(des)conto

– Sabe aquele escritor que criou aquele personagem?
– Sei.
– Então… sabe aquela escritora?
– Sei, sei.
– E também tem aquele que começou escrever agora, né?
– É, tem sim.
– Então… se todo mundo bebe naquela fonte, por que eu que sou filho, não posso?

O diálogo acima, em tom de deboche, foi travado com o escritor e fotógrafo Zeca Fonseca, em meados dos anos 2000. Ele falava sobre as possíveis comparações de seu primeiro livro, na época ainda em produção, com o trabalho de seu pai, Rubem Fonseca – um dos maiores contistas do país.

Pois é exatamente nesse gênero literário (contos) que Zeca estreia agora com ‘Artérias’, que será lançado nesta quarta-feira, 23 de novembro, 19h, na Livraria Argumento, no Leblon.

Já havia falado de Zeca Fonseca nos posts ‘Não sou mau com as mulheres’ e ‘9 milímetros’. ‘Artérias’ é o terceiro livro de Zeca, lançado após os romances ‘O adorador’ (2007) e ‘Pandemônium’ (2010).

‘O adorador’ deve ganhar uma adaptação para o cinema, dirigida pelo irmão de Zeca, José Henrique Fonseca, que acaba de filmar ‘Heleno’, sobre a vida o jogador de futebol Heleno de Freitas, vido nas telas por Rodrigo Santoro.

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O que escrever agora?

Isso se arrastou por umas boas semanas. A tarefa era ler e resenhar Cartas a um jovem escritor e suas respostas (Record), livro de correspondências trocadas entre o então iniciante escritor Fernando Sabino e o já consagrado poeta Mário de Andrade. Função de facilidade aparente.

Topei, muito por conta de um outro livro que havia me caído nas mãos meses antes: Mário de Andrade – A morte do poeta (Civilização Brasileira). Na última Bienal do Livro do Rio troquei umas poucas palavras com o professor e filósofo Eduardo Jardim, autor do livro, sobre os últimos anos do poeta no Rio.

A pretensão agora era sobrepor, ou melhor, por diante um do outro dois Mários: o primeiro aquele que se dizia “mentalmente fatigadíssimo, num bem completo esgotamento intelectual”; o segundo aquele capaz de despertar, no mesmo período, ressalte-se, um estado de absoluta euforia em um jovem Sabino, prenhe por “continuar querendo saber”.

É este segundo Mário (o primeiro estaria sempre à sombra, rondando) que daria o empurrão salvador ao escritor mineiro e com ele se corresponderia entre os anos de 1942 e 1945, ano de sua morte. Entender como um desencantado poeta pôde ser um sopro de vida em uma já pulsante criatura era o que buscava.

As leituras dos dois livros, no entanto, se embaralhavam e atrapalhavam. Enquanto buscava na obra de Jardim referências ao Mário epistolar, encontrava neste o retrato de um artista desiludido dando esperanças ao garoto. Enquanto houve tempo, ambos sugaram e entregaram o que puderam entre si.

Cartas a um jovem escritor… é uma espécie de diário múltiplo. Nele é possível observar a transformação de um discípulo em par de seu mentor; é possível acompanhar, quase que passo a passo, a angústia existencial do poeta que vê a morte aproximar-se; e, sobretudo, o florescer de uma sincera amizade que teria papel fundamental na carreira e na vida de Fernando Sabino.

No prefácio de Cartas a um jovem escritor… Fernando Sabido diz a certa altura: “Eu lhe confiava as minhas dúvidas e preocupações literárias com o ardor dos que querem vencer a todo custo: o problema da sinceridade do artista, a importância ou desimportância do sucesso, a necessidade de escrever e ao mesmo tempo ganhar a vida, o aprimoramento do estilo, a opção entre a arte social e a arte pela arte, e outros temas em moda na época”.

Depois desse ponto, leitura estanque, pensava apenas em quais seriam as dúvidas dos novos escritores – isso no caso daqueles que se permitem ter dúvidas. Pois a impressão mais freqüente (particular e possivelmente torta, dirão), é de que questionamentos são associados à insegurança, algo que, de forma alguma, condiz com a postura altaneira dos novíssimos.

Não há dúvidas, penso. Encaminhá-las, quando surgem, a nomes “consagrados” da literatura, ligados ao que vem sendo produzido há séculos e a possível representação do que de mais arcaico há, seria a subserviência elevada à enésima potência. “Flaubert não me diz nada”, já ouvi. Os novos não perguntam; respondem, respondem, respondem apenas. Raras são as exceções.

