…em trânsito

“Nós sabemos que o metrô precisa melhorar. E vai!”, diz a propaganda institucional do Metrô Rio, que tem acumulado críticas não só constantes como veementes dos milhares de passageiros mal transportados por dia. Porém, uma outra questão diferencia o metrô carioca dos metrôs de outras grandes cidades, além da falta de qualidade inquestionável: a quantidade de leitores transportados.

Na noite desta segunda-feira, enquanto procurava uma distração na sauna que havia se transformado a plataforma da estação Uruguaiana, no Centro do Rio, pensei em um teste rápido, meramente especulativo: quem são e o que lêem os usuários do metrô.

O primeiro a aparecer com um livro tinha por volta dos 25 anos. Era homem, branco, um tanto acima do peso – talvez um pouco mais de 90 kg mal divididos em 1,70 m ou um pouco mais. Tinha calça, sapatos e mochila pretos, blusa de botão listrada de branco e azul, com mangas compridas dobradas pouco abaixo dos cotovelos. Poderia ser um profissional de TI ou um estagiário de um escritório de advocacia.

'Harry Potter e a Ordem da Fênix', quinto volume da série de J.K. Rowling

O livro estava na mão direita, com o dedo indicador marcando provavelmente o trecho onde havia parado a leitura. Ele já havia lido mais ou menos um terço de um dos volumes (ou fascículos) da série de J.K. Rowling, provavelmente Harry Potter e a Ordem da Fênix deduzindo pela cor da capa e tamanho do livro (mais de 500 páginas). Mas ele logo entrou em uma composição que não era a minha e se foi. Não tive como confirmar.

Já dentro do vagão, não precisei esperar muito até que entrasse outra leitora. Aparentava ter entre 30 e 35 anos, loira, estava com um vestido de uma cor indefinida entre o cru e o bege e uma dessas bolsas enormes que as mulheres carregam agora para todos os cantos, como se estivessem prestes a montar acampamento em qualquer lugar.

Ela parou bem próximo, mas antes de saber o nome do livro, tentei imaginar o que ela poderia fazer da vida. Tinha os cabelos loiros, um pouco abaixo dos ombros, presos. Não reparei se usava brincos ou colares. Chutei professora, mas pensei que poderia ser diretora de alguma empresa – um cargo de graduação mediana para alta. Mas a Central do Brasil, estação em que ela entrou, não é uma área de grandes empresas. Secretária, talvez. Bilíngüe. Ela lia 40 Days & 1001 Nights, One Woman’s Dance Through Life in the Islamic World, de Tamalyn Dallal. Em inglês, óbvio. É isso, professora, professora de inglês. Talvez.

Assim que vi a terceira leitora, ela estava perto de desembarcar – uma estação antes da minha. O metrô já estava parando e não daria tempo de eu chegar até ela, que fechou o livro e o pôs junto ao corpo, tentando se equilibrar para não cair com a freada. Então, foi preciso fazer uma pequena ginástica e descer na estação dela, o tempo suficiente para que eu conseguisse ver a capa de A menina que roubava livros (design da fora de série Mariana Newlands) e voltasse ao vagão por outra porta. Nem deu tempo de observar a leitora com maior cuidado.

Foto de Earl Theisen para a Look Magazine / Arquivo de Earl Theisen / Coleção Ernest Hemingway / Biblioteca e Museu presidencial John F. Kennedy, Boston.

Assim que voltei, dei de cara com outra leitora. Nova, bonita, em torno dos 22, 23 anos, morena, aproximadamente 1,60 m, de short branco, camiseta cinza, cabelos compridos, lisos, castanhos escuros. Usava tênis, tinhas as pernas grossas queimadas de sol e seios fartos. Aparentemente naturais. Poderia jurar que frequentava a academia ao menos três vezes por semana. E estudava… Fisioterapia, Nutrição ou Publicidade. Nunca História ou Biblioteconomia.

A miopia atrapalhou um bocado a leitura do nome do livro, que estava grafado no alto das páginas direitas. O certo é que tinham quatro ou três palavras e a última iniciava com a letra ‘P’. Só me vinha Paris é uma festa, de Ernest Hemingway, o que era uma estupidez, já que era a última e não primeira palavra a começar com ‘P’. Depois de mudar de posição, consegui identificar a capa alaranjada. Era O caçador de pipas, de Khaled Hosseini.

O vagão tinha entre 80 e 100 passageiros. Desses, apenas três liam (o Harry Potter de camisa listrada foi em outro trem). O que dá uma média de 3%. Apenas uma pessoa lia um jornal.

Considerando o resultado para lá de precário, creio que podemos tirar algumas rasas conclusões. Ou das duas, uma: ou os leitores do Rio evitam o metrô, ou os passageiros do metrô não são chegados às letras.

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* De acordo com a pesquisa ‘O livro no orçamento familiar’, divulgada no final de 2007, apenas 7,47% da população brasileira adquire livros não-didáticos, e essa compra representa 0,05% da reda familiar. Os dados, baseados na Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE, foram coletados entre julho de 2002 e junho de 2003) e têm uma amostragem de 50 mil domicilios.

Mas além dos números ínfimos de leitura (que crescem, ressalte-se), um outro dado da pesquisa se destaca. “Da totalidade das despesas das famílias com material de leitura, 10,1% são compras de livros não-didádicos, enquanto as fotocópias representam 9,7%”. Ou seja, quase a mesma a quantia do que gastam com os livros, os brasileiros gastam com fotocópias – as famosas ‘xerox’. Isso quer dizer alguma coisa. Fonte: Instituto Pró-Livro.

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