Como é bom poder tocar um instrumento II

Abaixo, a segunda parte do bate papo com o músico jean mafra, sobre a trajetória dos artistas independentes (e ‘fora do eixo’) no país, a internet no processo de divulgação e possibilidades surgidas da troca de experiências.

* * *

Fiquei pensando se não é uma questão cultural mesmo. O que leva o ‘blogueiro cool’ daquele jornal a olhar pra cá e não pra lá? Falar desse e não daquele artista? A questão do gosto é muito subjetiva, acho que já falei disso no Café Escuro… Mas enfim, o periférico Brasil e os brasileiros teria preconceito com suas próprias periferias? Por que não ouvimos os latinos, por exemplo? Essa é uma questão que me intriga. Quando perguntei sobre ‘tocar para seus iguais’ estava também querendo confirmar a tese de que o parâmetro é o mesmo em diversas regiões (em maior ou menor escala). Em geral, fica tudo limitado ao fato de conhecer as pessoas certas e que apontam (os mesmos) caminhos. O resto é comodismo e falta de interesse mesmo. Penso eu, num reducionismo absurdo.

Quanto ao fato do “blogueiro cool” olhar para isso ao invés de lançar seu olhar sobre aquilo, penso que esta não é uma questão apenas cultural, mas também política (e uma coisa se soma a outra). parte da imprensa do brasil, e em santa catarina a coisa não é diferente, prefere olhar para o que o primeiro mundo vende como bom. seguir este modelo é mais confortável. nesse caso minha fala casa perfeitamente com a sua colocação de que “não ouvimos os latinos“… é complicado abordar esta questão, pois ela é bastante complexa, mas não me furto de dizer que o grande problema do pop brasileiro é que o que comumente chamamos pop brasileiro é a menor parcela do que pode ser chamado de pop do brasil –  quando digo nós, quero dizer, nós que temos acesso a informação e que somos letrados o suficiente para nos consideramos acima da média da população deste país. um livro mudou o modo como ouço música: eu não sou cachorro, não do paulo cesar de araújo… Ele lança luz sobre esta e outras questões, e por isso penso que há, sim, uma parcela enorme do brasil que tem vergonha da sua periferia, ou de si. claro, pedro alexandre sancheshermano vianna já disseram isso com mais propriedade que eu.

Mas a Internet, que deveria ser uma maneira melhor de divulgar o trabalho de ‘artistas independentes’, tem ajudado, no seu caso?

Bom, mas a internet, por mais clichê que seja dizer, possibilita que um artista independente de fora e de dentro do centro do país possa construir novos canais de comunicação com as mais diferentes pessoas. eu, por exemplo, tenho “fãs” em lugares em que nunca estive (e no qual minha música só chegou por causa da rede) – gente que manda mensagem comentando música, que diz que quer ver o show, essas coias… obviamente, este espaço – internet – não é tão plural quanto tentam nos vender.

Agora, uma coisa que aprendi com o pessoal do teatro mágico (sou amigo do fernando e do fabrício anitelli – por causa do mpbmúsica pra baixar, do qual fazemos parte), que o mais inteligente a se fazer com uma ferramenta como a internet é estabelecer um canal de comunicação com um público, sem mediador (parece óbvio, mas, de modo geral, muitos artistas se preocupam mais em enviar material para jornalistas, blogueiros, sites (da oi, do faustão, etc) do que em apresentar seu trabalho para uma menina que conheceram através do facebook).

O fato de também ser DJ lhe abre outros caminhos?

Ser dj é um desdobramento natural do que faço. Mas é mais importante para mim financeiramente que “artisticamente”, pois as vezes essa minha função confunde um pouco as pessoas… Por outro lado, gente como lucas santtana, por exemplo, também se apresenta como dj para facilitar suas idas a lugares em que não poderiam visitar com suas bandas (já viajei assim também).

Você diz que “ainda será preciso bastante trabalho para construirmos novos canais que independam das grandes corporações midiáticas do centro do país”. Que pontos não foram postos em prática até aqui que poderiam mudar esse cenário?

