Como é bom poder tocar um instrumento I

No início do segundo semestre de 2010 jean mafra comentou pela primeira vez algo aqui neste Café Escuro. O comentário era elogioso e estava postado em um lugar incomum: no link ‘Bússola’ (logo acima). Como ele seguia fazendo alguns questionamentos, optei por não autorizar a publicação e continuar o papo por e-mail. Lá, foi minha vez de questionar o que o fez aportar por aqui.

cheguei muito por acaso: estava procurando informações sobre o disco o ano 1 de jorge aílton e aí acabei lendo um texto sobre outro álbum – popsambalanço, do qual sou grande fã!. mas ainda achei cazuza e ezequiel neves e (a melhor de todas) rita lee por lá… por essas e outras fiquei cerca de uma hora da tarde de hoje debruçado sobre teus textos… foi assim

Músico, Mafra acabou por enviar as informações sobre seu último trabalho: rosebud ep (disponível para ser baixado aqui). Como eu vinha escrevendo com uma certa regularidade sobre coisas ouvidas recentemente, a ideia era que, se possível, fizesse o mesmo sobre rosebud ep.

As coisas até poderiam, mas não são simples. Acabei por me enfurnar em um trabalho insano que me tirou a vida social e comprometeu a atualização do blog. Até o início de outubro. Foi quando voltamos a trocar ideias por e-mails, sempre com a música norteando a ‘conversa’.

Ouvi várias vezes rosebud ep, principalmente a faixa título, e cada vez me remetia a algo diferente: o álbum ‘Sem Nostalgia’, de Lucas Santanna; e as canções ‘Polaroides’, de Celso Fonseca; e ‘Felicidade’, de Marcelo Jeneci (com Laura Lavieri), entre outras. Mas não avancei no que seria uma crítica do disco.

Talvez rosebud (que tem a participação de lígia estriga) seja uma excessão, considerando a tendência eletrônica de Mafra, que acumula as funções de compositor, cantor, produtor musical e DJ. Esse texto (maneira encontrada de burlar minha incapacidade de analisar com coerência o que ouvi) vem com atraso, mas a tempo do lançamento do video clip de rosebud, nesta sexta-feira, 5, dentro do projeto Sexta Sim, na Célula, em Florianópolis.

O bate papo com Mafra abaixo (dividido em duas partes) girou em torno do ‘fazer música’ no Brasil hoje, canais de comunicação com o público, ‘arte periférica’ e afins. Sem choramingar por perdas e danos, ele analisa os caminhos percorridos por quem se propõe viver de  música independente no país.

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O Sul, acho que até mais que o Nordeste, tem uma peculiaridade bem ‘autônoma’ em relação a produção de arte popular em geral – o que inclui música, cinema, literatura, etc… e não estou falando nenhuma novidade. Considerando isso, como você se sente produzindo arte ‘fora do eixo central’ da industria musical (se é que hoje podemos ainda acreditar em ‘eixo central’)? Considere aí que o parâmetro de quem formula uma pergunta como essa é o de quem está habituado a se sentir ‘supostamente’ inserido neste centro, ou no que acredita ser o ‘centro’.

Do começo: sim, ainda acredito no eixo. O eixo central da indústria cultural brasileira, que a despeito da força e da independencia dos mercados reginais do pará, do rio grande do sul, da bahia, ainda é a mais importante vitrine da música produzida em nosso país.

Me sinto desconfortável em relação a isso. Afinal, mesmo com internet e com contatos em porto alegre, belém efortaleza, ainda sinto que um artista independente como eu, que vive de sua própria música, mas sem suporte industrial, tem dificuldades – naturais, talvez – de se locomover e – nada naturais, certamente – de aparecer. Explico: é curioso como um músicos fora do eixo rio-são paulo sem acessor de imprensa costuma ser (e note que estou generalizando) veementemente ignorado dentro e fora do centro do país. Para alguns veículos de floripa, um artista só ganha espaço depois de sair no blog cool do jornalista paulista que dita o que é ou não hype. Neste sentido, folha de são paulo continua com poderes – mas não os mesmos, felizmente. E esse exemplo procede com artistas de curitiba e, menos, claro, de porto alegre. Ou seja, esta “autonomia” sulista não é de todo real. É uma impressão. Agora, claro, existe um poderoso mercado musical a ser explorado entre os três estados do sul – tanto é que muitos artistas constroem trabalhos e públicos fora do eixo (e de costas para ele). Exemplo? dazaranhanei lisboablack maria – para ficar com um de cada estado). Eu mesmo, fui vocalista e compositor (por sete anos) de uma banda que circulou regularmente por rio grande do sulsanta catarinaparaná fazendo música autoral (a samambaia sound club).

