Mandrake

Trecho da matéria de Roberta Pennafort para O Estado de S.Paulo

Quando vestiu pela primeira vez o terno de Mandrake, o advogado criminalista sedutor, obsessivo e astuto saído dos livros de Rubem Fonseca, Marcos Palmeira ganhou fios brancos na sala de maquiagem. Sete anos, duas novelas, uma peça, seis filmes e uma filha depois, o ator volta a Mandrake já mais grisalho, ainda que não aparente ter 48 anos.

De janeiro e até março – inclusive no carnaval -, sob o sol cruel de verão e a direção de Zé Henrique Fonseca, filho do escritor e idealizador do projeto, ele grava Mandrake, o telefilme, que será exibido em duas partes na HBO, emissora que produziu os treze episódios da série em 2005 e em 2007. A estreia deve ser no segundo semestre.

A equipe é a mesma, a qualidade da imagem é de cinema (era película, agora é digital). Mandrake é que aparece com novos conflitos, reflexivo, com a autoestima e a credibilidade em baixa – e um caso nada fácil para frente, que envolve adultério e assassinatos. As locações são carioquíssimas, como ele: a praia, o centro antigo, a região dos inferninhos de Copacabana.

Foi na segunda-feira, dia em que os termômetros chegaram a apontar 41 graus, que o Estado acompanhou a gravação. O cenário era a mansão na Barra da Tijuca escolhida para ser a casa de João Paulo Birman, o ricaço vivido por Carlos Alberto Riccelli que é o cliente da vez. É Mandrake mais uma vez nas altas rodas, assim como na Avenida Prado Junior das prostitutas e dos cafetões.

Zé Henrique, que sempre teve o apoio do pai na empreitada (“ele assiste, comenta, acha que o Marquinhos faz muito bem e não reclama de nada”), escreveu os primeiros episódios com base nas peripécias de Mandrake em livros como Lúcia McCartney (1967) e A Grande Arte (1983), e em Mandrake, a Bíblia e a Bengala (2005). Depois passou a criar histórias originais.

A do filme foi encomendada há seis meses pela HBO, que agora banca a produção (em parceria com a produtora de Zé, a Goritzia), tamanho foi o sucesso da série, que concorreu duas vezes ao Emmy. “Eu estava doido para que essa volta acontecesse. Marquinhos faz o personagem até dormindo, já tem o tom”, diz o diretor, que vislumbra a retomada da série.

A HBO não confirma. Em janeiro, foram disponibilizadas para locação as duas temporadas; em junho, os DVDs chegam às lojas para venda.

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(des)conto

– Sabe aquele escritor que criou aquele personagem?
– Sei.
– Então… sabe aquela escritora?
– Sei, sei.
– E também tem aquele que começou escrever agora, né?
– É, tem sim.
– Então… se todo mundo bebe naquela fonte, por que eu que sou filho, não posso?

O diálogo acima, em tom de deboche, foi travado com o escritor e fotógrafo Zeca Fonseca, em meados dos anos 2000. Ele falava sobre as possíveis comparações de seu primeiro livro, na época ainda em produção, com o trabalho de seu pai, Rubem Fonseca – um dos maiores contistas do país.

Pois é exatamente nesse gênero literário (contos) que Zeca estreia agora com ‘Artérias’, que será lançado nesta quarta-feira, 23 de novembro, 19h, na Livraria Argumento, no Leblon.

Já havia falado de Zeca Fonseca nos posts ‘Não sou mau com as mulheres’ e ‘9 milímetros’. ‘Artérias’ é o terceiro livro de Zeca, lançado após os romances ‘O adorador’ (2007) e ‘Pandemônium’ (2010).

‘O adorador’ deve ganhar uma adaptação para o cinema, dirigida pelo irmão de Zeca, José Henrique Fonseca, que acaba de filmar ‘Heleno’, sobre a vida o jogador de futebol Heleno de Freitas, vido nas telas por Rodrigo Santoro.

Eu trabalhava em um jornal popular…

Corações solitários
Rubem Fonseca

Eu trabalhava em um jornal popular como repórter de polícia. Há muito tempo não acontecia na cidade um crime interessante envolvendo uma rica e linda jovem da sociedade, mortes, desaparecimentos, corrupção, mentiras, sexo, ambição, dinheiro, violência, escândalo.

Crime assim nem em Roma, Paris, Nova York, dizia o editor do jornal, estamos numa fase ruim. Mas daqui a pouco isso vira. A coisa é cíclica, quando a gente menos espera estoura um daqueles escândalos que dá matéria para um ano. Está tudo podre, no ponto, é só esperar. Antes de estourar me mandaram embora.

