‘Tu é repórti, nem?’

O agrupamento de figuras ilustres da história de Ipanema, na Zona Sul do Rio, era prenúncio de algum evento importante. O povo todo, além da imprensa e curiosos, estava concentrado no acesso ao metrô da Praça General Osório, dificultando de alguma forma a entrada e saída dos passageiros alheios à confusão.

O evento era para inaugurar as torres com elevadores panorâmicos que ligam o asfalto ao morro do Cantagalo, no mesmo bairro. Eram aguardados ali o governador e o prefeito do Rio, enquanto circulavam no entorno políticos de escalões e esferas bem distintas.

Com de praxe, os jornalistas se aninhavam em grupos que não reuniam mais que quatro ou cinco da mesma espécie. Sempre espreitando os mais célebres, buscando uma fala solta, ‘uma aspinha’.

Um desses grupos de ‘famosos’ reunia senhores na casa dos 70 e poucos anos, como o jornalista Sérgio Cabral e o cartunista Ziraldo. A repórter de uma rádio local circulou uma, duas, três vezes em volta deles, até que voltou para sua turma e sinalizou com a cabeça.

“Quem é esse aí?”, perguntou, referindo-se a um terceiro senhor, alto, de cabelos grisalhos. Houve dúvida no grupo, mas o ‘desconhecido’ em questão chama-se Zuenir Ventura.

Com mais de 50 anos de jornalismo, Zuenir passou pelos principais veículos de impressa do país, como os jornais ‘Diário Carioca’, ‘Jornal do Brasil’ e, mais recentemente, ‘O Globo’, além das revistas ‘O Cruzeiro’, ‘Fatos & Fotos’, ‘Visão’ e ‘Veja’.

Zuenir escreveu ainda livros obrigatórios para todos os jornalistas e para os que pretendem entender um pouco da história recente do país (ou escrever sobre ela), como ‘1968 – O ano que não terminou’, e ‘Cidade partida’, entre muitos outros.

Agora, a pergunta retórica: o que, afinal, andam ensinando nos armazéns de formar jornalistas espalhados pelo país?

Zuenir Ventura: para não mais errar

Sempre rindo…

Quinta-feira, dez e alguma coisa da manhã. A mulher espera atendimento no setor de ginecologia do Hospital de Ipanema. Tenta sem sucesso fazer ligações num velho celular sem créditos. Anda pra lá, anda pra cá, faz um rápido rastreamento com os olhos e senta à frente de uma gorda que tem uma senhorinha (a mãe) ao lado.

A primeira mulher pergunta para a gorda se ela pode fazer uma ligação a cobrar para o telefone de seu marido. Ele foi levar o irmão dela ao médico (no Gafrée Guinle), é desligado, e ela precisa lembrá-lo de que ele tem que entregar o exame de sangue do irmão.

– Eu não consigo falar com ele –, diz a primeira mulher.

A gorda responde que tudo bem, pergunta o número e liga. Espera. Expectativa. Pergunta o número de novo. Digita. Espera. Outras pessoas prestam atenção. Ela balança a cabeça negativamente.

– Fora de área ou desligado.

A primeira mulher aparenta preocupação. O marido é desligado, ela repete. Para ilustrar, diz que ela dorme numa cama de solteiro, ele noutra. Ele não pode sentar na cama dela. Ele sabe disso. Na noite passada, distraído, ele sentou na cama dela. Caiu tudo: ela, ele, cama, tudo no chão.

– Tô morrendo de dor nas costas aqui – reclama, passando a mão esquerda nas costas.

Diz que os sobrinhos abandonaram seu irmão, e quem tem que cuidar dele agora é ela. Não querem saber do pai. A filha trabalha em uma empresa de telefonia, mas desliga o telefone quando percebe que é ela ligando. Disse que ia lá cuidar dele em São Gonçalo. Tudo mentira. Os vizinhos o encontraram desmaiado em casa, há três dias sem comer. O irmão se envolveu com drogas, por isso os filhos o rejeitam.

– Meu ex-marido era assaltante de banco e seqüestrador. Não roubava gente em ônibus, não. Só banco.

Apesar disso, os filhos nunca deixaram de visitá-lo na cadeia, ela diz. Um dia sequer. Um dia de visita, claro. O ex-marido passou 20 anos na cadeia. Morreu lá, de ataque do coração. Mas não é esse que está no hospital, não; é o outro. Ela diz que esse é muito bonzinho.

O outro era do grupo do Escadinha, aqueles caras todos, os ladrões. Mas os filhos são honestos. Um deles se formou em advogado. É policial civil. Já passou para a Polícia Federal e está esperando ser chamado. De tanto ver aquele ambiente da cadeia, o filho disse que queria ser da polícia para entender tudo aquilo.

– E era desse tamanho – diz ela, com a mão direita levantada a um metro do chão. – A senhora pode tentar novamente? – pede para insistir no celular.

– Nada. Nenhum sinal – diz a gorda.

Entre conformismo e lamento, a primeira mulher diz que deveria ter dado seu celular para o marido (o bonzinho).

O ex-marido, ela continua, era de classe alta, morava na Ataulfo de Paiva, no Leblon. Era filho de general, mas gostava da bandidagem, do crime. Era seqüestrador e assaltante de banco, gostava era disso.

– Se afeiçoou, né? – diz a gorda, meio sem saber o que dizer.

A primeira mulher repete que o ex-marido foi condenado a 20 anos de cadeia e sempre que completava um sexto da pena, colocavam um novo crime na sua conta. Ele poderia ser condenado a 100 anos, “mas no Brasil não tem isso”. Ela diz que o pai dele sempre tentou tirá-lo de lá, mas não conseguiu. E era general. Montado na grana.

O ex-marido morreu na cadeia. Tinha 18 anos de preso. O pai também morreu, de desgosto – ela acha.

– Tá demorando, né – diz a primeira mulher. – Eu fiz meu exame no Bronstein, fiz no particular. Se ainda fosse pedir aqui… – fala, deixando à mostra alguns dentes estragados e um ligeiro pedantismo.

– A senhora é de onde – pergunta a primeira mulher.

– De Nova Iguaçu – responde a gorda.

– E não tem hospital lá, não? Tem que vir pra cá? – indaga, demarcando o território.

– Eu tava na Posse, mas encaminharam pra cá – tenta explicar a gorda, meio sem paciência.

Depois de um certo silêncio, a primeira mulher e a gorda falam sobre os exames e as consultas que esperam. A ex-mulher do seqüestrador diz que tira tudo de letra, e que só tem medo mesmo da mamografia.

– Você vê a Hebe, né? Nunca teve nada, sempre rindo… olha aí.

Os outros pacientes já não prestam atenção à conversa.