Melô do amor

“Estou no fundo do poço / meu grito lixa o céu seco”. Eram esses os primeiros versos da canção ‘José’, que em 1987 abriam o álbum Caetano e expunham as vísceras da separação do músico baiano com sua primeira mulher, Dedé Veloso.

Em uma época pré-revista Caras, era no terreno das artes, sobretudo da música, onde se podia observar com relativa sutileza os descaminhos dos relacionamentos amorosos. Em alguns casos, eram os discos (ou LPs) que anunciavam que algo não ia bem naquela seara, que os ídolos também vacilavam como simples mortais.

Em um sem número de exemplos, os rasgos sentimentais estão escondidos sob uma pseudo carcaça pop, rock ou o coisa que a valha.

Esse talvez fosse o caso do álbum Bora Bora, dos Paralamas do Sucesso, que embora começasse jogando o ouvinte desavisado ‘pra cima’ com ‘O beco’, trazia em si versos subterrâneos como “descobri mil maneiras de dizer o seu nome com amor, ódio, urgência ou como se não fosse nada”. E, mais adiante, ainda falava em “paixão, insônia, doença, liberdade vigiada”.

Ainda que não precisasse, havia contudo o lado B do LP aberto por ‘Uns dias’, onde Herbert Vianna jorrava o fel de um casamento turbulento com Paula Toller. “Eu nem te falei que te procurei pra me confessar / Eu chorava de amor e não porque eu sofria / Mas você chegou já era dia e não tava sozinha / Eu tive fora uns dias / Eu te odiei uns dias / Eu quis te matar”. Mais passional, impossível.

O jornalista Arthur Dapieve conta no livro Brock – o Rock Brasileiro dos Anos 80 que foi justamente esse lado B de Bora Bora que fez Cazuza atirar-se aos pés de Herbert Vianna, quando os dois se cruzaram em um aeroporto, logo após o lançamento do álbum, dizendo que queria ter composto aquela parte do disco.

Não por acaso Cazuza regravaria ‘Quase um segundo’ (a segunda do lado B de Bora Bora) em seu disco Burguesia. A canção parecia suplicar por respostas e vagar no terreno nebuloso do amor e ódio. “Às vezes te odeio por quase um segundo depois te amo mais / Teus pêlos, teu gosto, teu rosto, tudo que não me deixa em paz”, sussurrava Herbert e, depois, Cazuza.

São pródigos os exemplos de álbuns escancaradamente confessionais, desbragadamente passionais. Não é improvável que Ângela Ro Ro esteja próxima do recorde de pontuar sua carreira com o espelhamento de sua tumultuada vida amorosa. Como se uma estivesse intrinsecamente ligada à outra. E com direito a cenas policialescas. A síntese disso talvez esteja na canção ‘Escândalo’, composta por Caetano para Ro Ro. “Eu marquei demais, tô sabendo / Aprontei de mais, só vendo / Mas agora faz um frio aqui / Me responda, tô sofrendo”, canta Ro Ro, perguntando e dando resposta.

Despedidas não são fáceis. Em alguns casos, a tradução em palavras se faz através das canções que, ao mesmo tempo que geram identificação, parecem funcionar como anzóis que fisgam artérias importantes bem no meio do peito. É o caso de ‘Tudo que vai’, de Alvin L, gravada por Toni Platão e Capital Inicial. “Hoje é o dia e eu quase posso tocar o silêncio / A casa vazia / Só as coisas que você não quis me fazem companhia”. Versos que se ouvem como se estivesse a empacotar caixas, separar livros e, por que não?, discos. “Fica o gosto, ficam as fotos / Quanto tempo faz? / Ficam os dedos, fica a memória / Eu nem me lembro mais”.

São citações sem fim. Isso sem enveredarmos no mundo do samba, sem pensarmos em Herivelto Martins, nem lembrarmos Vinícius de Moraes, o que poderia render uma enciclopédia do desamor (ou do amor demais). Alguns casos de canções sobre amores desfeitos causam repulsa no próprio compositor, tamanha a carga do que ali foi exposto. Certa vez, quando já estava no bis de um show no Canecão, no Rio, Adriana Calcanhotto perguntou o que o público queria ouvir e alguém gritou do meio da platéia: “Mortaes”. Imediatamente ela retrucou: “Essa eu não canto. De jeito nenhum”.

Na música em questão (penúltima de seu álbum de estreia, Enguiço), ela dramatizava: “Não quero nem ouvir falar de ti, eu quero ensurdecer / Quero perder-te no mofo das esquinas / Esquecer tuas manias e morrer”. E como que para não deixar dúvidas de que algo de muito profundo havia acontecido naquela relação, ela concluía: “Eu quero é nesse verão atracar meu navio no caos / Sinto que o meu coração tá cansado de momentos maus / Maus bocados passamos mas eu sinto que estamos atentos / Penso que até o fim do ano nós estaremos solteiros”, lamentava, dando pistas de que no próximo ano…

Hoje as sutilezas poéticas das canções têm de competir com a ‘evasão de privacidade’ oferecidas às revistas de fofoca, com o auxílio luxuoso das notícias ‘em tempo real’. Para que esperar a gravação de um disco se a última separação já está online?

