Próximo ao chão a penúltima descoberta…

Nora tem belos dentes e dias difíceis. Semanas contraditórias, com encadeamento de notícias desagradáveis e, por outro lado, uma certa estagnação. Desfez-se do telefone de casa depois que recebeu a terceira ligação, no meio da noite, comunicando-lhe mais uma morte. Sonhar com dentes não é bom, alguém lembrou. Foram muitas mortes nesse mês e tanto. Físicas e filosóficas. Nora dia desses lembrou que há anos não soluça. Lembrança estranha, pensou. Quem vai ficar lembrando quando soluçou pela última vez? Enfim… Quando viu a pele do braço descascando, lembrou que teria de dar fim às cinzas do primo. Em uma floresta na serra, de preferência. Alguém poderia fazer isso por mim, pensou. Alguém poderia fazer uma dezena de coisas por ela, que por anos tem se esmerado em fazer centenas aos outros. Nora abriu os olhos e demorou alguns segundos para se dar conta em qual estação estava. Será que eu passei?, perguntou-se distraída, alto o suficiente para o passageiro ao lado ouvir. Qual a sua?, ele disse, assustando-a. Como?, replicou surpresa. A sua estação. Para saber se você passou ou não, ele insistiu. Ah, não. Eu falei alto sem querer, ela disse. Mas isso não me impede de responder e ajudá-la, falou. Como se ela não respondesse e, um tanto desconcertada, continuasse procurando com os olhos o nome da estação, ele disse: Batista, a próxima. Na ânsia de encerrar a conversa inesperada, agradeceu, caçou os fones de ouvido como se fossem uma caverna portátil e, em poucos segundos, pôs-se de pé. Ele, que estava na ponta do banco, virou-se e deixou-a passar. Enquanto a composição já se deslocava para a estação seguinte, foi a vez dele revirar a mochila atrás de um caderno e escrever algo com letras de forma grandes. Destacou a folha e colocou-a colada ao vidro da composição. Nora e os demais passageiros dentro do vagão ficaram curiosos, mas só se poderia ler o escrito do lado de fora. Não vou ler, prometeu-se Nora, um tanto nervosa e sem saber bem se cumpriria a promessa tola. A estação chegou, as portas se abriram e ela dobrou à esquerda, lado contrário onde estava a janela com o papel que ele insistia manter preso ao vidro. As portas fecharam, alguns passageiros já do lado de fora liam e riam da mensagem. A composição começou a se mover e, logo à frente, Nora havia se sentado esperando passar, talvez a 20 ou 30 quilômetros por hora, o bilhete que sabia ser pra ela. Ela leu, moveu os lábios discretamente, ele sorriu. Ela sabia que ele não havia falado a verdade, mas mentira também não poderia ser. Nora ficou mais um tempo ali, sentada, lembrou de quem era, pensou em quantas Noras morreram e nasceram naquele mês e meio, quase dois. Levantou, cruzou toda a estação pensando no que iria fazer com aquela informação dada por um estranho. Optou pela escada de alvenaria e, antes mesmo de passar a roleta que a levaria até a rua, o bilhete do desconhecido já havia se tornado fato. Dias difíceis ficam mais fáceis com belos dentes à mostra.

‘Quero acabar de viver o que me cabe’

‘O Amor’
Vladimir Maiakovski

Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça numa alameda do zoo, sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.

Ela é tão bela, que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século ultrapassará o exame
de mil nadas, que dilaceravam o coração.

Então,
de todo amor não terminado
seremos pagos
em enumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava

como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
Ressuscita-me,

nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos, concupiscência, salários.

Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,

que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:

– Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.
Para viver livre dos nichos das casa.
Para que doravante a família seja o pai,
pelo menos o Universo;
a mãe, pelo menos a Terra.

(1923)
(Tradução de Haroldo de Campos)

Radicalismos

Paulinho da Viola já havia pedido silêncio para que pudesse escutar ‘um pouco a dor do peito’ em seu clássico Para ver as meninas, de 1971. Mesmo ali, a angústia vinha acompanhada da canção, da música. Portanto, não existia de fato o silêncio ambicionado, desejado.

Nunca há. Ao menos é o que se conclui ao se assistir o teaser do documentário ‘Silêncio’, sobre a vida reclusa de João Mello, dirigido por Cid César e Alberto Bellezia (diretor de fotografia de ‘Santiago’, de João Moreira Salles). Cid, que se define como um “antropologo/sociologo frustado”, e que já havia se embrenhado Mata Atlântica adentro atrás do ‘maluco-beleza’ Guilherme de Souza, o Hemp, agora radicaliza.

silêncio _ teaser versão zero from CCA on Vimeo.