Mais adiante, ainda no prefácio, Sabido prosseguia: “Foram numerosas cartas de parte a parte (…). Representavam o que poderia haver de mais precioso para um jovem que pretendesse ser escritor. Teria adiantado? Relidas agora, diante dos problemas de hoje, parecem falar de um tempo morto e de assuntos já sem memória, como se estivéssemos discutindo o sexo dos anjos”.

Era o que dizia. Por ora, penso na humildade de um escritor como Antônio Dutra trocando cartas com Sérgio Sant’Anna; imagino a eletricidade verborrágica de Mariel Reis diante de um pacato Antônio Torres; e aguardo, ainda, novas indagações de Simone Paterman, cheias de pausas longuíssimas, a uma elegante e inebriada Nélida Pinõn (a exemplo da publicada por Paralelos).

Noves fora o arremedo de resenha, resta apenas um pedido: perguntem, perguntem, perguntem.

Cartas a um jovem escritor e suas respostas
Fernando Sabino e Mário de Andrade
Editora Record
224 páginas

. . .

Publicado originalmente em Paralelos.org – 19 de novembro de 2005. (Somente poucos segundos antes de clicar no botão ‘Publicar’ foi que me dei conta que essa ‘republicação’ acontece exatamente seis anos após a primeira).

Um abraço em Moacyr Scliar

* Texto de José Castello | A literatura na poltrona

No ano de 1992, quando eu ainda acreditava que a função do crítico literário fosse a de produzir avaliações, vereditos e sentenças, caiu-me nas mãos Sonhos tropicais, o décimo-segundo romance de Moacyr Scliar. Há muito deixei de ver no crítico um espécie de juiz de peruca, que interroga, absolve, ou condena uma obra. Naquela época, contudo, por insegurança, por teimosia, por medo de errar, ainda insistia em dizer se um livro era bom, ou era ruim.

Não gostei de Sonhos tropicais e, em uma resenha que escrevi para uma revista semanal, disse isso com todas as letras. Baseado na vida do sanitarista Oswald Cruz _ figura central na vida de Scliar, ele próprio um médico sanitarista _, Sonhos tropicais me pareceu um livro temeroso em que seu autor, refém das rigorosas exigências da pesquisa, não conseguiu se dar a liberdade que deveria e merecia se dar.

Hoje não sei se teria a mesma opinião. De fato, não aprecio as biografias romanceadas, gênero que me parece, em geral, preguiçoso e frouxo. Ocorre que Scliar não apresentava seu livro como uma biografia romanceada, mas como um romance _ e foi isso, talvez, o que me incomodou. Talvez, pensei, ele não tivesse se decidido muito bem a respeito do livro que queria escrever. Talvez… mas o que importa! Nunca mais voltei a ler Sonhos tropicais, mas planejo fazer isso em breve, para matar um pouco as saudades do amigo que hoje perdi.

Publicada minha desagradável resenha, pensei: Scliar me odiará para sempre. Não o procurei mais, nem ele me procurou, o que parecia provar a tese da ruptura. Quase um ano depois, porém, caminhava eu pela Rua da Praia, em Porto Alegre, quando o avistei de longe. Vinha em minha direção. Pensei em mudar de caminho, mas o correto era seguir em frente e enfrentá-lo, e foi o que fiz.

“Precisamos nos falar por dois minutos”, ele me disse, sem disfarçar a ansiedade. Pensei: “Pronto: chegou a hora de ouvir o que mereço ouvir”. Não me deixou pensar, foi rápido: “Por que não tomamos um café?” Aceitei; eu não tinha escolha. Na esquina, nos perfilamos diante do balcão de uma confeitaria. Durante um ou dois minutos, nem eu, nem Scliar conseguíamos dizer qualquer coisa. Até que ele, num desafogo, me disse: “Você sabe no que estou pensando”. Não podia negar que sabia: “É claro, no livro do Oswaldo Cruz”.

Admitiu, então, que, ao ler minha resenha, ficara furioso. Mais ainda, ficara decepcionado, pois nela sentira a ponta secreta de uma traição. Durante alguns dias, recordou ainda, ensaiou respostas incisivas que me daria em um telefonema. Aos pouco, contudo, a dor abrandou e, me disse Scliar já com um esboço de sorriso, ele conseguiu enfim a pensar.

