‘Quero acabar de viver o que me cabe’

‘O Amor’
Vladimir Maiakovski

Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça numa alameda do zoo, sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.

Ela é tão bela, que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século ultrapassará o exame
de mil nadas, que dilaceravam o coração.

Então,
de todo amor não terminado
seremos pagos
em enumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava

como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
Ressuscita-me,

nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos, concupiscência, salários.

Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,

que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:

– Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.
Para viver livre dos nichos das casa.
Para que doravante a família seja o pai,
pelo menos o Universo;
a mãe, pelo menos a Terra.

(1923)
(Tradução de Haroldo de Campos)

Melô do amor

“Estou no fundo do poço / meu grito lixa o céu seco”. Eram esses os primeiros versos da canção ‘José’, que em 1987 abriam o álbum Caetano e expunham as vísceras da separação do músico baiano com sua primeira mulher, Dedé Veloso.

Em uma época pré-revista Caras, era no terreno das artes, sobretudo da música, onde se podia observar com relativa sutileza os descaminhos dos relacionamentos amorosos. Em alguns casos, eram os discos (ou LPs) que anunciavam que algo não ia bem naquela seara, que os ídolos também vacilavam como simples mortais.

Em um sem número de exemplos, os rasgos sentimentais estão escondidos sob uma pseudo carcaça pop, rock ou o coisa que a valha.

Esse talvez fosse o caso do álbum Bora Bora, dos Paralamas do Sucesso, que embora começasse jogando o ouvinte desavisado ‘pra cima’ com ‘O beco’, trazia em si versos subterrâneos como “descobri mil maneiras de dizer o seu nome com amor, ódio, urgência ou como se não fosse nada”. E, mais adiante, ainda falava em “paixão, insônia, doença, liberdade vigiada”.

Ainda que não precisasse, havia contudo o lado B do LP aberto por ‘Uns dias’, onde Herbert Vianna jorrava o fel de um casamento turbulento com Paula Toller. “Eu nem te falei que te procurei pra me confessar / Eu chorava de amor e não porque eu sofria / Mas você chegou já era dia e não tava sozinha / Eu tive fora uns dias / Eu te odiei uns dias / Eu quis te matar”. Mais passional, impossível.

O jornalista Arthur Dapieve conta no livro Brock – o Rock Brasileiro dos Anos 80 que foi justamente esse lado B de Bora Bora que fez Cazuza atirar-se aos pés de Herbert Vianna, quando os dois se cruzaram em um aeroporto, logo após o lançamento do álbum, dizendo que queria ter composto aquela parte do disco.

Não por acaso Cazuza regravaria ‘Quase um segundo’ (a segunda do lado B de Bora Bora) em seu disco Burguesia. A canção parecia suplicar por respostas e vagar no terreno nebuloso do amor e ódio. “Às vezes te odeio por quase um segundo depois te amo mais / Teus pêlos, teu gosto, teu rosto, tudo que não me deixa em paz”, sussurrava Herbert e, depois, Cazuza.

São pródigos os exemplos de álbuns escancaradamente confessionais, desbragadamente passionais. Não é improvável que Ângela Ro Ro esteja próxima do recorde de pontuar sua carreira com o espelhamento de sua tumultuada vida amorosa. Como se uma estivesse intrinsecamente ligada à outra. E com direito a cenas policialescas. A síntese disso talvez esteja na canção ‘Escândalo’, composta por Caetano para Ro Ro. “Eu marquei demais, tô sabendo / Aprontei de mais, só vendo / Mas agora faz um frio aqui / Me responda, tô sofrendo”, canta Ro Ro, perguntando e dando resposta.

Despedidas não são fáceis. Em alguns casos, a tradução em palavras se faz através das canções que, ao mesmo tempo que geram identificação, parecem funcionar como anzóis que fisgam artérias importantes bem no meio do peito. É o caso de ‘Tudo que vai’, de Alvin L, gravada por Toni Platão e Capital Inicial. “Hoje é o dia e eu quase posso tocar o silêncio / A casa vazia / Só as coisas que você não quis me fazem companhia”. Versos que se ouvem como se estivesse a empacotar caixas, separar livros e, por que não?, discos. “Fica o gosto, ficam as fotos / Quanto tempo faz? / Ficam os dedos, fica a memória / Eu nem me lembro mais”.

