Que porra é essa?

Ando descrente. Quase desacreditado. É cíclico, mas não arriscaria um diagnóstico de bipolaridade. Digo isso em relação a atualização desse espaço, que surgiu sem maiores pretensões – como foi dito no post 100 mais abaixo.

Mas isso não é necessariamente um desabafo. É mais uma constatação provocada por uma curiosidade. Explico: o administrador do WordPress utilizado para a postagem dos textos e acompanhamento do tráfego de leitores tem uma ferramenta interessante.  Chama ‘Termos de motor de busca’. O que seria isso? Ele identifica através de que palavras buscadas em sites como Google os leitores (que não vieram espontaneamente) chegaram a este Café Escuro.

Já há algum tempo tenho observado, com certa displicência, alguns termos curiosos, como ‘qual a diferença de idades entre tally e peris?’ (?!) e outros até óbvios, como ‘café’, por exemplo. Mas um deles é mais que freqüente, aparece com uma certa insistência até.

E aí que, como dizia, estava sem muita paciência de escrever algo novo e fui conferir o que o tal ‘motor de busca’ tem armazenado desde o início desta brincadeira. E estava lá o que já imaginava: em primeiro lugar, imbatível, absolutamente isolada, a palavra tão procurada pelos internautas: porra.

Isso aí: porra. Mais que o dobro do segundo termo mais procurado: porra maurício.

O blogueiro quebra a cabeça atrás de temas ‘supostamente’ interessantes ou que poderiam estimular internautas e… nada. Livros? Cinema? Política? Reportagens? Música? Porra nenhuma. Os interesses são outros.

Fato que muitos desses navegantes sem rumo acabaram por encontrar aqui o que não queriam ou certamente não buscavam. Google e afins os empurraram para cá por conta do post Porra, Maurício, sobre o blog homônimo que satiriza (com excelente bom humor) o trabalho de Maurício de Souza. Meno male.

Mas o que me chama mesmo atenção é a presença do porra em outras posições do ranking de busca, como na 11ª posição, dividida com ‘cafeescuro’ (sem acento e junto) e swu (o festival de música ocorrido em São Paulo). Assustadoramente, está lá: café com porra.

Eu temo.

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‘Uma maneira curiosa de exercitar a vaidade…’

Numa semana em que a movimentação inusitada do ermitão Rubem Fonseca mexeu com a cabeça de escritores, leitores e jornalistas culturais, com a saída do autor da toca para comparecer a um impensável evento público, uma dúvida tilintou dentro da caixola: quem é Paula Parisot?

Sim, foi a moça de 31 anos quem fez o maior contista brasileiro vivo deslocar-se do Rio para São Paulo, na manhã da última terça-feira, para prestigiar uma ‘performance’ sua. Ela se encontrava confinada dentro de uma caixa de acrílico de 4m x 3m em uma livraria paulista.

A partir dali, algumas ‘teses’ sobre a aproximação dos dois pipocaram na grande imprensa – inclusive a de que ela seria o ‘pivô’ de sua misteriosa saída da editora Cia. das Letras após 20 anos de parceria.

Por conta disso, o Café Escuro (que já havia falado do autor no post 9 milímetros) procurou algumas figuras ligadas ao meio literário e editorial (leitores inclusive) para tentar construir um perfil da menina Parisot, com base na observação alheia. Algo como ‘Parisot por eles’. Não deu certo.

Dos poucos selecionados que receberam as perguntas deste blog, apenas três se deram ao inconveniente trabalho de responder. Dois deles admitiram ter pouco a acrescentar e, como um mantra, repetiram a mesma palavra para quase todas as questões: ‘Não’. Não conheciam, não leram, não se interessavam, não acreditavam, e por aí vai.

“Não tomei conhecimento sobre a performance, apenas superficialmente. Em relação declarações de Fonseca sobre ela, acho que ‘avalizam’, com aspas mesmo, mas não tenho certeza se ‘dão credibilidade’. E, sim, acredito em promessas literárias. Lembro do Daniel Galera e da Carol Bensimon. Acho que estão no caminho”, disse o leitor gaúcho Dante Sasso.

“Levianismo à parte, penso que foi uma jogada da editora e que Rubem Fonseca ganhou um troco. Lembro que há poucos meses ele foi leiloado, mas nem sei se quem levou foi a mesma editora da moça”, lembrou o jornalista André Mansur sobre a visita de Rubem à tal performance. (N.E. Não, não foi. A nova editora de Fonseca é a Agir; a nova editora de Parisot é a Leya.)

No entanto, o primeiro questionário a pingar na Caixa de Entrada foi justamente de um escritor e, talvez por isso, o único a pedir anonimato. Era, contudo, o que trazia as informações mais consistentes.

Segundo ele, Paula pertence “a uma casta de altíssimo nível do hight society paulista”, de família muito próxima ao escritor de A arte de andar nas ruas do Rio. Ele explica que a conheceu depois que um amigo a indicou como sendo uma boa escritora, frisando que ela tinha sido indicada para a Cia. das Letras por Rubem Fonseca. “Talvez seja o motivo de desafeto ou desentedimento para a saída do escritor de Mandrake de lá”, diz, apostando em hipótese também defendida por Fábio Victor, na Folha de São Paulo.

