O crítico

Os adjetivos são, comumente, o caminho mais curto para se alcançar a superfície. Fraco, belo, dantesco, potente, feio, sublime e outros achismos formam a nuvem de poeira que faz turvar os olhos do crítico. Experimente dizer o que pensa da última música que ouviu sem usar um único adjetivo.

O que é a boa crítica? Baseado em que preceitos define-se o que é ou não relevante culturalmente? Qual o limite da discordância? O quanto de sua vaidade o crítico deixa respingar nesta avaliação?

Quando foi que você aprendeu a não gostar daquela nova cantora que ‘todo mundo fala mal’? E, o que é mais curioso, agora você se pega cantarolando a música daquela outra nova cantora que ‘todo mundo elogia’? Muitas questões, muitos caminhos.

Se o leitor(a) não estiver atrás de respostas, uma boa oportunidade de não encontrá-las é procurar ‘Tinhorão, o legendário’, biografia do crítico José Ramos Tinhorão, lançada oficialmente nesta terça-feira, 13, no Instituto Moreira Sales, no Rio de Janeiro.

Escrito pela jornalista Elizabeth Lorenzotti, o livro é focado principalmente no aspecto profissional do controverso personagem, e conta um pouco a história de importantes redações em que ele trabalhou, na época de grandes transformações na imprensa carioca – desde o primeiro emprego como estagiário, em 1953, no Diário Carioca. A biografia também destaca o período no Jornal do Brasil, onde o trabalho de Tinhorão teve seu auge “dos anos 60, com as Primeiras Lições de Samba, até os anos 80, com as críticas”, explica a biógrafa.

Polêmico, odiado, temido, admirado, respeitado, desprezado, subestimado. Aqui os adjetivos, sempre eles, ajudaram a boicotar o caminho, por demais já turbulento, escolhido por José Ramos Tinhorão. A biográfa diz acreditar que a mudança nas relações entre imprensa e a insdústria cultural contribuiu para o processo de expurgo.

“A prevalência da indústria cultural e a divulgação de seus produtos foi sim, a responsável por jornalistas como Tinhorão não terem mais lugar. Como ele mesmo diz “eu falava de Zé do Coco e Riachão”, e a indústria cultural não estava interessada neles”.

O jornalista e crítico musical Pedro Alexandre Sanches, que durante boa parte dos anos 2000 vestiu a carapuça de enfant terrible nas páginas da Folha de São Paulo, defende também a ideia de auto-sabotagem.

“Acho bem provável que pudéssemos falar isso a respeito do Tinhorão, porque ele de fato parece ter ficado isolado, marginalizado, rejeitado pelos que criticou e pelos que não criticou. Mas eu tenderia a atribuir esse tipo de isolamento muito mais ao próprio crítico que a fatores externos (como a imprensa ou a indústria fonográfica) – acho que não teria sido assim se ele assim não quisesse ou não agisse propositalmente ou não no sentido de se isolar”, analisa Sanches.

Lorenzotti diz que o objetivo primeiro do livro era “desmistificar preconceitos contra Tinhorão”. De certa forma, é como se as polêmicas em que se meteu (ataques à bossa nova, acusações de plágio a Tom Jobim, troca de farpas com Caetano Veloso) contribuissem para esconder “a verdadeira face de grande jornalista e pesquisador rigoroso, intelectual íntegro e sua coerência”, completa Lorenzotti. Assim, o livro seria uma tentativa de (re)colocá-lo no lugar que lhe é de direito.

A biógrafa afirma que não passou por cima dos temas espinhosos. “Registrei no livro as opiniões contrárias, por exemplo, de Hermínio Belo de Carvalho, José Miguel Wisnik, que entretanto o respeitam como pesquisador. E de Caetano Veloso”.

E para usar, provocativamente, um verso do compositor baiano, Tinhorão hoje parece assumir ‘a dor e a delícia de ser o que é’. “Ele não  é um homem ressentido ou amargo, nem sente nostalgia: é um intelectual bem humorado, acessível e muito educado”, resume a biógrafa. Melhor assim, melhor assim.

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Ps. Depois do lançamento do IMS, Tinhorão estará nesta quarta-feira na Livraria Folha Seca, no Centro do Rio, autografando seus livros e sua biografia, a partir das 18h30. Uma oportunidade imperdível. A Folha Seca fica na Rua do Ouvidor 37.

