Mandrake

Trecho da matéria de Roberta Pennafort para O Estado de S.Paulo

Quando vestiu pela primeira vez o terno de Mandrake, o advogado criminalista sedutor, obsessivo e astuto saído dos livros de Rubem Fonseca, Marcos Palmeira ganhou fios brancos na sala de maquiagem. Sete anos, duas novelas, uma peça, seis filmes e uma filha depois, o ator volta a Mandrake já mais grisalho, ainda que não aparente ter 48 anos.

De janeiro e até março – inclusive no carnaval -, sob o sol cruel de verão e a direção de Zé Henrique Fonseca, filho do escritor e idealizador do projeto, ele grava Mandrake, o telefilme, que será exibido em duas partes na HBO, emissora que produziu os treze episódios da série em 2005 e em 2007. A estreia deve ser no segundo semestre.

A equipe é a mesma, a qualidade da imagem é de cinema (era película, agora é digital). Mandrake é que aparece com novos conflitos, reflexivo, com a autoestima e a credibilidade em baixa – e um caso nada fácil para frente, que envolve adultério e assassinatos. As locações são carioquíssimas, como ele: a praia, o centro antigo, a região dos inferninhos de Copacabana.

Foi na segunda-feira, dia em que os termômetros chegaram a apontar 41 graus, que o Estado acompanhou a gravação. O cenário era a mansão na Barra da Tijuca escolhida para ser a casa de João Paulo Birman, o ricaço vivido por Carlos Alberto Riccelli que é o cliente da vez. É Mandrake mais uma vez nas altas rodas, assim como na Avenida Prado Junior das prostitutas e dos cafetões.

Zé Henrique, que sempre teve o apoio do pai na empreitada (“ele assiste, comenta, acha que o Marquinhos faz muito bem e não reclama de nada”), escreveu os primeiros episódios com base nas peripécias de Mandrake em livros como Lúcia McCartney (1967) e A Grande Arte (1983), e em Mandrake, a Bíblia e a Bengala (2005). Depois passou a criar histórias originais.

A do filme foi encomendada há seis meses pela HBO, que agora banca a produção (em parceria com a produtora de Zé, a Goritzia), tamanho foi o sucesso da série, que concorreu duas vezes ao Emmy. “Eu estava doido para que essa volta acontecesse. Marquinhos faz o personagem até dormindo, já tem o tom”, diz o diretor, que vislumbra a retomada da série.

A HBO não confirma. Em janeiro, foram disponibilizadas para locação as duas temporadas; em junho, os DVDs chegam às lojas para venda.

(des)conto

– Sabe aquele escritor que criou aquele personagem?
– Sei.
– Então… sabe aquela escritora?
– Sei, sei.
– E também tem aquele que começou escrever agora, né?
– É, tem sim.
– Então… se todo mundo bebe naquela fonte, por que eu que sou filho, não posso?

O diálogo acima, em tom de deboche, foi travado com o escritor e fotógrafo Zeca Fonseca, em meados dos anos 2000. Ele falava sobre as possíveis comparações de seu primeiro livro, na época ainda em produção, com o trabalho de seu pai, Rubem Fonseca – um dos maiores contistas do país.

Pois é exatamente nesse gênero literário (contos) que Zeca estreia agora com ‘Artérias’, que será lançado nesta quarta-feira, 23 de novembro, 19h, na Livraria Argumento, no Leblon.

Já havia falado de Zeca Fonseca nos posts ‘Não sou mau com as mulheres’ e ‘9 milímetros’. ‘Artérias’ é o terceiro livro de Zeca, lançado após os romances ‘O adorador’ (2007) e ‘Pandemônium’ (2010).

‘O adorador’ deve ganhar uma adaptação para o cinema, dirigida pelo irmão de Zeca, José Henrique Fonseca, que acaba de filmar ‘Heleno’, sobre a vida o jogador de futebol Heleno de Freitas, vido nas telas por Rodrigo Santoro.

O que escrever agora?

Isso se arrastou por umas boas semanas. A tarefa era ler e resenhar Cartas a um jovem escritor e suas respostas (Record), livro de correspondências trocadas entre o então iniciante escritor Fernando Sabino e o já consagrado poeta Mário de Andrade. Função de facilidade aparente.

Topei, muito por conta de um outro livro que havia me caído nas mãos meses antes: Mário de Andrade – A morte do poeta (Civilização Brasileira). Na última Bienal do Livro do Rio troquei umas poucas palavras com o professor e filósofo Eduardo Jardim, autor do livro, sobre os últimos anos do poeta no Rio.

A pretensão agora era sobrepor, ou melhor, por diante um do outro dois Mários: o primeiro aquele que se dizia “mentalmente fatigadíssimo, num bem completo esgotamento intelectual”; o segundo aquele capaz de despertar, no mesmo período, ressalte-se, um estado de absoluta euforia em um jovem Sabino, prenhe por “continuar querendo saber”.

É este segundo Mário (o primeiro estaria sempre à sombra, rondando) que daria o empurrão salvador ao escritor mineiro e com ele se corresponderia entre os anos de 1942 e 1945, ano de sua morte. Entender como um desencantado poeta pôde ser um sopro de vida em uma já pulsante criatura era o que buscava.