Hoje, já não interessam apenas os queixumes dos artistas; os dissabores do mais simples dos mortais estão a um clique. As redes sociais ajudaram a compartilhar uma avalanche de ‘vidas felizes’ e acabaram com pudores maiores, como dividir para centenas de ‘amigos’ uma frustração amorosa. Um teatro virtual da vida, que faz pensar nos versos finais de ‘Acrilic on Canvas’, da Legião Urbana.

“Mas então, por que eu finjo que acredito no que invento? / Nada disso aconteceu assim, não foi desse jeito / Ninguém sofreu e é só você que me provoca essa saudade vazia / Tentando pintar essas flores com o nome de ‘amor-perfeito’ e ‘não-te-esqueças-de-mim’”.

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Ménage à trois (ou deus e o diabo na terra do sol)

“Pode ser que eu seja exagerado. Está bem. Eu sou exagerado. Mas ninguém escreve como Cazuza. É como ouvi um rock em inglês. Fiquei inteiramente louco e gratificado de ter uma gente tocando e cantando assim. É rock sem frescura, sem nada de bem comportado, garagem mesmo. Ultimamente as coisas andam muito inofensivas, sem rebeldia. E, se continuam assim, morrem. O Barão reinventa o português de forma telegráfica, sem literatices ou metáforas vazias. São letras que possuem uma urgência cristalina, verbalizando instantes de carência afetiva, solidão ou amor total, tudo articulado com a luminosidade dos relâmpagos. Só existe um disco tão agressivo quanto o de estréia do Barão: é o do Iggy Pop, produzido pelo David Bowie.”

*Ezequiel Neves, após o lançamento do primeiro álbum do Barão Vermelho, em setembro de 1982.

*   *   *

“Certa vez fui ao Rio gravar um programa de televisão e acabei cruzando com João Araújo pelos corredores da Globo. Papeamos e no fim expedi um mandado de beijos para ser entregue pessoalmente ao filho Cazuza, que já estava bastante dodói. Acredito que o pai mensageiro tenha sido bastante eficiente no recado pois no dia seguinte cedinho recebi uma letra de música com telefone de contato: “Qualquer dia, qualquer hora, beijos, Cazuza”. Liguei no ato, afinal, fazia trocentos anos que não falava com aquele bonitinho de cabelos encaracolados, o “filho do patrão”, que ia me espionar nos gravações da Som Livre nos tempos pré Mania de você.

“Alô, Cazuza, é Lee, quanto tempo hein menino!”

“Lee! Você sabe que estou muito doente e que não vou morrer antes de você e Zeca fazerem as pazes na minha frente, portanto vamos tratar de marcar um encontro para ontem!”

“Ah! Cazuza, deixa essa história para lá, já passou…”

“Passou nada, vocês dois se amam, amanhã te espero aqui!” e desligou.

Passei anos e anos sem o menor contato com Cazuza porque o abominável Ezequiel das Neves, ex-vampiro meu e já há um tempão sugando as energias do menino, inventou casos e mais casos para que minha presença fosse barrada no baile do Barão Vermelho. Entendi na época a manobra macabra da velha raposa e fiquei na minha, apenas lamentando que uma pessoa tão nefasta quanto aquela estivesse com as asinhas tão soltas posando de amigo íntimo de um menino tão sensível como Cazuza.

“Ó céus! Vou vestir minha máscara para encarar esta dura tarefa”, pensei eu, “mas… tudo por Cazuza!”

Cheguei no pedaço na hora marcada e quando entrei no quarto fiz toda a encenação au grand complet… sorrisos, apertos de mão e até um abraço no abominável eu dei!

Depois do teatro da reconciliação fiquei um tempo sozinha com o menino no quarto, conversando sobre a letra de Perto do Fogo, que ele havia mandado. Me disse que durante todo aquele tempo que ficamos longe ele sempre pensava em mim de uma maneira bacana…

“Outro dia mesmo, quando eu estava lá em Petrópolis observando a lareira, as labaredas desenharam sua cara e me psicografaram a letra da música, achei legal que a cor da cena toda me lembrou seu cabelo de fogo.”

Voltei para o hotel, descolei um K7 e em cinco minutos a música estava pronta, tamanha inspiração. Mandei uma cópia e Cazuza adorou. Dia seguinte a letra de Comprimidos estava me esperando na portaria do hotel; ela continha partes da conversa que tivemos no quarto dela na véspera, sobre como nós dois sempre apelávamos aos comprimidos químicos para resolver nossas dores existenciais. Rimos muito da nossa magreza, decidimos que na leveza do ser voávamos mais alto. Cazuza disse ter lido em algum lugar que só em 2020 o Brasil iria sair do sufoco, e o que eu achava disso.

“Sei lá, meu, deixa ver… em 2020 eu vou ter o que, 72, 73 anos?…”

“Ah! Vai ser tudo igual, hahaha”, completou o menino com uma boa gargalhada.

*Rita Lee gravou a sua versão de Perto do Fogo no dia da morte de Cazuza, em 7 de julho de 1990, sem saber que ele havia morrido.

**Ezequiel Neves morreu em 7 de julho de 2010, exatos 20 anos após a morte de Cazuza.