– Só tem pequeno comerciante matando sócio, pequeno bandido matando pequeno comerciante, polícia matando pequeno bandido. Coisas pequenas, eu disse a Oswaldo Peçanha, editor-chefe e proprietário do jornal Mulher.
– Tem também meningite, esquistossomose, doença de Chagas, disse Peçanha.
– Mas fora da minha área, eu disse.
– Você já leu Mulher?, Peçanha perguntou.

Admiti que não. Gosto mais de ler livros. Peçanha tirou uma caixa de charutos de dentro da gaveta e ofereceu um. Acendemos os charutos. Em pouco tempo o ambiente ficou irrespirável. Os charutos eram ordinários, estávamos no verão, de janelas fechadas e o aparelho de ar condicionado não funcionava bem.

– Mulher não é uma dessas publicações coloridas para burguesas que fazem regime. É feita para a mulher da Classe C, que come arroz com feijão e se ficar gorda azar o dela. Dá uma olhada.

Peçanha jogou na minha frente um exemplar do jornal. Formato de tablóide, manchetes em azul, algumas fotos fora de foco. Fotonovela, horóscopo, entrevistas com artistas da televisão, corte-e-costura.

– Você acha que poderia fazer a seção De Mulher para Mulher, o nosso consultório sentimental? O cara que fazia se despediu.

De Mulher para Mulher era assinado por uma tal Elisa Gabriela. Querida Elisa Gabriela, meu marido chega toda noite embriagado e…

– Acho que posso, eu disse.
– Ótimo. Começa hoje. Que nome você quer usar?

Pensei um pouco.

– Nathanael Lessa.
– Nathanael Lessa?, disse Peçanha surpreendido e chocado, como se eu tivesse dito um nome feio, ou ofendido a mãe dele.
– O que é que tem? É um nome como outro qualquer. E estou prestando duas homenagens. Peçanha deu baforadas no charuto, irritado.
– Primeiro, não é um nome como outro qualquer. Segundo, não é nome da Classe C. Aqui só usamos nomes do agrado da Classe C, nomes bonitos. Terceiro, o jornal só homenageia quem eu quero e eu não conheço nenhum Nathanael Lessa e finalmente – a irritação de Peçanha aumentara gradativamente, como se ele estivesse tirando um certo proveito dela – aqui, ninguém, nem mesmo eu, usa pseudônimo masculino. Meu nome é Maria de Lourdes!

Dei outra olhada no jornal, inclusive no expediente. Só tinha nome de mulher.

– Você não acha que um nome masculino dá mais credibilidade às respostas? Pai, marido, médico, sacerdote, patrão – só tem homem dizendo o que elas devem fazer. Nathanael Lessa pega melhor do que Elisa Gabriela.
– É isso mesmo que eu não quero. Aqui elas se sentem donas do seu nariz, confiam na gente, como se fôssemos todas comadres. Estou há vinte e cinco anos nesse negócio. Não me venha com teorias não comprovadas. Mulher está revolucionando a imprensa brasileira, é um jornal diferente que não dá notícias velhas da televisão de ontem.

Ele estava tão irritado que não perguntei ao que Mulher se propunha. Cedo ou tarde ele me diria. Eu apenas queria o emprego.

Meu primo, Machado Figueiredo, que também tem vinte e cinco anos de experiência, no Banco do Brasil, costuma dizer que está sempre aberto a teorias não comprovadas. Eu sabia que Mulher devia dinheiro ao banco. E em cima da mesa de Peçanha estava uma carta de recomendação de meu primo.

Ao ouvir o nome de meu primo, Peçanha empalideceu. Deu uma mordida no charuto para se controlar, depois fechou a boca, parecendo que ia assobiar, e os seus lábios gordos tremeram como se ele tivesse um grão de pimenta na língua. Em seguida arreganhou a boca e bateu com a unha do polegar nos dentes sujos de nicotina, enquanto me olhava de maneira que ele devia considerar cheia de significações.

– Eu podia acrescentar dr. ao meu nome. Dr. Nathanael Lessa.
– Raios! Está bem, está bem, rosnou Peçanha entre dentes, você começa hoje.

Foi assim que passei a fazer parte da equipe de Mulher. Minha mesa ficava perto da mesa de Sandra Marina, que assinava o horóscopo. Sandra era também conhecida como Marlene Kátia, ao fazer entrevistas. Era um rapaz pálido, de longos e ralos bigodes, também conhecido como João Albergaria Duval. Saíra há pouco tempo da escola de comunicação e vivia se lamentando, por que não estudei odontologia, por quê?

Perguntei a ele se alguém trazia as cartas dos leitores na minha mesa. Ele me disse para falar com Jacqueline, na expedição. Jacqueline era um crioulo grande de dentes muito brancos.

