‘O dia em que traduzi Renato Russo’

Millôr Fernandes

Meu cartaz aumentou muito com a galera da faixa etária entre 15 e 20 anos, depois que Renato Russo me citou duas vezes em seus shows, como guru não sei de quê. Não muito tempo depois, José Costa Netto, meu advogado e agente de direitos autorais, me telefonou dizendo que Russo queria que eu ― profissionalmente ― traduzisse um poema (musical) dele. Recusei, achando que fosse tradução do português pro inglês. Não acredito em quem faz traduções pra outra língua que não a sua. (Viva o Povo Brasileiro, de João Ubaldo, tradução pro inglês feita por ele mesmo, tradução que não li, mas me dizem excelente, é exceção. Mas com maluco não só não se discute como é melhor não estabelecer regras).

De pura curiosidade pedi pra ler o poema. Minha estranheza foi enorme ― o poema, dedicado a um grande amigo dele, Cazuza, era denso, misterioso, cheio de sub-intenções, e em excelente inglês. Como uma pessoa que escrevia inglês assim me pedia para fazer a tradução? De qualquer forma topei traduzir, depois que o agente combinou o preço, altamente profissional. Altamente profissional, também, Renato Russo não hesitou diante do preço, bem, os da Legião Urbana não sabiam se o último show deles tinha 10 ou 60.000 espectadores.

Traduzir o poema era tarefa delicada, a começar pelo título “Feed-back for a dying young man”. Qualquer tradutor desprevenido não perceberia que feed-back aí era um jogo de palavras entre o retorno emocional que o poeta fazia, com o retorno musical comum na música grupal ― quando um músico “solicita” a resposta do outro, tipo jam session. A palavra podendo significar ainda retorno de som, aquele que dá microfonia. E seria lamentável traduzir dying por moribundo, palavra que indica instantes finais e soturnos, e não, como alguém à morte, morte esperada mas sem tempo definido pra chegar, a palavra conservando ainda o lastro romântico das damas das camélias.

Porém, traduzido o poema, sendo o poema audacioso e seu autor vivo, entrei em contato com ele para aprovação. Renato não corrigiu uma palavra. Apenas, aqui e ali, murmurava, perplexo e escandalizado: “Deus, do céu, eu escrevi isso?”, confirmando a minha tese de que não há bilingue. Só quando ouviu em sua própria língua o que tinha escrito em inglês, Renato percebeu a audácia do que dizia. Do lado de cá o surpreendido era eu. Com toda razão tendo opinião não muito lisonjeira a respeito do nível intelectual da maioria dos roqueiros, fui ficando admirado com a sutileza e justeza das observações de Renato e da perfeição com que ele citava coisas em inglês ― incluindo Shakespeare. Seu inglês era, definitivamente, melhor do que o meu. Até hoje não entendi por que me pediu a tradução. O poema foi incluído num de seus últimos CDs.

“Canção retorno para um amigo à morte”

Alisa a testa suada do rapaz
Toca o talo nu ali escondido
Protegido nesse ninho farpado sombrio da semente
Então seus olhos castanhos ficam vivos
Antes afago pensava ele era domínio
Essas aí não são suas mãos são as minhas
E seguras, minhas mãos buscam se impor
Todo conhecimento do jorro viril do meu senhor
O gosto perfumado que retém minha língua
É engano instalado e não desfeito
Seus olhos chispantes podem retalhar minha pele bárbara
Forçar toda gravidade a ir embora
Ele vadeia em águas fechadas
Sono profundo altera seus sentidos
A meu único rival eu devo obedecer
Vai comandar nosso duplo renascer:
O mesmo
Insano
Sustenta
Outra vez.
(os dois juntos junto de nossos próprios corações)
Calei e escrevi
Isto em reverência
Pela coincidência

Obs. Post reproduzido do ‘Digestivo Cultural’.

Eu sou neguinha?

É isso mesmo. Laerte, um dos maiores cartunistas do país, criador de ‘Piratas do Tietê’ entre outros, agora se veste de mulher. Agora, não; já há algum tempo. Mas de uns meses para cá resolveu fazer isso publicamente.

E aí que os veículos de imprensa encontraram um senhor personagem, mas não estavam conseguindo lidar com essa, digamos, ‘decisão’ de uma maneira muito objetiva, como cabe a um veículo de imprensa. Em geral, Laerte vinha se deparando com repórteres temerosos, que conduziam entrevistas muito pelas beiradas, quase como se fossem perguntar: ‘Vossa Excelência é ladrão?’. Mas o que complicava era que o conteúdo da questão tinha cunho sexual. Ou eles acreditavam ter.

Muitos perguntaram, muitos ouviram, mas poucos entenderam. Até agora.

O cartunista Laerte Coutinho, 59, em entrevista à Folha - Foto: Carlos Cecconello / Folhapress

Exatamente por não pisar tanto em ovos, Ivan Finotti, da Folha de São Paulo, faz provavelmente a mais clara entrevista com Laerte sobre o seu ‘cross-dressing’, que ele diz realizar desde de 2004. Quase como um papo de botequim, Finotti vai direto ao assunto, sem rodeios:

Diversas possibilidades para a mudança do seu estilo de vida passam pela cabeça. A primeira delas é que você pirou, um processo que teria começado em 2005, com a morte de seu filho num acidente de carro, passou pelas tiras da Ilustrada, cada vez mais estranhas, e agora isso. Você está louco, Laerte?

A resposta e as razões de Laerte (que está parecendo uma tia velha italiana, meio matrona) você pode conferir aqui e tirar suas próprias conclusões.

Além de esclarecedora, a entrevista é muito divertida. Entre outras coisas, Laerte conta casos curiosos sobre a reação em família e dos amigos e diz que está ‘dando pro Angeli’ (de brincadeira).

Como se pode ver na foto acima, Laerte parece… feliz.

Enforcados

“Vamos enforcar/ mil poetas/ e fazer das pracinhas/ masmorras/ vamos fazer juntinhos/ algo que não se perdoa.”

O trecho acima faz parte do poema ‘O mundo que a gente destruiu com o maior carinho’, que integra o novo livro de André Dahmer, ‘Ninguém muda ninguém’ (Ed. Flâneur).

Como mostrou a matéria de André Miranda, publicada no Globo desta terça-feira, dia 02, a curiosidade fica por conta de que o livro terá, inicipalmente, apenas 600 exemplares com capas exclusivas, feitas à mão pelo próprio autor (como esta ao lado).

A ideia, explica Dahmer, surgiu após o cartunista argentino Liniers lançar o livro “Macanudo 6”, com cinco mil capas distintas feitas à mão.

– Eu pensei: se ele consegue fazer alguns milhares, acho que consigo fazer algumas centenas – disse ao Globo.

O resultado é que Dahmer continua trabalhando para conseguir dar conta do desafio que lhe impôs. E o tempo é curto, já que o lançamento está previsto para o próximo dia 10, no Boteco Salvação, em Botafogo, Zona Sul do Rio.

Em ‘Ninguém muda ninguém’, o cartunista de 36 anos reúne desenhos, pinturas, fotografias, cartas e poemas produzidos nas últimas três décadas. Se você quer seu exemplar exclusivo, anote na agenda.

Abaixo, André Dahmer desenha uma das capas de ‘Ninguém muda ninguém’.