Aquele outro

Interessado em música e crítica musical, passei boa parte dos anos 2000 atento aos textos do jornalista Pedro Alexandre Sanches produzidos para o jornal Folha de São Paulo no período. Guardada as devidas proporções, Sanches seguia à distância a escola crítica de José Ramos Tinhorão. Descartando erros conhecidos, perseguindo os acertos. À época, eu próprio (e ele também admite) conhecia pouco ou quase nada da produção de Tinhorão.

Com um estilo irônico e elegante, Sanches torcia e retorcia seus alvos, com especial dedicação para personalidades ‘intocáveis’ da música popular brasileira. Com o tempo, Sanches intensificou gradativamente o nível das críticas, até decidir se despir (como ele mesmo explica) da fantasia de menino mal.

“Tomei a decisão de sair da ‘Folha’, entre outros motivos, porque eu não tinha mais qualquer interesse em continuar desempenhando aquele papel do palhaço ‘agressivo’ da crítica musical. Acho que a ‘Folha’ gostava e gosta muito dessa figura do crítico agressivo (hoje mesmo há toda uma série de profissionais dessa categoria lá, embora não na crítica musical), e acredito que é uma postura que o jornal sempre incentivou subliminarmente. Acho até que se eu não tivesse me desviado desse curso muito possivelmente poderia estar lá até hoje…”, explica Sanches.

O desvio que ele diz aconteceu quando trocou o jornal pela revista ‘CartaCapital’. Hoje, Sanches é coloborador da revista e deposita o grosso de sua produção no blog http://pedroalexandresanches.blogspot.com/.

Na semana passada, quando lhe enviei três perguntas sobre Tinhorão, Sanches comemorou. E escreveu, escreveu e escreveu. No fim, ainda agradeceu a oportunidade de ‘falar’ sobre o crítico. Obrigado, eu.

Abaixo, alguns trechos do momento ‘Tinhorão por Pedro Aleandre Sanches‘.

* * *

Marginalizado

Eu não era influenciado pelo Tinhorão nos meus primeiros anos de jornalista, simplesmente porque, ignorância total minha, eu não conhecia absolutamente nada do que ele escrevia. Ele ainda é marginalizado hoje, mas acredito que era bem mais nos anos 1990, quando era bastante raro sequer ouvir falar dele. Fui tomando consciência aos poucos, depois o entrevistei, hoje acompanho tudo que posso, porque é evidentemente uma referência central, daquelas de a gente usar como norte tanto para pegar as coisas legais como para fugir dos erros, preconceitos e enganos que cometia.

Ele fala muita coisa de que eu discordo, então é sempre um exercício de ler concordando e discordando ao mesmo tempo e aprendendo a separar umas partes das outras. Apesar de as críticas do Tinhorão parecerem às vezes maniqueístas, ler o que ele escreve hoje me parece por si só um exercício de não ser maniqueísta – se quiser levar a coisa a sério, você não pode aceitar tudo que ele fala, menos ainda rejeitar a priori toda e qualquer coisa que ele diga.

Preceitos marxistas

Uma coisa de que eu gosto no Tinhorão é saber que ele tem uma metodologia muito definida de análise (coisa que eu, por exemplo, nunca tive, pelo menos conscientemente), entender que ele segue preceitos do marxismo para criticar a música popular, e pronto. A gente sempre pode discutir se são métodos datados ou se ainda podem ter validade, mas eu acredito que muito do preconceito que existe contra ele se deve menos aos folclores sempre citados (de ele se opor à bossa nova, acusar Tom Jobim de plágio etc.) do que à leitura que ele faz da música a partir da luta de classes. Ainda que eu discorde das conclusões a que ele chega num grande número de vezes, acho há uma parte desse método que é muito, muito atual. Por exemplo, acredito que a má vontade atual contra o rap se deve muito menos a razões propriamente musicais que a preconceitos de classe social e discriminação racial. Tinhorão já cutucava essa ferida 50 anos atrás, quando implicava com os almofadinhas e as “aventuras de apartamento” da bossa nova.

Crítico em crise

O que acredito hoje, sinceramente, é que a figura do “crítico agressivo” que sai ofendendo e desrespeitando todo mundo é algo absolutamente em crise, o que explica em grande medida o estado de decadência em que se encontram nossos maiores veículos, quase todos aprisionados até hoje nesse modelo opressivo da agressividade passiva.

O imitador

Precisamos nos perguntar se a sociedade ainda precisa desse modelo de crítica que ele fazia (e que eu, por exemplo, imitei em grande parte dos meus dez anos de Folha, sem saber nem ter teoria por trás). Acredito que não precisamos, e nesse sentido me parece que perdeu muito sentido aquele estilo de escrita que o Tinhorão tinha e depois continuou com o Pepe Escobar, o Luís Antônio Giron, mesmo eu (aliás, se formos pensar, esse modelo nas últimas décadas ficou muito circunscrito ao núcleo “Folha”-“Veja”. Nunca foi muito a cara dos jornais cariocas, nem mesmo do “Estado”, pelo menos no que se refere à crítica cultural).

