Tempo de lembrar os porões

Vira e mexe, esse blog se mete a falar de livros, literatura e escritores. Muito sem maiores pretensões, é verdade. Quase sempre é o básico instinto de indicar coisas bacanas que gritam nas prateleiras. Ora acerta, ora não.

Agora, como ocasião especial, cabe a lembrança de um dos primeiros posts publicados neste espaço. Acabo de saber que “Olho por olho: livros secretos da ditadura” (Record), de Lucas Figueiredo, é um dos três vencedores do Prêmio Jabuti de Literatura 2010, na categoria “Reportagem”. Feliz, porque, resultado de um trabalho de abnegado, o livro vale cada uma de suas duzentas e tantas páginas.

Mais um prêmio justo a Lucas Figueiredo, vencedor de três Esso, um Embratel e um Folha, entre outros.

Se você não leu a entrevista do jornalista, pode ler agora aqui: Uma história bem contada.

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Uma história bem contada

Olho por olho - Os livros secretos da ditadura, de Lucas Figueiredo, Ed. Record

Olho por olho, livro do jornalista Lucas Figueiredo, é a radiografia de uma guerra surda. E a persistência do autor foi uma das principias alavancas para que ele ganhasse vida e trouxesse parte das memórias do subsolo da repressão à tona.

Em 1998, durante as pesquisas de seu livro anterior (Ministério do Silêncio), Lucas soube da existência de uma publicação secreta que seria a resposta do Exército ao Brasil, Nunca Mais, livro produzido para revelar as atrocidades da ditadura brasileira. A partir daí, iniciou uma busca incessante por uma das 15 cópias secretas do Orvil (a palavra livro, de trás para frente) que circulavam num grupo fechado de militares e civis de extrema direita.

A busca teve fim nove anos depois, quando Lucas Figueiredo, enfim, conseguiu uma das cópias emprestada por um militar. A descoberta rendeu uma série de matérias para o jornal “O Estado de Minas” e o Prêmio Esso de Jornalismo daquele ano (2007).

As pesquisas que vieram a seguir, sobre o trabalho de produção dos dois livros e a guerra silenciosa travada nos bastidores por não mais que 40 combatentes (de ambos os lados), expõem um tenso jogo de xadrez entre direita e esquerda, onde o xeque-mate é dado apenas no último capítulo. Olho por olho tem ainda o mérito de ser, ao mesmo tempo, um contraponto tanto para o discurso da esquerda como da direita.

Ao todo, foram ouvidas 36 pessoas e lida toda a bibliografia relacionada ao assunto, incluindo os seis volumes do Projeto Brasil, Nunca Mais, que somam mais de seis mil páginas. O volume que chegou às livrarias é uma síntese de 5% deste projeto. “Eu diria que o Brasil, Nunca Mais e o Orvil são complementares. Deveriam ser lidos juntos”, diz Lucas, que amarra as duas histórias de forma vigorosa em Olho por olho.

Circulam com desenvoltura por páginas e capítulos do livro personagens de relevo da história recente da política brasileira, muitas vezes desempenhando papéis surpreendentes. Toda essa receita, faz de Olho por olho uma aula de como contar bem uma história. Se você não leu o Brasil, Nunca Mais, certamente se arrependerá disso antes do fim do primeiro capítulo de Olho por olho. O Orvil será uma conseqüência óbvia.

* Segue abaixo o trecho de uma entrevista com Lucas Figueiredo feita por mim, à época do lançamento do livro, em meados de 2009.

* * *

O que lhe chamou mais atenção nesse processo de ‘descobertas’ sobre o Brasil, Nunca Mais?

O que mais me surpreendeu foi perceber como as pessoas envolvidas no Brasil, Nunca Mais estavam dispostas a correrem grandes riscos por uma causa. Trabalhava-se de graça, no anonimato, pisando em ovos. E até hoje muitas pessoas relutam em revelar que participaram do projeto, preferindo ficar no anonimato. Quando se vê hoje a ganância generalizada, o gosto pelos holofotes, percebe-se que os tempos mudaram.

