Eu sou neguinha?

É isso mesmo. Laerte, um dos maiores cartunistas do país, criador de ‘Piratas do Tietê’ entre outros, agora se veste de mulher. Agora, não; já há algum tempo. Mas de uns meses para cá resolveu fazer isso publicamente.

E aí que os veículos de imprensa encontraram um senhor personagem, mas não estavam conseguindo lidar com essa, digamos, ‘decisão’ de uma maneira muito objetiva, como cabe a um veículo de imprensa. Em geral, Laerte vinha se deparando com repórteres temerosos, que conduziam entrevistas muito pelas beiradas, quase como se fossem perguntar: ‘Vossa Excelência é ladrão?’. Mas o que complicava era que o conteúdo da questão tinha cunho sexual. Ou eles acreditavam ter.

Muitos perguntaram, muitos ouviram, mas poucos entenderam. Até agora.

O cartunista Laerte Coutinho, 59, em entrevista à Folha - Foto: Carlos Cecconello / Folhapress

Exatamente por não pisar tanto em ovos, Ivan Finotti, da Folha de São Paulo, faz provavelmente a mais clara entrevista com Laerte sobre o seu ‘cross-dressing’, que ele diz realizar desde de 2004. Quase como um papo de botequim, Finotti vai direto ao assunto, sem rodeios:

Diversas possibilidades para a mudança do seu estilo de vida passam pela cabeça. A primeira delas é que você pirou, um processo que teria começado em 2005, com a morte de seu filho num acidente de carro, passou pelas tiras da Ilustrada, cada vez mais estranhas, e agora isso. Você está louco, Laerte?

A resposta e as razões de Laerte (que está parecendo uma tia velha italiana, meio matrona) você pode conferir aqui e tirar suas próprias conclusões.

Além de esclarecedora, a entrevista é muito divertida. Entre outras coisas, Laerte conta casos curiosos sobre a reação em família e dos amigos e diz que está ‘dando pro Angeli’ (de brincadeira).

Como se pode ver na foto acima, Laerte parece… feliz.

Anatomia política

Angeli não precisaria falar, mas a Trip foi ouvi-lo. Fez bem. A conversa está nas ‘Páginas Negras’ da edição de agosto. Ainda dá tempo e vale a leitura.

E como estamos em período eleitoral, destaquei um pequeno e representativo trecho.

* * *

Em quem vai votar para presidente?
Não sei ainda… O cenário é bom, não tem Maluf no meio, nenhum Sarney. Se bem que o Sarney sempre está em algum lugar…

O que Sarney e Maluf representam?
Sarney ganhou de bandeja o poder, carrega aquela merda toda da ditadura. O Maluf… sou paulistano, qualquer paulistano que pensa tem aversão a ele. É o primeiro dos mauricinhos, perfumado, com corrente de ouro. O movimento da boca dele… [faz uma careta]. Tenho problemas com a anatomia do Maluf.

Já encontrou com eles?
Quando fui homenageado com a ordem do mérito cultural, lá em Brasília, o [senador Eduardo] Suplicy me levou pra conhecer o Senado. De repente, entra na sala do Sarney. Fiquei incomodado. Aí ele levanta e fala, segurando minha mão: “Você é o melhor”. Pra mim foi uma derrota, saí de lá cabisbaixo. Sempre fui cruel nas charges com Sarney, mexi com a família toda, e não funcionou…

E o Maluf?
Também encontrei uma vez, no aniversário de 80 anos da Folha. Fui pego de surpresa, o máximo que consegui foi falar “já fiz muito charge do senhor”. E ele [imitando a voz do Maluf]: “Vai fazeeeendo, vai fazeeeendo!” [risos]. O perfume dele ficou na minha mão… Ele tem alguma distorção mental.