As leituras dos dois livros, no entanto, se embaralhavam e atrapalhavam. Enquanto buscava na obra de Jardim referências ao Mário epistolar, encontrava neste o retrato de um artista desiludido dando esperanças ao garoto. Enquanto houve tempo, ambos sugaram e entregaram o que puderam entre si.

Cartas a um jovem escritor… é uma espécie de diário múltiplo. Nele é possível observar a transformação de um discípulo em par de seu mentor; é possível acompanhar, quase que passo a passo, a angústia existencial do poeta que vê a morte aproximar-se; e, sobretudo, o florescer de uma sincera amizade que teria papel fundamental na carreira e na vida de Fernando Sabino.

No prefácio de Cartas a um jovem escritor… Fernando Sabido diz a certa altura: “Eu lhe confiava as minhas dúvidas e preocupações literárias com o ardor dos que querem vencer a todo custo: o problema da sinceridade do artista, a importância ou desimportância do sucesso, a necessidade de escrever e ao mesmo tempo ganhar a vida, o aprimoramento do estilo, a opção entre a arte social e a arte pela arte, e outros temas em moda na época”.

Depois desse ponto, leitura estanque, pensava apenas em quais seriam as dúvidas dos novos escritores – isso no caso daqueles que se permitem ter dúvidas. Pois a impressão mais freqüente (particular e possivelmente torta, dirão), é de que questionamentos são associados à insegurança, algo que, de forma alguma, condiz com a postura altaneira dos novíssimos.

Não há dúvidas, penso. Encaminhá-las, quando surgem, a nomes “consagrados” da literatura, ligados ao que vem sendo produzido há séculos e a possível representação do que de mais arcaico há, seria a subserviência elevada à enésima potência. “Flaubert não me diz nada”, já ouvi. Os novos não perguntam; respondem, respondem, respondem apenas. Raras são as exceções.

Mais adiante, ainda no prefácio, Sabido prosseguia: “Foram numerosas cartas de parte a parte (…). Representavam o que poderia haver de mais precioso para um jovem que pretendesse ser escritor. Teria adiantado? Relidas agora, diante dos problemas de hoje, parecem falar de um tempo morto e de assuntos já sem memória, como se estivéssemos discutindo o sexo dos anjos”.

Era o que dizia. Por ora, penso na humildade de um escritor como Antônio Dutra trocando cartas com Sérgio Sant’Anna; imagino a eletricidade verborrágica de Mariel Reis diante de um pacato Antônio Torres; e aguardo, ainda, novas indagações de Simone Paterman, cheias de pausas longuíssimas, a uma elegante e inebriada Nélida Pinõn (a exemplo da publicada por Paralelos).

Noves fora o arremedo de resenha, resta apenas um pedido: perguntem, perguntem, perguntem.

Cartas a um jovem escritor e suas respostas
Fernando Sabino e Mário de Andrade
Editora Record
224 páginas

. . .

Publicado originalmente em Paralelos.org – 19 de novembro de 2005. (Somente poucos segundos antes de clicar no botão ‘Publicar’ foi que me dei conta que essa ‘republicação’ acontece exatamente seis anos após a primeira).

Honrados mafiosos

PARTE I

O DESAPARECIMENTO

Os porteiros de Nova York sabem que uma pessoa pode ver demais e por isso a maioria deles adquiriu uma extraordinária capacidade de visão seletiva: sabem o que devem ver e o que ignorar, quando é conveniente ser bisbilhoteiro ou, ao contrário, displicente; se ocorrem acidentes ou discussões bem na frente de seus edifícios, a maior parte das vezes estão lá dentro e nada veem; e, quando ladrões fogem pelo saguão, quase sempre estão procurando um táxi para alguém. Um porteiro pode desaprovar suborno ou adultério, mas, ainda assim, está invariavelmente de costas quando o síndico passa uma propina ao fiscal do Corpo de Bombeiros, ou quando um morador cuja mulher está fora entra com uma moça no elevador. Não pretendo com isso acusar os porteiros de hipocrisia ou covardia, mas tão somente dar a entender que eles sabem perfeitamente, por instinto, que é bem melhor não se meter, e conjecturar que talvez eles tenham aprendido, pela experiência, que a pessoa não ganha nada por ser testemunha ocular das coisas feias da vida ou das loucuras da cidade. Sendo assim, não é de estranhar que na noite em que Joseph Bonanno, um dos chefes da Máfia em Nova York, foi agarrado por dois capangas diante de um luxuoso edifício de apartamentos na Park Avenue, perto da rua 36, pouco depois da meia-noite de uma chuvosa terça-feira de outubro, o porteiro estivesse conversando com o ascensorista no saguão e nada tivesse visto.

Tudo aconteceu com incrível rapidez. Voltando de um restaurante, Bonanno desceu de um táxi depois de seu advogado, William P. Maloney, que saiu correndo na frente, sob a chuva, para resguardar-se embaixo do toldo. Nesse momento, os pistoleiros surgiram da escuridão, puxando Bonanno pelos braços em direção a um automóvel. Bonanno tentou se livrar, mas não conseguiu. Encarou os homens, furioso e perplexo — desde o tempo da Lei Seca não era tratado com tanta brutalidade, e daquela vez quem o maltratara fora a polícia, porque ele se recusara a responder a certas perguntas. Desta vez estava sendo brutalizado por homens de seu próprio mundo, dois grandalhões de sobretudo e chapéu preto, um dos quais lhe disse: “Vamos, Joe, meu chefe quer ver você”.

