Foi você

Há tempos não lia o André Forastieri. E quando lia, quase sempre discordava muito e muitas vezes. Mas ainda assim gostava da leitura. Gostava de não concordar, mas sobretudo da maneira como ele construía seus argumentos, suas opiniões.

Essa ‘relação’ distante começou nas páginas da Folha São Paulo, na primeira metade da década de 1990, se não me engano; depois se transferiu para os artigos mensais da revista Caros Amigos e, nalgum ponto, se perdeu.

O blog, confesso, li apenas umas duas ou três vezes, bem recentemente. Até que agora um link no Twitter me levou a esse texto – um dos mais bacanas que li nos últimos dias, sobre a eleição que se definiu neste domingo.

Se você leu alguma notícia sobre política, em algum veículo online, seja ele jornal, revista, blog, Twitter, Facebook ou Orkut; se assistiu um vídeo no YouTube ou algo do tipo, acho que também deveria ler esse texto do Forastieri. Seja você eleitor de Dilma Rousseff ou de José Serra. E ainda mais, seja você eleitor de Plínio de Arruda Sampaio ou de Marina Silva.

É uma das análises mais claras sobre as mudanças radicais do tempo presente que tive o prazer de ler. Online.

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2010: o ano em que a democracia chegou aos brasileiros

Por André Forastieri

Em 2006, o número de brasileiros que liam jornal e revistas de informação estava na faixa dos 15 milhões. Eram os famosos “formadores de opinião”, na teoria gente com alguma informação, e capacidade de discutir propostas e defender posições.

Em novembro de 2006, o Brasil tinha 14,4 milhões de usuários de internet. Hoje somos 68 milhões. O número de pessoas que leem jornais e revistas caiu um pouco, mas não importa. Todo mundo que está na internet está lendo as notícias, se informando, debatendo – e fazendo várias outras coisas também. O número de formadores de opinião quintuplicou em quatro anos.

E a própria internet mudou nesse período. Não tínhamos Twitter e Facebook, agora temos. YouTube existia, mas a banda larga era bem mais rara e cara, então a gente via muito menos vídeos. O Orkut tinha 12 milhões de usuários em 2006; hoje são 40 milhões de brasileiros na maior rede social do país. O usuário hoje faz mais na internet. E faz em turma. Passamos cada vez menos tempo sozinhos em frente ao computador.

Principalmente, conversamos. Só o Twitter tem mais de oito milhões de participantes. É mais que a circulação de todas as revistas nacionais de informação somadas.

Eleição sempre foi mais animada na mesa do bar, no balcão da padoca, no almoço do domingão. A eleição de 2010 foi uma grande conversa de boteco entre 75 milhões de brasileiros. Pela primeira vez, o debate incluiu mais da metade dos eleitores. Saiu da sala de visita, foi para o resto da casa, inclusive o quarto da empregada. Quem é o novo formador de opinião, comparando com o velho? É uma turma mais jovem, mais religiosa, menos branca, menos abonada, mas ascendendo. É a famosa nova classe C, que cresce financeiramente, socialmente, intelectualmente.

*Vale a pena continuar a leitura aqui.

Olhando de fora

Artigo do jornalista português João Pereira Coutinho, colunista da Folha, sobre os eleitores que desaprovam o governo Lula.

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Os heroicos 3%

Passei meus últimos dias com a cabeça mergulhada no Brasil. As eleições, sim, as eleições: na TV ou nos jornais portugueses, a minha tarefa era explicar aos patrícios o que sucedia desse lado do Atlântico. Li muito. Escutei bastante. Perguntei idem.

Mas de tudo que li, escutei ou aprendi, nada me perturbou tanto como saber que Lula deixa o Palácio do Planalto com 82% de aprovação popular.

Minto: o que me impressiona não são os 82%; o que me impressiona são os 3% de brasileiros que desaprovam o governo Lula e que não embarcam no entusiasmo geral. Como são solitários esses 3%! E como são heroicos! É preciso coragem, e uma dose invulgar de realismo e sensatez, para não ser atropelado pela multidão desgovernada. Quem serão esses 3%? Gostaria de os conhecer, de os convidar para minha casa, de beber com eles à liberdade e à democracia. Vou repetir, quase com lágrimas nos olhos: 3%!