Por fim, um dos pontos que não foram colocados em prática para se construir novas possibilidades neste cenário musical brasileiro que se (re)desenha, é o da criação de um circuito musical que efetive uma comunicação entre artistas e produtores musicais de diferentes regiões brasileiras. num esquema parecido ao do fora do eixo, mas sem o viés político ideológico e que abrace diferentes formas musicais, não apenas o rock. Fui convidado para me apresentar em um festival de teatro, dança, música, no crato (no vale do caririceará), mas como não havia grana suficiente para pagar minha ida com uma banda, acabei por fazer um show com músicos de lá. Foi ótimo, mas se tivesse o mesmo dinheiro do cachê, passagem aérea e hotel e pudesse somar a ele a grana de umas duas apresentações em pernambuco, outra na bahia, duas em minas e uma em são paulo, meu show no cariri seria MUITO MELHOR. E eu faria uma tour, não uma apresentação apenas. Qual é a dificuldade de isso acontecer? É que ainda não temos canais de comunicação entre pequenos produtores e casas e artistas. isso é difícil de ser feito?!? Não. Aqui em florianópolis temos casas para 100, 150 pessoas que poderiam receber artistas nesse esquema. Mas isso ainda não acontece para além de algumas regiões. mundo livre s.a. já fez curitiba-joinville-blumenau-floripa-porto alegre graças ao interesse de um produtor daqui, mas isso se deu porque eles já eram uma banda conhecida no centro do país… O que falta para que isso role com quem está longe da mtv? Comunicação. Note: não estou propondo a invenção da roda, mas algo óbvio e relativamente fácil de ser construido.

Outros pontos que ajudarão nesta luta estão sendo construidos por artistas e produtores de fora do centro do país já há alguns anos. Pelo mpb, posso dizer que se as mudanças na lei de direito autoral do brasil que propomos para o minc, e que passou por consulta pública recentemente, seguir pelo congresso sem muitas alterações que a transformem em algum frankestein, poderemos ter novos espaços em rádios, sites, tvs para quem sempre foi ignorado por não estar em uma major ou ter aqueles (criminosos) “investimentos em publicidade”… (a diminuição do poder do ecad e o fortalecimento de rádios comunitárias também contribuirão neste sentido). Mas não apenas o mpb se mobiliza. Há o circuito fora do eixo, a abrafin e a rede música brasil que vem, juntos e independentemente construindo novas possibilidades. (Há hoje em minas uma cena fortíssima, graças ao empenho dos músicos de lá em se associarem… você conhece o israel do vale?)

Quando li teu segundo e-mail, fui procurar uma entrevista que o André Mansur, do Sedativo, tinha me mandado há algumas semanas, ou meses. Enfim, o papo era com o Rômulo Fróes aqui e tem pontos em comum com o que você diz.

Como o papo está bom, vou me atrever a comentar algumas das tuas novas colacações. Estou indo ler a entrevista do rômulo fróes, mas gostaria de dizer que também noto que alguns músicos independentes tem o hábito de se fecharem em si, de se bastarem, como se o que interessasse a eles fosse fazer música apenas para entendidos (como no encarte de araçá azul). Mas isso pode tanto ser ligado aquilo que conversavamos nas mensagens anteriores, do fato de alguns setores da música e do jornalismo musical ignorarem propositalmente uma comunicação mais ampla (ou a parcela mais pop do pop do brasil), quanto a questão de que o mundo em que a gente vive e no qual fazemos nosso trabalho, é tão seguimentado que dificulta a comunicação para além de seu círculo… Mas mais que isso: noto que de modo geral, para uma parcela dos quem vivem neste meio, o sucesso para além dele (o meio) é algo condenável… sei lá, é uma impressão. Também sinto que existe uma parte dos artistas da minha geração que só não alcançam o grande público porque não tem canais para se comunicar com ele – não é este o caso de max de castrocurumin?!? (que poderiam tranquilamente tocar em qualquer rádio do país?)

Tô falando isso, pq isso também me fez pensar noutra coisa: salvo casos muito excepcionais, a impressão que eu tenho é que os artistas da música deixaram, talvez da década de 70 ou 80 pra cá, de dialogar com outras formas de expressão artísticas. Eu não sei se estou falando alguma bobagem, mas acontece que não percebo conexões entre música e cinema, artes plásticas, teatro, por exemplo. Parece que antes, em um momento ou outro, tudo se confundia. Essa mistura era mais freqüente ao menos.

Agora, quanto a outra fala do rômulo fróes, sinto que hoje temos alguns artistas que transitam por áreas além música (lirinhathiago pethitkarina bhur, por exemplo). Eu mesmo, além de ter cursado letras e ter a literatura como um norte para o meu trabalho, sou contador de histórias e também trabalho com áudio visual (em duas semanas lanço o clipe de rosebud – que tem direção minha).

