sessão de terapia: ivan martins

não é exatamente uma parceria, mas bem que poderia. e seria inovadora. a revista época online e o canal de tv a cabo gnt estão, respectivamente, publicando e transmitindo conteúdos muito parecidos. eles tratam de coisas da alma, reflexões, questionamentos, dúvidas comuns a todos, e isso inclui eu e você.

a coluna do jornalista ivan martins, publicada semanalmente no site da revista, reúne um apanhado de emoções comuns até ao mais banal dos relacionamentos. emoções essas que em geral nos envolvem os tornozelos feito cipós e nos puxam ladeira abaixo. ivan escreve muito bem; é bom ler seus textos e ainda mais fácil identificar-se com eles, mas o resultado é danoso. as escoriações são internas, como hemorragias.

no início de outubro o gnt estreou a série ‘sessão de terapia’, dirigida por selton mello, e que também trata de dúvidas, questionamentos, reflexões e de coisas da alma comuns a nós. a série mostra de segunda a quinta-feira um psicanalista em combate diário com seus analisados – cada dia um. na sexta-feira, moído, é o dia do terapeuta ocupar o divã de sua analista.

as histórias se juntam quando entendemos que, não fosse um personagem real, como eu, você e tantos outros que ele cita em seus textos, ivan poderia ocupar uma das poltronas de ‘sessão de terapia’. mais como analista que analisado. da mesma forma, theo (o analista da série) poderia, por exemplo, cobrir as férias de ivan na revista – óbvio, não fosse ele, por sua vez, um ser ficcional.

tão bom quanto ler os textos de ivan é assistir a batalha dos ‘pacientes’ de teo para conseguirem verbalizar o que já sabem, mas não entendem. curioso que são dificuldades em que expectadores da série e leitores de ivan se reconhecem: “aquela fala poderia ser minha”; “ela age assim também”; “esse cara parece que me conhece”.

mas por que é bom ler ou assistir isso? por que é bom esperarmos por uma análise cruel e semanal de nossas perdas? por que o outro precisa dizer que erramos, de novo, e que é muito provável que cometeremos os mesmos (não novos) erros novamente. nenhum de nós quer morar em abismos profundos pra sempre, ninguém quer viver insone noite após noite e ter de encontrar forças em espaços vácuos quando o dia, enfim, resolve surgir.

pois são desses anzóis que falam júlia, breno, nina, joão, ana, theo e dora, todos personagens de ‘sessão de terapia’, mas que bem poderiam estar nas colunas semanais de ivan. a mulher que após cinco anos de tratamento para engravidar tem dúvidas sobre abortar o filho; o atirador de elite que matou o traficante ‘mais procurado’, mas levou junto uma criança inocente. escolhas, enfim.

o estresse desnecessário, a resposta torta, o pedido de desculpas não feito são algumas pequenas escolhas diárias, recorrentes e banais, que acabam nos empurrando para lados ruins, caminhos que não deveriam ser trilhados. e quando temos uma outra oportunidade, quando podemos rever atitudes e ‘fazer diferente dessa vez’, para onde vamos? escolhemos o caminho mais fácil: o mesmo, o já conhecido.

assistir tv e ler colunas é mais fácil que fazer escolhas, que tomar decisões. talvez, no fundo de nosso abismo cotidiano, queremos que nossas angústias sejam curadas ali no consultório da ficção, esperamos que o terapeuta olhe para câmera, nos enxergue do outro lado, e diga algo como: “você está certo”. mas não é o que acontece. nem na ficção.

nos resta apenas crescer. e esperar o próximo episódio ou coluna.

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Mandrake

Trecho da matéria de Roberta Pennafort para O Estado de S.Paulo

Quando vestiu pela primeira vez o terno de Mandrake, o advogado criminalista sedutor, obsessivo e astuto saído dos livros de Rubem Fonseca, Marcos Palmeira ganhou fios brancos na sala de maquiagem. Sete anos, duas novelas, uma peça, seis filmes e uma filha depois, o ator volta a Mandrake já mais grisalho, ainda que não aparente ter 48 anos.