– Pega mal eu ser o único aqui dentro que não tem nome de mulher, vão pensar que eu sou bicha. As cartas? Não tem carta nenhuma. Você acha que mulher da Classe C escreve cartas? A Elisa inventava todas.

Prezado dr. Nathanael Lessa. Eu arranjei uma bolsa de estudos para minha filha de dez anos, numa escola grã-fina da zona sul. Todas as coleguinhas dela vão ao cabeleireiro, pelo menos uma vez por semana. Nós não temos dinheiro para isso, meu marido é motorista de ônibus da linha Jacaré-Caju, mas disse que vai trabalhar extraordinário para mandar Tânia Sandra, a nossa filhinha, ao cabeleireiro. O sr. não acha que os filhos merecem todos os sacrifícios? Mãe Dedicada. Vila Kennedy.

Resposta: Lave a cabeça da sua filhinha com sabão de coco e coloque papelotes nela. Fica igual ao cabeleireiro. De qualquer maneira, sua filha não nasceu para ser bonequinha. Aliás, nem a filha de ninguém. Pega o dinheiro do extraordinário e compra outra coisa mais útil. Comida, por exemplo.

Prezado dr. Nathanael Lessa. Sou baixinha, gordinha e tímida. Sempre que vou na feira, no armazém, na quitanda, eles me passam para trás. Me enganam no peso, no troco, o feijão está bichado, o fubá bolorento, coisas assim. Eu costumava sofrer muito mas agora estou resignada. Deus está de olho neles e no juízo final eles vão pagar. Doméstica Resignada. Penha.

Resposta: Deus não está de olho em ninguém. Quem tem que se defender é você mesma. Sugiro que você grite, ponha a boca no mundo, faça escândalo. Você não tem nenhum parente na polícia? Bandido também serve. Te vira, gordinha.

Prezado dr. Nathanael Lessa. Tenho vinte e cinco anos, sou datilógrafa e virgem. Encontrei esse rapaz que disse que me ama muito. Ele trabalha no Ministério dos Transportes e disse que quer casar comigo, mas que primeiro quer experimentar. O que achas? Virgem Louca, Parada de Lucas.

Resposta: Olha aqui, Virgem Louca, pergunta pro cara o que ele vai fazer se não gostar da experiência. Se ele disser que te chuta, dá pra ele, pois é um homem sincero. Tu não és groselha nem ensopadinho de jiló para ser provada, mas homens sinceros existem poucos, vale a pena tentar. Fé e pé na tábua.

Fui almoçar. Na volta Peçanha mandou me chamar. Estava com a minha matéria na mão.

– Tem qualquer coisa aqui que eu não gosto, ele disse.
– O quê?, perguntei.
– Ah! Meus Deus! a idéia que as pessoas fazem da Classe C, exclamou Peçanha, balançando a cabeça pensativamente, enquanto olhava para o teto e fazia a boca de assobio. Quem gosta de ser tratada a palavrões e pontapés são as mulheres da Classe A. Lembre-se daquele lorde inglês que disse que o seu sucesso com as mulheres era porque ele tratava as ladies como putas e as putas como ladies.
– Está bem. Então como devo tratar as nossas leitoras?
– Não me venha com dialéticas. Não quero que as trate como putas. Esquece o lorde inglês. Ponha alegria, esperança, tranqüilidade e segurança nas cartas, é isso que eu quero.

Dr. Nathanael Lessa. Meu marido morreu e me deixou uma pensão muito pequena, mas o que me preocupa é estar só, aos cinqüenta e cinco anos de idade. Pobre, feia, velha e morando longe, tenho medo do que me espera. Solitária de Santa Cruz.

Resposta: Grave isto em seu coração, Solitária de Santa Cruz: nem dinheiro, nem beleza, nem mocidade, nem um bom endereço dão felicidade. Quantos jovens ricos e belos se matam ou se perdem nos horrores do vício? A felicidade está dentro de nós, em nossos corações. Se formos justos e bons, encontraremos a felicidade. Seja boa, seja justa, ame o próximo como a si mesma, sorria para o tesoureiro do INPS, quando for receber a sua pensão.

No dia seguinte Peçanha me chamou e perguntou se eu podia também escrever a fotonovela. Nós produzimos as nossas próprias fotonovelas, não é fumeti italiano traduzido. Escolha um nome.

Escolhi Clarice Simone, eram outras duas homenagens, mas não disse isso ao Peçanha. O fotógrafo das novelas veio falar comigo.

– Meu nome é Mônica Tutsi ele disse, mas pode me chamar de Agnaldo. Estás com a papa pronta?