São citações sem fim. Isso sem enveredarmos no mundo do samba, sem pensarmos em Herivelto Martins, nem lembrarmos Vinícius de Moraes, o que poderia render uma enciclopédia do desamor (ou do amor demais). Alguns casos de canções sobre amores desfeitos causam repulsa no próprio compositor, tamanha a carga do que ali foi exposto. Certa vez, quando já estava no bis de um show no Canecão, no Rio, Adriana Calcanhotto perguntou o que o público queria ouvir e alguém gritou do meio da platéia: “Mortaes”. Imediatamente ela retrucou: “Essa eu não canto. De jeito nenhum”.

Na música em questão (penúltima de seu álbum de estreia, Enguiço), ela dramatizava: “Não quero nem ouvir falar de ti, eu quero ensurdecer / Quero perder-te no mofo das esquinas / Esquecer tuas manias e morrer”. E como que para não deixar dúvidas de que algo de muito profundo havia acontecido naquela relação, ela concluía: “Eu quero é nesse verão atracar meu navio no caos / Sinto que o meu coração tá cansado de momentos maus / Maus bocados passamos mas eu sinto que estamos atentos / Penso que até o fim do ano nós estaremos solteiros”, lamentava, dando pistas de que no próximo ano…

Hoje as sutilezas poéticas das canções têm de competir com a ‘evasão de privacidade’ oferecidas às revistas de fofoca, com o auxílio luxuoso das notícias ‘em tempo real’. Para que esperar a gravação de um disco se a última separação já está online?

Hoje, já não interessam apenas os queixumes dos artistas; os dissabores do mais simples dos mortais estão a um clique. As redes sociais ajudaram a compartilhar uma avalanche de ‘vidas felizes’ e acabaram com pudores maiores, como dividir para centenas de ‘amigos’ uma frustração amorosa. Um teatro virtual da vida, que faz pensar nos versos finais de ‘Acrilic on Canvas’, da Legião Urbana.

“Mas então, por que eu finjo que acredito no que invento? / Nada disso aconteceu assim, não foi desse jeito / Ninguém sofreu e é só você que me provoca essa saudade vazia / Tentando pintar essas flores com o nome de ‘amor-perfeito’ e ‘não-te-esqueças-de-mim’”.

Redescobertas

Desculpa – diz o cantor, depois de errar os primeiros versos da canção. – Tem dias que eu fico pensando: por que diabos eu insisto nessa profissão? – diz para divertimento da plateia. – Eu estou dando tudo de mim, juro que estou.

Não exagera – rebate o outro cantor, enquanto o público gargalha.

A cena acima poderia estar em um stand up comedy, se não tivesse sido protagonizada por Chico Buarque e Caetano Veloso, enquanto tentavam cantar juntos O Quereres, sendo Buarque o atrapalhado e Veloso o complacente.

Ensaio fotográfico para a revista Bravo, realizado em abril de 2009, por ocasião do lançamento do álbum Zie e Zii (de Caetano Veloso) e do livro Leite Derramado (de Chico Buarque) - Foto: Murillo Meirelles / Revista Bravo

Quem perde tempo fuçando velharias no youtube há de já ter topado com os vídeos do programa Chico & Caetano, que os dois comandaram na TV Globo, durante alguns meses de 1986.

Como ambos já tinham a estatura cultural de ‘grandes mestres’, construída há pelo menos duas décadas de militância na música popular brasileira, o programa dirigido por Daniel Filho e Nelson Motta foi saudado como ‘O’ acontecimento musical do ano – não só pela reunião dos dois, mas ainda mais por promover encontros memoráveis.

Passaram por ali nomes como a divina Elizeth Cardoso acompanhada pelo viloão de Baden Powell; Cazuza cantando uma premonitória ‘Luz negra’, de Nelson Cavaquinho; além de Mercedes Sosa, Jorge Ben, Astor Piazzola, Fundo de Quintal, Tom Jobim e tantos outros.