Não adoçou as palavras: “Quero lhe dizer que você tem toda razão no que escreveu”. Abriu, então, um sorriso vasto e longo, de alívio, mas também de gratidão. Enfim, continuou: “Depois que a raiva passou e que controlei a vaidade, consegui enfim aceitar o que você me dizia”. Nos dias seguintes, refletiu sobre seu caminho literário, lutou para se observar desde fora. Quanto a mim, estava imobilizado. Cedesse à vaidade, e passaria a acreditar, enfim, que era um “grande crítico”. Quanta tolice! Minha resenha era não só pequena, mas despretenciosa. Limitei-me a esboçar uma impressão muito breve. Forte era Scliar que, machucado por minhas palavras, soube, ainda assim, lhes emprestar uma grandeza que não tinham.

Vitória do leitor: são os leitores, no fim das contas, que fazem os grandes livros. Era só nisso, na verdade, que eu conseguia pensar. Se ainda tinha dúvidas a respeito do destino de nossa conversa, elas se dissiparam quando Scliar me disse: “Deixe eu lhe dar um abraço. De agradecimento. Agradecer pela sua coragem, e lhe dizer que você me obrigou a ser corajoso também”. É com dificuldades que recordo as palavras que trocamos. Não só porque muitos anos se passaram, mas também porque estávamos, ambos, engolfados pela emoção. Em silêncio, nos abraçamos _ e aquele abraço foi mais eloquente que qualquer palavra. Guardava uma força crítica que, em minhas resenhas literárias, jamais consegui. Não era uma crítica para me destruir, era uma crítica para me acolher. Era para dizer: “Podemos divergir e, apesar disso, caminhar juntos”.

Não que, quando escrevi minha resenha de Sonhos tropicais, eu tenha desejado destruir a reputação de Scliar _ tarefa, aliás, em que eu teria sido derrotado. Ao contrário: julguei que, ao escrever, apenas me submetia às exigências da verdade _ e Scliar foi grande o bastante para entender isso. Existem, porém, muitas maneiras de dizer uma mesma coisa. Só um coração corajoso como o de Scliar suportaria meus restos de imaturidade (aos 40 anos!) e meus atropelos.

“Você tira um elefante de minhas costas”, consegui, enfim, dizer. “Eu sempre me perguntei se tinha sido cruel. Se errara não só no que pensava, mas na maneira de dizer o que pensava”. Nesse momento, o médico Scliar se impôs ao escritor Scliar. Ele me interrompeu: “A verdade é sempre dolorosa, mas precisa ser dita”. Desde então, uma amizade muito funda, sincera, um forte laço de confiança, nos ligou. Nunca fomos amigos íntimos, mas nos tornamos amigos intensos.

Encontrei-o, pela última vez, em dezembro, na Bienal do Livro de Campos, onde chegamos escoltados por Suzana Vargas. Logo percebi o cansaço imenso que carregava. “Soube que ainda temos um jantar pela frente”, ele me disse. “Não sei se conseguirei ficar até muito tarde”. Fui rápido, talvez até ríspido: “Você não vai a jantar algum, meu amigo. Vai direto para o hotel, pedirá um lanche no quarto e irá para a cama”. Abraçou-me em outro imenso silêncio. Os abraços silenciosos são os mais belos: eles simplesmente nos acolhem, sem nada exigir em troca, e sem nos impor significado algum.

Não resisti e lhe dei um beijo no rosto. Senti que levou um susto, porque se empertigou um pouco, como se fosse fazer uma continência. Depois percebi que tinha a face vermelha e dela arrancou, com força, um sorriso. A que correspondi sorrindo também. Achei que nos reveríamos logo, em alguma outra bienal, ou feira literária. Mas não: era um sorriso de adeus.

Obrigado, Scliar, por me levar a entender a insignificância de minhas pequenas opiniões. Obrigado, também , por me ensinar que a grandeza é a falência da vaidade. Nossa amizade nasceu de um desencontro. Como somos misteriosos! Vá se entender os homens! Até hoje sinto o calor de seu abraço e é só isso o que interessa.

Enforcados

“Vamos enforcar/ mil poetas/ e fazer das pracinhas/ masmorras/ vamos fazer juntinhos/ algo que não se perdoa.”

O trecho acima faz parte do poema ‘O mundo que a gente destruiu com o maior carinho’, que integra o novo livro de André Dahmer, ‘Ninguém muda ninguém’ (Ed. Flâneur).