De janeiro e até março – inclusive no carnaval -, sob o sol cruel de verão e a direção de Zé Henrique Fonseca, filho do escritor e idealizador do projeto, ele grava Mandrake, o telefilme, que será exibido em duas partes na HBO, emissora que produziu os treze episódios da série em 2005 e em 2007. A estreia deve ser no segundo semestre.

A equipe é a mesma, a qualidade da imagem é de cinema (era película, agora é digital). Mandrake é que aparece com novos conflitos, reflexivo, com a autoestima e a credibilidade em baixa – e um caso nada fácil para frente, que envolve adultério e assassinatos. As locações são carioquíssimas, como ele: a praia, o centro antigo, a região dos inferninhos de Copacabana.

Foi na segunda-feira, dia em que os termômetros chegaram a apontar 41 graus, que o Estado acompanhou a gravação. O cenário era a mansão na Barra da Tijuca escolhida para ser a casa de João Paulo Birman, o ricaço vivido por Carlos Alberto Riccelli que é o cliente da vez. É Mandrake mais uma vez nas altas rodas, assim como na Avenida Prado Junior das prostitutas e dos cafetões.

Zé Henrique, que sempre teve o apoio do pai na empreitada (“ele assiste, comenta, acha que o Marquinhos faz muito bem e não reclama de nada”), escreveu os primeiros episódios com base nas peripécias de Mandrake em livros como Lúcia McCartney (1967) e A Grande Arte (1983), e em Mandrake, a Bíblia e a Bengala (2005). Depois passou a criar histórias originais.

A do filme foi encomendada há seis meses pela HBO, que agora banca a produção (em parceria com a produtora de Zé, a Goritzia), tamanho foi o sucesso da série, que concorreu duas vezes ao Emmy. “Eu estava doido para que essa volta acontecesse. Marquinhos faz o personagem até dormindo, já tem o tom”, diz o diretor, que vislumbra a retomada da série.

A HBO não confirma. Em janeiro, foram disponibilizadas para locação as duas temporadas; em junho, os DVDs chegam às lojas para venda.

Tudo era bom ali

Curioso que o cara que tenha, por tantos anos, alegrado a vida de um bando de moleques e meninas vestido de Papai Noel (e distribuído uma infinidade de brinquedos bacanas), tenha ‘escolhido’ justo dezembro para partir.

Ainda assim, Natal sempre estará associado às festas na casa fodona que todo mundo queria morar, naquela rua barrenta. Já seria demais, se ainda não fossem os rolês no kart amarelo, os passeios de Jipe, de Landau, de Dodge Dart, as voltas no Puma lotado de moleques se achando o Michael Jackson, o Opalão emprestado para as voltas na pracinha, os discos-formação do Rei Roberto Carlos dados de presente, os grandes bolos confeitados e, por tabela, as aulas ‘abre-cabeça’ de matemática. Grandes momentos, seu Nilton, grandes lembranças…

Valeu, Tarzan!

O filho de Luiza Mahin

por Zeca Borges

Dia da Consciência Negra, 20 de novembro, uma homenagem a Zumbi dos Palmares, morto pelos paulistas, uma gente estranha naquele tempo, que nem português falava direito. Eram pardos. Descendentes de tupiniquins, acabariam desbravando e conquistando o país. Nem sempre se deram bem. Levaram uma corrida dos reinóis nas Geraes. Mas hoje em dia fazem o que bem entendem com o país.

É de um grande paulista, nascido na Bahia, que o dia de Zumbi me faz lembrar: Luiz Gama, um negro, que como Zumbi, tinha conhecimento das letras. Zumbi aprendeu Português e Latim ainda criança, desde cedo teve boa formação. Luiz Gama, bem mais tarde: foi alfabetizado aos 17 anos. Fugiu aos 18. Assentou praça na Força Pública de São Paulo em 1848. E ali teve acesso a uma rica biblioteca, de seu protetor e mestre, o conselheiro Furtado. Ele mesmo nos relata: ”o exmo. sr. Conselheiro Furtado, por nímia indulgência, acolheu benigno, em seu gabinete, um soldado de pele negra, que solicitava ansioso os primeiros lampejos da instrução primária. Ao entrar nesse gabinete, consigo levava ignorância e vontade inabalável de instruir-se.”

Quando ouço falar de grandes vultos brasileiros, não encontro nenhum que se compare ao advogado (rábula) Luiz Gama, filho de uma quitandeira em Salvador, Luiza Mahim, nagô livre e sempre envolvida nas diversas rebeliões locais. Há um tempo a revista Época fez uma pesquisa entre seus leitores sobre qual o maior dos brasileiros. Rui Barbosa foi o escolhido. Baiano por baiano, sou mais o filho de Luiza Mahim. Rui concordaria comigo, conhecia e admirava Gama. Não sei se houve leitores que votaram em Zumbi. Mas o meu voto foi para Luiz Gama, não só o maior dos brasileiros, como também o mais corajoso. E herói, não mártir. Vitorioso e reverenciado em vida. Temido pelos inimigos da liberdade. Seu enterro foi o mais emocionante acontecimento da história de São Paulo. Um dia vocês verão isso em uma minissérie da Globo, e, aí, vão acreditar.

Nem em São Paulo ele hoje é reconhecido. Num artigo em que comenta o desrespeito às leis contra o tráfico negreiro pelo Império Brasileiro, Marcelo Coelho perdeu uma boa oportunidade de citar Luiz Gama, que libertou centenas e centenas de escravos com base nessas leis. Todos haviam chegado ao Brasil após a proibição. Também Boris Fausto, em outro artigo na Folha de SP, fez comentários sobre o Conselho de Estado e sobre um parecer de Pimenta Bueno que tratava da condição dos escravos perante a constituição brasileira de sua época (cerca de 1860). Seria oportuno também citar Luiz Gama, que em um longo artigo – “Questão Jurídica”, em 18 de outubro de 1880, em A Província de São Paulo – relata e praticamente esgota o assunto das tentativas de interpretação dos escravocratas a respeito da lei de 7 de novembro de 1831 (“para inglês ver”), e onde bate pesado no então conselheiro Nabuco de Araújo (pai de Joaquim Nabuco).

Duas citações deste grande herói brasileiro bastam para fazê-lo o maior de todos:
“O escravo que mata o senhor, seja em que circunstância for, mata sempre em legítima defesa” – Tribunal do Júri de Araraquara (o presidente do júri se viu obrigado a suspender a sessão, devido ao tumulto provocado).
“O Brasil americano e as terras do Cruzeiro sem rei e sem escravos” – São Paulo, 2 de dezembro de 1869, dia do aniversário de D. Pedro II.

* * *

Decidi compartilhar aqui no Café Escuro o texto de Zeca Borges, coordenador do Disque-Denúncia, em homenagem ao Dia da Consciência Negra, comemorado neste 20 de novembro.

“OK, vamos lá”

Um dia após as forças de segurança do Estado tomarem a favela da Rocinha, lembrei de uma história acontecida em 2004 na comunidade, na época controlada por outro “bandido mais procurado do Estado”. De lá para cá, outros bandidos “número 1” surgiram e sumiram do mapa. Acredita-se que, na Rocinha, essa sequência de algozes tenha chegado ao fim na madrugada deste domingo, 13 de novembro de 2011.

Alguns meses depois daquele episódio, contei essa história em um email para um grupo de amigos. Email esse que eu recuperei e colo abaixo. Hoje ele certamente tem uma graça que eu não vi naquele dia.

* * *

Favela da Rocinha / Foto: Moskow - 2005

De: Jaime Filho
Enviada em: terça-feira, 15 de março de 2005 13:46
Para: Stafff
Assunto: [stafff] …mas o Chacrinha continua balançando a pança

O Bope (Batalhão de Operações Especiais) tinha subido a Rocinha no dia anterior e barbarizado. Aquilo que todo mundo já sabia e repetia: tapa na cara de morador, entram nas casas, mandam fazer suquinho e tal, mas vagabundo mesmo não pegam.

Estavam atrás do Lulu, chefe do tráfico na favela. Na “troca de tiros” com a bandidagem (a desculpa é sempre essa – quem troca tiro não atira em caixa d’água) perfuraram meia favela.

Dia seguinte estavam lá os “reporti” pra registrar tudo. O presidente de uma das associações perguntou se queríamos ver o local que “tinha virado peneira” com os fuzis do Bope (que também poderiam ser do tráfico). Breve silêncio. Enfim, um “OK, vamos lá”. Foram equipes de quatro veículos.