Dez anos adiante, a Som Livre pôs nas ruas o LP/CD Melhores Momentos de Chico e Caetano, com uma seleção modesta do que o programa conseguiu apresentar em apenas nove edições – uma exibida a cada mês. Noves fora os convidados, a parceria dos dois rendeu duetos antológicos, como o de Você não entende nada/Cotidiano – recriando o clássico encontro do álbum Chico e Caetano Juntos e Ao vivo, de 1972.

Outra das participações especiais memoráveis, incluída no disco, mas que não pode ser encontrada no youtube, é a de Elza Soares ‘recebendo’ (como uma entidade) o ‘Tiro de misericórdia’, de João Bosco.

Foi quando estava à procura desse vídeo que reencontrei (ou redescobri) a versão do próprio Bosco, gravada para o disco Acústico MTV (1992) – o álbum seminal da série que se tornaria um filão do mercado fonográfico.

É quase impossível dissociar o ‘ídolo de poeira’, barbarizado com mais de cem tiros, cantado por Bosco, da morte do facínora Mineirinho, regurgitada no texto de Clarice Lispector. Desde então, é com as espadas de prata de Oxulufã e o machado de asa de Caô-Xango que a caixinha de música tem sido despertada dia sim, outro também, quase como um mantra torto.

A música, às vezes, parece um “jogo cercado pelos sete lados”.

Ogan toca pra Ogum

Oração a São Jorge

Eu andarei vestido e armado com as armas de São Jorge para que meus inimigos, tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me vejam, e nem em pensamentos eles possam me fazer mal.

Armas de fogo o meu corpo não alcançarão, facas e lanças se quebrem sem o meu corpo tocar, cordas e correntes se arrebentem sem o meu corpo amarrar.

Jesus Cristo, me proteja e me defenda com o poder de sua santa e divina graça, Virgem de Nazaré, me cubra com o seu manto sagrado e divino, protegendo-me em todas as minhas dores e aflições, e Deus, com sua divina misericórdia e grande poder, seja meu defensor contra as maldades e perseguições dos meu inimigos.

Glorioso São Jorge, em nome de Deus, estenda-me o seu escudo e as suas poderosas armas, defendendo-me com a sua força e com a sua grandeza, e que debaixo das patas de seu fiel ginete meus inimigos fiquem humildes e submissos a vós. Assim seja com o poder de Deus, de Jesus e da falange do Divino Espírito Santo.

São Jorge Rogai por Nós.

Oração a São Jorge II

São Jorge, cavaleiro corajoso, intrépido e vencedor; abre os meus caminhos, ajuda-me a conseguir um bom emprego; faze com que eu seja bem quisto por todos superiores, colegas, e subordinados; que a paz, o amor e a harmonia estejam sempre presentes no meu coração, no meu lar e no meu serviço; meus inimigos terão os olhos e não me verão, terão boca e não me falarão, terão pés e não me alcançarão, terão mãos e não e não me ofenderão.

São Jorge vela por mim e pelos meus, protegendo-me com suas armas.

O meu corpo não será preso nem ferido, nem meu sangue derramado; andarei tão livre como andou Jesus Cristo nove meses no ventre da Virgem Maria.

Amém.

Oração a São Jorge III

Ó Deus onipotente, que nos protegeis pelos méritos e as bênçãos de São Jorge.

Fazei que este grande mártir, com sua couraça, sua espada, e seu escudo, que representam a fé, a esperança, e a inteligência, ilumine os nossos caminhos…

Fortaleça o nosso ânimo nas lutas da vida. Dê firmeza à nossa vontade, contra as tramas do maligno, para que, vencendo na terra, como São Jorge venceu, possamos triunfar no céu Convosco, e participar das eternas alegrias.

Amém!

O crítico

Os adjetivos são, comumente, o caminho mais curto para se alcançar a superfície. Fraco, belo, dantesco, potente, feio, sublime e outros achismos formam a nuvem de poeira que faz turvar os olhos do crítico. Experimente dizer o que pensa da última música que ouviu sem usar um único adjetivo.