Papa era a novela. Expliquei para ele que acabara de receber a incumbência de Peçanha e que precisava pelo menos dois dias para escrever.

– Dias? ha, ha, gargalhou ele fazendo o som de um cachorro grande, rouco e domesticado, latindo pro dono.
– Qual é a graça?, perguntei.
– Norma Virgínia escrevia a novela em quinze minutos. Ele tinha uma fórmula.
– Eu também tenho uma fórmula. Dá uma volta e aparece daqui a quinze minutos que você terá: sua novela pronta.

Esse fotógrafo idiota pensava de mim o quê? Só porque eu tinha sido repórter de polícia isso não significava que eu era um bestalhão. Se Norma Virgínia, ou lá qual fosse o nome dele, escrevia uma novela em quinze minutos, eu também escreveria. Afinal li todos os trágicos gregos, os ibsens, os o’neals, e beckets, os checovs, os shakepeares, as four hundred best television plays. Era só chupar uma idéia aqui, outra ali, e pronto.

Um menino rico é roubado pelos ciganos e dado por morto. O menino cresce pensando que é um cigano verdadeiro. Um dia ele encontra uma moça riquíssima e os dois se apaixonam. Ela mora numa rica mansão e tem muitos automóveis. O ciganinho mora numa carroça. As duas famílias não querem que eles se casem. Surgem conflitos. Os milionários mandam a polícia prender os ciganos. Um dos ciganos é morto pela polícia. Um primo rico da moça é assassinado pelos ciganos. Mas o amor dos dois jovens apaixonados é maior do que todas essas vicissitudes. Eles resolvem fugir, romper com suas famílias. Na fuga encontram um monge piedoso e sábio que sacramenta a união dos dois em um antigo, pitoresco e romântico convento no melo de um bosque florido. Os dois jovens se retiram para a câmara nupcial. Eles são lindos, esbeltos, louros de olhos azuis. Tiram a roupa. Oh, diz a moça, que cordão de ouro com medalha cravejada de brilhantes é esse que tens no peito? Ela tem uma medalha igual! Eles são irmãos! Tu és o meu irmão desaparecido! grita a moça. Os dois se abraçam.

(Atenção, Mônica Tutsi: que tal um final ambíguo? fazendo aparecer na cara dos dois um êxtase não-fraternal, hein? Posso também mudar o final e torná-lo mais sofocleano: os dois só descobrem que são irmãos depois do fato consumado; desesperada a moça pula da janela do convento se arrebentando lá em baixo.)

– Gostei da tua história, disse Mônica Tutsi.
– Uma pitada de Romeu e Julieta, uma colherzinha de Édipo Rei, eu disse modestamente.
– Mas não dá para eu fotografar, garoto. Tenho que fazer tudo em duas horas. Onde vou arranjar a mansão rica? Os automóveis? O convento pitoresco? O bosque florido?
– Esse problema é seu.
– Onde vou arranjar, continuou Mônica Tutsi, como se não tivesse me ouvido, os dois jovens louros esbeltos de olhos azuis? Nossos artistas são todos meio para o mulato. Onde vou arranjar a carroça? Faz outra, garoto. Volto daqui a quinze minutos. E o que é sofocleano?

Roberto e Betty estão noivos e vão se casar. Roberto, que é muito trabalhador, economizou dinheiro para comprar um apartamento e mobiliá-lo, com televisão a cores, aparelho de som, geladeira, máquina de lavar roupa, enceradeira, liquidificador, batedeira, máquina de lavar pratos, torradeira, ferro elétrico e secador de cabelos. Betty também trabalha.

Ambos são castos. O casamento é marcado. Um amigo de Roberto, Tiago, pergunta a ele, vais casar virgem? Precisas ser iniciado nos mistérios do sexo. Tiago, então, leva Roberto na casa da Superputa Betatron. (Atenção, Mônica Tutsi, o nome é uma pitada de ficção científica). Quando Roberto chega lá verifica que a Superputa é Betty, sua noivinha. Oh! céus! surpresa terrível! Alguém dirá, talvez um porteiro, crescer é sofrer! Fim da novela.

– Uma palavra vale mil fotografias, disse Mônica Tutsi, estou sempre na banda podre. Daqui a pouco eu volto.

Dr. Nathanael. Gosto de cozinhar. Gosto muito também de bordar e fazer crochê. E acima de tudo gosto de colocar um vestido longo de baile, pintar os meus lábios de batom carmesim, botar bastante ruge, passar rímel nos olhos. Ah, que sensação! É pena que eu tenha que ficar trancado no meu quarto. Ninguém sabe que eu gosto de fazer essas coisas. Estou errado? Pedro Redgrave. Tijuca.