Projeto original do BNM tem mais de seis mil páginas. A publicação que foi para as livrarias, mais de 40 edições esgotadas.

Quando você  leu o Brasil, Nunca Mais pela primeira vez? Acredito que hoje a leitura seja bem diferente daquela, certo?

Li o BNM pela primeira vez no começo dos anos 1990. Estava na faculdade de jornalismo. Desde meados da década de 1990, o livro se tornou uma fonte de consulta constante, já que trabalho bastante com temas militares e ditadura. Já perdi a conta de quantas vezes li o livro e sempre me surpreendo com os resultados da pesquisa.

Você  diz que o Orvil lhe caiu nas mãos por ‘sorte ou destino’. Pode explicar como isso aconteceu?

Eu perseguia o Orvil desde 1998, quando iniciei as pesquisas do meu livro Ministério do Silêncio: A história do serviço secreto brasileiro de Washington Luís a Lula (1927-2005). Soube da existência do livro por intermédio de uma fonte, um ex-torturador. Em 2005, publiquei Ministério do Silêncio sem ter conseguido botar as mãos no Orvil. Tentei de todas as formas obter uma das 15 cópias secretas do Orvil que circulavam num grupo fechado de militares e civis de extrema direita, mas sempre batia com a cara na porta. Mas nunca desisti, mesmo no meu inconsciente. Em 2007, visitando uma fonte da área militar, me vi diante da sua estante de livros. Ele percebeu meu interesse e foi me mostrando os livros. Chegou uma hora em que botou nas minhas mãos uma encadernação artesanal, de capa preta e letras douradas, dividida em dois tomos, com quase mil páginas. Era o Orvil! Pedi a ele para me emprestar, mas ele não concordou. Dias depois, liguei novamente e pedi para ir a casa dele ver o livro novamente. Ele então concordou em me emprestar a cópia que estava com ele. Dezenove anos depois de ter sido feito, o Orvil saía das trevas.

Vetado à época de sua conclusão, por que o Orvil demorou tanto para tornar-se público?

Os militares são muito disciplinados. Como o então presidente José Sarney vetou a publicação do Orvil em 1988, o então ministro do Exército, general Leônidas Pires Gonçalves, determinou que o livro fosse levado à estante de documentos secretos das Forças Armadas (FFAA). Além de terem obedecido ao general, os militares que cuidavam do Orvil passaram a vê-lo como uma espécie de Santo Graal da extrema direita, como se o Orvil revelasse “A Verdade” oculta sobre a luta armada. Esses guardiões do Orvil, que são identificados no meu livro, conseguiram manter o pacto de silêncio por 19 anos, até que consegui uma cópia. Mas é bom lembrar que não era apenas eu que andava atrás do Orvil. Outros jornalistas que cobrem assuntos militares também tentavam. Era uma espécie de corrida.

O que lhe pareceu mais surpreendente neste caso do Orvil: o fato dos militares terem pensado em um revide nos mesmos termos ou o livro não ter ‘vazado’ até então?

O revide era esperado. Mesmo porque os militares apanharam durante décadas sem nunca ter contado a versão das FFAA sobre a luta armada. Surpreendente mesmo é como eles conseguiram manter o pacto de silêncio por quase duas décadas. Um amigo passava o Orvil para o outro, com o compromisso de que não o xerocasse. E por incrível que pareça isso funcionou, pois somente 15 cópias foram feitas.

Há  alguma história, em cada um dos livros, que mais o surpreendeu?

Sem dúvida, a história mais impressionante é a do caseiro de um aparelho rural da ALN e da VPR em Cotia que foi morto, por engano, pela repressão. Seu nome era Joaquim Gonçalves dos Santos. Ele era um pobre coitado que estava no lugar errado na hora errada. Os militares mataram ele e seu corpo nunca apareceu. Apesar de muita gente da esquerda conhecer o episódio, Joaquim nunca entrou para o rol dos desaparecidos políticos. Sua viúva não teve direito à reparação, pedido de desculpas, indenização. Isso aconteceu só porque ele não tinha militância política. Considero o Joaquim vítima da repressão e da esquerda.