Como mostrou a matéria de André Miranda, publicada no Globo desta terça-feira, dia 02, a curiosidade fica por conta de que o livro terá, inicipalmente, apenas 600 exemplares com capas exclusivas, feitas à mão pelo próprio autor (como esta ao lado).

A ideia, explica Dahmer, surgiu após o cartunista argentino Liniers lançar o livro “Macanudo 6”, com cinco mil capas distintas feitas à mão.

– Eu pensei: se ele consegue fazer alguns milhares, acho que consigo fazer algumas centenas – disse ao Globo.

O resultado é que Dahmer continua trabalhando para conseguir dar conta do desafio que lhe impôs. E o tempo é curto, já que o lançamento está previsto para o próximo dia 10, no Boteco Salvação, em Botafogo, Zona Sul do Rio.

Em ‘Ninguém muda ninguém’, o cartunista de 36 anos reúne desenhos, pinturas, fotografias, cartas e poemas produzidos nas últimas três décadas. Se você quer seu exemplar exclusivo, anote na agenda.

Abaixo, André Dahmer desenha uma das capas de ‘Ninguém muda ninguém’.

Tempo de lembrar os porões

Vira e mexe, esse blog se mete a falar de livros, literatura e escritores. Muito sem maiores pretensões, é verdade. Quase sempre é o básico instinto de indicar coisas bacanas que gritam nas prateleiras. Ora acerta, ora não.

Agora, como ocasião especial, cabe a lembrança de um dos primeiros posts publicados neste espaço. Acabo de saber que “Olho por olho: livros secretos da ditadura” (Record), de Lucas Figueiredo, é um dos três vencedores do Prêmio Jabuti de Literatura 2010, na categoria “Reportagem”. Feliz, porque, resultado de um trabalho de abnegado, o livro vale cada uma de suas duzentas e tantas páginas.

Mais um prêmio justo a Lucas Figueiredo, vencedor de três Esso, um Embratel e um Folha, entre outros.

Se você não leu a entrevista do jornalista, pode ler agora aqui: Uma história bem contada.

A serviço dos objetos literários

Por Jaime Gonçalves Filho
e Sônia Oliveira Pinto

Ainda por e-mail, ele segue a maior parte dos convidados e pede mais detalhes sobre o interesse na visita. Após as explicações, responde com outra pergunta, lacônica e receptiva: “E o que eu tenho que fazer?”. As portas virtuais ainda estavam entreabertas, quando dá um jeito de entregar a primeira confidência: “Vou ter que arrumar o escritório”.

A rua discreta parece bem mais curta que a realidade, mas dobra-se e desdobra-se em curvas ladeira acima, ganhando um clima típico de bairro serrano e perdendo os ruídos dispensáveis da cidade, dos carros, das pessoas que correm. Lá em cima, em nosso ponto de destino, meio do caminho entre o cume e sopé da ladeira, o tempo é outro.

Militante dedicado e delicado da literatura, o jornalista e escritor Marcelo Moutinho acorda, dorme, come, bebe, abre, fecha, escreve e lê em um charmoso apartamento no bairro de Laranjeiras, na zona sul do Rio. Separados em diversos cômodos, os livros são, aparentemente, divididos em comunhão parcial de bens com sua mulher, Flávia.

É ela quem abre a porta, nos convida a entrar, e, enquanto aguardamos o entrevistado, nos fala sobre o golpe de sorte que os levou até ali, discorre sobre a vizinhança pacata e o clima bucólico que dá ao lugar um quê de onírico, comum aos romances de um João Gilberto Noll, por exemplo. Moutinho chega. Traz um sorriso sincero e contido, um tênis All Star estampado no peito e um ar despojado que pouco ou nada tem a ver com sua literatura.

De maneira um tanto dispersa, tenta explicar a logística da divisão literária nos escaninhos privados. Os livros ali não apenas fazem parte da paisagem, parecem mais que integrados, estão entrelaçados a ela. A literatura estrangeira, as coisas do Rio, os livros de cinema ou música (há uma música tocando, embora som algum esteja ligado), tudo isso parece a razão de ser de todo o resto. O entorno, este sim – e isso inclui a nós, curiosos visitantes –, parece estar a serviço dos objetos literários.

Provocado, Moutinho lembra que foi o interesse pela política que o levou pela mão ao encontro da literatura, e que essa união se tornou ainda mais intensa ao perceber que a política não poderia, sozinha, “dar conta do mundo”. Já a literatura…

Ela estava bem lado, ainda na casa dos pais, nos contos e romances que circulavam pelas estantes que compartilhava com a irmã. Ao alcance das mãos, o peso pesado da literatura de Caio Fernando Abreu, que tem como de hábito arremessar incautos para o fundo do poço da existência e depois expulsá-los de lá aos solavancos. Isso era Madureira, anos 1980. Uma cabeça, há de se considerar, ainda suburbana. E o que quer que isso significasse.

