eu também grito

Assisti somente ontem ao documentário ‘Jards Macalé – Um morcego na porta principal’, que ganhei de presente de aniversário há quase dois meses.

Não sei o por quê da demora, nem a razão de não ter visto o filme de Marco Abujanra e João Pimentel no cinema. Mas entre os muitos bons momentos do doc, destaco um trecho com um vídeo do poeta Wally Salomão recitando ‘Poema Jet Legged’, com Gal Costa cantando ‘Vapor barato’ ao fundo*.

É preciso estar bem de espírito para ver isso. Ainda assim, por mais acachapante que seja o que o poeta grita ali (e o que a cantora berra ao fundo), não há como a tristeza não ser balançada por uma euforia nervosa. Chamar de ‘sentimento contraditório’ é deixar algo indefinido.

Fôlego.

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Poema Jet Legged

Viajar para que e para onde,
se a gente se torna mais infeliz
quando retorna?
Infeliz e vazio, situações
e lugares desaparecidos no ralo,
ruas e rios confundidos, muralhas, capelas,
panóplias, paisagens, quadros,
duties frees e shoppings…

Grande pássaro de rota internacional sugado
pelas turbinas do jato.

E ponte, funicular, teleférico, catacumbas
do clube do vinho, sorbets, jerez, scanners,
hidrantes, magasin d’images et de signes,
seven types of ambiguity, todas as coisas
perdem as vírgulas que as separam
explode-implode um vagão lotado de conectivos
o céu violeta genciana refletido
na agulha do arranha-céu de vidro

Mas ficar para que e para onde,
se não há remédio, xarope ou elixir,
se o pé não encontra chão onde pousar,
embora calçado no topatudo inglês
do Dr. Martens

(Wally Salomão)

*(a qualidade precária do vídeo deve-se ao fato de eu ter filmado a tela do computador)

…um samba sobre o infinito


Para ver as Meninas
Paulinho da Viola

Silêncio por favor
Enquanto esqueço um pouco
a dor no peito
Não diga nada
sobre meus defeitos
E não me lembro mais
quem me deixou assim
Hoje eu quero apenas
Uma pausa de mil compassos
Para ver as meninas
E nada mais nos braços
Só este amor
assim descontraído
Quem sabe de tudo não fale
Quem não sabe nada se cale
Se for preciso eu repito
Porque hoje eu vou fazer
Ao meu jeito eu vou fazer
Um samba sobre o infinito