‘Uma maneira curiosa de exercitar a vaidade…’

Numa semana em que a movimentação inusitada do ermitão Rubem Fonseca mexeu com a cabeça de escritores, leitores e jornalistas culturais, com a saída do autor da toca para comparecer a um impensável evento público, uma dúvida tilintou dentro da caixola: quem é Paula Parisot?

Sim, foi a moça de 31 anos quem fez o maior contista brasileiro vivo deslocar-se do Rio para São Paulo, na manhã da última terça-feira, para prestigiar uma ‘performance’ sua. Ela se encontrava confinada dentro de uma caixa de acrílico de 4m x 3m em uma livraria paulista.

A partir dali, algumas ‘teses’ sobre a aproximação dos dois pipocaram na grande imprensa – inclusive a de que ela seria o ‘pivô’ de sua misteriosa saída da editora Cia. das Letras após 20 anos de parceria.

Por conta disso, o Café Escuro (que já havia falado do autor no post 9 milímetros) procurou algumas figuras ligadas ao meio literário e editorial (leitores inclusive) para tentar construir um perfil da menina Parisot, com base na observação alheia. Algo como ‘Parisot por eles’. Não deu certo.

Dos poucos selecionados que receberam as perguntas deste blog, apenas três se deram ao inconveniente trabalho de responder. Dois deles admitiram ter pouco a acrescentar e, como um mantra, repetiram a mesma palavra para quase todas as questões: ‘Não’. Não conheciam, não leram, não se interessavam, não acreditavam, e por aí vai.

“Não tomei conhecimento sobre a performance, apenas superficialmente. Em relação declarações de Fonseca sobre ela, acho que ‘avalizam’, com aspas mesmo, mas não tenho certeza se ‘dão credibilidade’. E, sim, acredito em promessas literárias. Lembro do Daniel Galera e da Carol Bensimon. Acho que estão no caminho”, disse o leitor gaúcho Dante Sasso.

“Levianismo à parte, penso que foi uma jogada da editora e que Rubem Fonseca ganhou um troco. Lembro que há poucos meses ele foi leiloado, mas nem sei se quem levou foi a mesma editora da moça”, lembrou o jornalista André Mansur sobre a visita de Rubem à tal performance. (N.E. Não, não foi. A nova editora de Fonseca é a Agir; a nova editora de Parisot é a Leya.)

No entanto, o primeiro questionário a pingar na Caixa de Entrada foi justamente de um escritor e, talvez por isso, o único a pedir anonimato. Era, contudo, o que trazia as informações mais consistentes.

Segundo ele, Paula pertence “a uma casta de altíssimo nível do hight society paulista”, de família muito próxima ao escritor de A arte de andar nas ruas do Rio. Ele explica que a conheceu depois que um amigo a indicou como sendo uma boa escritora, frisando que ela tinha sido indicada para a Cia. das Letras por Rubem Fonseca. “Talvez seja o motivo de desafeto ou desentedimento para a saída do escritor de Mandrake de lá”, diz, apostando em hipótese também defendida por Fábio Victor, na Folha de São Paulo.

No trecho da entrevista que segue abaixo, o escritor anônimo discorre um pouco sobre o que pensa de seus colegas de função – mentor e pupila. Revela um suposto teor sexual embutido na relação pública entre os dois; e compara a declaração do autor de Agosto, sobre a performance de Paula, com as análises de artes plásticas construídas por Mario Pedrosa e Ferreira Gullar, por exemplo.

Se todo esse movimento serviu para algo, foi para mostrar que o velho Zé Rubem continua ‘na atividade’ extra-literária e, com ela, conseguiu pôr mais uma discípula na estrada.

* * * *


Já havia lido ‘A Dama da Solidão’ ou
‘Gonzos e Parafusos’?

Li um conto de ‘A Dama da Solidão’. Não me pareceu nem melhor ou pior que Patrícia Mello ou qualquer outro arremedo fonsequiano. Mas eu teria um prazer maior em indicar mulheres, porque satisfaria meu ego masculino e meu complexo de Dom Juan, do que homens. Há um flerte ou uma malícia nessa história. Um modo inteligente de afirmar a fama falocentrica de Fonseca. Não são mulheres burras ou que escrevam mal, porque isto seria um tiro no pé do autor de Prisioneiros. Mas é uma maneira curiosa de exercitar a vaidade em todos os níveis.

O que você já ouviu dizer da literatura de Paula?