A partir daí, o mundo. Os mofados morangos do escritor gaúcho lhe jogaram uma dezena de iscas literárias (e musicais) que se multiplicaram como fractais e, mais uma rasteira, lhe fizeram cair no colo de Clarice Lispector. O lobo mau que veio da Ucrânia. “Eu queria entender o que fazia aquela mulher ser tão admirada por alguém que eu admirava tanto”, lembra. E se pôs a tatear o vazio do desconhecido. Hoje Moutinho assume sem medo a obra da escritora como uma referência para seu tear literário.


Com a página da política virada, o escritor vê em retrospecto que um primeiro livro ruim “salvou” sua segunda incursão nas letras. E deve isto, sobretudo, a uma crítica de Flávio Carneiro. “Sempre que o encontro, agradeço por ter salvado o Somos todos iguais esta noite”, diz, meio a brinca, meio sério. Da mesma forma, ele atribui ao acaso o fato de, aos 36 anos, já ter organizado três antologias literárias. Em uma delas, reuniu jovens escritores em uma cartografia literária do Rio de Janeiro, onde cada autor pariu um conto tendo um bairro como protagonista. A ele próprio coube a Urca, onde morava à época.

A uma pergunta clichê e pouco inspirada, Marcelo Moutinho diz que se tivesse que escolher um único livro e partir com ele para nunca mais, levaria consigo as obras completas do poeta Fernando Pessoa. “Eu o considero o maior escritor que já existiu”, resume. Com o escritório em ordem, ele está, enfim, à vontade por entre os livros seus.

Por um instante, o sol do dia limpo de inverno é encoberto. A harmonia derrapa e o escritor reconhece que o pecado capital predileto de seus pares (e dele, inclusive) é o da vaidade, e que isso tem maculado relações que poderiam ser mais saudáveis ao nível do mar, não das nuvens. Máquinas eletrônicas desligadas, põe os devidos pingos nos ‘is’. O céu se abre, o ambiente é novamente iluminado e o assunto fica para trás.

Atento, Moutinho digere as perguntas com um pensamento rápido. E ao tempo que seu olhar parece antever aonde o entrevistador quer chegar com tais questões, vai soltando o que pode com um cuidado visível, mas sem morosidade. Hoje, diz enxergar semelhanças entre seus textos e aqueles produzidos por de Adriana Lisboa, João Anzanello Carrascoza e Flávio Izhaki. Está bem acompanhado.

Como porta-retratos, vasos e flores, Albert Camus, Zuenir Ventura, Ariano Suassuna, Noel Rosa, Arthur Shopenhauer, Fabrício Carpinejar, Franz Kafka, Paulo Francis, Fernanda Young, Inês Pedrosa e tantos outros abarrotam suas estantes. A todo o momento novas picadas precisam ser abertas na mata doméstica. O leitor Moutinho segue como um desbravador.

* O encontro acima aconteceu em 27 de junho de 2009, para um projeto literário que só agora começa a tomar forma. Além de Moutinho, outros escritores nos abriram as portas e estarão presentes no projeto em questão. Aguardem.

** Correções: Ao contrário do que publicado inicialmente, o autor da resenha ‘salvadora’ é Flávio Carneiro e não Antônio Torres. Também estava equivocada a informação de que Moutinho havia escrito sobre Madureira em seu ‘Prosas Cariocas’. O bairro que lhe coube, como já corrigido, foi o da Urca.

Feios

O norte-americano James Newell Osterberg, mais conhecido na pele do sequelado roqueiro Iggy Pop, acaba de ganhar um título nada invejável: o de ‘pior rosto’ entre as celebridades. A eleição foi realizada pelo site britânico The Good Surgeon Guide (Guia do Bom Cirugião) que, de acordo com matéria do Globo Online, ouviu cerca de 1.300 pessoas.