Sobe, sobe, sobe, no meio da favela ele parou numa praça e disse: “É aqui. Olha ali, olha ali, olha ali. E tudo destruído, furado. Aí fomos fazendo o caminho que teoricamente os caras teriam feito. A ‘rua’ vai estreitando até virar um beco de, no máximo, 80 centímetros de largura. Barracos de dois, três, quatro pavimentos, deixando tudo ainda mais claustrofóbico. Várias fotos dos buracos, closes e tal, até que um fotógrafo do JB, mirando uma perfuração de bala pegou, lá trás, um cara do bicho no fundo.

– ME PEGARAM, ME PEGARAM. CARALHO, ME PEGARAM! – gritava o traficante, acreditando ter sido fotografado.

Do beco transversal onde ele estava encostado, observando o movimento, saíram mais de 12 cabeças (exibindo armamento de soldado americano no Iraque) atrás da bendita câmera. Pânico nível vermelho, daquele que te transforma numa estátua de sal.

Alheia a toda gritaria e armamento pesado, a fotógrafa que estava comigo (ótima fotógrafa, mas míope) continuava fotografando as perfurações de bala como se estivesse fotografando borboletas. Universo paralelo.

Eu, que não movia um músculo, consegui pedir, com um fio de voz:

– Kita, por favor, chega de fotos. Dá um tempinho, por favor.
– O que houve?
– Olha prali Kita. A gente tá fudido

(Pense em um beco minúsculo e quase vinte homens armados gritando coisas como: “Acabou. Ninguém sai daqui hoje. Leva lá pra cima”, e coisas do tipo)

Depois de o fotógrafo convencer que não tinha pego o malaco no clic, o presidente da associação conseguiu acalmar a rapaziada e tirar a gente da cova já quase fechada.

Nos arrastamos para fora do beco e quando estávamos quase lá fora, o suposto fotografado gritou:

– Ei, ei! Quer tirar foto? Tira daqui, ó. (Nesse momento ele vem em nossa direção, levantando a camiseta e mostrando duas pistolas na cintura. Para, cruza os braços com as duas armas em punho e faz pose). Quem teve forças agradeceu e disse: – Não, obrigado.

Muita calça imprestável, naquele dia, foi pro lixo.

Honrados mafiosos

PARTE I

O DESAPARECIMENTO

Os porteiros de Nova York sabem que uma pessoa pode ver demais e por isso a maioria deles adquiriu uma extraordinária capacidade de visão seletiva: sabem o que devem ver e o que ignorar, quando é conveniente ser bisbilhoteiro ou, ao contrário, displicente; se ocorrem acidentes ou discussões bem na frente de seus edifícios, a maior parte das vezes estão lá dentro e nada veem; e, quando ladrões fogem pelo saguão, quase sempre estão procurando um táxi para alguém. Um porteiro pode desaprovar suborno ou adultério, mas, ainda assim, está invariavelmente de costas quando o síndico passa uma propina ao fiscal do Corpo de Bombeiros, ou quando um morador cuja mulher está fora entra com uma moça no elevador. Não pretendo com isso acusar os porteiros de hipocrisia ou covardia, mas tão somente dar a entender que eles sabem perfeitamente, por instinto, que é bem melhor não se meter, e conjecturar que talvez eles tenham aprendido, pela experiência, que a pessoa não ganha nada por ser testemunha ocular das coisas feias da vida ou das loucuras da cidade. Sendo assim, não é de estranhar que na noite em que Joseph Bonanno, um dos chefes da Máfia em Nova York, foi agarrado por dois capangas diante de um luxuoso edifício de apartamentos na Park Avenue, perto da rua 36, pouco depois da meia-noite de uma chuvosa terça-feira de outubro, o porteiro estivesse conversando com o ascensorista no saguão e nada tivesse visto.