Bonanno, um homem vistoso e grisalho, de 59 anos, nada respondeu. Saíra naquela noite sem guarda-costas e desarmado, e mesmo que a avenida estivesse cheia de gente não teria pedido socorro, pois considerava aquilo um assunto pessoal. Tentou recuperar a dignidade, pensar com clareza enquanto os homens o conduziam pela calçada, os braços já dormentes por causa da força com que os apertavam. Tremia sob a chuva fria e o vento, sentindo-a penetrar através do terno de seda cinza, e nada enxergava na neblina que tomava conta da Park Avenue, exceto as lanternas de seu táxi, que desaparecia na direção do Central Park, nem nada ouvia além da respiração ofegante dos homens que o puxavam. De repente, às suas costas, Bonanno escutou os passos rápidos e a voz de Maloney, que gritava: “Ei, que diabo está acontecendo?”.

Um dos pistoleiros virou-se e avisou: “Deixe para lá, volte!”. “Vão embora”, respondeu Maloney, ainda correndo. Era um homem de sessenta anos, de cabelos brancos, e agitava os braços. “Ele é meu cliente!”

Uma bala de automática foi disparada para o chão, perto de Maloney. O advogado parou, recuou e por fim escondeu-se na entrada de seu edifício. Os homens empurraram Bonanno para dentro de um sedã bege estacionado na esquina da rua 36, com o motor ligado. Bonanno deitou-se no chão, como lhe havia sido ordenado, e o carro partiu em direção à avenida Lexington. Foi então que o porteiro foi ter com Maloney na calçada, chegando tarde demais para ver qualquer coisa. Posteriormente declarou que não tinha escutado tiro nenhum.

* * *

Bill Bonanno, um homem alto e corpulento de 31 anos, cujo cabelo escuro cortado à escovinha e a camisa de colarinho abotoado indicavam o universitário que ele fora na década de 1950, mas com um bigode recém-cultivado para ajudar a ocultar sua identidade, estava num apartamento escassamente mobiliado do Queens. Escutou com atenção a campainha do telefone. Mas não atendeu.

O telefone tocou mais três vezes, parou, tocou novamente e parou. Era o código de Labruzzo. Ele devia estar numa cabine telefônica, dando sinal de que retornara ao apartamento. Ao chegar ao edifício, Labruzzo repetiria o sinal na campainha do saguão e o jovem Bonanno apertaria outra campainha para soltar a tranca da porta. Depois Bonanno esperaria, de arma em punho, olhando pelo olho mágico para ter certeza de que era Labruzzo quem saía do elevador. O apartamento mobiliado que os dois homens dividiam ficava no último andar de um edifício de tijolinhos num bairro de classe média e, como a porta do apartamento dava para o fim do corredor, podiam observar todos os que entravam e saíam do único elevador, sem ascensorista.

Essas precauções estavam sendo tomadas não somente por Bill Bonanno e Frank Labruzzo, mas também por dezenas de outros membros da organização de Joseph Bonanno, que durante as últimas semanas vinham se escondendo em apartamentos semelhantes no Queens, no Brooklyn e no Bronx. Era uma época de tensão para todos eles. Sabiam que a qualquer momento poderia ocorrer um confronto com quadrilhas rivais, dispostas a matá-los, ou com agentes do governo, que desejavam prendê-los e interrogá-los a respeito dos boatos de vendetas e conspirações violentas que circulavam pelo mundo do crime. O governo havia concluído recentemente, em grande medida com base em informações obtidas através de telefones grampeados e dispositivos eletrônicos, que até mesmo os chefões da Máfia estavam envolvidos nessa dissensão interna, e que Joseph Bonanno, chefe poderoso havia trinta anos, era o pivô da controvérsia. Outros chefes suspeitavam que ele era demasiado ambicioso ou que desejava aumentar — às custas deles, talvez sobre seus cadáveres — a influência que já exercia em várias partes de Nova York, do Canadá e do sudoeste dos Estados Unidos. A recente promoção de seu filho, Bill, ao terceiro posto da hierarquia da organização também era vista com alarme e ceticismo por alguns líderes de outras organizações, bem como por membros da própria organização Bonanno, que reunia cerca de trezentos homens no Brooklyn.

No mundo do crime, Bill Bonanno era visto mais ou menos como um tipo excêntrico, um privilegiado que havia estudado numa escola secundária e numa universidade particulares, cujas atitudes e métodos, embora não deixassem de revelar coragem, tinham alguma coisa do espírito rebelde de um ativista universitário. Parecia impaciente com o sistema, não se impressionando com as maneiras indiretas e a finesse do Velho Mundo que faziam parte da tradição da Máfia. Dizia o que pensava. Não mudava de tom ao se dirigir a um mafioso mais graduado e não perdia a autoconfiança juvenil nem mesmo quando usava o anacrônico dialeto siciliano que aprendera quando menino, com o avô, no Brooklyn. O fato de medir 1,88 metro, pesar mais de noventa quilos e ter uma postura ereta e raciocínio rápido aumentava bastante a impressão que causava com sua presença e conferia substância à alta opinião que fazia de si mesmo — a de que era igual ou melhor que qualquer um dos homens a que estava ligado, com a possível exceção de seu pai. Perto dele, Bill parecia perder um pouco de sua segurança, tornando-se mais calado, hesitante, como se o pai estivesse testando severamente cada uma de suas palavras e pensamentos. Parecia distante e formal em relação ao pai, não tomava mais liberdades do que teria com um estranho. Mas era também atento às necessidades do pai, parecendo ter muito prazer em agradá-lo. Era evidente que o pai lhe infundia muita admiração e respeito e, embora sem dúvida ele o tivesse temido quando criança (e talvez ainda temesse), também o adorava.