Resposta: Errado por quê? Você está fazendo mal a alguém com isso? Já tive outro consulente que, como você, também gostava de se vestir de mulher. Ele levava uma vida normal, produtiva e útil à sociedade, tanto que chegou a ser operário padrão. Vista seus vestidos longos, pinte sua boca de escarlate, ponha cor na sua vida.

– Todas as cartas devem ser de mulheres, advertiu Peçanha.
– Mas essa é verdadeira, eu disse.
– Não acredito.
– Entreguei a carta a Peçanha. Ele a olhou fazendo a cara de um tira examinando uma nota grosseiramente falsificada.
– Você acha que é uma brincadeira?, perguntou Peçanha.
– Pode ser, eu disse. E pode não ser.

Peçanha fez a sua cara reflexiva. Depois:

– Acrescente na sua carta uma frase animadora, como, por exemplo, escreva sempre. Sentei na máquina:

Escreva sempre, Pedro, sei que esse não é o seu nome, mas não importa, escreva sempre, conte comigo. Nathanael Lessa.
Porra, disse Mônica Tutsi, fui fazer o teu dramalhão e me disseram que é chupado de um filme italiano.

Canalhas, súcia de babões, só porque fui repórter de polícia estão me chamando de plagiário.

– Calma, Virgínia.
– Virgínia? Meu nome é Clarice Simone, eu disse. Que coisa mais idiota é essa de pensar que só as noivas dos italianos são putas? Pois olha, eu já conheci uma noiva daquelas sérias mesmo, era até freira de caridade, e foram ver, também era puta.
– Tá bem, garoto, vou fotografar a história. A Betatron pode ser mulata? O que é Betatron?
– Tem que ser ruiva, sardenta. Betatron é um aparelho para a produção de elétrons, dotado de grande potencial energético e alta velocidade, impulsionado pela ação de um campo magnético que varia rapidamente, eu disse.
– Porra! Isso é que é nome de puta, disse Mônica Tutsi, com admiração, retirando-se.

Compreensivo Nathanael Lessa. Tenho usado gloriosamente os meus vestidos longos. E minha boca tem sido vermelha como o sangue de um tigre e o romper da aurora. Estou pensando em colocar um vestido de cetim e ir ao Teatro Municipal. O que achas? E agora vou lhe contar uma grande e maravilhosa confidência, mas quero que faças o maior segredo de minha confissão. Juras? Ah, não sei se digo ou se não digo. Toda a minha vida tenho sofrido as maiores desilusões por acreditar nos outros. Sou basicamente uma pessoa que não perdeu a sua inocência. A perfídia, a boçalidade, o despudor, a calhordice me deixam muito chocada. Oh, como gostaria de viver isolada num mundo utópico feito de amor e bondade. Meu sensível Nathanael, deixe-me pensar. Dê-me tempo. Na próxima carta contarei mais, talvez tudo. Pedro Redgrave.

Resposta: Pedro. Aguardo tua carta, com os teus segredos, que prometo guardar nos arcanos invioláveis da minha recôndita consciência. Continue assim, enfrentando altaneira a inveja e a insidiosa aleivosia dos pobres de espírito. Adorne o seu corpo sequioso de sensualidade, exercendo os desafios de sua mente corajosa.

Peçanha perguntou:

– Estas cartas são verdadeiras também?
– As de Pedro Redgrave são.
– Estranho, muito estranho, disse Peçanha batendo com as unhas nos dentes, o que é que você acha?
– Não acho nada, eu disse.
– Ele parecia preocupado com alguma coisa. Fez perguntas sobre a fotonovela, sem porém se interessar pelas respostas.
– Que tal a carta da ceguinha?, perguntei.

Peçanha pegou a carta da ceguinha e a minha resposta e leu em voz alta: Querido Nathanael. Eu não posso ler o que você escreve. Minha avozinha adorada lê para mim. Mas não pense que eu sou analfabeta. Eu sou é ceguinha. Minha querida avozinha está escrevendo a carta para mim, mas as palavras são minhas. Quero enviar uma palavra de conforto aos seus leitores, para que eles, que sofrem tanto com pequenas desgraças, se mirem no meu espelho. Sou cega mas sou feliz, estou em paz, com Deus e com os meus semelhantes. Felicidades para todos. Viva o Brasil e o seu Povo. Ceguinha Feliz, Estrada do Unicórnio, Nova Iguaçu. P.S. Esqueci de dizer que também sou paralítica.