Fui um dos fundadores de um evento-coletivo chamado clube da luta (por onde passaram mais de 20 bandas e que circulou por todas capitais do sul – mais algumas cidades do interior, além de riosão paulo), pois este projeto, que movimentou (muito) público e mídia em santa catarina, nunca recebeu uma única notinha em algum veículo do ramo no “eixo” (e não foi por falta de aviso nosso)…

Acho que a linha de raciocínio d’um circuito fora do eixo é interessantíssima, mas não contempla a maior parte da cadeia produtiva da música brasileira. ainda será preciso bastante trabalho para construirmos novos canais que independam das grandes corporações midiáticas do centro do país (que se não ditam o que se deve ouvir, ao menos dão o aval para que o que já é ouvido ecoe para além de suas regiões).

Você acha que o tipo de música que produz é algo que ‘atinge’ a que público? Vou reformular, porque acho que não ficou claro: você acredita que a tua música ‘interessa’ aos teus iguais, a tua classe (quando digo classe, digo um tipo de público que tem o gosto parecido com o teu) ou é algo que rompe com isso?

Não, não sei se atinjo meus “iguais”. Essa não é uma preocupação minha, na verdade. Mas tenho a impressão que, se tivesse acesso a um número maior de ouvintes, aqueles com informações parecidas com as minhas (num sentido BEM abstrato, claro), se identificariam com a música que faço. É isso que vejo em minhas apresentações, ou o que sinto dos comentários que recebo (de gentes de lugares como curitiba, riosão paulo).

Que referências você percebe mais nitidamente presentes nas tuas canções? Você acredita que quem ouve você identifica com clareza esses códigos?

As referências que sinto mais presentes em minhas canções são, e isso não é frase de efeito, joão gilberto, pet shop boysmachado de assis. Talvez, o que os liga ao que faço seja um certo procedimento meta-linguístico, um tipo de ironia, de distanciamento. Penso. Mas, além destes artistas, confesso enxergar no que faço, um pouco de caetano velosovitor ramil e portishead, além de literatura (sou contador de histórias e, as vezes, apresento algumas ficções entre minhas músicas). uma parte dos que conhecem meu trabalho percebem e citam algumas destas referencias (exceto machado de assisportishead). Mas essa não é uma questão com a qual já tenha me preocupado… talvez agora…

Acredite você ou não, uma das coisas que têm tocado aqui com relativa freqüência é ‘Mysterions’ e ‘Gloria Box’ do álbum Dummy, do Portishead. E, curiosamente, a primeira coisa a qual me remeteu ‘rosebud’ foi ao álbum ‘Sem nostalgia’, de Lucas Santanna – que talvez seja algo também entre João Gilberto e Portishead. Mas enfim…

Gosto muito de sem nostalgia, e até disse isso aqui.  (ou aqui – e neste caso é legal saber que você colocou meu trabalho ao lado do de santtana, já que fiz uma pequena reflexão a respeito de um procedimento adotado por ele…)

Leia mais:

Como é bom poder tocar um instrumento II

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Como é bom poder tocar um instrumento II

Abaixo, a segunda parte do bate papo com o músico jean mafra, sobre a trajetória dos artistas independentes (e ‘fora do eixo’) no país, a internet no processo de divulgação e possibilidades surgidas da troca de experiências.

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Fiquei pensando se não é uma questão cultural mesmo. O que leva o ‘blogueiro cool’ daquele jornal a olhar pra cá e não pra lá? Falar desse e não daquele artista? A questão do gosto é muito subjetiva, acho que já falei disso no Café Escuro… Mas enfim, o periférico Brasil e os brasileiros teria preconceito com suas próprias periferias? Por que não ouvimos os latinos, por exemplo? Essa é uma questão que me intriga. Quando perguntei sobre ‘tocar para seus iguais’ estava também querendo confirmar a tese de que o parâmetro é o mesmo em diversas regiões (em maior ou menor escala). Em geral, fica tudo limitado ao fato de conhecer as pessoas certas e que apontam (os mesmos) caminhos. O resto é comodismo e falta de interesse mesmo. Penso eu, num reducionismo absurdo.