Tudo aconteceu com incrível rapidez. Voltando de um restaurante, Bonanno desceu de um táxi depois de seu advogado, William P. Maloney, que saiu correndo na frente, sob a chuva, para resguardar-se embaixo do toldo. Nesse momento, os pistoleiros surgiram da escuridão, puxando Bonanno pelos braços em direção a um automóvel. Bonanno tentou se livrar, mas não conseguiu. Encarou os homens, furioso e perplexo — desde o tempo da Lei Seca não era tratado com tanta brutalidade, e daquela vez quem o maltratara fora a polícia, porque ele se recusara a responder a certas perguntas. Desta vez estava sendo brutalizado por homens de seu próprio mundo, dois grandalhões de sobretudo e chapéu preto, um dos quais lhe disse: “Vamos, Joe, meu chefe quer ver você”.

Bonanno, um homem vistoso e grisalho, de 59 anos, nada respondeu. Saíra naquela noite sem guarda-costas e desarmado, e mesmo que a avenida estivesse cheia de gente não teria pedido socorro, pois considerava aquilo um assunto pessoal. Tentou recuperar a dignidade, pensar com clareza enquanto os homens o conduziam pela calçada, os braços já dormentes por causa da força com que os apertavam. Tremia sob a chuva fria e o vento, sentindo-a penetrar através do terno de seda cinza, e nada enxergava na neblina que tomava conta da Park Avenue, exceto as lanternas de seu táxi, que desaparecia na direção do Central Park, nem nada ouvia além da respiração ofegante dos homens que o puxavam. De repente, às suas costas, Bonanno escutou os passos rápidos e a voz de Maloney, que gritava: “Ei, que diabo está acontecendo?”.

Um dos pistoleiros virou-se e avisou: “Deixe para lá, volte!”. “Vão embora”, respondeu Maloney, ainda correndo. Era um homem de sessenta anos, de cabelos brancos, e agitava os braços. “Ele é meu cliente!”

Uma bala de automática foi disparada para o chão, perto de Maloney. O advogado parou, recuou e por fim escondeu-se na entrada de seu edifício. Os homens empurraram Bonanno para dentro de um sedã bege estacionado na esquina da rua 36, com o motor ligado. Bonanno deitou-se no chão, como lhe havia sido ordenado, e o carro partiu em direção à avenida Lexington. Foi então que o porteiro foi ter com Maloney na calçada, chegando tarde demais para ver qualquer coisa. Posteriormente declarou que não tinha escutado tiro nenhum.

* * *

Bill Bonanno, um homem alto e corpulento de 31 anos, cujo cabelo escuro cortado à escovinha e a camisa de colarinho abotoado indicavam o universitário que ele fora na década de 1950, mas com um bigode recém-cultivado para ajudar a ocultar sua identidade, estava num apartamento escassamente mobiliado do Queens. Escutou com atenção a campainha do telefone. Mas não atendeu.

O telefone tocou mais três vezes, parou, tocou novamente e parou. Era o código de Labruzzo. Ele devia estar numa cabine telefônica, dando sinal de que retornara ao apartamento. Ao chegar ao edifício, Labruzzo repetiria o sinal na campainha do saguão e o jovem Bonanno apertaria outra campainha para soltar a tranca da porta. Depois Bonanno esperaria, de arma em punho, olhando pelo olho mágico para ter certeza de que era Labruzzo quem saía do elevador. O apartamento mobiliado que os dois homens dividiam ficava no último andar de um edifício de tijolinhos num bairro de classe média e, como a porta do apartamento dava para o fim do corredor, podiam observar todos os que entravam e saíam do único elevador, sem ascensorista.

Essas precauções estavam sendo tomadas não somente por Bill Bonanno e Frank Labruzzo, mas também por dezenas de outros membros da organização de Joseph Bonanno, que durante as últimas semanas vinham se escondendo em apartamentos semelhantes no Queens, no Brooklyn e no Bronx. Era uma época de tensão para todos eles. Sabiam que a qualquer momento poderia ocorrer um confronto com quadrilhas rivais, dispostas a matá-los, ou com agentes do governo, que desejavam prendê-los e interrogá-los a respeito dos boatos de vendetas e conspirações violentas que circulavam pelo mundo do crime. O governo havia concluído recentemente, em grande medida com base em informações obtidas através de telefones grampeados e dispositivos eletrônicos, que até mesmo os chefões da Máfia estavam envolvidos nessa dissensão interna, e que Joseph Bonanno, chefe poderoso havia trinta anos, era o pivô da controvérsia. Outros chefes suspeitavam que ele era demasiado ambicioso ou que desejava aumentar — às custas deles, talvez sobre seus cadáveres — a influência que já exercia em várias partes de Nova York, do Canadá e do sudoeste dos Estados Unidos. A recente promoção de seu filho, Bill, ao terceiro posto da hierarquia da organização também era vista com alarme e ceticismo por alguns líderes de outras organizações, bem como por membros da própria organização Bonanno, que reunia cerca de trezentos homens no Brooklyn.