Você, por exemplo, citou o Machado de Assis como referência do teu trabalho. Mas talvez isso seja muito mais uma construção de uma memória remota (mas constante), do que algo que você percebe como urgente, presente, e que sente a necessidade de chamar pra si, na sua música, entendeu? Antes tínhamos lá os Rolling Stones e o Velvet Underground namorando a Pop Art de Andy Waroll; Chico Buarque com João Cabral; os tropicalistas com Oiticica e Lina Bo Bardi, e muitos outros exemplos. E aí você pode levar essa dificuldade ou incapacidade para grupos, gêneros, regiões… e aí teremos o retrato da música brasileira hoje. Milhares de artistas falando só pra si, e satisfeitos com isso. O que houve com a ambição? O que um músico independente ambiciona hoje?

Acho que você fez uma pergunta maravilhosa no fim do seu imeiu, “o que um músico independente ambiciona hoje?”. As respostas são várias, mas lamentavelmente, sei que muitos responderiam que gostariam de deixar de ser independentes… mas esta é uma pergunta para um ou dois artigos…

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Como é bom poder tocar um instrumento I

O crítico

Os adjetivos são, comumente, o caminho mais curto para se alcançar a superfície. Fraco, belo, dantesco, potente, feio, sublime e outros achismos formam a nuvem de poeira que faz turvar os olhos do crítico. Experimente dizer o que pensa da última música que ouviu sem usar um único adjetivo.

O que é a boa crítica? Baseado em que preceitos define-se o que é ou não relevante culturalmente? Qual o limite da discordância? O quanto de sua vaidade o crítico deixa respingar nesta avaliação?

Quando foi que você aprendeu a não gostar daquela nova cantora que ‘todo mundo fala mal’? E, o que é mais curioso, agora você se pega cantarolando a música daquela outra nova cantora que ‘todo mundo elogia’? Muitas questões, muitos caminhos.

Se o leitor(a) não estiver atrás de respostas, uma boa oportunidade de não encontrá-las é procurar ‘Tinhorão, o legendário’, biografia do crítico José Ramos Tinhorão, lançada oficialmente nesta terça-feira, 13, no Instituto Moreira Sales, no Rio de Janeiro.

Escrito pela jornalista Elizabeth Lorenzotti, o livro é focado principalmente no aspecto profissional do controverso personagem, e conta um pouco a história de importantes redações em que ele trabalhou, na época de grandes transformações na imprensa carioca – desde o primeiro emprego como estagiário, em 1953, no Diário Carioca. A biografia também destaca o período no Jornal do Brasil, onde o trabalho de Tinhorão teve seu auge “dos anos 60, com as Primeiras Lições de Samba, até os anos 80, com as críticas”, explica a biógrafa.

Polêmico, odiado, temido, admirado, respeitado, desprezado, subestimado. Aqui os adjetivos, sempre eles, ajudaram a boicotar o caminho, por demais já turbulento, escolhido por José Ramos Tinhorão. A biográfa diz acreditar que a mudança nas relações entre imprensa e a insdústria cultural contribuiu para o processo de expurgo.

“A prevalência da indústria cultural e a divulgação de seus produtos foi sim, a responsável por jornalistas como Tinhorão não terem mais lugar. Como ele mesmo diz “eu falava de Zé do Coco e Riachão”, e a indústria cultural não estava interessada neles”.

O jornalista e crítico musical Pedro Alexandre Sanches, que durante boa parte dos anos 2000 vestiu a carapuça de enfant terrible nas páginas da Folha de São Paulo, defende também a ideia de auto-sabotagem.

“Acho bem provável que pudéssemos falar isso a respeito do Tinhorão, porque ele de fato parece ter ficado isolado, marginalizado, rejeitado pelos que criticou e pelos que não criticou. Mas eu tenderia a atribuir esse tipo de isolamento muito mais ao próprio crítico que a fatores externos (como a imprensa ou a indústria fonográfica) – acho que não teria sido assim se ele assim não quisesse ou não agisse propositalmente ou não no sentido de se isolar”, analisa Sanches.

Lorenzotti diz que o objetivo primeiro do livro era “desmistificar preconceitos contra Tinhorão”. De certa forma, é como se as polêmicas em que se meteu (ataques à bossa nova, acusações de plágio a Tom Jobim, troca de farpas com Caetano Veloso) contribuissem para esconder “a verdadeira face de grande jornalista e pesquisador rigoroso, intelectual íntegro e sua coerência”, completa Lorenzotti. Assim, o livro seria uma tentativa de (re)colocá-lo no lugar que lhe é de direito.