O que é a boa crítica? Baseado em que preceitos define-se o que é ou não relevante culturalmente? Qual o limite da discordância? O quanto de sua vaidade o crítico deixa respingar nesta avaliação?

Quando foi que você aprendeu a não gostar daquela nova cantora que ‘todo mundo fala mal’? E, o que é mais curioso, agora você se pega cantarolando a música daquela outra nova cantora que ‘todo mundo elogia’? Muitas questões, muitos caminhos.

Se o leitor(a) não estiver atrás de respostas, uma boa oportunidade de não encontrá-las é procurar ‘Tinhorão, o legendário’, biografia do crítico José Ramos Tinhorão, lançada oficialmente nesta terça-feira, 13, no Instituto Moreira Sales, no Rio de Janeiro.

Escrito pela jornalista Elizabeth Lorenzotti, o livro é focado principalmente no aspecto profissional do controverso personagem, e conta um pouco a história de importantes redações em que ele trabalhou, na época de grandes transformações na imprensa carioca – desde o primeiro emprego como estagiário, em 1953, no Diário Carioca. A biografia também destaca o período no Jornal do Brasil, onde o trabalho de Tinhorão teve seu auge “dos anos 60, com as Primeiras Lições de Samba, até os anos 80, com as críticas”, explica a biógrafa.

Polêmico, odiado, temido, admirado, respeitado, desprezado, subestimado. Aqui os adjetivos, sempre eles, ajudaram a boicotar o caminho, por demais já turbulento, escolhido por José Ramos Tinhorão. A biográfa diz acreditar que a mudança nas relações entre imprensa e a insdústria cultural contribuiu para o processo de expurgo.

“A prevalência da indústria cultural e a divulgação de seus produtos foi sim, a responsável por jornalistas como Tinhorão não terem mais lugar. Como ele mesmo diz “eu falava de Zé do Coco e Riachão”, e a indústria cultural não estava interessada neles”.

O jornalista e crítico musical Pedro Alexandre Sanches, que durante boa parte dos anos 2000 vestiu a carapuça de enfant terrible nas páginas da Folha de São Paulo, defende também a ideia de auto-sabotagem.

“Acho bem provável que pudéssemos falar isso a respeito do Tinhorão, porque ele de fato parece ter ficado isolado, marginalizado, rejeitado pelos que criticou e pelos que não criticou. Mas eu tenderia a atribuir esse tipo de isolamento muito mais ao próprio crítico que a fatores externos (como a imprensa ou a indústria fonográfica) – acho que não teria sido assim se ele assim não quisesse ou não agisse propositalmente ou não no sentido de se isolar”, analisa Sanches.

Lorenzotti diz que o objetivo primeiro do livro era “desmistificar preconceitos contra Tinhorão”. De certa forma, é como se as polêmicas em que se meteu (ataques à bossa nova, acusações de plágio a Tom Jobim, troca de farpas com Caetano Veloso) contribuissem para esconder “a verdadeira face de grande jornalista e pesquisador rigoroso, intelectual íntegro e sua coerência”, completa Lorenzotti. Assim, o livro seria uma tentativa de (re)colocá-lo no lugar que lhe é de direito.

A biógrafa afirma que não passou por cima dos temas espinhosos. “Registrei no livro as opiniões contrárias, por exemplo, de Hermínio Belo de Carvalho, José Miguel Wisnik, que entretanto o respeitam como pesquisador. E de Caetano Veloso”.

E para usar, provocativamente, um verso do compositor baiano, Tinhorão hoje parece assumir ‘a dor e a delícia de ser o que é’. “Ele não  é um homem ressentido ou amargo, nem sente nostalgia: é um intelectual bem humorado, acessível e muito educado”, resume a biógrafa. Melhor assim, melhor assim.

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Ps. Depois do lançamento do IMS, Tinhorão estará nesta quarta-feira na Livraria Folha Seca, no Centro do Rio, autografando seus livros e sua biografia, a partir das 18h30. Uma oportunidade imperdível. A Folha Seca fica na Rua do Ouvidor 37.