Pop bateu concorrentes ‘de peso’, como os atores Mickey Rourke, Melanie Griffith e Cher (também cantora), deixando em segundo e terceiro lugares, respectivamente, a modelo Jodie Marsh e estilista Donatella Versace. A pesquisa foi realizada no Reino Unido e, pela foto abaixo, o leitor talvez considere o resultado justo, mas há controvérsias. (Aqui, Mr. Pop dançando para Moskow; aqui seus concorrentes)

Iggy Pop - Foto: Moskow

No entanto, um outro dado chama a atenção: 39% dos entrevistados disseram respeitar mais as celebridades bonitas do que as bem sucedidas. Resultado sintomático para uma sociedade (global) histericamente preocupada com a beleza (ou falta dela).

Diante do resultado da enquete bizarra (estranhamente os ingleses tem se dedicado mais e mais a elas), lembrei de um livro recém-lançado pela Ed. Record. Esta é a segunda ou terceira vez que escrevo aqui sobre livros não lidos. De todo modo, como me foi indicado com relativo entusiasmo, dei uma fuçada na web atrás de informações.

‘Feios’, do também norte-americano Scott Westerfeld, é a primeira parte de uma tetralogia a ser completada por ‘Perfeitos’, ‘Especiais’ e ‘Extras’. O livro é uma trama com algo de ficção científica envolvendo a modificação física e emocional de adolescentes. Esses, ao completarem 16 anos são submetidos a uma cirurgia plástica obrigatória que corrigirá todas as suas imperfeições. Uma resenha da Folha Online o definiu como um casamento entre ‘1984’, de George Orwell, e ‘Diário da Princesa’, de Meg Cabot. Fiquei, no mínimo, curioso.

*Esse post foi escrito ao som de Avenue B, de Iggy Pop.

Leia, abaixo do vídeo, o primeiro capítulo de ‘Feios’.

NOVA PERFEIÇÃO

O céu de início de verão tinha cor de vômito de gato.

Obviamente, Tally pensava, quando a dieta do seu gato se resume por um bom tempo a ração sabor salmão. Movendo-se rapidamente, as nuvens até lembravam peixes, desfeitas em escamas pelos ventos das altitudes elevadas. À medida que a claridade se ia, lacunas azuis da cor do mar apareciam, como um oceano de cabeça para baixo, frio e infinito.

Num verão qualquer, um pôr do sol como esse teria sido lindo. Mas nada era lindo desde que Peris havia se tornado perfeito. Perder seu melhor amigo é uma droga, mesmo que apenas por três meses e dois dias.

Tally Youngblood esperava pela noite.

Ela podia ver Nova Perfeição da janela. Os prédios onde as festas aconteciam já estavam todos iluminados. Linhas sinuosas destacadas por tochas indicavam os caminhos por entre os jardins. Balões de ar quente puxavam suas cestas em direção ao céu rosado levando passageiros que atiravam rojões de artifício contra outros balões e paraquedistas que passavam. O som de risos e música vinha como uma pedrinha sobre a água, arremessada com a força certa, as pontas ferindo os nervos de Tally. Nos limites da cidade, isolada pela forma oval do rio, tudo estava escuro. Àquela hora, todos os feios estavam dormindo.

Tally tirou seu anel de interface e disse:

– Boa noite.
– Bons sonhos, Tally – respondeu a sala.

Ela mastigou uma pílula de escovar os dentes, afofou os travesseiros e enfiou um antigo aquecedor portátil – um que gerava tanto calor quanto um ser humano do tamanho de Tally – embaixo dos lençóis. E então saiu de fininho pela janela.

Do lado de fora, com a noite finalmente tomando o céu por completo, Tally se sentiu bem. Talvez fosse um plano idiota, mas qualquer coisa era melhor do que outra noite acordada na cama, afogada em lamentações. No familiar caminho coberto de folhas que levava à beira d’água, era fácil imaginar Peris andando nas pontas dos pés atrás dela, segurando o riso, pronto para uma noite espionando os perfeitos. Juntos. Ela e Peris haviam aprendido a enganar o inspetor aos 12 anos, uma época em que parecia que os três meses de diferença entre suas idades nunca teriam importância.

– Amigos para sempre – murmurou Tally, tocando a pequena cicatriz na palma de sua mão direita.

A água reluziu por entre as árvores. Ela podia ouvir as pequenas ondas produzidas por uma embarcação no rio se chocando contra a margem. Agachou-se atrás dos juncos. O verão era a melhor época para as expedições de espionagem. A grama estava alta, nunca fazia frio e não era preciso encarar um dia inteiro de aula no dia seguinte.

Obviamente, agora Peris podia dormir o quanto quisesse. Era apenas uma das vantagens de ser perfeito.