Durante as últimas semanas, em nenhum momento ele estivera longe de Joseph Bonanno, mas na noite anterior, sabendo que o pai queria jantar sozinho com seus advogados e dormir no apartamento de Maloney, Bill Bonanno passou uma noite tranquila no apartamento com Labruzzo, vendo televisão, lendo os jornais e esperando uma comunicação. Sem que soubesse exatamente por quê, estava meio nervoso. Talvez uma das razões fosse a matéria que lera no Daily News, segundo a qual a vida para os mafiosos estava cada vez mais perigosa e que o velho Bonanno planejara, pouco tempo atrás, o assassinato de dois chefes rivais, Carlo Gambino e Thomas (Brown Três-Dedos) Lucchese, plano que teria falhado porque um dos pistoleiros traiu Bonanno e avisou uma das vítimas. Mesmo que isso fosse pura invencionice, baseada talvez em conversas captadas pelo fbi entre subalternos da Máfia, Bill estava preocupado com a publicidade dada ao assunto, pois sabia que aquilo poderia intensificar a suspeita que realmente existia entre as várias quadrilhas que controlavam a contravenção (jogos de azar, corretagem de apostas em cavalos, agiotagem, lenocínio, contrabando e venda de proteção). Poderia ainda despertar protestos de políticos, provocar uma vigilância mais rigorosa da polícia e resultar em maior número de intimações dos tribunais.

A intimação judicial era agora mais temida do que anteriormente no mundo da contravenção devido a uma nova lei federal segundo a qual um suspeito teria de depor quando chamado a fazê-lo, desde que o tribunal lhe concedesse imunidade, ou se arriscaria a uma condenação por desacato à justiça. Isso tornava imperativo que os homens da Máfia se mantivessem pouco visíveis para evitar intimações a cada vez que os jornais noticiavam alguma coisa. A nova lei também dificultava que os líderes da Máfia controlassem os passos de seus homens, pois, como tinham de ter muito cuidado, nem sempre estavam onde deveriam estar na hora marcada para cumprir alguma missão; muitas vezes não conseguiam receber, em cabines telefônicas designadas e em horários precisos, comunicações combinadas com seus chefes que desejavam saber como iam as coisas. Numa sociedade secreta em que a precisão era fundamental, o novo problema das comunicações estava acabando com os nervos já tensos de muitos chefes.

Mais progressista do que a maioria das outras “famílias”, devido aos métodos empresariais modernos adotados pelo jovem Bonanno, a organização Bonanno até certo ponto resolvera o problema de comunicação mediante um código de número de toques de campainha e também com a utilização de um serviço de recados telefônicos. A família Bonanno talvez fosse a única a usar esse tipo de serviço. O contrato fora feito em nome de um fictício sr. Baxter, codinome de Bill Bonanno, e estava ligado ao telefone da casa de uma tia solteira de um dos membros da organização, que mal falava inglês e era quase surda. Durante todo o dia vários membros chamavam o serviço e se identificavam por meio de codinomes, deixando mensagens cifradas com as quais confirmavam que estavam bem e que os negócios seguiam normalmente. Uma mensagem com a sigla ibm — “aconselho que você compre mais ibm” — significava que Frank Labruzzo, que já trabalhara para a ibm, estava entrando em contato. Se a mensagem falava em “monge”, identificava outro membro da organização, um homem de cabeça tonsurada que muitas vezes ocultava sua identidade em público usando um hábito de frade. Qualquer referência a “vendedor” indicava um dos capitães de Bonanno que trabalhava também como vendedor de joias, e “flor” designava um pistoleiro cujo pai era florista na Sicília. “Sr. Boyd” era um membro cuja mãe morava na rua Boyd, em Long Island, e uma referência a “charuto” identificava certo membro que estava sempre com um charuto na boca. Joseph Bonanno era conhecido no serviço de recados como “sr. Shepherd”.

Frank Labruzzo tinha saído do apartamento que dividia com Bill Bonanno a fim de ligar para o serviço de recados de um telefone público nas vizinhanças, e também para comprar os vespertinos, para saber se havia acontecido alguma coisa de especial. Como de costume, saiu com seu cão, que ficava com eles no apartamento. Bill Bonanno tinha sugerido que todos os membros da organização que se achavam escondidos tivessem cachorros nos apartamentos. Embora no começo isso lhes tornasse difícil conseguir alojamentos, uma vez que alguns senhorios faziam objeção a animais, mais tarde os homens concordaram que um cão os tornava mais alertas a sons nos corredores, além de ser um companheiro útil quando tinham de sair — um homem com um cachorro despertava poucas suspeitas na rua.