Peçanha acendeu um charuto. Comovente, mas Estrada do Unicórnio soa falso. Acho melhor você colocar Estrada do Catavento, ou coisa assim. Vejamos agora sua resposta: Ceguinha Feliz, parabéns por sua força moral, por sua fé inquebrantável na felicidade, no bem, no povo e no Brasil. As almas daqueles que se desesperam na adversidade deviam se nutrir do seu edificante exemplo, um facho de luz nas noites de tormenta.

Peçanha me devolveu os papéis. Você tem futuro na literatura. Isto aqui é uma grande escola. Aprenda, aprenda, seja dedicado, não esmoreça, sue a camisa. Sentei na máquina:

Tésio, bancário, morador na Boca do Mato, em Lins de Vasconcelos, casado em segundas núpcias com Frederica, tem um filho, Hipólito, do primeiro matrimônio. Frederica se apaixona por Hipólito. Tésio descobre o amor pecaminoso entre os dois. Frederica se enforca no pé de manga do quintal da casa. Hipólito pede perdão ao pai, foge de casa e vagueia desesperado pelas ruas da cidade cruel até ser atropelado e morto na Avenida Brasil.

– Qual o tempero aqui? perguntou Mônica Tutsi.
– Eurípides, pecado e morte. Vou contar uma coisa: eu conheço a alma humana e não preciso de nenhum grego velho para me inspirar. Para um homem da minha inteligência e sensibilidade basta olhar em volta. Olhe bem para os meus olhos. Você já viu pessoa mais alerta, mais acordada?

Mônica Tutsi olhou bem para os meus olhos e disse:

– Acho que você está é maluco.

Continuei:

– Cito os clássicos apenas para mostrar o meu conhecimento. Como fui repórter de polícia, se não fizer isso os cretinos não me respeitam. Li milhares de livros. Quantos livros você acha que Peçanha já leu?
– Nenhum. A Frederica pode ser preta?
– Boa idéia. Mas o Tésio e o Hipólito têm que ser brancos.

Nathanael. Eu amo, um amor proibido, um amor interdito, um amor secreto, um amor escondido. Eu amo outro homem. E ele também me ama. Mas não podemos andar na rua de mãos dadas, como os outros, trocar beijos nos jardins e nos cinemas, como os outros, deitar abraçados nas areias das praias, como os outros, dançar nas boates, como os outros. Não podemos nos casar, como os outros, e juntos enfrentar a velhice, a doença e a morte, como os outros. Não tenho força para resistir e lutar. É melhor morrer. Adeus. Esta é a minha última carta. Mande rezar a missa para mim. Pedro Redgrave.

Resposta: Que é isso Pedro? Vai desistir agora, que encontrou o seu amor? Oscar Wilde sofreu o diabo, foi esculhambado, ridicularizado, humilhado, processado, condenado, mas agüentou a barra. Se você não pode se casar, se amasie. Façam testamento, um para o outro. Defendam-se. Usem a Lei e o Sistema em seu benefício. Sejam, como os outros, egoístas, dissimulados, implacáveis, intolerantes e hipócritas. Explorem. Espoliem. É legítima defesa. Mas, por favor, não faça nenhum gesto tresloucado.

Mandei a carta e a resposta para Peçanha. As cartas só eram publicadas com o visto dele. Mônica Tutsi apareceu com uma garota.

– Esta é Mônica, disse Mônica Tutsi.
– Que coincidência, eu disse.
– Que coincidência o quê?, perguntou a garota Mônica.
– Vocês terem o mesmo nome, eu disse.
– Ele se chama Mônica?, perguntou Mônica apontando o fotógrafo.
– Mônica Tutsi. Você também é Tutsi ?
– Não. Mônica Amélia.

Mônica Amélia ficou roendo uma unha e olhando para Mônica Tutsi.

– Você me disse que o seu nome era Agnaldo, ela disse.
– Lá fora eu sou Agnaldo. Aqui dentro eu sou Mônica Tutsi.
– Meu nome é Clarice Simone, eu disse.

Mônica Amélia nos observou atentamente, sem entender nada. Via duas pessoas circunspectas, cansadas demais para brincadeiras, desinteressadas do próprio nome.

– Quando me casar meu filho, ou minha filha, vai se chamar Hei Psiu, eu disse.
– É um nome chinês?, perguntou Mônica.
– Ou então Fiu Fiu, eu assobiei.
– Estás virando niilista, disse Mônica Tutsi, retirando-se com a outra Mônica.

