Sussurros

Agora tem que todas as noites, ou quase todas as noites, ou pelo menos aquelas em que os silêncios são mais rascantes que os ruídos, eu tenho ouvido gritos. São gritos de alguém que sofre e sente dores constantes. Parece um “aaaaaiiii” de quem espera uma solução, de quem pede ajuda, dezenas de vezes, até cansar, até ser sugada pelo sono e despertada dele novamente pela dor.

Na primeira noite acordei certo que os gritos vinham dos meus sonhos; na segunda noite, sonhei que gritavam pra mim, comigo. Há dias já não sonho, mas os gritos continuam.

Há meses moro ao lado de dois hospitais e nunca havia sido importunado sequer pelo soar das ambulâncias. Agora, nesse quase início de inverno, quando nem as árvores se mexem e os sons são mínimos, os tais gritos decidem vir bater na minha janela.

E, noite sim, noite não, cá estou eu criando estratagemas para burlar a agonia de alguém que não sei quem é, não sei o nome, idade, nada. Sei só ser uma mulher. E só suponho estar em um dos hospitais vizinhos.

Por vezes deixo a TV ligada, por vezes o ventilador, mas o que tem abafado os gritos mais constantemente é a repetição incessante, no celular, de “Well-Tempered Clavier, Book 1 – Prelude & Fugue #1 in C”, de Bach. Alto o suficiente para mascarar o tormento; baixo o bastante para me deixar dormir…

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