A biógrafa afirma que não passou por cima dos temas espinhosos. “Registrei no livro as opiniões contrárias, por exemplo, de Hermínio Belo de Carvalho, José Miguel Wisnik, que entretanto o respeitam como pesquisador. E de Caetano Veloso”.

E para usar, provocativamente, um verso do compositor baiano, Tinhorão hoje parece assumir ‘a dor e a delícia de ser o que é’. “Ele não  é um homem ressentido ou amargo, nem sente nostalgia: é um intelectual bem humorado, acessível e muito educado”, resume a biógrafa. Melhor assim, melhor assim.

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Aquele outro


Ps. Depois do lançamento do IMS, Tinhorão estará nesta quarta-feira na Livraria Folha Seca, no Centro do Rio, autografando seus livros e sua biografia, a partir das 18h30. Uma oportunidade imperdível. A Folha Seca fica na Rua do Ouvidor 37.

Aquele outro

Interessado em música e crítica musical, passei boa parte dos anos 2000 atento aos textos do jornalista Pedro Alexandre Sanches produzidos para o jornal Folha de São Paulo no período. Guardada as devidas proporções, Sanches seguia à distância a escola crítica de José Ramos Tinhorão. Descartando erros conhecidos, perseguindo os acertos. À época, eu próprio (e ele também admite) conhecia pouco ou quase nada da produção de Tinhorão.

Com um estilo irônico e elegante, Sanches torcia e retorcia seus alvos, com especial dedicação para personalidades ‘intocáveis’ da música popular brasileira. Com o tempo, Sanches intensificou gradativamente o nível das críticas, até decidir se despir (como ele mesmo explica) da fantasia de menino mal.

“Tomei a decisão de sair da ‘Folha’, entre outros motivos, porque eu não tinha mais qualquer interesse em continuar desempenhando aquele papel do palhaço ‘agressivo’ da crítica musical. Acho que a ‘Folha’ gostava e gosta muito dessa figura do crítico agressivo (hoje mesmo há toda uma série de profissionais dessa categoria lá, embora não na crítica musical), e acredito que é uma postura que o jornal sempre incentivou subliminarmente. Acho até que se eu não tivesse me desviado desse curso muito possivelmente poderia estar lá até hoje…”, explica Sanches.

O desvio que ele diz aconteceu quando trocou o jornal pela revista ‘CartaCapital’. Hoje, Sanches é coloborador da revista e deposita o grosso de sua produção no blog http://pedroalexandresanches.blogspot.com/.

Na semana passada, quando lhe enviei três perguntas sobre Tinhorão, Sanches comemorou. E escreveu, escreveu e escreveu. No fim, ainda agradeceu a oportunidade de ‘falar’ sobre o crítico. Obrigado, eu.

Abaixo, alguns trechos do momento ‘Tinhorão por Pedro Aleandre Sanches‘.

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Marginalizado

Eu não era influenciado pelo Tinhorão nos meus primeiros anos de jornalista, simplesmente porque, ignorância total minha, eu não conhecia absolutamente nada do que ele escrevia. Ele ainda é marginalizado hoje, mas acredito que era bem mais nos anos 1990, quando era bastante raro sequer ouvir falar dele. Fui tomando consciência aos poucos, depois o entrevistei, hoje acompanho tudo que posso, porque é evidentemente uma referência central, daquelas de a gente usar como norte tanto para pegar as coisas legais como para fugir dos erros, preconceitos e enganos que cometia.

Ele fala muita coisa de que eu discordo, então é sempre um exercício de ler concordando e discordando ao mesmo tempo e aprendendo a separar umas partes das outras. Apesar de as críticas do Tinhorão parecerem às vezes maniqueístas, ler o que ele escreve hoje me parece por si só um exercício de não ser maniqueísta – se quiser levar a coisa a sério, você não pode aceitar tudo que ele fala, menos ainda rejeitar a priori toda e qualquer coisa que ele diga.

Preceitos marxistas

Uma coisa de que eu gosto no Tinhorão é saber que ele tem uma metodologia muito definida de análise (coisa que eu, por exemplo, nunca tive, pelo menos conscientemente), entender que ele segue preceitos do marxismo para criticar a música popular, e pronto. A gente sempre pode discutir se são métodos datados ou se ainda podem ter validade, mas eu acredito que muito do preconceito que existe contra ele se deve menos aos folclores sempre citados (de ele se opor à bossa nova, acusar Tom Jobim de plágio etc.) do que à leitura que ele faz da música a partir da luta de classes. Ainda que eu discorde das conclusões a que ele chega num grande número de vezes, acho há uma parte desse método que é muito, muito atual. Por exemplo, acredito que a má vontade atual contra o rap se deve muito menos a razões propriamente musicais que a preconceitos de classe social e discriminação racial. Tinhorão já cutucava essa ferida 50 anos atrás, quando implicava com os almofadinhas e as “aventuras de apartamento” da bossa nova.

Crítico em crise

O que acredito hoje, sinceramente, é que a figura do “crítico agressivo” que sai ofendendo e desrespeitando todo mundo é algo absolutamente em crise, o que explica em grande medida o estado de decadência em que se encontram nossos maiores veículos, quase todos aprisionados até hoje nesse modelo opressivo da agressividade passiva.

O imitador

Precisamos nos perguntar se a sociedade ainda precisa desse modelo de crítica que ele fazia (e que eu, por exemplo, imitei em grande parte dos meus dez anos de Folha, sem saber nem ter teoria por trás). Acredito que não precisamos, e nesse sentido me parece que perdeu muito sentido aquele estilo de escrita que o Tinhorão tinha e depois continuou com o Pepe Escobar, o Luís Antônio Giron, mesmo eu (aliás, se formos pensar, esse modelo nas últimas décadas ficou muito circunscrito ao núcleo “Folha”-“Veja”. Nunca foi muito a cara dos jornais cariocas, nem mesmo do “Estado”, pelo menos no que se refere à crítica cultural).

Bonequinho de vodu

Mas aí há um ponto importante: isso não quer dizer que morreu o modelo de crítico ácido, que fala pelo fígado e cospe bile verde quando se expressa. O que eu acho que acontece nos últimos anos é que a internet virou tudo de ponta-cabeça. Se antes uma parte do público leitor aplaudia secretamente e se identificava em silêncio com o crítico ranzinza, amargo, recalcado etc., enquanto outra parte adorava usar essa mesma figura como bonequinho de vodu, hoje toda e qualquer pessoa tem a oportunidade de ir pessoalmente para um blog, um Orkut, um Twitter ou o que seja destilar suas próprias doses de veneno e amargura. É só olhar nas caixas de comentários dos sites e blogs, os Tinhorões (ou melhor, as características mais amargas e folclóricas do modelo Tinhorão) estão todos lá, fazendo por eles próprios o que antes esperavam que um Tinhorão fizesse para representá-los. Afinal, quem não tem sua própria dose de agressividade e rancor? Tenho certeza absoluta que até a Sandy e o Padre Marcelo têm. E, se tem tanto crítico feroz por aí, quem ainda precisa de seguidores dessa linha na grande imprensa, não é mesmo? Ninguém, e de fato, pelo menos na crítica musical, eles me parecem felizmente em extinção (na crítica política ainda há um monte – Diogo Mainardi, Arnaldo Jabor, Clovis Rossi, Reinaldo Azevedo -, mas estão cada vez mais falando sozinhos).

De mal com o mundo

Pessoalmente, confesso que da minha ida para a “CartaCapital” para cá, me sinto bastante aliviado e contente de ter desembarcado da fantasia de palhaço desse personagem de mal com o mundo, vociferante, supostamente sabedor de todos os defeitos da humanidade (menos dos dele próprio) e das receitas “certas” para corrigi-los. Acredito que o Tinhorão, ao modo dele e ao tempo dele, percebeu a armadilha e fez esse mesmo caminho de libertação – se despiu do personagem do lobo bobo e foi ser um historiador sério, consistente e sóbrio, que os chapeuzinhos vermelhos não têm qualquer razão para temer.

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A escrivinhadora

A escrivinhadora

Por anos José Ramos Tinhorão viveu em uma quitinete de 31m2 na Rua Maria Antonia, em São Paulo, com todo o arcevo que reuniu em décadas de pesquisa sobre a música brasileira. Mas os tempos duros já haviam ficado para trás quando, em 2000, ele negociou sua biblioteca e discoteca com o Instituto Moreira Sales.

De acordo com o IMS, o acervo, que passava pelo processo de catalogação na sede do instituto em São Paulo desde 2001, é composto por cerca de 6,5 mil discos de 76 e 78 rpm, 6 mil discos de 33 rpm, fotos, filmes, scripts de rádio, cartazes, jornais, revistas, rolos de pianola, folhetos de cordel, press releases de gravadoras e uma biblioteca com mais de 14 mil obras especializadas na cultura popular urbana, tema central de toda sua obra. Até o final de 2010, todo o material será disponibilizado para consulta.

Para comemorar a chegada do acervo ao Rio, o IMS promoveu nesta terça-feira o lançamento da biografia e de outros dois livros de Tinhorão A música popular que surge na era da revolução (Editora 34) e Crítica cheia de graça (Empório do Livro), além de uma exposição que ficará aberta apenas até o dia 16 de abril, com curadoria do próprio Tinhorão.

A jornalista Elizabeth Lorenzotti fala um pouco mais sobre seu objeto de estudo.

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Por que e quando a senhora decidiu que escreveria sobre Tinhorão?

Em 2007, após lançar o livro Suplemento Literário-Que falta ele faz!- sobre o caderno cultural criado pelo professor Antonio Candido no Estadão em 1956, editado pela Imprensa Oficial, o jornalista Paulo Moreira Leite, então vice –presidente, resolveu reeditar a coleção imprensa em Pauta, de biografias de jornalistas, e me convidou para escrever sobre Tinhorão. Eu já o havia entrevistado algumas vezes, e conhecia sua carreira de jornalista e depois pesquisador.

Como ele recebeu a idéia de uma biografia?

Eu o entrevistei durante alguns meses na livraria Metido a Sebo, da Vila Buarque, seu ponto de encontro, seu “escritório” aonde vai todos os sábados, antes de passar pela padaria da esquina. Lá ele recebe amigos, pesquisadores, jornalistas, fãs. A princípio ele relutou, mas depois aceitou bem e colaborou muitíssimo. Conversei com seus contemporâneos, hoje poucos – ele tem 82 anos – da época do Diário Carioca, Jornal do Brasil, Correio da Manha – Janio de Freitas, que também escreveu a contracapa do livro, Gilson Campos, repórter e fotógrafo, Wilson Figueiredo, Reynaldo Jardim, Nilson Lage e o amigo e colega de Editora Abril, nos anos 80, jornalista Antonio Romane. Além de pesquisar livros e internet.

Tinhorão cultivou por muitos anos a fama de se um crítico com ‘língua ferina’. A senhora acredita que isso o atrapalhou?

Sua ironia e sua pena afiada, seu talento na escrita  podem ter criado desafetos, mas não mais do que a grande legião de leitores que o seguiam no Jornal do Brasil e em O Pasquim.

Ele sempre colecionou opiniões polêmicas sobre ‘ícones’ do mundo da música. Quais a senhora destacaria e por quê?

Tom Jobim, por causa de suas criticas à Bossa Nova – que compara a um carro, apenas montado no Brasil, mas importado–, e também sobre o que chama de “anterioridades jobinisticas”, 16 musicas que arrolou e provou serem inspiradas em outras, sem a devida citação, inclusive Águas de Março. E Caetano Veloso, que disse em 2008  carregar “uma pulga atrás da orelha há 40 anos”, quando escreveu, no jornal de sua faculdade na Bahia, o primeiro artigo contra Tinhorão. O livro se encerra com essa polêmica.

Como Tinhorão vive hoje?

Mora com sua mulher, a professora Maria Rosa, nas imediações da redação da Folha. Tem uma vida simples, viaja religiosamente uma vez por ano para Portugal, para onde segue agora em maio, após o lançamento de São Paulo, na Livraria da Vila, da rua Fradique Coutinho, no dia 28 de abril. Tem ótima saúde, raciocínio afiado como sempre, gosta de boa comida e de bons vinhos. Lê todos os jornais de São Paulo diariamente, continua recortando e colecionando livros.

Em relação ao estilo, a senhora enxerga ‘seguidores’ de José Ramos Tinhorão na imprensa?

Não, porque o estilo é o homem. E um homem com sua vivência e sua cultura, só mesmo na geração de Tinhorão.

Como biógrafa, onde a senhora situaria José Ramos Tinhorão, considerando o cenário atual da crítica musical brasileira?

Há pouco espaço para a crítica de música na mídia impressa, lugar privilegiado de Tinhorão. E esse lugar que ocupou, é singularíssimo.

Qual a avaliação que ele próprio faz de sua performance como crítico? Ele se vê como um crítico ‘linha dura’?

Ele continua com as mesmas ideias e o mesmo método – o materialismo dialético, seu modo de ver e analisar o mundo. E quando relê para nós algumas de suas críticas mais ferinas, concorda que os objetos dessas críticas tinham por que ficar furiosos…

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