Nathanael. Sabe o que é duas pessoas se gostarem? Éramos nós dois, eu e Maria. Sabe o que é duas pessoas perfeitamente sintonizadas? Eramos nós, eu e Maria. Meu prato predileto é arroz, feijão, couve à mineira, farofa e lingüiça frita. Imagina qual era o de Maria? Arroz, feijão couve à mineira, farofa e lingüiça frita. Minha pedra preciosa preferida é o Rubi. O de Maria, estás a ver, era também o Rubi. Número da sorte o 7, cor o Azul, dia Segunda-Feira, filme, de Faroeste, livro O Pequeno Príncipe, bebida Chope, colchão o Anatom, clube o Vasco da Gama, música o Samba, passatempo o Amor, tudo igualzinho entre eu e ela, uma maravilha. O que nós fazíamos na cama, rapaz, não é para me gabar, mas se fosse no circo e a gente cobrasse entrada nós ficávamos ricos. Na cama nenhum casal jamais foi tomado de tamanha loucura resplandecente, foi capaz da performance tão hábil, imaginativa, original, pertinaz, esplendorosa e gratificante quanto a nossa. E repetíamos várias vezes por dia. Mas não era apenas isso que nos ligava. Se você não tivesse uma perna eu continuaria te amando, me dizia ela. Se você fosse corcunda eu não deixaria de te amar, eu respondia. Se você fosse surdo-mudo eu continuaria te amando, dizia ela. Se você fosse vesga eu não deixaria de te amar, eu respondia. Se você fosse barrigudo e feio eu continuaria te amando, dizia ela. Se você fosse toda marcada de varíola eu não deixaria de te amar, eu respondia. Se você fosse velho e impotente eu continuaria te amando, ela dizia. E nós estávamos trocando essas juras quando uma vontade de ser verdadeiro bateu em mim, funda como uma punhalada, e eu perguntei a ela, e se eu não tivesse dentes, você me amaria? e ela respondeu, se você não tivesse dentes eu continuaria te amando. Então eu tirei a minha dentadura e botei em cima da cama, num gesto grave, religioso e metafísico. Ficamos os dois olhando para a dentadura em cima do lençol, até que Maria se levantou, colocou um vestido, e disse, vou comprar cigarros. Até hoje não voltou. Nathanael, me explica o que foi que aconteceu. O amor acaba de repente? Alguns dentes, míseros pedacinhos de marfim, valem tanto assim? Odontos Silva

Quando eu ia responder, surgiu Jacqueline e disse que o Peçanha estava me chamando. Na sala de Peçanha estava um homem de óculos e cavanhaque.

– Este aqui é o dr. Pontecorvo, que é — o que que o senhor é mesmo?, perguntou Peçanha.
– Pesquisador motivacional, disse Pontecorvo. Como eu ia dizendo, primeiro nós fazemos um levantamento das características do universo que estamos pesquisando. Por exemplo: quem é o leitor de Mulher? Vamos supor que é mulher e da Classe C. Em nossas pesquisas anteriores já levantamos tudo sobre a mulher da Classe C, onde ela compra seus alimentos, quantas calcinhas ela tem, a que horas faz o amor, a que horas vê televisão, os programas de televisão que assiste, em suma, um perfil completo.
– Quantas calcinhas ela tem?, perguntou Peçanha.
– Três, respondeu Pontecorvo, sem vacilar.
– A que horas ela faz o amor?
– As 21:30, respondeu Pontecorvo prontamente.
– E como é que você descobriu tudo isto? Vocês batem na porta da D. Aurora, no conjunto habitacional do INPS, ela abre a porta e vocês dizem, bom dia D. Aurora, a que horas a senhora dá a sua trepadinha? Olha aqui, meu amigo, eu estou há vinte e cinco anos neste negócio e não preciso de ninguém para me dizer qual é o perfil da mulher da Classe C. Eu sei por experiência própria. Elas compram o meu jornal, entendeu? Três calcinhas… Ha!
– Usamos métodos científicos de pesquisa. Temos sociólogos, psicólogos, antropólogos, estatísticos e matemáticos em nosso staff, disse Pontecorvo, imperturbável.
– Tudo para tirar dinheiro dos ingênuos, disse Peçanha com indisfarçável desprezo.
– Aliás, antes de vir para cá, coligi algumas informações sobre o seu jornal, que acredito sejam do seu interesse, disse Pontecorvo.
– E quanto custa?, perguntou Peçanha com sarcasmo.
– Esta eu lhe dou de graça, disse Pontecorvo. O homem parecia feito de gelo. Nós fizemos uma minipesquisa sobre os seus leitores, e, apesar do tamanho reduzido da amostra, posso lhe assegurar, sem sombra de dúvida, que a grande maioria, a quase totalidade dos seus leitores é composta de homens, da Classe B.
– O quê?, gritou Peçanha.
– Isso mesmo, homens, da Classe B.