Bonanno e Labruzzo gostavam de cães, o que era uma das muitas coisas que tinham em comum e contribuíam para viverem bem no pequeno apartamento. Frank Labruzzo era um homem calmo e bonachão de 53 anos, um tanto atarracado, que usava óculos e cujo cabelo escuro começava a branquear. Era membro graduado da organização de Joseph Bonanno, de quem era parente afim — a irmã de Labruzzo, Fay, era casada com Joseph Bonanno e mãe de Bill Bonanno; além disso, Labruzzo estava ligado ao sobrinho de uma maneira diferente do pai. Não havia entre os dois nenhuma tensão, nenhum problema de competição, de ciúme. Labruzzo, que não era movido por uma avassaladora ambição pessoal, nem era impetuoso como Joseph Bonanno ou inquieto como o filho, contentava-se com sua posição secundária no mundo, que via como um lugar muito maior do que qualquer um dos dois Bonanno parecia julgar que fosse.

Labruzzo tinha feito curso superior e se dedicara a várias ocupações, nenhuma por muito tempo. Além de trabalhar para a ibm, administrara uma loja, vendera apólices de seguro e fora agente funerário. Em certa época possuíra, em sociedade com Joseph Bonanno, uma agência funerária no Brooklyn, perto do quarteirão onde nascera, no centro de um bairro em que milhares de sicilianos haviam se instalado no começo do século. Fora ali que o velho Bonanno cortejara Fay Labruzzo, filha de um próspero açougueiro que fabricara vinho durante a Lei Seca. O açougueiro orgulhou-se de ter Bonanno como genro, embora a data do casamento, em 1930, tivesse de ser adiada por treze meses devido a uma guerra entre centenas de sicilianos e outros italianos recém-chegados — entre os quais Bonanno — que davam continuidade a desavenças provincianas, transplantadas para os Estados Unidos, mas que tinham origem longínqua nas antigas aldeias montanhesas que só haviam abandonado fisicamente. Esses homens trouxeram para Nova York suas velhas rixas e costumes, suas amizades, medos e suspeitas tradicionais, e não só se consumiam nessas coisas como as transmitiam aos filhos e, às vezes, aos filhos dos filhos. E entre tais herdeiros havia homens como Frank Labruzzo e Bill Bonanno, que, em meados dos anos 1960, uma época de foguetes e viagens espaciais, travavam ainda uma guerra feudal.

Aos dois homens parecia absurdo e extraordinário que nunca tivessem conseguido escapar aos costumes estreitos do mundo de seus pais, tema que haviam discutido durante as muitas horas de confinamento, analisando-o em geral em tons de brincadeira e despreocupação, embora às vezes com tristeza e até amargura. “É, somos vendedores de rodas de carroças”, dissera Bonanno uma vez, suspirando, e Labruzzo concordara: eram homens modernos, mas perdidos no tempo, alimentando velhos rancores. Isso era estranho sobretudo no caso de Bill Bonanno: deixara o Brooklyn ainda muito jovem para estudar em internatos do Arizona, sendo criado fora da família, aprendendo a montar a cavalo e a ferrar gado, saindo com moças louras, filhas de fazendeiros; mais tarde, como estudante na Universidade do Arizona, comandara um pelotão de cadetes do rotc que hasteava a bandeira americana a cada jogo de futebol, antes da execução do hino nacional. O fato de ter subitamente trocado o ambiente universitário pelo precário mundo de seu pai em Nova York devia-se a uma série de bizarras circunstâncias, talvez fora de seu controle, talvez não. Um passo importante para isso fora decerto seu casamento, em 1956, com Rosalie Profaci, uma bela morena de olhos escuros, sobrinha de Joseph Profaci, o importador milionário que era também membro da comissão nacional da Máfia.

Bill Bonanno conheceu Rosalie Profaci quando ela era ainda muito jovem e estudava com a irmã numa escola conventual no estado de Nova York. Naquela época tinha uma namorada no Arizona, uma moça americana descontraída e um tanto rebelde; embora Rosalie fosse atraente, era também recatada e reservada. Os dois encontraram-se muitas vezes, durante os meses de verão e nas férias, em grande parte por causa de seus pais, que eram amigos íntimos e cuja aprovação era expressada de maneiras sutis, sempre que Rosalie e Bill conversavam ou simplesmente sentavam-se um perto do outro em salas com muita gente. Numa grande reunião de família, meses antes do noivado, Joseph Bonanno levou sua filha Catherine, de 21 anos, para um canto e lhe perguntou o que pensava da possibilidade de Bill vir a se casar com Rosalie. Catherine Bonanno, uma moça de espírito independente, pensou um momento e respondeu que pessoalmente gostava muito de Rosalie, mas não julgava que ela fosse a moça indicada para Bill. Faltava-lhe a necessária firmeza de caráter para aceitar Bill como ele era e poderia vir a ser, disse, e estava prestes a dizer mais alguma coisa quando, de repente, sentiu um forte tapa no rosto. Caiu para trás atônita, perplexa, rompeu em lágrimas e saiu correndo. Nunca vira o pai tão furioso, com os olhos fuzilando daquela maneira. Mais tarde ele tentou consolá-la, desculpar-se a seu modo, mas ela se manteve distante durante dias, embora entendesse agora, como não tinha percebido antes, o desejo do pai de que o casamento se realizasse. Era um desejo compartilhado pelo pai e pelo tio de Rosalie. E se concretizaria no ano seguinte, um acontecimento que Catherine Bonanno sempre encararia como um casamento arranjado pelos pais.