No mundo do crime, Bill Bonanno era visto mais ou menos como um tipo excêntrico, um privilegiado que havia estudado numa escola secundária e numa universidade particulares, cujas atitudes e métodos, embora não deixassem de revelar coragem, tinham alguma coisa do espírito rebelde de um ativista universitário. Parecia impaciente com o sistema, não se impressionando com as maneiras indiretas e a finesse do Velho Mundo que faziam parte da tradição da Máfia. Dizia o que pensava. Não mudava de tom ao se dirigir a um mafioso mais graduado e não perdia a autoconfiança juvenil nem mesmo quando usava o anacrônico dialeto siciliano que aprendera quando menino, com o avô, no Brooklyn. O fato de medir 1,88 metro, pesar mais de noventa quilos e ter uma postura ereta e raciocínio rápido aumentava bastante a impressão que causava com sua presença e conferia substância à alta opinião que fazia de si mesmo — a de que era igual ou melhor que qualquer um dos homens a que estava ligado, com a possível exceção de seu pai. Perto dele, Bill parecia perder um pouco de sua segurança, tornando-se mais calado, hesitante, como se o pai estivesse testando severamente cada uma de suas palavras e pensamentos. Parecia distante e formal em relação ao pai, não tomava mais liberdades do que teria com um estranho. Mas era também atento às necessidades do pai, parecendo ter muito prazer em agradá-lo. Era evidente que o pai lhe infundia muita admiração e respeito e, embora sem dúvida ele o tivesse temido quando criança (e talvez ainda temesse), também o adorava.

Durante as últimas semanas, em nenhum momento ele estivera longe de Joseph Bonanno, mas na noite anterior, sabendo que o pai queria jantar sozinho com seus advogados e dormir no apartamento de Maloney, Bill Bonanno passou uma noite tranquila no apartamento com Labruzzo, vendo televisão, lendo os jornais e esperando uma comunicação. Sem que soubesse exatamente por quê, estava meio nervoso. Talvez uma das razões fosse a matéria que lera no Daily News, segundo a qual a vida para os mafiosos estava cada vez mais perigosa e que o velho Bonanno planejara, pouco tempo atrás, o assassinato de dois chefes rivais, Carlo Gambino e Thomas (Brown Três-Dedos) Lucchese, plano que teria falhado porque um dos pistoleiros traiu Bonanno e avisou uma das vítimas. Mesmo que isso fosse pura invencionice, baseada talvez em conversas captadas pelo fbi entre subalternos da Máfia, Bill estava preocupado com a publicidade dada ao assunto, pois sabia que aquilo poderia intensificar a suspeita que realmente existia entre as várias quadrilhas que controlavam a contravenção (jogos de azar, corretagem de apostas em cavalos, agiotagem, lenocínio, contrabando e venda de proteção). Poderia ainda despertar protestos de políticos, provocar uma vigilância mais rigorosa da polícia e resultar em maior número de intimações dos tribunais.

A intimação judicial era agora mais temida do que anteriormente no mundo da contravenção devido a uma nova lei federal segundo a qual um suspeito teria de depor quando chamado a fazê-lo, desde que o tribunal lhe concedesse imunidade, ou se arriscaria a uma condenação por desacato à justiça. Isso tornava imperativo que os homens da Máfia se mantivessem pouco visíveis para evitar intimações a cada vez que os jornais noticiavam alguma coisa. A nova lei também dificultava que os líderes da Máfia controlassem os passos de seus homens, pois, como tinham de ter muito cuidado, nem sempre estavam onde deveriam estar na hora marcada para cumprir alguma missão; muitas vezes não conseguiam receber, em cabines telefônicas designadas e em horários precisos, comunicações combinadas com seus chefes que desejavam saber como iam as coisas. Numa sociedade secreta em que a precisão era fundamental, o novo problema das comunicações estava acabando com os nervos já tensos de muitos chefes.

