“OK, vamos lá”

Um dia após as forças de segurança do Estado tomarem a favela da Rocinha, lembrei de uma história acontecida em 2004 na comunidade, na época controlada por outro “bandido mais procurado do Estado”. De lá para cá, outros bandidos “número 1” surgiram e sumiram do mapa. Acredita-se que, na Rocinha, essa sequência de algozes tenha chegado ao fim na madrugada deste domingo, 13 de novembro de 2011.

Alguns meses depois daquele episódio, contei essa história em um email para um grupo de amigos. Email esse que eu recuperei e colo abaixo. Hoje ele certamente tem uma graça que eu não vi naquele dia.

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Favela da Rocinha / Foto: Moskow - 2005

De: Jaime Filho
Enviada em: terça-feira, 15 de março de 2005 13:46
Para: Stafff
Assunto: [stafff] …mas o Chacrinha continua balançando a pança

O Bope (Batalhão de Operações Especiais) tinha subido a Rocinha no dia anterior e barbarizado. Aquilo que todo mundo já sabia e repetia: tapa na cara de morador, entram nas casas, mandam fazer suquinho e tal, mas vagabundo mesmo não pegam.

Estavam atrás do Lulu, chefe do tráfico na favela. Na “troca de tiros” com a bandidagem (a desculpa é sempre essa – quem troca tiro não atira em caixa d’água) perfuraram meia favela.

Dia seguinte estavam lá os “reporti” pra registrar tudo. O presidente de uma das associações perguntou se queríamos ver o local que “tinha virado peneira” com os fuzis do Bope (que também poderiam ser do tráfico). Breve silêncio. Enfim, um “OK, vamos lá”. Foram equipes de quatro veículos.

Sobe, sobe, sobe, no meio da favela ele parou numa praça e disse: “É aqui. Olha ali, olha ali, olha ali. E tudo destruído, furado. Aí fomos fazendo o caminho que teoricamente os caras teriam feito. A ‘rua’ vai estreitando até virar um beco de, no máximo, 80 centímetros de largura. Barracos de dois, três, quatro pavimentos, deixando tudo ainda mais claustrofóbico. Várias fotos dos buracos, closes e tal, até que um fotógrafo do JB, mirando uma perfuração de bala pegou, lá trás, um cara do bicho no fundo.

– ME PEGARAM, ME PEGARAM. CARALHO, ME PEGARAM! – gritava o traficante, acreditando ter sido fotografado.

Do beco transversal onde ele estava encostado, observando o movimento, saíram mais de 12 cabeças (exibindo armamento de soldado americano no Iraque) atrás da bendita câmera. Pânico nível vermelho, daquele que te transforma numa estátua de sal.

Alheia a toda gritaria e armamento pesado, a fotógrafa que estava comigo (ótima fotógrafa, mas míope) continuava fotografando as perfurações de bala como se estivesse fotografando borboletas. Universo paralelo.

Eu, que não movia um músculo, consegui pedir, com um fio de voz:

– Kita, por favor, chega de fotos. Dá um tempinho, por favor.
– O que houve?
– Olha prali Kita. A gente tá fudido

(Pense em um beco minúsculo e quase vinte homens armados gritando coisas como: “Acabou. Ninguém sai daqui hoje. Leva lá pra cima”, e coisas do tipo)

Depois de o fotógrafo convencer que não tinha pego o malaco no clic, o presidente da associação conseguiu acalmar a rapaziada e tirar a gente da cova já quase fechada.

Nos arrastamos para fora do beco e quando estávamos quase lá fora, o suposto fotografado gritou:

– Ei, ei! Quer tirar foto? Tira daqui, ó. (Nesse momento ele vem em nossa direção, levantando a camiseta e mostrando duas pistolas na cintura. Para, cruza os braços com as duas armas em punho e faz pose). Quem teve forças agradeceu e disse: – Não, obrigado.

Muita calça imprestável, naquele dia, foi pro lixo.

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Movimentos 3.3

Já está nas bancas a revista Brasileiros de outubro, com um perfil do ex-capitão do Bope, Rodrigo Pimentel, feito pelo amigo aqui. A matéria está disponível na edição online e impressa. Quem não tiver paciência para ler na tela, pode ir às bancas.

Abaixo um pequeno trecho.

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Não faça movimentos bruscos

Rodrigo Pimentel desembarca de um utilitário preto, pilotado por sua mulher, em frente ao prédio de classe média alta, às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, Zona Sul do Rio. Veste jeans e camisa de malha cinza claro. Sorri e circula o carro sem olhar em volta nem demonstrar tensão. Na portaria, faz as vezes de cicerone. Explica que o apartamento está em obras, pede desculpas e aponta um canto tranquilo na espaçosa recepção. Acomodo-me em um sofá; ele escolhe uma cadeira e logo descobre que ela tem defeito em um dos braços.

“Vou ficar segurando aqui para não pegar mal”, ri, enquanto estica a tira de couro que serviria de apoio ao braço esquerdo. “Relaxa. Depois alguém conserta isso”, minimizo. “Quem tem de mandar consertar é o síndico. E o síndico sou eu”, faz a primeira de uma série de confissões.

Atuando em várias frentes, Pimentel não foi “capturado” com facilidade para as páginas da Brasileiros. A função doméstica (que inclui desde pensar no restauro dos quadros do hall ao posicionamento das novas câmeras de segurança do edifício) explica um pouco por que foram necessárias dezenas de ligações, oito adiamentos e uma série de e-mails e torpedos em um período de três meses. Como em um jogo de xadrez, conseguir uma conversa com ele requer estratégia e paciência. O rádio e o telefone do entrevistado não param. Do outro lado da linha, estão policiais civis e militares querendo passar novas histórias. E elas são muitas, como as que vêm a seguir.

Leia mais aqui.