*Trecho do primeiro capítulo do livro ‘Honra teu pai’ (Companhia das Letras), do jornalista norte-americano Gay Talese. Lançado em 1971, o livro foi originalmente publicado no Brasil com o título que dá nome a este post: ‘Honrados mafiosos’.

Um abraço em Moacyr Scliar

* Texto de José Castello | A literatura na poltrona

No ano de 1992, quando eu ainda acreditava que a função do crítico literário fosse a de produzir avaliações, vereditos e sentenças, caiu-me nas mãos Sonhos tropicais, o décimo-segundo romance de Moacyr Scliar. Há muito deixei de ver no crítico um espécie de juiz de peruca, que interroga, absolve, ou condena uma obra. Naquela época, contudo, por insegurança, por teimosia, por medo de errar, ainda insistia em dizer se um livro era bom, ou era ruim.

Não gostei de Sonhos tropicais e, em uma resenha que escrevi para uma revista semanal, disse isso com todas as letras. Baseado na vida do sanitarista Oswald Cruz _ figura central na vida de Scliar, ele próprio um médico sanitarista _, Sonhos tropicais me pareceu um livro temeroso em que seu autor, refém das rigorosas exigências da pesquisa, não conseguiu se dar a liberdade que deveria e merecia se dar.

Hoje não sei se teria a mesma opinião. De fato, não aprecio as biografias romanceadas, gênero que me parece, em geral, preguiçoso e frouxo. Ocorre que Scliar não apresentava seu livro como uma biografia romanceada, mas como um romance _ e foi isso, talvez, o que me incomodou. Talvez, pensei, ele não tivesse se decidido muito bem a respeito do livro que queria escrever. Talvez… mas o que importa! Nunca mais voltei a ler Sonhos tropicais, mas planejo fazer isso em breve, para matar um pouco as saudades do amigo que hoje perdi.

Publicada minha desagradável resenha, pensei: Scliar me odiará para sempre. Não o procurei mais, nem ele me procurou, o que parecia provar a tese da ruptura. Quase um ano depois, porém, caminhava eu pela Rua da Praia, em Porto Alegre, quando o avistei de longe. Vinha em minha direção. Pensei em mudar de caminho, mas o correto era seguir em frente e enfrentá-lo, e foi o que fiz.

“Precisamos nos falar por dois minutos”, ele me disse, sem disfarçar a ansiedade. Pensei: “Pronto: chegou a hora de ouvir o que mereço ouvir”. Não me deixou pensar, foi rápido: “Por que não tomamos um café?” Aceitei; eu não tinha escolha. Na esquina, nos perfilamos diante do balcão de uma confeitaria. Durante um ou dois minutos, nem eu, nem Scliar conseguíamos dizer qualquer coisa. Até que ele, num desafogo, me disse: “Você sabe no que estou pensando”. Não podia negar que sabia: “É claro, no livro do Oswaldo Cruz”.

Admitiu, então, que, ao ler minha resenha, ficara furioso. Mais ainda, ficara decepcionado, pois nela sentira a ponta secreta de uma traição. Durante alguns dias, recordou ainda, ensaiou respostas incisivas que me daria em um telefonema. Aos pouco, contudo, a dor abrandou e, me disse Scliar já com um esboço de sorriso, ele conseguiu enfim a pensar.

Não adoçou as palavras: “Quero lhe dizer que você tem toda razão no que escreveu”. Abriu, então, um sorriso vasto e longo, de alívio, mas também de gratidão. Enfim, continuou: “Depois que a raiva passou e que controlei a vaidade, consegui enfim aceitar o que você me dizia”. Nos dias seguintes, refletiu sobre seu caminho literário, lutou para se observar desde fora. Quanto a mim, estava imobilizado. Cedesse à vaidade, e passaria a acreditar, enfim, que era um “grande crítico”. Quanta tolice! Minha resenha era não só pequena, mas despretenciosa. Limitei-me a esboçar uma impressão muito breve. Forte era Scliar que, machucado por minhas palavras, soube, ainda assim, lhes emprestar uma grandeza que não tinham.

Vitória do leitor: são os leitores, no fim das contas, que fazem os grandes livros. Era só nisso, na verdade, que eu conseguia pensar. Se ainda tinha dúvidas a respeito do destino de nossa conversa, elas se dissiparam quando Scliar me disse: “Deixe eu lhe dar um abraço. De agradecimento. Agradecer pela sua coragem, e lhe dizer que você me obrigou a ser corajoso também”. É com dificuldades que recordo as palavras que trocamos. Não só porque muitos anos se passaram, mas também porque estávamos, ambos, engolfados pela emoção. Em silêncio, nos abraçamos _ e aquele abraço foi mais eloquente que qualquer palavra. Guardava uma força crítica que, em minhas resenhas literárias, jamais consegui. Não era uma crítica para me destruir, era uma crítica para me acolher. Era para dizer: “Podemos divergir e, apesar disso, caminhar juntos”.

