Mora na filosofia

Reproduzo abaixo um texto do jornalista Flávio Gomes, publicado em seu blog (http://flaviogomes.warmup.com.br/), sobre a partida de Sócrates. Não sei se concordo muito com a última frase, mas é um belo texto.

* * *

PORRA, DOUTOR

SÃO PAULO – Aí quando eu estava lá embaixo no meio daquele milhão de pessoas pedindo para votar para presidente, o cara sobe lá no palanque, em cima do viaduto, ergue o punho direito, ou o esquerdo, e grita que queria a mesma coisa. Do meu lado, gente de todas as cores e credos ludopédicos erguem seus punhos, também, e aplaudem o cara, que resolveu não jogar na Europa porque queria estar aqui para ver de perto o fim daqueles anos em preto e branco.

Não deu nada certo, não votamos para porra nenhuma, e dias depois, ou semanas, não me peçam para lembrar os quandos e ondes, mas acho que era no Morumbi, e o cara enfia a bica da intermediária, nosso goleiro sem pescoço pula e não pega nada, ele ergue o punho de novo e eu xingo o cara com todas as minhas forças, doutor do caralho, filho da puta, vai tomar no cu.

Antes, Copa do Mundo na Espanha, Brasil versus União Soviética. Estamos lá na zona leste, num puxadinho junto com um monte de gente que eu também não conhecia direito, uma TV com bombril na antena, umas brahmas, gol dele, o empate, se bem me lembro. Abraços e beijos, doutor do caralho, filho da puta, joga demais, vamos, porra.

Depois daquela Copa acho que não torci mais para seleção nenhuma, depois daquela ninguém mais nos representou, talvez em 1986, era um restinho daquela, o cara estava lá de novo, com faixa na cabeça, quatro anos mais velho, mais cabeludo e mais desgostoso, perdeu um pênalti, nem xinguei de doutor do caralho. Já tinha feito muito, tudo bem, entre uma e outra ele tinha ido e voltado da Itália, aí foi jogar no Rio, queria ficar junto do povo, do povo inteiro, jeitão de fim de carreira, mas era médico, ia parar e vestir o jaleco para cuidar do povo, e ele dizia povo com autoridade, sabia bem quem era o povo, e cada um para o seu canto. Eu, que o conhecia da TV, do estádio e do Anhangabaú, para cuidar da minha vidinha besta; ele, para cuidar do povo — no falar, escrever, pensar.

Avança a fita.

Ano passado, um velho e empoeirado e querido pub em Pinheiros, faz frio, as portas já fechadas, o dono não quer nem saber, quem quiser fumar, fume, fumem e bebam antes que o mundo acabe, o amigo tocando violão, a gente ali, tentando entender o que estava acontecendo com nossas vidas, aí ele entra alto, forte, senta, pede um vinho, sorri, canta, sorri, bebe, sorri, fuma, e a gente tira foto com ele, e o mundo é um lugar até aceitável quando a gente vê que tem gente como ele, que jogava bola, que só vencia a timidez diante da multidão falando e tocando de calcanhar, e que sorria, e bebia e fumava.

Sócrates morreu de tanto viver, que é uma boa forma de morrer.

Anúncios

Sobre feridas e curandeiros

Invictus, longa-metragem de Clint Eastwood, que conta o empenho de Nelson Mandela para fazer de um time de rugby a chave para um modelo de união ambicionado para a África do Sul, é um bom filme para se assistir em ano de Copa do Mundo. Guardadas as devidas proporções que distanciam o rugby do futebol.

Há algumas semanas em exibição, Invictus até pode ganhar um gás extra se for condecorado com uma das duas estatuetas a que concorre no Oscar: Melhor Ator (Morgan Freeman), Melhor Ator Coadjuvante (Matt Damon). Conseguiria, assim, uma sobrevida em uma meia dúzia de cinemas país afora. Mas isso é o de menos.

O grande barato do filme, descontando o pano de fundo político, é o poder de mobilização de um líder negro, recém liberto de 30 anos de cadeia, sobre uma população esgarçada, dividida e ruminando ódios seculares.

Retratar a tarefa metódica de (senão exterminar) minimizar esses danos é a razão de existir do filme. Ali, Mandela mostra como uma alegoria da exclusão (o esporte) poderia, sim, servir como linha reta entre pontos tão distante.

E aqui, exatamente nesse ponto do filme, já não conseguia pensar em nada que não fosse o trabalho de José Júnior à frente do AfroReggae. Sim, estou comparando um filigrama do trabalho de Mandela ao que é feito por José Júnior e seu grupo em favelas suburbanas do Rio e Minas Gerais, com todos os ‘senões’ e as tais propoções guardadas lá do início.

De certa forma, as atuações político-sociais do sul-africano e do brasileiro em muito tem pontos semelhantes – ambos tratam de feridas profundas, por exemplo. Mas existe uma diferença sensível na importação do modus operandi, além do fato de Mandela focar (no filme) no esporte e José Júnior na arte: enquanto lá Mandela empurra sutilmente a classe média para os campinhos de terra batida do gueto; aqui, José Júnior consegue pôr o gueto tocando nos melhores palcos do país.

Não vou aqui entrar no mérito de dizer que a atuação de Mandela “é muito mais ampla e tal…” e que “a favela é muito mais que blá blá blá…”. O alcance de Nelson Mandela não pode nem deve ser mensurado por um pequeno post perdido no universo da blogesfera. Os livros de história estão aí nas prateleiras para os interessados. Da mesma forma, o trabalho do AfroReggae está para quem ainda não conhece e quer conhecer.

O resumo das duas situações é grosseiro, sim, mas a associação feita acima não é uma obra de ficção. Se você duvida, vá ao cinema, alugue um DVD, pegue um avião para a África do Sul ou, simplemente, visite Vigário Geral.

Não vai perder a viagem.