Aquele outro

Interessado em música e crítica musical, passei boa parte dos anos 2000 atento aos textos do jornalista Pedro Alexandre Sanches produzidos para o jornal Folha de São Paulo no período. Guardada as devidas proporções, Sanches seguia à distância a escola crítica de José Ramos Tinhorão. Descartando erros conhecidos, perseguindo os acertos. À época, eu próprio (e ele também admite) conhecia pouco ou quase nada da produção de Tinhorão.

Com um estilo irônico e elegante, Sanches torcia e retorcia seus alvos, com especial dedicação para personalidades ‘intocáveis’ da música popular brasileira. Com o tempo, Sanches intensificou gradativamente o nível das críticas, até decidir se despir (como ele mesmo explica) da fantasia de menino mal.

“Tomei a decisão de sair da ‘Folha’, entre outros motivos, porque eu não tinha mais qualquer interesse em continuar desempenhando aquele papel do palhaço ‘agressivo’ da crítica musical. Acho que a ‘Folha’ gostava e gosta muito dessa figura do crítico agressivo (hoje mesmo há toda uma série de profissionais dessa categoria lá, embora não na crítica musical), e acredito que é uma postura que o jornal sempre incentivou subliminarmente. Acho até que se eu não tivesse me desviado desse curso muito possivelmente poderia estar lá até hoje…”, explica Sanches.

O desvio que ele diz aconteceu quando trocou o jornal pela revista ‘CartaCapital’. Hoje, Sanches é coloborador da revista e deposita o grosso de sua produção no blog http://pedroalexandresanches.blogspot.com/.

Na semana passada, quando lhe enviei três perguntas sobre Tinhorão, Sanches comemorou. E escreveu, escreveu e escreveu. No fim, ainda agradeceu a oportunidade de ‘falar’ sobre o crítico. Obrigado, eu.

Abaixo, alguns trechos do momento ‘Tinhorão por Pedro Aleandre Sanches‘.

* * *

Marginalizado

Eu não era influenciado pelo Tinhorão nos meus primeiros anos de jornalista, simplesmente porque, ignorância total minha, eu não conhecia absolutamente nada do que ele escrevia. Ele ainda é marginalizado hoje, mas acredito que era bem mais nos anos 1990, quando era bastante raro sequer ouvir falar dele. Fui tomando consciência aos poucos, depois o entrevistei, hoje acompanho tudo que posso, porque é evidentemente uma referência central, daquelas de a gente usar como norte tanto para pegar as coisas legais como para fugir dos erros, preconceitos e enganos que cometia.

Ele fala muita coisa de que eu discordo, então é sempre um exercício de ler concordando e discordando ao mesmo tempo e aprendendo a separar umas partes das outras. Apesar de as críticas do Tinhorão parecerem às vezes maniqueístas, ler o que ele escreve hoje me parece por si só um exercício de não ser maniqueísta – se quiser levar a coisa a sério, você não pode aceitar tudo que ele fala, menos ainda rejeitar a priori toda e qualquer coisa que ele diga.

Preceitos marxistas

Uma coisa de que eu gosto no Tinhorão é saber que ele tem uma metodologia muito definida de análise (coisa que eu, por exemplo, nunca tive, pelo menos conscientemente), entender que ele segue preceitos do marxismo para criticar a música popular, e pronto. A gente sempre pode discutir se são métodos datados ou se ainda podem ter validade, mas eu acredito que muito do preconceito que existe contra ele se deve menos aos folclores sempre citados (de ele se opor à bossa nova, acusar Tom Jobim de plágio etc.) do que à leitura que ele faz da música a partir da luta de classes. Ainda que eu discorde das conclusões a que ele chega num grande número de vezes, acho há uma parte desse método que é muito, muito atual. Por exemplo, acredito que a má vontade atual contra o rap se deve muito menos a razões propriamente musicais que a preconceitos de classe social e discriminação racial. Tinhorão já cutucava essa ferida 50 anos atrás, quando implicava com os almofadinhas e as “aventuras de apartamento” da bossa nova.

Crítico em crise

O que acredito hoje, sinceramente, é que a figura do “crítico agressivo” que sai ofendendo e desrespeitando todo mundo é algo absolutamente em crise, o que explica em grande medida o estado de decadência em que se encontram nossos maiores veículos, quase todos aprisionados até hoje nesse modelo opressivo da agressividade passiva.