Não que, quando escrevi minha resenha de Sonhos tropicais, eu tenha desejado destruir a reputação de Scliar _ tarefa, aliás, em que eu teria sido derrotado. Ao contrário: julguei que, ao escrever, apenas me submetia às exigências da verdade _ e Scliar foi grande o bastante para entender isso. Existem, porém, muitas maneiras de dizer uma mesma coisa. Só um coração corajoso como o de Scliar suportaria meus restos de imaturidade (aos 40 anos!) e meus atropelos.

“Você tira um elefante de minhas costas”, consegui, enfim, dizer. “Eu sempre me perguntei se tinha sido cruel. Se errara não só no que pensava, mas na maneira de dizer o que pensava”. Nesse momento, o médico Scliar se impôs ao escritor Scliar. Ele me interrompeu: “A verdade é sempre dolorosa, mas precisa ser dita”. Desde então, uma amizade muito funda, sincera, um forte laço de confiança, nos ligou. Nunca fomos amigos íntimos, mas nos tornamos amigos intensos.

Encontrei-o, pela última vez, em dezembro, na Bienal do Livro de Campos, onde chegamos escoltados por Suzana Vargas. Logo percebi o cansaço imenso que carregava. “Soube que ainda temos um jantar pela frente”, ele me disse. “Não sei se conseguirei ficar até muito tarde”. Fui rápido, talvez até ríspido: “Você não vai a jantar algum, meu amigo. Vai direto para o hotel, pedirá um lanche no quarto e irá para a cama”. Abraçou-me em outro imenso silêncio. Os abraços silenciosos são os mais belos: eles simplesmente nos acolhem, sem nada exigir em troca, e sem nos impor significado algum.

Não resisti e lhe dei um beijo no rosto. Senti que levou um susto, porque se empertigou um pouco, como se fosse fazer uma continência. Depois percebi que tinha a face vermelha e dela arrancou, com força, um sorriso. A que correspondi sorrindo também. Achei que nos reveríamos logo, em alguma outra bienal, ou feira literária. Mas não: era um sorriso de adeus.

Obrigado, Scliar, por me levar a entender a insignificância de minhas pequenas opiniões. Obrigado, também , por me ensinar que a grandeza é a falência da vaidade. Nossa amizade nasceu de um desencontro. Como somos misteriosos! Vá se entender os homens! Até hoje sinto o calor de seu abraço e é só isso o que interessa.

Proibido falsificar

O escritor peruano Alfredo Bryce Echenique disse que literatura é a paixão gratuita. Julio Ramón Ribeyro, contista, mestre e também peruano, dizia que através da literatura podemos continuar a inventar armadilhas e a tropeçar com mãos pensativas. Com isso, deu espaço para que um escritor das Ilhas Canárias, Juan Cruz, concluísse que podemos então classificar as mulheres entre as que têm e as que jamais terão mãos pensativas. Nunca perguntei a Juan Cruz como foi que ele deduziu que mãos pensativas só poderiam ser de mulheres – algumas mulheres.

Outro grande mestre, o contista guatemalteco Augusto Monterroso, prefere recorrer a uma variante melancólica para explicar a si e ao mundo o que entende por literatura e pelo ofício de escrever. Lembra de um poeta mexicano e diz o seguinte: “Era triste e vulgar o que cantava, mas como era bela a canção que ele ouvia!”

Augusto Moterroso vive mergulhado nas dúvidas de todo grande artista sobre o resultado final de sua obra. Ele diz que “o escritor ouve uma canção muito bela e imagina formas profundas e verdadeiras, mas quando levadas à realidade das palavras, o resultado é frustrante. Nunca o artista consegue refletir tudo aquilo que gostaria de dizer. Ele fica sempre frustrado diante da impossibilidade de passar às palavras a canção que escutou”.

O colombiano Gabriel Garcia Márquez, em um de seus muitos depoimentos sobre o ofício de escrever, esclareceu: “Sempre me interessei por contar coisas que acontecem às pessoas. Criar é tornar a criar a realidade. Nunca existe ficção.” O mexicano Juan Rulfo, mestre de mestres, dizia que em literatura é possível mentir, mas é proibido falsificar. E o uruguaio Juan Carlos Onetti fez com que um personagem definitivo dissesse o seguinte: “Alguma coisa repentina e simples ia acontecer, e eu poderia me salvar escrevendo.” O criador do personagem acreditou nisso até o fim, e até o fim tentou se salvar escrevendo.

Trecho do conto ‘Exercício da solidão’ que integra o livro Quarta-feira, de Eric Nepomuceno (Ed. Record)

A serviço dos objetos literários

Por Jaime Gonçalves Filho
e Sônia Oliveira Pinto

Ainda por e-mail, ele segue a maior parte dos convidados e pede mais detalhes sobre o interesse na visita. Após as explicações, responde com outra pergunta, lacônica e receptiva: “E o que eu tenho que fazer?”. As portas virtuais ainda estavam entreabertas, quando dá um jeito de entregar a primeira confidência: “Vou ter que arrumar o escritório”.

A rua discreta parece bem mais curta que a realidade, mas dobra-se e desdobra-se em curvas ladeira acima, ganhando um clima típico de bairro serrano e perdendo os ruídos dispensáveis da cidade, dos carros, das pessoas que correm. Lá em cima, em nosso ponto de destino, meio do caminho entre o cume e sopé da ladeira, o tempo é outro.