A antiga ponte se estendia, grandiosa por sobre a água. Sua imensa estrutura de metal estava escura como o próprio céu. Tinha sido construída há tanto tempo que suportava seu próprio peso, sem ajuda de qualquer estrutura suspensa. Em um milhão de anos, quando o resto da cidade estivesse em escombros, a ponte provavelmente continuaria de pé, como um osso fossilizado.

Ao contrário das outras pontes que levavam à Nova Perfeição, a antiga não falava – e, mais importante, não denunciava invasores. No entanto, mesmo em seu silêncio absoluto, sempre parecera sábia aos olhos de Tally; serenamente astuta, como uma árvore ancestral.

Agora seus olhos estavam totalmente acostumados ao escuro. Precisou de poucos segundos para achar a linha de pesca amarrada à pedra de sempre. Ela deu um puxão e ouviu o barulho da corda se revirando onde ficava escondida, entre as colunas da ponte. Continuou puxando até que a linha invisível se transformou  numa corda úmida cheia de nós. A outra ponta permanecia atada à estrutura metálica da ponte. Tally esticou bem a corda e a amarrou à árvore de costume.

Ela teve de se agachar por entre a grama novamente quando outra embarcação passou no rio. As pessoas que dançavam no convés não notaram a corda que ia da ponte à margem. Nunca notavam. Os novos perfeitos estavam sempre ocupados demais em se divertir para perceberem pequenas coisas fora do lugar.

Depois que as luzes do barco sumiram na escuridão, Tally testou a firmeza da corda, usando o peso do seu corpo. Uma vez, ela havia se soltado da árvore, fazendo com que Tally e Peris pendessem para baixo e depois fossem arremessados para o meio do rio, caindo na água gelada. Tally sorriu com a lembrança.

Preferiria estar na expedição – encharcada, no frio, ao lado de Peris – a estar seca e aquecida naquela noite, mas sozinha.

Pendurada por baixo da corda, com as mãos e os pés agarrados aos nós, Tally foi se arrastando até a estrutura sombria da ponte. Então subiu no esqueleto metálico e completou a travessia até Nova Perfeição.

Ela sabia onde Peris morava graças à única mensagem que ele tinha se dado ao trabalho de enviar desde que se tornara perfeito. Não era exatamente um endereço, mas Tally conhecia o truque para decodificar os números aparentemente aleatórios no fim do texto. Os dados a levaram a um lugar chamado Mansão Garbo, na parte alta da cidade.

Chegar lá seria complicado. Em suas aventuras, Tally e Peris sempre se mantinham perto do rio, onde a vegetação e a escuridão de Vila Feia deixavam mais fácil a tarefa de se esconder. Desta vez, Tally estava a caminho da área central da ilha, onde carros enfeitados e festeiros enchiam as ruas iluminadas a noite toda. Novos perfeitos, como Peris, gostavam de viver onde a diversão era mais intensa.

Embora tivesse decorado o mapa, se entrasse numa rua errada, Tally estaria perdida. Sem seu anel de interface, era invisível aos veículos. Seria atropelada como se nem existisse. De certa forma, Tally não existia por lá.

Pior do que isso: ela era feia. Mas tinha esperança de que Peris não visse as coisas daquele jeito. Ou, pelo menos, não a visse daquele jeito.

Tally não tinha ideia do que aconteceria se fosse pega. Não era como ser flagrada sem o anel, matando aula ou convencendo a casa a tocar sua música num volume mais alto do que o permitido. Todo mundo fazia aquele tipo de coisa – e todo mundo acabava se dando mal. Mas ela e Peris tomavam muito cuidado para não serem pegos nas expedições. Atravessar o rio era assunto sério.

Àquela altura, porém, era muito tarde para se preocupar. O que poderiam fazer com ela, afinal? Em três meses também se tornaria uma perfeita.

Tally avançou lentamente, acompanhando o rio, até alcançar um jardim. Penetrou a escuridão se enfiando embaixo de uma fileira de salgueiros-chorões. Sob sua proteção, foi percorrendo um caminho iluminado por pequenas candeias.

Havia um casal de perfeitos passeando pelo mesmo caminho. Tally ficou imóvel, mas os dois estavam distraídos, ocupados demais trocando olhares para notá-la agachada no escuro. Num silêncio absoluto, ela os viu passar e sentiu algo que costumava sentir ao observar um rosto perfeito. Mesmo quando ela e Peris os espiavam das sombras, rindo das idiotices que os perfeitos diziam e faziam, não conseguiam deixar de reparar. Havia algo mágico naqueles olhos grandes e perfeitos, algo que praticamente obrigava as pessoas a prestar atenção ao que diziam, a protegê-los dos perigos, a fazê-los felizes. Eles eram tão… perfeitos.