Bonequinho de vodu

Mas aí há um ponto importante: isso não quer dizer que morreu o modelo de crítico ácido, que fala pelo fígado e cospe bile verde quando se expressa. O que eu acho que acontece nos últimos anos é que a internet virou tudo de ponta-cabeça. Se antes uma parte do público leitor aplaudia secretamente e se identificava em silêncio com o crítico ranzinza, amargo, recalcado etc., enquanto outra parte adorava usar essa mesma figura como bonequinho de vodu, hoje toda e qualquer pessoa tem a oportunidade de ir pessoalmente para um blog, um Orkut, um Twitter ou o que seja destilar suas próprias doses de veneno e amargura. É só olhar nas caixas de comentários dos sites e blogs, os Tinhorões (ou melhor, as características mais amargas e folclóricas do modelo Tinhorão) estão todos lá, fazendo por eles próprios o que antes esperavam que um Tinhorão fizesse para representá-los. Afinal, quem não tem sua própria dose de agressividade e rancor? Tenho certeza absoluta que até a Sandy e o Padre Marcelo têm. E, se tem tanto crítico feroz por aí, quem ainda precisa de seguidores dessa linha na grande imprensa, não é mesmo? Ninguém, e de fato, pelo menos na crítica musical, eles me parecem felizmente em extinção (na crítica política ainda há um monte – Diogo Mainardi, Arnaldo Jabor, Clovis Rossi, Reinaldo Azevedo -, mas estão cada vez mais falando sozinhos).

De mal com o mundo

Pessoalmente, confesso que da minha ida para a “CartaCapital” para cá, me sinto bastante aliviado e contente de ter desembarcado da fantasia de palhaço desse personagem de mal com o mundo, vociferante, supostamente sabedor de todos os defeitos da humanidade (menos dos dele próprio) e das receitas “certas” para corrigi-los. Acredito que o Tinhorão, ao modo dele e ao tempo dele, percebeu a armadilha e fez esse mesmo caminho de libertação – se despiu do personagem do lobo bobo e foi ser um historiador sério, consistente e sóbrio, que os chapeuzinhos vermelhos não têm qualquer razão para temer.

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A escrivinhadora

A escrivinhadora

Por anos José Ramos Tinhorão viveu em uma quitinete de 31m2 na Rua Maria Antonia, em São Paulo, com todo o arcevo que reuniu em décadas de pesquisa sobre a música brasileira. Mas os tempos duros já haviam ficado para trás quando, em 2000, ele negociou sua biblioteca e discoteca com o Instituto Moreira Sales.

De acordo com o IMS, o acervo, que passava pelo processo de catalogação na sede do instituto em São Paulo desde 2001, é composto por cerca de 6,5 mil discos de 76 e 78 rpm, 6 mil discos de 33 rpm, fotos, filmes, scripts de rádio, cartazes, jornais, revistas, rolos de pianola, folhetos de cordel, press releases de gravadoras e uma biblioteca com mais de 14 mil obras especializadas na cultura popular urbana, tema central de toda sua obra. Até o final de 2010, todo o material será disponibilizado para consulta.

Para comemorar a chegada do acervo ao Rio, o IMS promoveu nesta terça-feira o lançamento da biografia e de outros dois livros de Tinhorão A música popular que surge na era da revolução (Editora 34) e Crítica cheia de graça (Empório do Livro), além de uma exposição que ficará aberta apenas até o dia 16 de abril, com curadoria do próprio Tinhorão.

A jornalista Elizabeth Lorenzotti fala um pouco mais sobre seu objeto de estudo.

* * *

Por que e quando a senhora decidiu que escreveria sobre Tinhorão?

Em 2007, após lançar o livro Suplemento Literário-Que falta ele faz!- sobre o caderno cultural criado pelo professor Antonio Candido no Estadão em 1956, editado pela Imprensa Oficial, o jornalista Paulo Moreira Leite, então vice –presidente, resolveu reeditar a coleção imprensa em Pauta, de biografias de jornalistas, e me convidou para escrever sobre Tinhorão. Eu já o havia entrevistado algumas vezes, e conhecia sua carreira de jornalista e depois pesquisador.

Como ele recebeu a idéia de uma biografia?