Quanto ao fato do “blogueiro cool” olhar para isso ao invés de lançar seu olhar sobre aquilo, penso que esta não é uma questão apenas cultural, mas também política (e uma coisa se soma a outra). parte da imprensa do brasil, e em santa catarina a coisa não é diferente, prefere olhar para o que o primeiro mundo vende como bom. seguir este modelo é mais confortável. nesse caso minha fala casa perfeitamente com a sua colocação de que “não ouvimos os latinos“… é complicado abordar esta questão, pois ela é bastante complexa, mas não me furto de dizer que o grande problema do pop brasileiro é que o que comumente chamamos pop brasileiro é a menor parcela do que pode ser chamado de pop do brasil –  quando digo nós, quero dizer, nós que temos acesso a informação e que somos letrados o suficiente para nos consideramos acima da média da população deste país. um livro mudou o modo como ouço música: eu não sou cachorro, não do paulo cesar de araújo… Ele lança luz sobre esta e outras questões, e por isso penso que há, sim, uma parcela enorme do brasil que tem vergonha da sua periferia, ou de si. claro, pedro alexandre sancheshermano vianna já disseram isso com mais propriedade que eu.

Mas a Internet, que deveria ser uma maneira melhor de divulgar o trabalho de ‘artistas independentes’, tem ajudado, no seu caso?

Bom, mas a internet, por mais clichê que seja dizer, possibilita que um artista independente de fora e de dentro do centro do país possa construir novos canais de comunicação com as mais diferentes pessoas. eu, por exemplo, tenho “fãs” em lugares em que nunca estive (e no qual minha música só chegou por causa da rede) – gente que manda mensagem comentando música, que diz que quer ver o show, essas coias… obviamente, este espaço – internet – não é tão plural quanto tentam nos vender.

Agora, uma coisa que aprendi com o pessoal do teatro mágico (sou amigo do fernando e do fabrício anitelli – por causa do mpbmúsica pra baixar, do qual fazemos parte), que o mais inteligente a se fazer com uma ferramenta como a internet é estabelecer um canal de comunicação com um público, sem mediador (parece óbvio, mas, de modo geral, muitos artistas se preocupam mais em enviar material para jornalistas, blogueiros, sites (da oi, do faustão, etc) do que em apresentar seu trabalho para uma menina que conheceram através do facebook).

O fato de também ser DJ lhe abre outros caminhos?

Ser dj é um desdobramento natural do que faço. Mas é mais importante para mim financeiramente que “artisticamente”, pois as vezes essa minha função confunde um pouco as pessoas… Por outro lado, gente como lucas santtana, por exemplo, também se apresenta como dj para facilitar suas idas a lugares em que não poderiam visitar com suas bandas (já viajei assim também).

Você diz que “ainda será preciso bastante trabalho para construirmos novos canais que independam das grandes corporações midiáticas do centro do país”. Que pontos não foram postos em prática até aqui que poderiam mudar esse cenário?

Por fim, um dos pontos que não foram colocados em prática para se construir novas possibilidades neste cenário musical brasileiro que se (re)desenha, é o da criação de um circuito musical que efetive uma comunicação entre artistas e produtores musicais de diferentes regiões brasileiras. num esquema parecido ao do fora do eixo, mas sem o viés político ideológico e que abrace diferentes formas musicais, não apenas o rock. Fui convidado para me apresentar em um festival de teatro, dança, música, no crato (no vale do caririceará), mas como não havia grana suficiente para pagar minha ida com uma banda, acabei por fazer um show com músicos de lá. Foi ótimo, mas se tivesse o mesmo dinheiro do cachê, passagem aérea e hotel e pudesse somar a ele a grana de umas duas apresentações em pernambuco, outra na bahia, duas em minas e uma em são paulo, meu show no cariri seria MUITO MELHOR. E eu faria uma tour, não uma apresentação apenas. Qual é a dificuldade de isso acontecer? É que ainda não temos canais de comunicação entre pequenos produtores e casas e artistas. isso é difícil de ser feito?!? Não. Aqui em florianópolis temos casas para 100, 150 pessoas que poderiam receber artistas nesse esquema. Mas isso ainda não acontece para além de algumas regiões. mundo livre s.a. já fez curitiba-joinville-blumenau-floripa-porto alegre graças ao interesse de um produtor daqui, mas isso se deu porque eles já eram uma banda conhecida no centro do país… O que falta para que isso role com quem está longe da mtv? Comunicação. Note: não estou propondo a invenção da roda, mas algo óbvio e relativamente fácil de ser construido.

