Sussurros

Agora tem que todas as noites, ou quase todas as noites, ou pelo menos aquelas em que os silêncios são mais rascantes que os ruídos, eu tenho ouvido gritos. São gritos de alguém que sofre e sente dores constantes. Parece um “aaaaaiiii” de quem espera uma solução, de quem pede ajuda, dezenas de vezes, até cansar, até ser sugada pelo sono e despertada dele novamente pela dor.

Na primeira noite acordei certo que os gritos vinham dos meus sonhos; na segunda noite, sonhei que gritavam pra mim, comigo. Há dias já não sonho, mas os gritos continuam.

Há meses moro ao lado de dois hospitais e nunca havia sido importunado sequer pelo soar das ambulâncias. Agora, nesse quase início de inverno, quando nem as árvores se mexem e os sons são mínimos, os tais gritos decidem vir bater na minha janela.

E, noite sim, noite não, cá estou eu criando estratagemas para burlar a agonia de alguém que não sei quem é, não sei o nome, idade, nada. Sei só ser uma mulher. E só suponho estar em um dos hospitais vizinhos.

Por vezes deixo a TV ligada, por vezes o ventilador, mas o que tem abafado os gritos mais constantemente é a repetição incessante, no celular, de “Well-Tempered Clavier, Book 1 – Prelude & Fugue #1 in C”, de Bach. Alto o suficiente para mascarar o tormento; baixo o bastante para me deixar dormir…

‘Quero acabar de viver o que me cabe’

‘O Amor’
Vladimir Maiakovski

Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça numa alameda do zoo, sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.

Ela é tão bela, que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século ultrapassará o exame
de mil nadas, que dilaceravam o coração.

Então,
de todo amor não terminado
seremos pagos
em enumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava

como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
Ressuscita-me,

nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos, concupiscência, salários.

Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,

que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:

– Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.
Para viver livre dos nichos das casa.
Para que doravante a família seja o pai,
pelo menos o Universo;
a mãe, pelo menos a Terra.

(1923)
(Tradução de Haroldo de Campos)

Como se nunca houvera sido

Lembrei da história ontem e já não sei onde e quando ouvi, nem mesmo se os ingredientes estão corretos. Mas estou quase certo que foi contada pela própria Adriana.

Homem embrenhado das solas dos pés aos cachos dos cabelos com o que se fez de relevante na música popular brasileira das décadas de 60 a 90, o poeta Wally Salomão em dado momento acreditou que poderia desvincular-se das canções.

O período coincidiu com a produção do terceiro álbum de Adriana Calcanhotto. Quando, no processo de escolha de repertório, a cantora pediu uma música para o novo disco, Wally, irritadiço, deu-se à tarefa de elaborar um ‘poema imusicável’. Depois de alguns dias, enviou algo.

– Tome aí. Veja o que você consegue fazer – disse Wally, em tom desafiador.

O resultado está abaixo.

* * * * *

A fábrica do poema
(Adriana Calcanhotto, Waly Salomão)

Sonho o poema de arquitetura ideal
Cuja própria nata de cimento
Encaixa palavra por palavra, tornei-me perito em extrair
Faíscas das britas e leite das pedras.
Acordo!
E o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo.
Acordo!
O prédio, pedra e cal, esvoaça
Como um leve papel solto à mercê do vendo e evola-se,
Cinza de um corpo esvaído de qualquer sentido
Acordo, e o poema-miragem se desfaz
Desconstruído como se nunca houvera sido.
Acordo!

Os olhos chumbados pelo mingau das almas
E os ouvidos moucos,
Assim é que saio dos sucessivos sonos:
Vão-se os anéis de fumo de ópio
E ficam-me os dedos estarrecidos.
Metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros
Sumidos no sorvedouro.
Não deve adiantar grande coisa permanecer à espreita
No topo fantasma da torre de vigia
Nem a simulação de se afundar no sono.
Nem dormir deveras.
Pois a questão-chave é:
Sob que máscara retornará o recalcado?

Gritos e sussuros

Just Breathe

Yes, I understand that every life must end, uh-huh
As we sit alone, I know someday we must go, uh-huh
Oh I’m a lucky man, to count on both hands the ones I love
Some folks just have one, yeah, others, they’ve got none

Stay with me…
Let’s just breathe…

Practiced all my sins, never gonna let me win, uh-huh
Under everything, just another human being, uh-huh
I don’t wanna hurt, there’s so much in this world to make me bleed…

eu também grito

Assisti somente ontem ao documentário ‘Jards Macalé – Um morcego na porta principal’, que ganhei de presente de aniversário há quase dois meses.

Não sei o por quê da demora, nem a razão de não ter visto o filme de Marco Abujanra e João Pimentel no cinema. Mas entre os muitos bons momentos do doc, destaco um trecho com um vídeo do poeta Wally Salomão recitando ‘Poema Jet Legged’, com Gal Costa cantando ‘Vapor barato’ ao fundo*.

É preciso estar bem de espírito para ver isso. Ainda assim, por mais acachapante que seja o que o poeta grita ali (e o que a cantora berra ao fundo), não há como a tristeza não ser balançada por uma euforia nervosa. Chamar de ‘sentimento contraditório’ é deixar algo indefinido.

Fôlego.

_ _ _

Poema Jet Legged

Viajar para que e para onde,
se a gente se torna mais infeliz
quando retorna?
Infeliz e vazio, situações
e lugares desaparecidos no ralo,
ruas e rios confundidos, muralhas, capelas,
panóplias, paisagens, quadros,
duties frees e shoppings…

Grande pássaro de rota internacional sugado
pelas turbinas do jato.

E ponte, funicular, teleférico, catacumbas
do clube do vinho, sorbets, jerez, scanners,
hidrantes, magasin d’images et de signes,
seven types of ambiguity, todas as coisas
perdem as vírgulas que as separam
explode-implode um vagão lotado de conectivos
o céu violeta genciana refletido
na agulha do arranha-céu de vidro

Mas ficar para que e para onde,
se não há remédio, xarope ou elixir,
se o pé não encontra chão onde pousar,
embora calçado no topatudo inglês
do Dr. Martens

(Wally Salomão)

*(a qualidade precária do vídeo deve-se ao fato de eu ter filmado a tela do computador)