No trecho da entrevista que segue abaixo, o escritor anônimo discorre um pouco sobre o que pensa de seus colegas de função – mentor e pupila. Revela um suposto teor sexual embutido na relação pública entre os dois; e compara a declaração do autor de Agosto, sobre a performance de Paula, com as análises de artes plásticas construídas por Mario Pedrosa e Ferreira Gullar, por exemplo.

Se todo esse movimento serviu para algo, foi para mostrar que o velho Zé Rubem continua ‘na atividade’ extra-literária e, com ela, conseguiu pôr mais uma discípula na estrada.

* * * *


Já havia lido ‘A Dama da Solidão’ ou
‘Gonzos e Parafusos’?

Li um conto de ‘A Dama da Solidão’. Não me pareceu nem melhor ou pior que Patrícia Mello ou qualquer outro arremedo fonsequiano. Mas eu teria um prazer maior em indicar mulheres, porque satisfaria meu ego masculino e meu complexo de Dom Juan, do que homens. Há um flerte ou uma malícia nessa história. Um modo inteligente de afirmar a fama falocentrica de Fonseca. Não são mulheres burras ou que escrevam mal, porque isto seria um tiro no pé do autor de Prisioneiros. Mas é uma maneira curiosa de exercitar a vaidade em todos os níveis.

O que você já ouviu dizer da literatura de Paula?

Sinceramente, não acompanho. Como o que ela faz é uma pálida sombra do que Rubem Fonseca já realizou, não me interesso pela leitura, mas deve ter lá isto que interessa aos analistas de literatura de gênero que me tacharão de insensível por desconhecer a individuação daquela voz por este, este e aquele motivo… Todo o blábláblá que se desvia do assunto principal: só existem livros bons e maus. E se a criatura não dá um passo além daquele dado pelo seu criador…

O que achou da
performance feita pela escritora?

O Rubem foi para os jornais dizer que é coisa séria. Nunca li nenhuma coluna dele sobre artes plásticas como as que possuíam Mario Pedrosa, Frederico Morais, Ferreira Gullar ou comentários como Hélio Oiticica realiza sobre, por exemplo, Jackson Ribeiro. Portanto, se alguma discípula do autor de O Seminarista quebrar paredes e se cobrir de fezes, ele achará tão importante quanto se fechar em um caixa de vidro em uma livraria e ser alimentado pelos visitantes e depois produzir um livro com as sensações. Era melhor vê-la de biquini ou calcinha ou sutiã no BBB, soaria mais sincero e atingiria uma mídia maior. Talvez rendesse até capa de Playboy.

E sobre a visita ‘surpresa’ de Rubem Fonseca à tal performance?

Uma surpresa que ele deveria estar devendo a família, porque parece que são amigos de longa data… Senão, que sentido faria sair de sua casa por achar um zé-ninguém preso em uma caixa de vidro ou seja lá o que for interessante para vê-lo. Isto aos oitenta e blau, em um momento que não se pode desperdiçar tempo ou energia. Se levarmos em consideração que o autor é sério. Eu não sairia de casa. Talvez surtisse mais efeito ir a Cuba e visitar o jornalista que está em greve de fome pela libertação de presos políticos.

Com que frequencia você está lendo os tais ‘novos escritores’?

Leio aquilo que me interessa e que preste. Porque este rótulo protege um monte de baboseiras. Autores inventados por editoras que mantém criticos presos a contratos milionários ou com garantia vitalícia de salário se nos suplementos de cultura – que agora se transformaram em Show Business – elogiá-los como novos avatares das letras e canções.

Você acredita em promessas literárias? Elas têm por hábito de contratizar?

Elas se realizaram, sim. Porque o aparato em torno deles é forte. Como  falei na pergunta anterior: criticos, colegas que foram comprados e tem que enfiar a língua se sabe onde e mesmo escrevendo melhor que companheiros ‘revelações’, foram sequestrados em seu direito de opinião por punhados favores, metais, cervejas, etc… Um tráfico de influência bem pior do que aquele que ocorre em Senados, Presidências ou locais propriamente frequentados pelo poder. Daqui a alguns anos estarão como júris dos principais prêmios literários e outras quimeras da vida literária… Mas elas se concretizaram e se mantém. Me esquivarei de citar nomes. Mas a verdadeira literatura é maior que isso e que todos esses juntos.


…em trânsito

“Nós sabemos que o metrô precisa melhorar. E vai!”, diz a propaganda institucional do Metrô Rio, que tem acumulado críticas não só constantes como veementes dos milhares de passageiros mal transportados por dia. Porém, uma outra questão diferencia o metrô carioca dos metrôs de outras grandes cidades, além da falta de qualidade inquestionável: a quantidade de leitores transportados.

Na noite desta segunda-feira, enquanto procurava uma distração na sauna que havia se transformado a plataforma da estação Uruguaiana, no Centro do Rio, pensei em um teste rápido, meramente especulativo: quem são e o que lêem os usuários do metrô.

