Com surpresa / Sem surpresa

A história é curta, para não perder a objetividade. Era uma tarde modorrenta e suada de sábado e eu balançava na rede à procura de vento quando o celular tocou. A voz de André Mansur do outro lado parecia grave. Entre um atropelo e outro, ele dizia que precisava de ajuda, que havia discutido com a menina Tanaka, que algo tinha saído errado e, insistia, precisava de ajuda. Urgente.

Eu estava de visita na casa da minha mãe, na Baixada Flumiunense. Portanto, longe algumas dezenas de quilômetros de casa, na Zona Sul do Rio. Questionei: o que saiu errado? urgente quanto? Respostas evasivas.

Pensei, sem censura: ‘Fudeu. Matou a garota. Vai pedir para se enconder lá em casa’. Ao menos que eu soubesse, não tinha amigos criminosos. Até ali. Deixei a rede e fui (ou vim, dependendo do ponto de vista). Foi uma viagem tensa. Hora e meia, se muito.

Numa segunda ou terceira ligação ele questionou o quão perto estava. O tom ainda grave. Logo que cheguei, avisei-o. Ele disse: ‘Estou aqui embaixo. Pode descer?’. Desci imaginando o pior: mãos manchadas de sangue e uma faca para sushi suja no bolso da bermuda.

Saí, ainda perambulei um pouco pela calçada até encontrá-lo.

Ele estava acompanhado de sua suposta vítima, a menina Tanaka, e de Augusto Sales. Tinham, sei lá, uma meia dúzia de bolas de gás coloridas nas mãos. Era 16 de novembro de 2002. Era a festa surpresa do meu aniversário.

Surpresa multiplicada, se considerarmos que nasci em 27 de maio. Aniversário fora de época, foi como chamaram.

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Lembrei dessa história porque nesse dia ganhei dois livros, ambos de crônicas. ‘Para uma menina com uma flor’, de Vinicius de Moraes; e ‘Conversa com a Memória’, de Villas-Bôas Corrêa.

Este último volume foi a primeira coisa que lembrei quando fiquei sabendo há pouco que Villas-Bôas escreveu neste 2 de fevereiro de 2011 o que ele afirma ser a derradeira coluna para o Jornal do Brasil (ou o que ainda resta dele, com todo o respeito).

Hoje mesmo, sem saber, conversei sobre o ‘Jotinha’ com Anna Luiza Guimarães e falamos sobre o respeito que temos (nós, que de certa forma nos educamos ali) quando precisamos ou queremos nos referir a ele (JB).

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Hoje mesmo, também, conversei sobre o nível dos deputados e senadores que enviamos para o Distrito Federal neste início de 2011 e que acabam de assumir suas cadeiras.

Desta forma, não deixa de ser emblemática a decisão de Villas-Bôas de pôr um ponto final em sua história de cronista político (resumida em apenas dez parágrafos) justo hoje.

Sem surpresas, diria.

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A coluna, para os que não leram:

Villas-Bôas Corrêa – Coisas da Política

Ensaio da despedida

Este é provavelmente o último artigo que batuco para o JB Premium e demais fregueses. Uma decisão que não cobrou preço para ser tomada, pois resulta da imposição de evidências.

Durante mais de 60 anos batuco desde as velhas máquinas que exigiam o esforço dos indicadores até entortá-los em aleijões que impõe o esforço dobrado. Não dá para exigir mais dos venerandos com décadas de sacrifício.

Esta é a razão principal e decisiva. No mais, o caldo grosso da monotonia. Eu vivi os grandes momentos da queda do Estado Novo, como presidente do Centro Acadêmico da Faculdade Nacional de Direito – o Caco que virou nome da praça em frente ao velho e restaurado edifício que frequentei durante cinco anos, até a colação de grau da turma de 1947.

Casado e com dois filhos, conquistei por concurso a vaga de técnico de propaganda, pomposo apelido de redator da Seção de Propaganda. No Saps conheci e fiquei amigo até a morte do diretor, major Umberto Peregrino, o maior administrador que conheci em toda a minha longa vida.

E sempre gostei de escrever, de improvisar comentários políticos, como fiz na TV Manchete durante anos. A TV sem censura reconquistou a vaga do comentarista político, como o Boechat, da TV Bandeirantes, e o casal William Bonner e Fátima Bernardes, da Rede Globo, além de outros craques do Rio, São Paulo, Belo Horizonte e outras capitais.

Trabalhei como redator e depois diretor da Sucursal de O Estado de S.Paulo. Assinei o primeiro comentário político do Jornal do Brasil, quando da reforma do meu saudoso amigo Odylo Costa, filho.

Nos dois mandatos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o comentário político renasceu, adubado pelas fofocas, as entrevistas, as frases gaiatas do mais popular presidente de todos os tempos.

Da queda da ditadura do Estado Novo de Getulio Vargas até a ditadura militar dos cinco generais presidentes – Castello Branco, Costa e Silva, a Junta Militar formada pelo general Aurélio de Lira Tavares, do Exército, almirante Augusto Rademaker, da Marinha, e brigadeiro Márcio de Sousa e Melo, da Aeronáutica, foram anos de chumbo, censura à imprensa, cassações de mandatos parlamentares: a ditadura militar sem disfarce.

E que se prolongaria nos governos do general Emílio Garrastazu Médici e Ernesto Geisel para a transição nos seis anos do mandato do presidente general João Batista de Oliveira Figueiredo.

Daí em diante os governos civis de José Sarney, o curto mandato de Fernando Collor de Mello, que renunciou passando o cargo ao vice-presidente Itamar Franco. De lá para cá Fernando Henrique Cardoso em dois mandatos e Luiz Inácio Lula da Silva, em mais dois, até a eleição da atual presidente, Dilma Rousseff.

Muita conversa para um recado tão curto. Hoje gosto mais de ler do que de escrever.

Estou lendo as 1.077 páginas da fantástica biografia de Adolf Hitler, o clássico de Ian Kershaw. Já passei do meio.

Conversando, a gente se entende. E não briga.