguíamos dizer qualquer coisa. Até que ele, num desafogo, me disse: “Você sabe no que estou pensando”. Não podia negar que sabia: “É claro, no livro do Oswaldo Cruz”.

Admitiu, então, que, ao ler minha resenha, ficara furioso. Mais ainda, ficara decepcionado, pois nela sentira a ponta secreta de uma traição. Durante alguns dias, recordou ainda, ensaiou respostas incisivas que me daria em um telefonema. Aos pouco, contudo, a dor abrandou e, me disse Scliar já com um esboço de sorriso, ele conseguiu enfim a pensar.

Não adoçou as palavras: “Quero lhe dizer que você tem toda razão no que escreveu”. Abriu, então, um sorriso vasto e longo, de alívio, mas também de gratidão. Enfim, continuou: “Depois que a raiva passou e que controlei a vaidade, consegui enfim aceitar o que você me dizia”. Nos dias seguintes, refletiu sobre seu caminho literário, lutou para se observar desde fora. Quanto a mim, estava imobilizado. Cedesse à vaidade, e passaria a acreditar, enfim, que era um “grande crítico”. Quanta tolice! Minha resenha era não só pequena, mas despretenciosa. Limitei-me a esboçar uma impressão muito breve. Forte era Scliar que, machucado por minhas palavras, soube, ainda assim, lhes emprestar uma grandeza que não tinham.

Vitória do leitor: são os leitores, no fim das contas, que fazem os grandes livros. Era só nisso, na verdade, que eu conseguia pensar. Se ainda tinha dúvidas a respeito do destino de nossa conversa, elas se dissiparam quando Scliar me disse: “Deixe eu lhe dar um abraço. De agradecimento. Agradecer pela sua coragem, e lhe dizer que você me obrigou a ser corajoso também”. É com dificuldades que recordo as palavras que trocamos. Não só porque muitos anos se passaram, mas também porque estávamos, ambos, engolfados pela emoção. Em silêncio, nos abraçamos _ e aquele abraço foi mais eloquente que qualquer palavra. Guardava uma força crítica que, em minhas resenhas literárias, jamais consegui. Não era uma crítica para me destruir, era uma crítica para me acolher. Era para dizer: “Podemos divergir e, apesar disso, caminhar juntos”.

Não que, quando escrevi minha resenha de Sonhos tropicais, eu tenha desejado destruir a reputação de Scliar _ tarefa, aliás, em que eu teria sido derrotado. Ao contrário: julguei que, ao escrever, apenas me submetia às exigências da verdade _ e Scliar foi grande o bastante para entender isso. Existem, porém, muitas maneiras de dizer uma mesma coisa. Só um coração corajoso como o de Scliar suportaria meus restos de imaturidade (aos 40 anos!) e meus atropelos.

“Você tira um elefante de minhas costas”, consegui, enfim, dizer. “Eu sempre me perguntei se tinha sido cruel. Se errara não só no que pensava, mas na maneira de dizer o que pensava”. Nesse momento, o médico Scliar se impôs ao escritor Scliar. Ele me interrompeu: “A verdade é sempre dolorosa, mas precisa ser dita”. Desde então, uma amizade muito funda, sincera, um forte laço de confiança, nos ligou. Nunca fomos amigos íntimos, mas nos tornamos amigos intensos.

Encontrei-o, pela última vez, em dezembro, na Bienal do Livro de Campos, onde chegamos escoltados por Suzana Vargas. Logo percebi o cansaço imenso que carregava. “Soube que ainda temos um jantar pela frente”, ele me disse. “Não sei se conseguirei ficar até muito tarde”. Fui rápido, talvez até ríspido: “Você não vai a jantar algum, meu amigo. Vai direto para o hotel, pedirá um lanche no quarto e irá para a cama”. Abraçou-me em outro imenso silêncio. Os abraços silenciosos são os mais belos: eles simplesmente nos acolhem, sem nada exigir em troca, e sem nos impor significado algum.

Não resisti e lhe dei um beijo no rosto. Senti que levou um susto, porque se empertigou um pouco, como se fosse fazer uma continência. Depois percebi que tinha a face vermelha e dela arrancou, com força, um sorriso. A que correspondi sorrindo também. Achei que nos reveríamos logo, em alguma outra bienal, ou feira literária. Mas não: era um sorriso de adeus.

Obrigado, Scliar, por me levar a entender a insignificância de minhas pequenas opiniões. Obrigado, também , por me ensinar que a grandeza é a falência da vaidade. Nossa amizade nasceu de um desencontro. Como somos misteriosos! Vá se entender os homens! Até hoje sinto o calor de seu abraço e é só isso o que interessa.

Enforcados

“Vamos enforcar/ mil poetas/ e fazer das pracinhas/ masmorras/ vamos fazer juntinhos/ algo que não se perdoa.”

O trecho acima faz parte do poema ‘O mundo que a gente destruiu com o maior carinho’, que integra o novo livro de André Dahmer, ‘Ninguém muda ninguém’ (Ed. Flâneur).

Como mostrou a matéria de André Miranda, publicada no Globo desta terça-feira, dia 02, a curiosidade fica por conta de que o livro terá, inicipalmente, apenas 600 exemplares com capas exclusivas, feitas à mão pelo próprio autor (como esta ao lado).

A ideia, explica Dahmer, surgiu após o cartunista argentino Liniers lançar o livro “Macanudo 6”, com cinco mil capas distintas feitas à mão.

– Eu pensei: se ele consegue fazer alguns milhares, acho que consigo fazer algumas centenas – disse ao Globo.

O resultado é que Dahmer continua trabalhando para conseguir dar conta do desafio que lhe impôs. E o tempo é curto, já que o lançamento está previsto para o próximo dia 10, no Boteco Salvação, em Botafogo, Zona Sul do Rio.

Em ‘Ninguém muda ninguém’, o cartunista de 36 anos reúne desenhos, pinturas, fotografias, cartas e poemas produzidos nas últimas três décadas. Se você quer seu exemplar exclusivo, anote na agenda.

Abaixo, André Dahmer desenha uma das capas de ‘Ninguém muda ninguém’.

Indignação

"Eu voto no Serra e acho que teve armação, porque quem vota na Dilma são as pessoas de classe baixa. E grande parte dessas pessoas não viaja. Enquanto que os que votam no Serra estão se divertindo por todo o Brasil, né?", analisou o engenheiro Jadiel Beigo, 25 (à esquerda) -- Foto: Shin Shikuma/UOL

Espera aí… Deixa eu ver que entendi direito: o engenheiro Jadiel votaria no Serra, mas viajou no feriado prolongado. Ele viajou e acha que houve armação para ele viajar e ‘se divertir’, enquanto o país ia às urnas?

Ele acredita que os eleitores do Serra estão se divertindo em todo o país (ele inclusive) e está indignado com isso?

É isso mesmo?

O Jadiel acha, também, que os pobres fodidos que ficaram em casa, e elegeram a Dilma, fizeram merda e são parte da armação?

Então, é uma indignação dupla? Certo?

Boa sorte na volta do feriado, Jadiel.