Mais progressista do que a maioria das outras “famílias”, devido aos métodos empresariais modernos adotados pelo jovem Bonanno, a organização Bonanno até certo ponto resolvera o problema de comunicação mediante um código de número de toques de campainha e também com a utilização de um serviço de recados telefônicos. A família Bonanno talvez fosse a única a usar esse tipo de serviço. O contrato fora feito em nome de um fictício sr. Baxter, codinome de Bill Bonanno, e estava ligado ao telefone da casa de uma tia solteira de um dos membros da organização, que mal falava inglês e era quase surda. Durante todo o dia vários membros chamavam o serviço e se identificavam por meio de codinomes, deixando mensagens cifradas com as quais confirmavam que estavam bem e que os negócios seguiam normalmente. Uma mensagem com a sigla ibm — “aconselho que você compre mais ibm” — significava que Frank Labruzzo, que já trabalhara para a ibm, estava entrando em contato. Se a mensagem falava em “monge”, identificava outro membro da organização, um homem de cabeça tonsurada que muitas vezes ocultava sua identidade em público usando um hábito de frade. Qualquer referência a “vendedor” indicava um dos capitães de Bonanno que trabalhava também como vendedor de joias, e “flor” designava um pistoleiro cujo pai era florista na Sicília. “Sr. Boyd” era um membro cuja mãe morava na rua Boyd, em Long Island, e uma referência a “charuto” identificava certo membro que estava sempre com um charuto na boca. Joseph Bonanno era conhecido no serviço de recados como “sr. Shepherd”.

Frank Labruzzo tinha saído do apartamento que dividia com Bill Bonanno a fim de ligar para o serviço de recados de um telefone público nas vizinhanças, e também para comprar os vespertinos, para saber se havia acontecido alguma coisa de especial. Como de costume, saiu com seu cão, que ficava com eles no apartamento. Bill Bonanno tinha sugerido que todos os membros da organização que se achavam escondidos tivessem cachorros nos apartamentos. Embora no começo isso lhes tornasse difícil conseguir alojamentos, uma vez que alguns senhorios faziam objeção a animais, mais tarde os homens concordaram que um cão os tornava mais alertas a sons nos corredores, além de ser um companheiro útil quando tinham de sair — um homem com um cachorro despertava poucas suspeitas na rua.

Bonanno e Labruzzo gostavam de cães, o que era uma das muitas coisas que tinham em comum e contribuíam para viverem bem no pequeno apartamento. Frank Labruzzo era um homem calmo e bonachão de 53 anos, um tanto atarracado, que usava óculos e cujo cabelo escuro começava a branquear. Era membro graduado da organização de Joseph Bonanno, de quem era parente afim — a irmã de Labruzzo, Fay, era casada com Joseph Bonanno e mãe de Bill Bonanno; além disso, Labruzzo estava ligado ao sobrinho de uma maneira diferente do pai. Não havia entre os dois nenhuma tensão, nenhum problema de competição, de ciúme. Labruzzo, que não era movido por uma avassaladora ambição pessoal, nem era impetuoso como Joseph Bonanno ou inquieto como o filho, contentava-se com sua posição secundária no mundo, que via como um lugar muito maior do que qualquer um dos dois Bonanno parecia julgar que fosse.