Dom Paulo Evaristo Arns, a eminência parda por trás da construção do BNM.

Com quem você lamenta não ter conversado para a elaboração de Olho por olho?

Sem dúvida, com o pastor Jaime Wright, o faz-tudo do projeto, morto em 1999. Ele sabia tudo. O que pude fazer foi levantar tudo o que ele já havia escrito e todas as entrevistas que dera. Também não pude falar com o ex-cardeal d. Paulo Evaristo Arns, que se encontra doente. Mas Arns nunca gostou muito de falar sobre o projeto. Preferia não aparecer.

Por outro lado, qual foi a entrevista mais enriquecedora ou crucial para o seu livro?

A do general Leônidas Pires Gonçalves. Além de confirmar a existência do Orvil, ele me contou como o livro foi feito e como ele foi vetado. Com seu depoimento, é impossível agora as FFAA negarem a existência do Orvil. Além de falar com o general Leônidas, entrevistei o general Zenildo Lucena, que o sucedeu. Também entrei em contato com o QG do Exército, mas, como de hábito, a instituição foi lacônica nas suas respostas. Os militares até hoje têm muito receio em falar sobre os episódios da ditadura, sobretudo da luta armada.

Você  acha que Olho por olho pode ser considerado tendencioso, por encher de elogios a produção do BNM e criticar com a mesma intensidade o Orvil?

Olho por olho analisa as duas obras sob o ponto de vista do seu conteúdo. Ambas são igualmente importantes, mas é inegável que BNM utilizou uma metodologia de trabalho muito mais acurada. O Orvil, por exemplo, afirma que Chico Buarque era agente de Cuba e que o ex-presidente FHC era inspiração para terroristas. Não dá para levar afirmações como essa a sério.

Que críticas você  faria hoje ao BNM? E em que pontos o Orvil deve ser elogiado?

Orvil é a versão do Exército sobre a luta armada, uma versão que nunca tinha vindo à tona. Por si só, isso faz do Orvil um documento valiosíssimo. O Orvil tem muitas mentiras e manipulações, mas em vários momentos aponta os pecados da esquerda armada, como atentados terroristas e justiçamento, coisas que até hoje a esquerda tem dificuldade em lidar.

Orvil também mostra, com precisão, que todas as organizações da esquerda armada não lutavam pela democracia, mas sim para derrubar a ditadura militar e implantar, em seu lugar, uma ditadura de esquerda. Como durante muitos anos só a esquerda se pronunciou sobre aquele período, acabou-se cristalizando a falácia de que a esquerda armada lutava por democracia. O Orvil, nesse caso, é um excelente contraponto.

Já o Brasil, Nunca Mais foi, em vários momentos, muito tolerante com as organizações da esquerda armada. Analisou bem o papel dos militares, mas podia muito bem ter sido mais crítica em relação à esquerda. Mas no geral o Brasil, Nunca Mais se sai melhor, pois seu objeto de estudo é mais focado: os métodos e casos de tortura, morte e desaparecimento de presos políticos.

Em 2007 foi recebeu um Prêmio Esso pela série de reportagens que revelou a existência do Orvil. O que o livro traz de acréscimo àquelas matérias?

Depois de publicar aquelas matérias, passei mais seis meses me dedicando exclusivamente ao estudo do Orvil. Fiz novas entrevistas, consegui mais documentos, me aprofundei mais. O jornal é importante, mas não se pode comprar a profundidade de uma matéria de jornal com um livro.

Qual seria, no seu entender, a síntese dessa guerra ‘literária’?

Foi uma guerra surda, silenciosa. Agora ela precisa ser conhecida. Meu objetivo ao escrever Olho por olho foi revelar a existência dessa guerra silenciosa. Mas ela precisa ser estudada por muito tempo.