Depois que os dois sumiram na curva seguinte, Tally sacudiu a cabeça, tentando tirar aquelas imagens piegas da cabeça. Não estava ali para espiar. Era uma infiltrada, uma penetra, uma feia. E tinha uma missão a cumprir. O jardim se estendia pela cidade, serpenteando como um rio negro por entre casas e torres brilhantes que abrigavam festas. Após se esgueirar por mais alguns minutos, ela surpreendeu um casal escondido no meio das árvores (afinal, estavam no Passeio Público). No escuro, porém, eles não conseguiam ver seu rosto. Puderam apenas reclamar enquanto ela murmurava um pedido de desculpas e se afastava.

Tally também não tinha conseguido ver muita coisa; apenas um emaranhado de pernas e braços perfeitos.

Finalmente, a poucos quarteirões de onde Peris morava, o jardim chegou ao fim.
Tally deu uma olhada de trás de uma cortina de trepadeiras. Estava num ponto a que ela e Peris nunca tinham chegado juntos. Também era o ponto final do seu planejamento. Naquelas ruas movimentadas e bem-iluminadas, não havia como se esconder. Ela levou os dedos ao próprio rosto e sentiu o nariz largo, os lábios finos, a testa grande demais e o volume dos cabelos crespos. Bastaria botar um pé fora do mato para ser notada imediatamente. Seu rosto parecia queimar sob a luz. O que estava fazendo ali? Devia ter ficado nas sombras de Vila Feia, à espera da sua vez.

Mas ela precisava se encontrar com Peris, falar com ele. Não sabia exatamente a razão, além de já estar cansada de imaginar milhares de conversas, todas as noites, antes de dormir. Tinham passado todos os dias juntos, desde a infância, e agora… nada. Talvez, se pudessem conversar por alguns minutos, seu cérebro parasse de falar com o Peris imaginário. Três minutos poderiam permitir que suportasse outros três meses.

Tally percorreu a rua com os olhos, à procura de jardins para invadir e entradas escuras que lhe servissem de abrigo. Sentiu-se como uma alpinista diante de um paredão imponente, buscando fendas e apoios para as mãos.

O movimento de carros diminuiu um pouco, e ela decidiu esperar, distraindo-se com a cicatriz em sua mão direita. Um pouco depois, soltou um suspiro e sussurrou: “Amigos para sempre.” E deu um passo em direção à luz.

A explosão de sons que veio do seu lado direito a fez pular de volta para a escuridão, tropeçando por entre as trepadeiras e desabando de joelhos na terra macia, por alguns instantes certa de que havia sido descoberta.

A barulheira, contudo, logo se organizou num ritmo pulsante. Era uma bateria eletrônica que se arrastava pela rua. Do comprimento de uma casa, reluzia com os movimentos de suas dezenas de braços mecânicos, que golpeavam tambores de todos os tamanhos. Atrás, vinha uma multidão crescente de festeiros, dançando no ritmo, bebendo e arremessando as garrafas vazias contra a imensa e impenetrável máquina. Tally sorriu. Os festeiros usavam máscaras.

A máquina lançava máscaras pela parte de trás na tentativa de atrair mais pessoas para a parada improvisada: diabos, palhaços horripilantes, monstros verdes, alienígenas cinzas com grandes olhos ovais. Gatos, cachorros, vacas. Rostos com sorrisos tortos e narizes gigantes.

Com a procissão avançando devagar, Tally se enfiou no mato novamente. Algumas pessoas passavam tão perto que a doçura inebriante das garrafas dominava seu olfato. Um minuto depois, quando a máquina já estava meio quarteirão adiante, Tally saiu do esconderijo e pegou uma máscara abandonada do chão. O plástico, recém-modelado no interior da máquina, ainda tinha uma textura macia.

Antes de pôr a máscara no rosto, Tally percebeu que era da mesma cor rosada de vômito de gato que lembrava o pôr do sol. Havia um longo focinho e duas orelhinhas rosas. Podia sentir a gosma aderindo à sua pele e se ajustando ao seu rosto.

Tally abriu caminho por entre os festeiros bêbados para sair do outro lado da procissão, e pegou uma rua transversal que levava à Mansão Garbo. Usava uma máscara de porco.