Militante dedicado e delicado da literatura, o jornalista e escritor Marcelo Moutinho acorda, dorme, come, bebe, abre, fecha, escreve e lê em um charmoso apartamento no bairro de Laranjeiras, na zona sul do Rio. Separados em diversos cômodos, os livros são, aparentemente, divididos em comunhão parcial de bens com sua mulher, Flávia.

É ela quem abre a porta, nos convida a entrar, e, enquanto aguardamos o entrevistado, nos fala sobre o golpe de sorte que os levou até ali, discorre sobre a vizinhança pacata e o clima bucólico que dá ao lugar um quê de onírico, comum aos romances de um João Gilberto Noll, por exemplo. Moutinho chega. Traz um sorriso sincero e contido, um tênis All Star estampado no peito e um ar despojado que pouco ou nada tem a ver com sua literatura.

De maneira um tanto dispersa, tenta explicar a logística da divisão literária nos escaninhos privados. Os livros ali não apenas fazem parte da paisagem, parecem mais que integrados, estão entrelaçados a ela. A literatura estrangeira, as coisas do Rio, os livros de cinema ou música (há uma música tocando, embora som algum esteja ligado), tudo isso parece a razão de ser de todo o resto. O entorno, este sim – e isso inclui a nós, curiosos visitantes –, parece estar a serviço dos objetos literários.

Provocado, Moutinho lembra que foi o interesse pela política que o levou pela mão ao encontro da literatura, e que essa união se tornou ainda mais intensa ao perceber que a política não poderia, sozinha, “dar conta do mundo”. Já a literatura…

Ela estava bem lado, ainda na casa dos pais, nos contos e romances que circulavam pelas estantes que compartilhava com a irmã. Ao alcance das mãos, o peso pesado da literatura de Caio Fernando Abreu, que tem como de hábito arremessar incautos para o fundo do poço da existência e depois expulsá-los de lá aos solavancos. Isso era Madureira, anos 1980. Uma cabeça, há de se considerar, ainda suburbana. E o que quer que isso significasse.

A partir daí, o mundo. Os mofados morangos do escritor gaúcho lhe jogaram uma dezena de iscas literárias (e musicais) que se multiplicaram como fractais e, mais uma rasteira, lhe fizeram cair no colo de Clarice Lispector. O lobo mau que veio da Ucrânia. “Eu queria entender o que fazia aquela mulher ser tão admirada por alguém que eu admirava tanto”, lembra. E se pôs a tatear o vazio do desconhecido. Hoje Moutinho assume sem medo a obra da escritora como uma referência para seu tear literário.


Com a página da política virada, o escritor vê em retrospecto que um primeiro livro ruim “salvou” sua segunda incursão nas letras. E deve isto, sobretudo, a uma crítica de Flávio Carneiro. “Sempre que o encontro, agradeço por ter salvado o Somos todos iguais esta noite”, diz, meio a brinca, meio sério. Da mesma forma, ele atribui ao acaso o fato de, aos 36 anos, já ter organizado três antologias literárias. Em uma delas, reuniu jovens escritores em uma cartografia literária do Rio de Janeiro, onde cada autor pariu um conto tendo um bairro como protagonista. A ele próprio coube a Urca, onde morava à época.

A uma pergunta clichê e pouco inspirada, Marcelo Moutinho diz que se tivesse que escolher um único livro e partir com ele para nunca mais, levaria consigo as obras completas do poeta Fernando Pessoa. “Eu o considero o maior escritor que já existiu”, resume. Com o escritório em ordem, ele está, enfim, à vontade por entre os livros seus.

Por um instante, o sol do dia limpo de inverno é encoberto. A harmonia derrapa e o escritor reconhece que o pecado capital predileto de seus pares (e dele, inclusive) é o da vaidade, e que isso tem maculado relações que poderiam ser mais saudáveis ao nível do mar, não das nuvens. Máquinas eletrônicas desligadas, põe os devidos pingos nos ‘is’. O céu se abre, o ambiente é novamente iluminado e o assunto fica para trás.

Atento, Moutinho digere as perguntas com um pensamento rápido. E ao tempo que seu olhar parece antever aonde o entrevistador quer chegar com tais questões, vai soltando o que pode com um cuidado visível, mas sem morosidade. Hoje, diz enxergar semelhanças entre seus textos e aqueles produzidos por de Adriana Lisboa, João Anzanello Carrascoza e Flávio Izhaki. Está bem acompanhado.

Como porta-retratos, vasos e flores, Albert Camus, Zuenir Ventura, Ariano Suassuna, Noel Rosa, Arthur Shopenhauer, Fabrício Carpinejar, Franz Kafka, Paulo Francis, Fernanda Young, Inês Pedrosa e tantos outros abarrotam suas estantes. A todo o momento novas picadas precisam ser abertas na mata doméstica. O leitor Moutinho segue como um desbravador.

* O encontro acima aconteceu em 27 de junho de 2009, para um projeto literário que só agora começa a tomar forma. Além de Moutinho, outros escritores nos abriram as portas e estarão presentes no projeto em questão. Aguardem.

** Correções: Ao contrário do que publicado inicialmente, o autor da resenha ‘salvadora’ é Flávio Carneiro e não Antônio Torres. Também estava equivocada a informação de que Moutinho havia escrito sobre Madureira em seu ‘Prosas Cariocas’. O bairro que lhe coube, como já corrigido, foi o da Urca.