O primeiro a aparecer com um livro tinha por volta dos 25 anos. Era homem, branco, um tanto acima do peso – talvez um pouco mais de 90 kg mal divididos em 1,70 m ou um pouco mais. Tinha calça, sapatos e mochila pretos, blusa de botão listrada de branco e azul, com mangas compridas dobradas pouco abaixo dos cotovelos. Poderia ser um profissional de TI ou um estagiário de um escritório de advocacia.

'Harry Potter e a Ordem da Fênix', quinto volume da série de J.K. Rowling

O livro estava na mão direita, com o dedo indicador marcando provavelmente o trecho onde havia parado a leitura. Ele já havia lido mais ou menos um terço de um dos volumes (ou fascículos) da série de J.K. Rowling, provavelmente Harry Potter e a Ordem da Fênix deduzindo pela cor da capa e tamanho do livro (mais de 500 páginas). Mas ele logo entrou em uma composição que não era a minha e se foi. Não tive como confirmar.

Já dentro do vagão, não precisei esperar muito até que entrasse outra leitora. Aparentava ter entre 30 e 35 anos, loira, estava com um vestido de uma cor indefinida entre o cru e o bege e uma dessas bolsas enormes que as mulheres carregam agora para todos os cantos, como se estivessem prestes a montar acampamento em qualquer lugar.

Ela parou bem próximo, mas antes de saber o nome do livro, tentei imaginar o que ela poderia fazer da vida. Tinha os cabelos loiros, um pouco abaixo dos ombros, presos. Não reparei se usava brincos ou colares. Chutei professora, mas pensei que poderia ser diretora de alguma empresa – um cargo de graduação mediana para alta. Mas a Central do Brasil, estação em que ela entrou, não é uma área de grandes empresas. Secretária, talvez. Bilíngüe. Ela lia 40 Days & 1001 Nights, One Woman’s Dance Through Life in the Islamic World, de Tamalyn Dallal. Em inglês, óbvio. É isso, professora, professora de inglês. Talvez.

Assim que vi a terceira leitora, ela estava perto de desembarcar – uma estação antes da minha. O metrô já estava parando e não daria tempo de eu chegar até ela, que fechou o livro e o pôs junto ao corpo, tentando se equilibrar para não cair com a freada. Então, foi preciso fazer uma pequena ginástica e descer na estação dela, o tempo suficiente para que eu conseguisse ver a capa de A menina que roubava livros (design da fora de série Mariana Newlands) e voltasse ao vagão por outra porta. Nem deu tempo de observar a leitora com maior cuidado.

Foto de Earl Theisen para a Look Magazine / Arquivo de Earl Theisen / Coleção Ernest Hemingway / Biblioteca e Museu presidencial John F. Kennedy, Boston.

Assim que voltei, dei de cara com outra leitora. Nova, bonita, em torno dos 22, 23 anos, morena, aproximadamente 1,60 m, de short branco, camiseta cinza, cabelos compridos, lisos, castanhos escuros. Usava tênis, tinhas as pernas grossas queimadas de sol e seios fartos. Aparentemente naturais. Poderia jurar que frequentava a academia ao menos três vezes por semana. E estudava… Fisioterapia, Nutrição ou Publicidade. Nunca História ou Biblioteconomia.

A miopia atrapalhou um bocado a leitura do nome do livro, que estava grafado no alto das páginas direitas. O certo é que tinham quatro ou três palavras e a última iniciava com a letra ‘P’. Só me vinha Paris é uma festa, de Ernest Hemingway, o que era uma estupidez, já que era a última e não primeira palavra a começar com ‘P’. Depois de mudar de posição, consegui identificar a capa alaranjada. Era O caçador de pipas, de Khaled Hosseini.

O vagão tinha entre 80 e 100 passageiros. Desses, apenas três liam (o Harry Potter de camisa listrada foi em outro trem). O que dá uma média de 3%. Apenas uma pessoa lia um jornal.

Considerando o resultado para lá de precário, creio que podemos tirar algumas rasas conclusões. Ou das duas, uma: ou os leitores do Rio evitam o metrô, ou os passageiros do metrô não são chegados às letras.

. . . . . .

* De acordo com a pesquisa ‘O livro no orçamento familiar’, divulgada no final de 2007, apenas 7,47% da população brasileira adquire livros não-didáticos, e essa compra representa 0,05% da reda familiar. Os dados, baseados na Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE, foram coletados entre julho de 2002 e junho de 2003) e têm uma amostragem de 50 mil domicilios.

Mas além dos números ínfimos de leitura (que crescem, ressalte-se), um outro dado da pesquisa se destaca. “Da totalidade das despesas das famílias com material de leitura, 10,1% são compras de livros não-didádicos, enquanto as fotocópias representam 9,7%”. Ou seja, quase a mesma a quantia do que gastam com os livros, os brasileiros gastam com fotocópias – as famosas ‘xerox’. Isso quer dizer alguma coisa. Fonte: Instituto Pró-Livro.