O restante da coluna pode ser lido aqui.

Indignação

"Eu voto no Serra e acho que teve armação, porque quem vota na Dilma são as pessoas de classe baixa. E grande parte dessas pessoas não viaja. Enquanto que os que votam no Serra estão se divertindo por todo o Brasil, né?", analisou o engenheiro Jadiel Beigo, 25 (à esquerda) -- Foto: Shin Shikuma/UOL

Espera aí… Deixa eu ver que entendi direito: o engenheiro Jadiel votaria no Serra, mas viajou no feriado prolongado. Ele viajou e acha que houve armação para ele viajar e ‘se divertir’, enquanto o país ia às urnas?

Ele acredita que os eleitores do Serra estão se divertindo em todo o país (ele inclusive) e está indignado com isso?

É isso mesmo?

O Jadiel acha, também, que os pobres fodidos que ficaram em casa, e elegeram a Dilma, fizeram merda e são parte da armação?

Então, é uma indignação dupla? Certo?

Boa sorte na volta do feriado, Jadiel.

24h no Facebook

O que está (ou estava) pensando parte importante dos formadores de opinião, em suas publicações no Facebook, às vésperas e após a eleição de Dilma Rousseff à presidência da República, neste domingo, 31 de outubro de 2010.

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Indeciso entre branco e nulo. Cada vez mais.
Paulo Roberto Pires – jornalista e editor

Atenção galera, não se esqueçam, neste domingo vamos marcar #Dilma45 e confirmar no botão verde! #Dilma45 😉
Augusto Sales – escritor e ‘homem de fusões’

O que não falta, para mim, são motivos para se falar mal do índio da Costa, lamentável vice do Serra. Mas acho esquisito publicar vídeo dele sendo agredido por partidários do falecido Claudinho da Academia dizendo que a cena mostra que ele “não pode ser vice-presidente”. Dá a entender que os que ameaçam e agridem estão fazendo algo que o cara “merece”. Mesmo sendo o Índio, acho perigoso afirmar isso, mas, enfim…
Gustavo De Almeida – jornalista

‎”O melhor candidato é sempre o meu”. Só isso pra explicar a reação de alguns eleitores de Serra. Tem nada não, um dia esse povo que ganhou a vida toda aprende a perder. Parabéns, Dilma, pela VITÓRIA.
Márcio Markman – jornalista

Parabéns Dilma. Votei no Serra com toda a minha convicção, mas agora é hora de apoiar o novo presidente. Não deixe que Zé Dirceu mande mais do que você. Só isso!
Raphael Perucci – jornalista

Parabenizo os companheiros e aliados pela manutenção do poder: Erenice Guerra e família, José Genoíno, Delúbio Soares, José Dirceu, João paulo Cunha, Professor Luizinho, João Magno, Sílvio Pereira, Paulo Rocha, Anderson Adauto, Henrique Pizzolato, Luiz Gushiken, Pedro Corrêa, Pedro Henry, Valdemar Costa Neto, Marcos Valério e tantos outros que tanto contribuíram durante os oito gloriosos anos de governo Lula.
Renato Lameiro – jornalista

socorro!! alguem pode passar um corretor nas olheiras do indio da costa??? que horror. o cara ja eh agua de salsicha e ainda de olheiras… tinha tudo pra ser gatinho…
Claudia Silva – jornalista

Eleito primeiro mico histórico da da Era Dilma. José de Abreu chorando, como papagaio de pirata, no primeiro discurso da presidenta. Bem, os CorruPTOS venceram mais uma vez. Mas muita água ainda vai correr. Tá todo mundo ali SUJO de dinheiro podre. Isso vai aparecer.
Mario Marques – jornalista

Dilma nunca foi minha candidata ideal. Mas espero, de verdade, que ela faça um governo justo, igualitário, tendo o povo brasileiro como prioridade. Acho que esse não é o momento para torcermos contra a Dilma só por ter(mos) votado em outro candidato. Como vi escrito no twitter ainda há pouco: se não votou, fiscalize. Se votou, fiscalize também. Mas sem guerras de opinião, pq isso é torcer contra o Brasil.
Angélica Paulo – jornalista