O imitador

Precisamos nos perguntar se a sociedade ainda precisa desse modelo de crítica que ele fazia (e que eu, por exemplo, imitei em grande parte dos meus dez anos de Folha, sem saber nem ter teoria por trás). Acredito que não precisamos, e nesse sentido me parece que perdeu muito sentido aquele estilo de escrita que o Tinhorão tinha e depois continuou com o Pepe Escobar, o Luís Antônio Giron, mesmo eu (aliás, se formos pensar, esse modelo nas últimas décadas ficou muito circunscrito ao núcleo “Folha”-“Veja”. Nunca foi muito a cara dos jornais cariocas, nem mesmo do “Estado”, pelo menos no que se refere à crítica cultural).

Bonequinho de vodu

Mas aí há um ponto importante: isso não quer dizer que morreu o modelo de crítico ácido, que fala pelo fígado e cospe bile verde quando se expressa. O que eu acho que acontece nos últimos anos é que a internet virou tudo de ponta-cabeça. Se antes uma parte do público leitor aplaudia secretamente e se identificava em silêncio com o crítico ranzinza, amargo, recalcado etc., enquanto outra parte adorava usar essa mesma figura como bonequinho de vodu, hoje toda e qualquer pessoa tem a oportunidade de ir pessoalmente para um blog, um Orkut, um Twitter ou o que seja destilar suas próprias doses de veneno e amargura. É só olhar nas caixas de comentários dos sites e blogs, os Tinhorões (ou melhor, as características mais amargas e folclóricas do modelo Tinhorão) estão todos lá, fazendo por eles próprios o que antes esperavam que um Tinhorão fizesse para representá-los. Afinal, quem não tem sua própria dose de agressividade e rancor? Tenho certeza absoluta que até a Sandy e o Padre Marcelo têm. E, se tem tanto crítico feroz por aí, quem ainda precisa de seguidores dessa linha na grande imprensa, não é mesmo? Ninguém, e de fato, pelo menos na crítica musical, eles me parecem felizmente em extinção (na crítica política ainda há um monte – Diogo Mainardi, Arnaldo Jabor, Clovis Rossi, Reinaldo Azevedo -, mas estão cada vez mais falando sozinhos).

De mal com o mundo

Pessoalmente, confesso que da minha ida para a “CartaCapital” para cá, me sinto bastante aliviado e contente de ter desembarcado da fantasia de palhaço desse personagem de mal com o mundo, vociferante, supostamente sabedor de todos os defeitos da humanidade (menos dos dele próprio) e das receitas “certas” para corrigi-los. Acredito que o Tinhorão, ao modo dele e ao tempo dele, percebeu a armadilha e fez esse mesmo caminho de libertação – se despiu do personagem do lobo bobo e foi ser um historiador sério, consistente e sóbrio, que os chapeuzinhos vermelhos não têm qualquer razão para temer.

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Por anos José Ramos Tinhorão viveu em uma quitinete de 31m2 na Rua Maria Antonia, em São Paulo, com todo o arcevo que reuniu em décadas de pesquisa sobre a música brasileira. Mas os tempos duros já haviam ficado para trás quando, em 2000, ele negociou sua biblioteca e discoteca com o Instituto Moreira Sales.

De acordo com o IMS, o acervo, que passava pelo processo de catalogação na sede do instituto em São Paulo desde 2001, é composto por cerca de 6,5 mil discos de 76 e 78 rpm, 6 mil discos de 33 rpm, fotos, filmes, scripts de rádio, cartazes, jornais, revistas, rolos de pianola, folhetos de cordel, press releases de gravadoras e uma biblioteca com mais de 14 mil obras especializadas na cultura popular urbana, tema central de toda sua obra. Até o final de 2010, todo o material será disponibilizado para consulta.

Para comemorar a chegada do acervo ao Rio, o IMS promoveu nesta terça-feira o lançamento da biografia e de outros dois livros de Tinhorão A música popular que surge na era da revolução (Editora 34) e Crítica cheia de graça (Empório do Livro), além de uma exposição que ficará aberta apenas até o dia 16 de abril, com curadoria do próprio Tinhorão.