Segundo Cid, ‘Silêncio’ rompe com a tradição documental brasileira: a maldição da entrevista. “Filmamos o silêncio. E o resultado é incrível. Sorte minha contar com uma equipe de fotografia e som tão boa. Fazer cinema com três pessoas é um exercício incrível”, surpreende Cid, que já tinha ousado bastante em Hemp.

Nada nos dois minutos e quarenta e oito segundos de teaser fazem lembrar o nome do filme. É um encadeamento de sons, ruídos, barulhos e toda espécie de atritos sonoros que, contraditoriamente, parecem dar sentido a decisão do protagonista, tomada há 27 anos, de decidir morar em uma caverna, de frente para o mar do Recreio.

“A sociologia do desvio é um assunto que estudo com pouca frequencia. Meu interesse por esses personagens é que eles nos dão grandes lições. O mundo precisa conhecer essas pessoas”, ambiciona o cineasta, dando um caráter de urgência ao que está levando às telas.

Acompanhado do canto dos grilos, do soprar dos ventos, dos matos, do chacoalhar das ondas nas rochas, o silêncio do homem conhecido como silêncio ajuda-nos, de certa forma, e minimamente, a atentar para os males que atingem (e afligem) a sociedade moderna: o excesso de fala, a deficiência de audição.

João Mello fez a opção contrária, radicalmente oposta. Cid César vai pelo mesmo caminho.

Mora na filosofia

Reproduzo abaixo um texto do jornalista Flávio Gomes, publicado em seu blog (http://flaviogomes.warmup.com.br/), sobre a partida de Sócrates. Não sei se concordo muito com a última frase, mas é um belo texto.

* * *

PORRA, DOUTOR

SÃO PAULO – Aí quando eu estava lá embaixo no meio daquele milhão de pessoas pedindo para votar para presidente, o cara sobe lá no palanque, em cima do viaduto, ergue o punho direito, ou o esquerdo, e grita que queria a mesma coisa. Do meu lado, gente de todas as cores e credos ludopédicos erguem seus punhos, também, e aplaudem o cara, que resolveu não jogar na Europa porque queria estar aqui para ver de perto o fim daqueles anos em preto e branco.

Não deu nada certo, não votamos para porra nenhuma, e dias depois, ou semanas, não me peçam para lembrar os quandos e ondes, mas acho que era no Morumbi, e o cara enfia a bica da intermediária, nosso goleiro sem pescoço pula e não pega nada, ele ergue o punho de novo e eu xingo o cara com todas as minhas forças, doutor do caralho, filho da puta, vai tomar no cu.

Antes, Copa do Mundo na Espanha, Brasil versus União Soviética. Estamos lá na zona leste, num puxadinho junto com um monte de gente que eu também não conhecia direito, uma TV com bombril na antena, umas brahmas, gol dele, o empate, se bem me lembro. Abraços e beijos, doutor do caralho, filho da puta, joga demais, vamos, porra.

Depois daquela Copa acho que não torci mais para seleção nenhuma, depois daquela ninguém mais nos representou, talvez em 1986, era um restinho daquela, o cara estava lá de novo, com faixa na cabeça, quatro anos mais velho, mais cabeludo e mais desgostoso, perdeu um pênalti, nem xinguei de doutor do caralho. Já tinha feito muito, tudo bem, entre uma e outra ele tinha ido e voltado da Itália, aí foi jogar no Rio, queria ficar junto do povo, do povo inteiro, jeitão de fim de carreira, mas era médico, ia parar e vestir o jaleco para cuidar do povo, e ele dizia povo com autoridade, sabia bem quem era o povo, e cada um para o seu canto. Eu, que o conhecia da TV, do estádio e do Anhangabaú, para cuidar da minha vidinha besta; ele, para cuidar do povo — no falar, escrever, pensar.

Avança a fita.

Ano passado, um velho e empoeirado e querido pub em Pinheiros, faz frio, as portas já fechadas, o dono não quer nem saber, quem quiser fumar, fume, fumem e bebam antes que o mundo acabe, o amigo tocando violão, a gente ali, tentando entender o que estava acontecendo com nossas vidas, aí ele entra alto, forte, senta, pede um vinho, sorri, canta, sorri, bebe, sorri, fuma, e a gente tira foto com ele, e o mundo é um lugar até aceitável quando a gente vê que tem gente como ele, que jogava bola, que só vencia a timidez diante da multidão falando e tocando de calcanhar, e que sorria, e bebia e fumava.