Espero que esses próximos quatro anos venha um pouco mais de cidadania e conquistas pra todos esses que vemos neste clipe e conhecemos bem na miséria urbana. Agora um misto de lembranças… de meu avô chorando com a volta do Brizola na tv P&B lá de casa, Prestes já idoso palestrando em meio a queda do Muro de Berlim… e tudo isso unido por um fio histórico como uma teia que entrelaça nossos sonhos.
Antônio Dutra – escritor

Acabou, galera. Apesar de tudo elegeram a Dilma. Assim que aparecer o primeiro escândalo vou lembrar de todo mundo que fez campanha pra ela por aqui, hahaha, e aí quero ver quem vai dar a cara a tapa! Agora chora!
Carla Knoplech – jornalista

E tem gente que tenta ridicularizar, minimizar, reclamar do intenso debate político e troca de informações no “Facebook”. Justamente no período eleitoral (…) É incompreensível!
“A democratização das nossas sociedades se constrói a partir da democratização das informações, da mídias, da formulação e debate dos caminhos e dos processos de mudança”. ( Herbert de Souza)
Viva o Brasil!
Cid César Augusto – jornalista e cineasta

Viva Dilma!!!! Dilma Rousseff is the new president of Brazil!!!!!
Nubia Rosa – jornalista

Votei na Dilma e fico feliz por ter eleito a primera mulher presidente do Brasil. Espero continuar feliz em 2014. Q seja um bom governo.
Isabella Guerreiro – jornalista

Agora é Dilmaaaaaaaa! É MULHER, é MULHEEEEEEEER!!
Ines Garçoni – jornalista

A única que estou achando chato são alguns comentários preconceituosos sobre nordestinos. Pessoal ‘conectado’ super reacionário
Renato Cozta – jornalista

É isso aí! agora é esperar que a primeira mulher presidente faça desse país um país ainda melhor de se viver. Que amplie a inserção e o sistema distributivo implantado nesses ultimos anos.
Ana Carvalho – jornalista

Que m…Dilma ganhou. De agora em diante, não tenho presidente da república
Giselle Andrade – jornalista

Viva a Democracia brasileira! Não há vencedores nem vencidos! Há uma Brasil, que todos, desejamos esteja sempre e cada vez melhor para todos nós, para América Latina e para o Mundo!
Marcos Pinto – fotógrafo

Impressão minha ou o Serra se emocionou nas considerações finais???
Nilo Junior – jornalista

Marina e Ciro

A saída de Ciro e o retrocesso democrático

Qual o sentido político da democracia? É a liberdade de escolha bem informada. Numa eleição em dois turnos, como a presidencial, o primeiro foi concebido para oferecer ao eleitor um leque de alternativas políticas. A partir da diversidade de idéias e do debate entre elas, compete ao cidadão escolher as que entende serem as melhores para si e para o país.

É particularmente perverso que esse processo, que está no cerne da democracia, seja instrumentalizado para impedir abalos na manutenção de projetos de poder. Não é admissível que se queira manipular o direito de escolha por meio da redução forçada do leque de opções.

Assistimos agora, com o veto à candidatura de Ciro Gomes, a uma expressão exemplar desse tipo de intolerância democrática. É fácil prever que os mesmos grupos que trabalharam para tirar Ciro da disputa presidencial tentarão agora assimilá-lo.

Os que costumam agir dessa maneira são aqueles que têm dificuldade em transformar a visão democrática em ação e não admitem a alternância de poder. Primeiro, buscam eliminar os adversários que querem disputar legitimamente a preferência dos eleitores. Depois, tentam se colocar como o único hospedeiro possível para que os expurgados consigam sobreviver na vida pública.

Aquele que foi empurrado para fora do processo passa então a ser apontado como bom companheiro, patriota, desde que aceite ser assimilado por aqueles que articularam o seu expurgo.

Perde o país, perde a democracia.

*Texto da candidata postado no site Minha Marina, em 23/04/2010.