Sinceramente, não acompanho. Como o que ela faz é uma pálida sombra do que Rubem Fonseca já realizou, não me interesso pela leitura, mas deve ter lá isto que interessa aos analistas de literatura de gênero que me tacharão de insensível por desconhecer a individuação daquela voz por este, este e aquele motivo… Todo o blábláblá que se desvia do assunto principal: só existem livros bons e maus. E se a criatura não dá um passo além daquele dado pelo seu criador…

O que achou da
performance feita pela escritora?

O Rubem foi para os jornais dizer que é coisa séria. Nunca li nenhuma coluna dele sobre artes plásticas como as que possuíam Mario Pedrosa, Frederico Morais, Ferreira Gullar ou comentários como Hélio Oiticica realiza sobre, por exemplo, Jackson Ribeiro. Portanto, se alguma discípula do autor de O Seminarista quebrar paredes e se cobrir de fezes, ele achará tão importante quanto se fechar em um caixa de vidro em uma livraria e ser alimentado pelos visitantes e depois produzir um livro com as sensações. Era melhor vê-la de biquini ou calcinha ou sutiã no BBB, soaria mais sincero e atingiria uma mídia maior. Talvez rendesse até capa de Playboy.

E sobre a visita ‘surpresa’ de Rubem Fonseca à tal performance?

Uma surpresa que ele deveria estar devendo a família, porque parece que são amigos de longa data… Senão, que sentido faria sair de sua casa por achar um zé-ninguém preso em uma caixa de vidro ou seja lá o que for interessante para vê-lo. Isto aos oitenta e blau, em um momento que não se pode desperdiçar tempo ou energia. Se levarmos em consideração que o autor é sério. Eu não sairia de casa. Talvez surtisse mais efeito ir a Cuba e visitar o jornalista que está em greve de fome pela libertação de presos políticos.

Com que frequencia você está lendo os tais ‘novos escritores’?

Leio aquilo que me interessa e que preste. Porque este rótulo protege um monte de baboseiras. Autores inventados por editoras que mantém criticos presos a contratos milionários ou com garantia vitalícia de salário se nos suplementos de cultura – que agora se transformaram em Show Business – elogiá-los como novos avatares das letras e canções.

Você acredita em promessas literárias? Elas têm por hábito de contratizar?

Elas se realizaram, sim. Porque o aparato em torno deles é forte. Como  falei na pergunta anterior: criticos, colegas que foram comprados e tem que enfiar a língua se sabe onde e mesmo escrevendo melhor que companheiros ‘revelações’, foram sequestrados em seu direito de opinião por punhados favores, metais, cervejas, etc… Um tráfico de influência bem pior do que aquele que ocorre em Senados, Presidências ou locais propriamente frequentados pelo poder. Daqui a alguns anos estarão como júris dos principais prêmios literários e outras quimeras da vida literária… Mas elas se concretizaram e se mantém. Me esquivarei de citar nomes. Mas a verdadeira literatura é maior que isso e que todos esses juntos.


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Solto (aprendendo a ler)

Circo - Foto: Moskow

Sábado, Mendes chegou à drogaria atrasado.

– Agora eu me chamo Adriano – disse, afoito.

Seu Wilson fez que não ouviu:

– Mendes, me ajude com essas caixas.
– Meu nome é Adriano.
– Outro dia era Pedro, hoje é Adriano. E amanhã?
– Agora é para valer: Adriano.
– Que história é essa, rapaz? Mais de quarenta anos e ainda não assumiu o próprio nome?
– Assumi hoje: Adriano.

Seu Wilson rendeu-se.

– Então tá, Adriano. Me ajude com essas caixas.

A razão da mudança fora a visita à velhota da vila Efigênia. Seria uma entrega a domicílio, como outras. Mas deu-se o inesperado, um encontro memorável, uma longa jornada feita sem que Mendes precisasse deixar o sofá onde era mimado com chá, biscoitos – e com a fé que nenhuma igreja lhe incutira.

Trecho do romance ‘Propósitos do Acaso’, de Ronaldo Wrobel (Ed. Nova Fronteira – 1998)

* * *

Na última vez que troquei meu nome
Por um outro nome que não lembro mais
Tinha certeza: ninguém poderia me encontrar
Mas que ironia minha própria vida
Me trouxe de volta ao ponto de partida
Como se eu nunca tivesse saído de lá


Trecho da música ‘Um móbile no furacão’, de Moska (EMI – 1999)