Labruzzo tinha feito curso superior e se dedicara a várias ocupações, nenhuma por muito tempo. Além de trabalhar para a ibm, administrara uma loja, vendera apólices de seguro e fora agente funerário. Em certa época possuíra, em sociedade com Joseph Bonanno, uma agência funerária no Brooklyn, perto do quarteirão onde nascera, no centro de um bairro em que milhares de sicilianos haviam se instalado no começo do século. Fora ali que o velho Bonanno cortejara Fay Labruzzo, filha de um próspero açougueiro que fabricara vinho durante a Lei Seca. O açougueiro orgulhou-se de ter Bonanno como genro, embora a data do casamento, em 1930, tivesse de ser adiada por treze meses devido a uma guerra entre centenas de sicilianos e outros italianos recém-chegados — entre os quais Bonanno — que davam continuidade a desavenças provincianas, transplantadas para os Estados Unidos, mas que tinham origem longínqua nas antigas aldeias montanhesas que só haviam abandonado fisicamente. Esses homens trouxeram para Nova York suas velhas rixas e costumes, suas amizades, medos e suspeitas tradicionais, e não só se consumiam nessas coisas como as transmitiam aos filhos e, às vezes, aos filhos dos filhos. E entre tais herdeiros havia homens como Frank Labruzzo e Bill Bonanno, que, em meados dos anos 1960, uma época de foguetes e viagens espaciais, travavam ainda uma guerra feudal.

Aos dois homens parecia absurdo e extraordinário que nunca tivessem conseguido escapar aos costumes estreitos do mundo de seus pais, tema que haviam discutido durante as muitas horas de confinamento, analisando-o em geral em tons de brincadeira e despreocupação, embora às vezes com tristeza e até amargura. “É, somos vendedores de rodas de carroças”, dissera Bonanno uma vez, suspirando, e Labruzzo concordara: eram homens modernos, mas perdidos no tempo, alimentando velhos rancores. Isso era estranho sobretudo no caso de Bill Bonanno: deixara o Brooklyn ainda muito jovem para estudar em internatos do Arizona, sendo criado fora da família, aprendendo a montar a cavalo e a ferrar gado, saindo com moças louras, filhas de fazendeiros; mais tarde, como estudante na Universidade do Arizona, comandara um pelotão de cadetes do rotc que hasteava a bandeira americana a cada jogo de futebol, antes da execução do hino nacional. O fato de ter subitamente trocado o ambiente universitário pelo precário mundo de seu pai em Nova York devia-se a uma série de bizarras circunstâncias, talvez fora de seu controle, talvez não. Um passo importante para isso fora decerto seu casamento, em 1956, com Rosalie Profaci, uma bela morena de olhos escuros, sobrinha de Joseph Profaci, o importador milionário que era também membro da comissão nacional da Máfia.

Bill Bonanno conheceu Rosalie Profaci quando ela era ainda muito jovem e estudava com a irmã numa escola conventual no estado de Nova York. Naquela época tinha uma namorada no Arizona, uma moça americana descontraída e um tanto rebelde; embora Rosalie fosse atraente, era também recatada e reservada. Os dois encontraram-se muitas vezes, durante os meses de verão e nas férias, em grande parte por causa de seus pais, que eram amigos íntimos e cuja aprovação era expressada de maneiras sutis, sempre que Rosalie e Bill conversavam ou simplesmente sentavam-se um perto do outro em salas com muita gente. Numa grande reunião de família, meses antes do noivado, Joseph Bonanno levou sua filha Catherine, de 21 anos, para um canto e lhe perguntou o que pensava da possibilidade de Bill vir a se casar com Rosalie. Catherine Bonanno, uma moça de espírito independente, pensou um momento e respondeu que pessoalmente gostava muito de Rosalie, mas não julgava que ela fosse a moça indicada para Bill. Faltava-lhe a necessária firmeza de caráter para aceitar Bill como ele era e poderia vir a ser, disse, e estava prestes a dizer mais alguma coisa quando, de repente, sentiu um forte tapa no rosto. Caiu para trás atônita, perplexa, rompeu em lágrimas e saiu correndo. Nunca vira o pai tão furioso, com os olhos fuzilando daquela maneira. Mais tarde ele tentou consolá-la, desculpar-se a seu modo, mas ela se manteve distante durante dias, embora entendesse agora, como não tinha percebido antes, o desejo do pai de que o casamento se realizasse. Era um desejo compartilhado pelo pai e pelo tio de Rosalie. E se concretizaria no ano seguinte, um acontecimento que Catherine Bonanno sempre encararia como um casamento arranjado pelos pais.

*Trecho do primeiro capítulo do livro ‘Honra teu pai’ (Companhia das Letras), do jornalista norte-americano Gay Talese. Lançado em 1971, o livro foi originalmente publicado no Brasil com o título que dá nome a este post: ‘Honrados mafiosos’.