Eu o entrevistei durante alguns meses na livraria Metido a Sebo, da Vila Buarque, seu ponto de encontro, seu “escritório” aonde vai todos os sábados, antes de passar pela padaria da esquina. Lá ele recebe amigos, pesquisadores, jornalistas, fãs. A princípio ele relutou, mas depois aceitou bem e colaborou muitíssimo. Conversei com seus contemporâneos, hoje poucos – ele tem 82 anos – da época do Diário Carioca, Jornal do Brasil, Correio da Manha – Janio de Freitas, que também escreveu a contracapa do livro, Gilson Campos, repórter e fotógrafo, Wilson Figueiredo, Reynaldo Jardim, Nilson Lage e o amigo e colega de Editora Abril, nos anos 80, jornalista Antonio Romane. Além de pesquisar livros e internet.

Tinhorão cultivou por muitos anos a fama de se um crítico com ‘língua ferina’. A senhora acredita que isso o atrapalhou?

Sua ironia e sua pena afiada, seu talento na escrita  podem ter criado desafetos, mas não mais do que a grande legião de leitores que o seguiam no Jornal do Brasil e em O Pasquim.

Ele sempre colecionou opiniões polêmicas sobre ‘ícones’ do mundo da música. Quais a senhora destacaria e por quê?

Tom Jobim, por causa de suas criticas à Bossa Nova – que compara a um carro, apenas montado no Brasil, mas importado–, e também sobre o que chama de “anterioridades jobinisticas”, 16 musicas que arrolou e provou serem inspiradas em outras, sem a devida citação, inclusive Águas de Março. E Caetano Veloso, que disse em 2008  carregar “uma pulga atrás da orelha há 40 anos”, quando escreveu, no jornal de sua faculdade na Bahia, o primeiro artigo contra Tinhorão. O livro se encerra com essa polêmica.

Como Tinhorão vive hoje?

Mora com sua mulher, a professora Maria Rosa, nas imediações da redação da Folha. Tem uma vida simples, viaja religiosamente uma vez por ano para Portugal, para onde segue agora em maio, após o lançamento de São Paulo, na Livraria da Vila, da rua Fradique Coutinho, no dia 28 de abril. Tem ótima saúde, raciocínio afiado como sempre, gosta de boa comida e de bons vinhos. Lê todos os jornais de São Paulo diariamente, continua recortando e colecionando livros.

Em relação ao estilo, a senhora enxerga ‘seguidores’ de José Ramos Tinhorão na imprensa?

Não, porque o estilo é o homem. E um homem com sua vivência e sua cultura, só mesmo na geração de Tinhorão.

Como biógrafa, onde a senhora situaria José Ramos Tinhorão, considerando o cenário atual da crítica musical brasileira?

Há pouco espaço para a crítica de música na mídia impressa, lugar privilegiado de Tinhorão. E esse lugar que ocupou, é singularíssimo.

Qual a avaliação que ele próprio faz de sua performance como crítico? Ele se vê como um crítico ‘linha dura’?

Ele continua com as mesmas ideias e o mesmo método – o materialismo dialético, seu modo de ver e analisar o mundo. E quando relê para nós algumas de suas críticas mais ferinas, concorda que os objetos dessas críticas tinham por que ficar furiosos…

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Aquele outro

 

Da janela lateral


“Chovia demais naquela manhã, uma chuva que molhava o piso de vermelhão da varanda da casa onde morávamos, naquela época já de aluguel. Uma casa velha de madeira, a varanda circundada pela mureta de alvenaria. A chuva alagando o território onde aquele que fui brincava de escorregar no piso.
(…)
Sozinho na varanda, a chuva a me isolar dos amigos e da família, a sensação de abandono me punha a escrever nas paredes, náufrago do tempo lutando para estabelecer contatos.
Quem seria esse interlocutor que o menino procurava?

Um amigo? Alguém da família? (…) Talvez todos, mas principalmente o adulto que a criança se tornaria.

* * *

“Vindo de um povo basicamente iletrado, recebi a tarefa de ser seu porta-voz. Escrevo por isso, para fazer com que falem estes entes sem discurso. Pode até ser uma justificativa tola, mas como ela pesa para mim. Se você não a compreende, é porque sua história é outra, você não sente o travo amargo de um silêncio centenário.

(…)

Daí esta minha vontade de habitar folhas em branco para gastar este extenso estoque de silêncio, para dissipar esta herança de desejos. Aprender a escrever foi a única saída para dar uma condição letrada à extensa ignorância de meus antepassados.”

