Da janela lateral


“Chovia demais naquela manhã, uma chuva que molhava o piso de vermelhão da varanda da casa onde morávamos, naquela época já de aluguel. Uma casa velha de madeira, a varanda circundada pela mureta de alvenaria. A chuva alagando o território onde aquele que fui brincava de escorregar no piso.
(…)
Sozinho na varanda, a chuva a me isolar dos amigos e da família, a sensação de abandono me punha a escrever nas paredes, náufrago do tempo lutando para estabelecer contatos.
Quem seria esse interlocutor que o menino procurava?

Um amigo? Alguém da família? (…) Talvez todos, mas principalmente o adulto que a criança se tornaria.

* * *

“Vindo de um povo basicamente iletrado, recebi a tarefa de ser seu porta-voz. Escrevo por isso, para fazer com que falem estes entes sem discurso. Pode até ser uma justificativa tola, mas como ela pesa para mim. Se você não a compreende, é porque sua história é outra, você não sente o travo amargo de um silêncio centenário.

(…)

Daí esta minha vontade de habitar folhas em branco para gastar este extenso estoque de silêncio, para dissipar esta herança de desejos. Aprender a escrever foi a única saída para dar uma condição letrada à extensa ignorância de meus antepassados.”

* * *

“A mulher se aproxima do balcão para perguntar se sou daqui. Respondo seco:
— Fui.
— Muita gente que partiu tem voltado, mas não conheço ninguém. Sou nova na cidade.
Não digo nada, apenas olho as árvores do outro lado da rua, a velha praça e o local onde havia uma televisão. Ali, nós, crianças pobres, assistíamos velhas novelas.
— Onde o senhor mora?
— Numa cidadezinha chamada memória.
— Não sei onde fica – diz a mulher enquanto me vira as costas para atender um jovem.”

.
Trecho do romance ‘Chove sobre minha infância’, de Miguel Sanches Neto.

Anúncios