Outros pontos que ajudarão nesta luta estão sendo construidos por artistas e produtores de fora do centro do país já há alguns anos. Pelo mpb, posso dizer que se as mudanças na lei de direito autoral do brasil que propomos para o minc, e que passou por consulta pública recentemente, seguir pelo congresso sem muitas alterações que a transformem em algum frankestein, poderemos ter novos espaços em rádios, sites, tvs para quem sempre foi ignorado por não estar em uma major ou ter aqueles (criminosos) “investimentos em publicidade”… (a diminuição do poder do ecad e o fortalecimento de rádios comunitárias também contribuirão neste sentido). Mas não apenas o mpb se mobiliza. Há o circuito fora do eixo, a abrafin e a rede música brasil que vem, juntos e independentemente construindo novas possibilidades. (Há hoje em minas uma cena fortíssima, graças ao empenho dos músicos de lá em se associarem… você conhece o israel do vale?)

Quando li teu segundo e-mail, fui procurar uma entrevista que o André Mansur, do Sedativo, tinha me mandado há algumas semanas, ou meses. Enfim, o papo era com o Rômulo Fróes aqui e tem pontos em comum com o que você diz.

Como o papo está bom, vou me atrever a comentar algumas das tuas novas colacações. Estou indo ler a entrevista do rômulo fróes, mas gostaria de dizer que também noto que alguns músicos independentes tem o hábito de se fecharem em si, de se bastarem, como se o que interessasse a eles fosse fazer música apenas para entendidos (como no encarte de araçá azul). Mas isso pode tanto ser ligado aquilo que conversavamos nas mensagens anteriores, do fato de alguns setores da música e do jornalismo musical ignorarem propositalmente uma comunicação mais ampla (ou a parcela mais pop do pop do brasil), quanto a questão de que o mundo em que a gente vive e no qual fazemos nosso trabalho, é tão seguimentado que dificulta a comunicação para além de seu círculo… Mas mais que isso: noto que de modo geral, para uma parcela dos quem vivem neste meio, o sucesso para além dele (o meio) é algo condenável… sei lá, é uma impressão. Também sinto que existe uma parte dos artistas da minha geração que só não alcançam o grande público porque não tem canais para se comunicar com ele – não é este o caso de max de castrocurumin?!? (que poderiam tranquilamente tocar em qualquer rádio do país?)

Tô falando isso, pq isso também me fez pensar noutra coisa: salvo casos muito excepcionais, a impressão que eu tenho é que os artistas da música deixaram, talvez da década de 70 ou 80 pra cá, de dialogar com outras formas de expressão artísticas. Eu não sei se estou falando alguma bobagem, mas acontece que não percebo conexões entre música e cinema, artes plásticas, teatro, por exemplo. Parece que antes, em um momento ou outro, tudo se confundia. Essa mistura era mais freqüente ao menos.

Agora, quanto a outra fala do rômulo fróes, sinto que hoje temos alguns artistas que transitam por áreas além música (lirinhathiago pethitkarina bhur, por exemplo). Eu mesmo, além de ter cursado letras e ter a literatura como um norte para o meu trabalho, sou contador de histórias e também trabalho com áudio visual (em duas semanas lanço o clipe de rosebud – que tem direção minha).

Você, por exemplo, citou o Machado de Assis como referência do teu trabalho. Mas talvez isso seja muito mais uma construção de uma memória remota (mas constante), do que algo que você percebe como urgente, presente, e que sente a necessidade de chamar pra si, na sua música, entendeu? Antes tínhamos lá os Rolling Stones e o Velvet Underground namorando a Pop Art de Andy Waroll; Chico Buarque com João Cabral; os tropicalistas com Oiticica e Lina Bo Bardi, e muitos outros exemplos. E aí você pode levar essa dificuldade ou incapacidade para grupos, gêneros, regiões… e aí teremos o retrato da música brasileira hoje. Milhares de artistas falando só pra si, e satisfeitos com isso. O que houve com a ambição? O que um músico independente ambiciona hoje?

Acho que você fez uma pergunta maravilhosa no fim do seu imeiu, “o que um músico independente ambiciona hoje?”. As respostas são várias, mas lamentavelmente, sei que muitos responderiam que gostariam de deixar de ser independentes… mas esta é uma pergunta para um ou dois artigos…

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