* * *

“A mulher se aproxima do balcão para perguntar se sou daqui. Respondo seco:
— Fui.
— Muita gente que partiu tem voltado, mas não conheço ninguém. Sou nova na cidade.
Não digo nada, apenas olho as árvores do outro lado da rua, a velha praça e o local onde havia uma televisão. Ali, nós, crianças pobres, assistíamos velhas novelas.
— Onde o senhor mora?
— Numa cidadezinha chamada memória.
— Não sei onde fica – diz a mulher enquanto me vira as costas para atender um jovem.”

.
Trecho do romance ‘Chove sobre minha infância’, de Miguel Sanches Neto.

9 milímetros

Logo no início do século XXI fui chamado para trabalhar em um jornal carioca – projeto novo, proposta diferenciada, coisa e tal. Era um oásis, quase uma mentira, uma espécie de alucinação coletiva de algumas dezenas de pessoas. Por alguns meses.

Lá pela terceira ou quarta semana, no meio de uma entrevista, ali no Centro do Rio, nas vizinhanças do Arco do Teles, o entrevistado diz para o fotógrafo:

– Acho que lhe conheço, mas não sei exatamente de onde.

– Eu sou filho do Rubem, respondeu o outro.

Demorei três segundos para gelar e tremer, depois de considerar o sobrenome. Não era possível. Aquilo não poderia mesmo ser aquilo. Não era possível.

Na volta para a redação, ainda no carro de reportagem, eu tomava coragem para voltar ao assunto. E enfim avancei:

– Como assim, filho do Rubem?

– É, sou. Mas não é uma coisa que eu fico falando por aí para qualquer um. Pode parecer pedante.

Fiquei ali entre tudo. Pasmo, surpreso, incrédulo, orgulhoso e mais um tanto. Chegando em casa, falei para ela:

– Você não vai acreditar com quem estou trabalhando.

– Quem?

– O filho do Rubem.

Em uma confusão que só viríamos entender muito mais tarde, a reação foi quase indiferente.

– Nossa, que coincidência!

Alguns meses depois, em uma festa que jogava a pá de cal naquele sonho coletivo, ela me questionou ao ser apresentada ao ‘filho do Rubem’.

– Não é possível que ele tenha um filho dessa idade.

Só então nos tocamos que ela falava de um Rubens, e eu falava de Rubem Fonseca. Muitas risadas depois, ela entendeu minha surpresa quase histérica. Afinal, era o filho do homem.

– Ahhh, tá. Agora, sim, faz todo sentido, disse ela.

* * *

A historia acima é apenas uma introdução para lembrar que, após o lançamento de ‘O seminarista’, no fim de 2009, começam a chegar às livrarias relançamentos de clássicos do velho Zé Rubem. Há desde romances, como ‘Agosto’, ao definitivo ‘A coleira do cão’. Ou ainda ‘Lúcia McCartney’ e ‘Os prisioneiros’.

Se você é um neófito no mundo fonsequiano, avance logo sobre os hards, tipo ‘Feliz Ano Novo’, e depois vá amaciando. De todo modo, não há uma receita de bolo. O livro tem que bater verdadeiramente. Pode ser que, no fim, o leitor se deixe levar pelas viagens oníricas de ‘Vastas emoções e pensamentos imperfeitos’.

Nada impede, no entanto, que o caminho possa ser feito de trás para adiante. Se for assim, vale um aperitivo.

Interesse

(…)

A minha imaginação não existe, eu sou modelo sem imaginação 1.0. A minha realidade é melhor que minha imaginação. Mande a foto. Vou lhe mandar uma de mim na minha sala junto à minha samambaia bonsai. É o que existe de mais interessante por aqui, eu inclusive. No plano visual, quero dizer.

A nossa amiga me contou que você era maluco. Que tinha enviado uma minissaia para ela, e vocês nem se conheciam direito. Que bacana e engraçado! De qualquer maneira, é preciso ter peito.

Ela contribuiu com o peito, eu entro com as ideias. Parece mais justo? E o que você acharia se um sujeito mandasse uma saia para você? Você vestiria?

Estou gostando de ver a sua autoestima! Então, definitivamente, você é uma pessoa interessante.

Interessante eu sou, mas um monte de gente que eu preferiria ver congelada e longe de mim também é interessante. A ideia de que difícil é melhor é um conceito feminino. Uma amiga minha deu para mim e depois reclamou de ter sido fácil demais. Somente uma mulher iria pensar uma coisa absurda dessas, que ter sido fácil era mau, quero dizer. Já falei que vocês são basicamente malucas?

(…)

Trecho do conto ‘Caixa de entrada’ do livro                                                                                                   Simples, de Marcelo Carneiro da Cunha.