A jornalista Elizabeth Lorenzotti fala um pouco mais sobre seu objeto de estudo.

* * *

Por que e quando a senhora decidiu que escreveria sobre Tinhorão?

Em 2007, após lançar o livro Suplemento Literário-Que falta ele faz!- sobre o caderno cultural criado pelo professor Antonio Candido no Estadão em 1956, editado pela Imprensa Oficial, o jornalista Paulo Moreira Leite, então vice –presidente, resolveu reeditar a coleção imprensa em Pauta, de biografias de jornalistas, e me convidou para escrever sobre Tinhorão. Eu já o havia entrevistado algumas vezes, e conhecia sua carreira de jornalista e depois pesquisador.

Como ele recebeu a idéia de uma biografia?

Eu o entrevistei durante alguns meses na livraria Metido a Sebo, da Vila Buarque, seu ponto de encontro, seu “escritório” aonde vai todos os sábados, antes de passar pela padaria da esquina. Lá ele recebe amigos, pesquisadores, jornalistas, fãs. A princípio ele relutou, mas depois aceitou bem e colaborou muitíssimo. Conversei com seus contemporâneos, hoje poucos – ele tem 82 anos – da época do Diário Carioca, Jornal do Brasil, Correio da Manha – Janio de Freitas, que também escreveu a contracapa do livro, Gilson Campos, repórter e fotógrafo, Wilson Figueiredo, Reynaldo Jardim, Nilson Lage e o amigo e colega de Editora Abril, nos anos 80, jornalista Antonio Romane. Além de pesquisar livros e internet.

Tinhorão cultivou por muitos anos a fama de se um crítico com ‘língua ferina’. A senhora acredita que isso o atrapalhou?

Sua ironia e sua pena afiada, seu talento na escrita  podem ter criado desafetos, mas não mais do que a grande legião de leitores que o seguiam no Jornal do Brasil e em O Pasquim.

Ele sempre colecionou opiniões polêmicas sobre ‘ícones’ do mundo da música. Quais a senhora destacaria e por quê?

Tom Jobim, por causa de suas criticas à Bossa Nova – que compara a um carro, apenas montado no Brasil, mas importado–, e também sobre o que chama de “anterioridades jobinisticas”, 16 musicas que arrolou e provou serem inspiradas em outras, sem a devida citação, inclusive Águas de Março. E Caetano Veloso, que disse em 2008  carregar “uma pulga atrás da orelha há 40 anos”, quando escreveu, no jornal de sua faculdade na Bahia, o primeiro artigo contra Tinhorão. O livro se encerra com essa polêmica.

Como Tinhorão vive hoje?

Mora com sua mulher, a professora Maria Rosa, nas imediações da redação da Folha. Tem uma vida simples, viaja religiosamente uma vez por ano para Portugal, para onde segue agora em maio, após o lançamento de São Paulo, na Livraria da Vila, da rua Fradique Coutinho, no dia 28 de abril. Tem ótima saúde, raciocínio afiado como sempre, gosta de boa comida e de bons vinhos. Lê todos os jornais de São Paulo diariamente, continua recortando e colecionando livros.

Em relação ao estilo, a senhora enxerga ‘seguidores’ de José Ramos Tinhorão na imprensa?

Não, porque o estilo é o homem. E um homem com sua vivência e sua cultura, só mesmo na geração de Tinhorão.

Como biógrafa, onde a senhora situaria José Ramos Tinhorão, considerando o cenário atual da crítica musical brasileira?

Há pouco espaço para a crítica de música na mídia impressa, lugar privilegiado de Tinhorão. E esse lugar que ocupou, é singularíssimo.

Qual a avaliação que ele próprio faz de sua performance como crítico? Ele se vê como um crítico ‘linha dura’?

Ele continua com as mesmas ideias e o mesmo método – o materialismo dialético, seu modo de ver e analisar o mundo. E quando relê para nós algumas de suas críticas mais ferinas, concorda que os objetos dessas críticas tinham por que ficar furiosos…

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