Sócrates morreu de tanto viver, que é uma boa forma de morrer.

Tudo era bom ali

Curioso que o cara que tenha, por tantos anos, alegrado a vida de um bando de moleques e meninas vestido de Papai Noel (e distribuído uma infinidade de brinquedos bacanas), tenha ‘escolhido’ justo dezembro para partir.

Ainda assim, Natal sempre estará associado às festas na casa fodona que todo mundo queria morar, naquela rua barrenta. Já seria demais, se ainda não fossem os rolês no kart amarelo, os passeios de Jipe, de Landau, de Dodge Dart, as voltas no Puma lotado de moleques se achando o Michael Jackson, o Opalão emprestado para as voltas na pracinha, os discos-formação do Rei Roberto Carlos dados de presente, os grandes bolos confeitados e, por tabela, as aulas ‘abre-cabeça’ de matemática. Grandes momentos, seu Nilton, grandes lembranças…

Valeu, Tarzan!

Como se nunca houvera sido

Lembrei da história ontem e já não sei onde e quando ouvi, nem mesmo se os ingredientes estão corretos. Mas estou quase certo que foi contada pela própria Adriana.

Homem embrenhado das solas dos pés aos cachos dos cabelos com o que se fez de relevante na música popular brasileira das décadas de 60 a 90, o poeta Wally Salomão em dado momento acreditou que poderia desvincular-se das canções.

O período coincidiu com a produção do terceiro álbum de Adriana Calcanhotto. Quando, no processo de escolha de repertório, a cantora pediu uma música para o novo disco, Wally, irritadiço, deu-se à tarefa de elaborar um ‘poema imusicável’. Depois de alguns dias, enviou algo.

– Tome aí. Veja o que você consegue fazer – disse Wally, em tom desafiador.

O resultado está abaixo.

* * * * *

A fábrica do poema
(Adriana Calcanhotto, Waly Salomão)

Sonho o poema de arquitetura ideal
Cuja própria nata de cimento
Encaixa palavra por palavra, tornei-me perito em extrair
Faíscas das britas e leite das pedras.
Acordo!
E o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo.
Acordo!
O prédio, pedra e cal, esvoaça
Como um leve papel solto à mercê do vendo e evola-se,
Cinza de um corpo esvaído de qualquer sentido
Acordo, e o poema-miragem se desfaz
Desconstruído como se nunca houvera sido.
Acordo!

Os olhos chumbados pelo mingau das almas
E os ouvidos moucos,
Assim é que saio dos sucessivos sonos:
Vão-se os anéis de fumo de ópio
E ficam-me os dedos estarrecidos.
Metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros
Sumidos no sorvedouro.
Não deve adiantar grande coisa permanecer à espreita
No topo fantasma da torre de vigia
Nem a simulação de se afundar no sono.
Nem dormir deveras.
Pois a questão-chave é:
Sob que máscara retornará o recalcado?

(des)conto

– Sabe aquele escritor que criou aquele personagem?
– Sei.
– Então… sabe aquela escritora?
– Sei, sei.
– E também tem aquele que começou escrever agora, né?
– É, tem sim.
– Então… se todo mundo bebe naquela fonte, por que eu que sou filho, não posso?

O diálogo acima, em tom de deboche, foi travado com o escritor e fotógrafo Zeca Fonseca, em meados dos anos 2000. Ele falava sobre as possíveis comparações de seu primeiro livro, na época ainda em produção, com o trabalho de seu pai, Rubem Fonseca – um dos maiores contistas do país.

Pois é exatamente nesse gênero literário (contos) que Zeca estreia agora com ‘Artérias’, que será lançado nesta quarta-feira, 23 de novembro, 19h, na Livraria Argumento, no Leblon.

Já havia falado de Zeca Fonseca nos posts ‘Não sou mau com as mulheres’ e ‘9 milímetros’. ‘Artérias’ é o terceiro livro de Zeca, lançado após os romances ‘O adorador’ (2007) e ‘Pandemônium’ (2010).

‘O adorador’ deve ganhar uma adaptação para o cinema, dirigida pelo irmão de Zeca, José Henrique Fonseca, que acaba de filmar ‘Heleno’, sobre a vida o jogador de futebol Heleno de Freitas, vido nas telas por Rodrigo Santoro.