Como se nunca houvera sido

Lembrei da história ontem e já não sei onde e quando ouvi, nem mesmo se os ingredientes estão corretos. Mas estou quase certo que foi contada pela própria Adriana.

Homem embrenhado das solas dos pés aos cachos dos cabelos com o que se fez de relevante na música popular brasileira das décadas de 60 a 90, o poeta Wally Salomão em dado momento acreditou que poderia desvincular-se das canções.

O período coincidiu com a produção do terceiro álbum de Adriana Calcanhotto. Quando, no processo de escolha de repertório, a cantora pediu uma música para o novo disco, Wally, irritadiço, deu-se à tarefa de elaborar um ‘poema imusicável’. Depois de alguns dias, enviou algo.

– Tome aí. Veja o que você consegue fazer – disse Wally, em tom desafiador.

O resultado está abaixo.

* * * * *

A fábrica do poema
(Adriana Calcanhotto, Waly Salomão)

Sonho o poema de arquitetura ideal
Cuja própria nata de cimento
Encaixa palavra por palavra, tornei-me perito em extrair
Faíscas das britas e leite das pedras.
Acordo!
E o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo.
Acordo!
O prédio, pedra e cal, esvoaça
Como um leve papel solto à mercê do vendo e evola-se,
Cinza de um corpo esvaído de qualquer sentido
Acordo, e o poema-miragem se desfaz
Desconstruído como se nunca houvera sido.
Acordo!

Os olhos chumbados pelo mingau das almas
E os ouvidos moucos,
Assim é que saio dos sucessivos sonos:
Vão-se os anéis de fumo de ópio
E ficam-me os dedos estarrecidos.
Metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros
Sumidos no sorvedouro.
Não deve adiantar grande coisa permanecer à espreita
No topo fantasma da torre de vigia
Nem a simulação de se afundar no sono.
Nem dormir deveras.
Pois a questão-chave é:
Sob que máscara retornará o recalcado?

Eu vi um menino correndo

Há cerca de seis meses, um abnegado vem postando no YouTube uma série de vídeos que (unidos) formam uma espécie de documento essencial de um pedaço importante da música brasileira, observado pelo prisma de um de seus mais polêmicos integrantes: Caetano Veloso.

Os tais vídeos integraram um especial de aniversário de 50 anos do baiano, comemorados em 1992. À época, o especial foi exibido em horário nobre, durante cinco dias, na extinta TV Manchete. Lá se vão 18 anos.

O documentário (entremeado por trechos do show Circuladô Vivo, que rendeu um LP-CD duplo) foi dirigido pelo cineasta Walter Salles e produzido pela então novata VideoFilmes. Com um trabalho de pesquisa de imagens impecável, o doc/especial de TV reunia um time de primeira linha, à altura da ambiciosa empreitada. As entrevistas no estúdio foram conduzidas pelo jornalista Mathinas Suzuki, numa linha à la Fernando Faro (produtor do Ensaio); os cenários ficaram sob responsabilidade de Daniela Thomas.


A ideia mesclava simplicidade e ousadia: pôr Caetano diante de uma câmera para contar sua história. De quebra, viria um bocado do ‘entorno’ que o transformou em um personagem que viveu desde sempre aos chamegos e às turras com público e crítica, em doses igualmente intensas.

Há um pouco de quase tudo ali. A costura é tão precisa quanto discreta. Durante os cinco episódios, que estão postados em pequenos trechos de cerca de 10 min cada, o artista faz o que bem sabe: canta, conta histórias e opina sobre Deus e o mundo.

Mas o mais importante, a música, está lá em sua melhor forma. Há canções dele e de um sem número de compositores que admira; há histórias divertidas de Herivelto Martins, Lupiscínio Rodrigues; e outras emocionantes, como a que descreve a visita de Roberto Carlos à sua casa, em Londres, durante o exílio.

De resto, Caetano fala sobre a terra natal, Santo Amaro da Purificação; leva o filho mais novo pela primeira vez à casa da avó, Dona Canô; lembra a efervescência cultural da Salvador dos anos 1960; Tropicalismo, Jovem Guarda, Maria Bethânia, Beatles, Candomblé, Cinema Novo, miséria, Bossa Nova, ‘as loucuras do Glauber’, música minimalista, artes plásticas, ateísmo, política, o bar de Bubu, Intrépida Trupe, João Gilberto, Pasquim, etc, etc e etc…

O grande barato, é que o programa se desenrola como uma aula de história da música, com um pano de fundo político-cultural. Tudo é amarrado e contextualizado de forma interessante. Até porque, caso contrário, o espectador não sintonizava o canal no dia seguinte.

No entanto, o mais surpreendente dessa história está na razão de ser deste post: o ‘quase’ ineditismo desse trabalho. Se tirarmos a exibição única na TV e a iniciativa isolada de lucesarcarioca (o internauta que joga os vídeos na web), as possibilidades de se encontrar esse programa são próximas de zero. Quais as razões?

De acordo com a assessoria do cineasta Walter Salles, na época em que foi feito, o documentário foi pensado somente para ser exibido em TV e, naquele momento, “não existia tanto esta questão do DVD”.

“Ele não foi comercializado pois ninguém se interessou em comercializá-lo. E, para isso, teria que ser feito um clearance de todas as músicas, autores, compositores, etc”, explica a assessoria. Procurada, a produtora Natasha Enterprises, que cuida da obra de Caetano Veloso, não se pronunciou sobre a possibilidade de relançamento do programa em DVD.

Na falta da obra original, resta aos interessados recorrer à web, contando que nenhuma das partes envolvidas seja acometida por um surto castrador e solicite a retirada do material do site de vídeos. Enquanto isso, o material vem pingando a conta-gotas.

A primeira parte de 3º episódio foi postada há menos de uma semana. Como os dois primeiros episódios foram divididos em cinco partes cada, há de se supor que ainda faltem 14 partes (são cinco episódios, repito). Dá tempo de ir assistindo com calma, em ordem cronológica ou não, até que tudo esteja disponível.

Aos curiosos, segue abaixo a 3ª parte do 2º episódio, em que Caetano assiste e comenta um trecho de sua polêmica apresentação no festival de setembro de 1968 – aquele que tomou uma vaia estrondosa, respondida com um discurso ainda mais virulento contra público e jurados (“Vocês não estão entendendo nada, nada. Quem teve coragem de assumir essa estrutura e fazê-la explodir, foi Gilberto Gil e fui eu”).

No mesmo episódio, descreve detalhes de sua prisão e também de Gil, em São Paulo, no mesmo ano de 1968. Prisão esta que resultaria, mais adiante, no exílio em Londres (mas isso já é assunto para o episódio seguinte).

“Afinal nos puseram em celas separadas e daí em diante eu não vi mais o Gil. Me levaram para uma cela, uma solitária, que era dormir no chão, tinha uma latrina e um chuveiro. Um lugar que só me cabia a mim mesmo. E ali eu fiquei uma semana”. (…) “E tinha um vizinho de cela, mais próximo, que pedia que eu cantasse algumas músicas do Orlando Silva, de uma cela pra outra, e eu cantava. E ele dizia que chorava. Eu só ouvia a voz dele, era um homem mais velho, acho que um velho comunista. Um sujeito, aliás, maravilhoso. Parecia de um filme italiano aquele homem. Mas eu fiquei muito mal, me sentia muito estranho e tinha muito sono”.

Mas vale mais ouvir o próprio: