Machado

Está no ar!

A revista Machado, feita para a Web, com mais de 30 colaboradores em 180 páginas foi lançada na última sexta-feira, 23 de abril. O projeto é tocado pelo ‘senhor faz tudo’ Delfin e pode ser acessado em www.studiodelrey.com.br — na aba Machado.

Uma experiência para ser degustada. “Muita informação. Prosa, poesia, HQs, insights, ensaios, jornalismo, arte, ideias. Machado se construiu de modo livre e foi assim até o final”, enumera Delfin, que convidou gente de vários segmentos para integrar o projeto. Entre eles este escriba, que não conseguiu cumprir os prazos estabelecidos. Fica para o próximo número.

Entre as boas surpresas, está a participação da bela Simone Paterman, hoje pensando em Paris.

Vai lá. Confira!



A anatomia de um abraço


Em 1998, ainda na faculdade, participei da criação de uma revista junto com colegas de turma. A proposta era fazer algo ‘gratuito e de qualidade’ para o público universitário e distribuir no maior número de faculdades e universidades possíveis.

A inexperiência e a incompetência administrativa fez com que a periodicidade do primeiro para o segundo número da revista passasse de bimestral para semestral. Apesar das dificuldades, ou mesmo por conta delas, a edição nº 2 foi consideravelmente melhor que a nº 1, o que não é um grande mérito, convenhamos.

Mas para a garotada que começava a dar os primeiros passos nessa história de jornalismo, o grande barato (além dos livros, cds e shows gratuitos) eram as entrevistas e a chance de estar bem próximo de personalidades admiradas.

Não lembro se chegamos a discutir sobre nomes possíveis para a ‘grande entrevista’, que ocuparia seis páginas da revista nº 1. Certo mesmo é que quando eu e Daniel Vieira saímos do restaurante de um hotel na rua Barão da Torre, em Ipanema, com o resultado de nossa entrevista armazenado em quatro fitas cassetes, nos demos conta que tínhamos muito mais conteúdo do que poderíamos imaginar.

Lobão - Foto: Pedro Lobo / Reprodução

Lobão, incansável, disparou sua metralhadora verbal por mais de três horas sobre os garotos. Mas nós dois tínhamos feito o dever de casa direitinho e a conversa rendeu. Música, política, indústria fonográfica, o modus operandi da mídia, parceiros, desafetos e por aí vai. O resultado da transcrição das fitas resultou em 22 páginas, o que nos rendeu um desespero extra no momento da edição.

Mas, enfim. Lembrei de toda essa história porque topei com uma edição da revista (que não teve um terceiro número, ressalte-se) enquanto organizava coisas no escritório de casa. E numa leitura rápida, algo me pareceu muito novo, atual, mesmo quase 12 anos após a publicação.

Segue o trecho:

Você foi cooptado para fazer a campanha?

Fui, fui cooptado. Mas eu estava com muita raiva e naquela época fiquei com medo de falar, porque era uma unanimidade acachapante. Agora a gente vai se distanciando e vendo o ridículo que era, a falta de autoestima do brasileiro. Aí todo mundo entra aqui e eles lambem o saco dos caras, achando que a nossa simpatia e, o que é pior, que a nossa Sarayevo ia virar uma Roma, de uma hora para a outra; porque tudo o que nós não fizemos com a vergonha que nós deveríamos ter na cara, durante todos os 500 anos da cidade, em quatro anos nós iríamos resolver tudo; porque o gringo assim ia exigir que a nossa cidade ficasse para ele, então, poder habitar. Isso é um pensamento que não pode ser mais escroto, meu Deus do céu!

Como teve na Rio 92.

Como teve na Rio 92. Em uma escala muito mais olímpica, por se tratar de uma olimpíada. Aí você vê que a inteligentzsia toda ali, cooptada, corroborando o que dizia o Ronaldo Cézar Coelho, que é um pusilânime, uma pessoa da pior qualidade, uma figura horrorosa. E aí, neguinho vai lá e paga aquele mico. Não podia, tem que haver uma ruptura. Não pode deixar essas caras septuagenários natos já, cagando goma e juventude. Nós já somos homens feitos, de 40 anos.

Samba da Caixa Preta é um pouco sobre isso, não?

Samba da Caixa Preta é uma canção de amor ao Rio e de ódio por quem está dentro dele. É basicamente isso. Na hora H, a inteligentzsia aderiu à campanha da Rio 2004. Tá bom que um banqueiro f$@#% como o Ronaldo Cézar Coelho fique persuadindo mulatas para dá o c# pro farofeiro lá fora, tá bom. Mas o Caetano ficar “me abraça”, com Aquele Abraço? Ah, vai tomar #$$@#. Você vê, é uma vergonha, mas ninguém fala. Então, quando você põe, as pessoas ficam: ‘vergonha!’. Então, é óbvio. Quando eu falo com muito carinho dele, eu digo que foi um lapso de inteligência. Eu espero que seja muito mais um lapso de inteligência do que um surto de oportunismo. (Risos)

* * *

Momento memorabília