Primeiro Peçanha ficou pálido. Depois foi ficando vermelho, e depois arroxeado, como se estivesse sendo estrangulado, a boca aberta, os olhos arregalados, e levantou-se da sua cadeira e caminhou cambaleante, os braços abertos, como um gorila doido em direção a Pontecorvo. Uma visão chocante, até mesmo para um homem de aço, como Pontecorvo, até mesmo para um ex-repórter de polícia. Pontecorvo recuou ante o avanço de Peçanha até que, com as costas na parede, disse, tentando manter a calma e a compostura: Talvez os nossos técnicos tenham se enganado.

Peçanha, que estava a um centímetro de Pontecorvo, teve um violento tremor e, ao contrário do que eu esperava, não se atirou sobre o outro como um cão danado. Agarrou os próprios cabelos com força e começou a arrancá-los, enquanto gritava, farsantes, vigaristas, ladrões, aproveitadores, mentirosos, canalhas. Pontecorvo, agilmente, escapuliu em direção à porta, enquanto Peçanha corria atrás dele atirando-lhe os tufos de cabelo que arrancara da própria cabeça. Homens! Homens! Classe B!, rosnava Peçanha com ar aloprado.

Depois, já tudo serenado — creio que Pontecorvo fugiu pelas escadas — Peçanha, novamente sentado atrás de sua escrivaninha me disse: É a esse tipo de gente que o Brasil está entregue, manipuladores de estatísticas, falsificadores de informações, empulhadores com seus computadores, todos criando a Grande Mentira. Mas comigo eles não têm vez. Coloquei o sacripanta em seu lugar, não coloquei?

Eu disse qualquer coisa, concordando. Peçanha tirou a caixa de ata-ratos da gaveta e me ofereceu um. Ficamos fumando e conversando sobre a Grande Mentira. Depois ele me deu a carta de Pedro Redgrave e a minha resposta, com o visto dele, para eu levar para a composição.
No meio do caminho verifiquei que a carta do Pedro Redgrave não era aquela que eu havia enviado para ele. O texto era outro: Prezado Nathanael, tua carta foi um bálsamo para o meu coração aflito. Deu-me forças para resistir. Não farei nenhum gesto tresloucado, prometo que…

A carta terminava aí. Tinha sido interrompida no meio. Estranho. Não entendi. Havia algo de errado. Fui para a minha mesa, sentei, e comecei a escrever a resposta ao Odontos Silva:

Quem não tem dentes também não tem dor de dentes. E como disse o herói da conhecida peça Papo Furado, nunca houve um filósofo que pudesse agüentar com paciência uma dor de dentes. Além do mais, os dentes são também instrumentos de vingança, como diz o Deuteronômio: olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé. Dentes são desprezados pelos ditadores. Lembra-se do que Hitler disse para Mussolini sobre um novo encontro com Franco?: Prefiro arrancar quatro dentes. Você teme estar na situação do herói daquela peça Tudo Legal se no Fim Ninguém se Ferra – sem dentes, sem gosto, sem tudo. Conselho: ponha os dentes novamente e morda. Se a dentada não for boa, dê murros e pontapés.

Eu estava no meio da carta do Odontos Silva quando entendi tudo. Peçanha era Pedro Redgrave. Em vez de me dar de volta a carta em que Pedro me pedia para mandar rezar uma missa e que eu havia lhe entregado junto com a minha resposta falando sobre Oscar Wilde, Peçanha me entregara uma nova carta, inacabada, certamente por engano, e que deveria chegar às minhas mãos pelo correio.

Peguei a carta de Pedro Redgrave e fui até a sala de Peçanha.

– Posso entrar?, perguntei.
– O que é? Entre, disse Peçanha.

Entreguei a ele a carta de Pedro Redgrave. Peçanha leu a carta e percebendo o engano que havia cometido empalideceu, como era do seu feitio. Nervoso, mexeu nos papéis sobre a sua mesa.

– Era tudo uma brincadeira, disse depois, tentando acender um charuto. Você está aborrecido?
– A sério ou a brincadeira, para mim tanto faz, eu disse.
– Minha vida dá um romance… disse Peçanha. Isto fica entre nós dois, está certo?
– Eu não sabia bem o que ele queria que ficasse entre nós dois, a vida dele dar um romance ou ele ser o Pedro Redgrave. Mas respondi:
Claro, só entre nós dois.
– Obrigado, disse Peçanha. E soltou um suspiro que cortaria o coração de qualquer outro que não fosse um ex-repórter de polícia.

‘Uma maneira curiosa de exercitar a vaidade…’

Numa semana em que a movimentação inusitada do ermitão Rubem Fonseca mexeu com a cabeça de escritores, leitores e jornalistas culturais, com a saída do autor da toca para comparecer a um impensável evento público, uma dúvida tilintou dentro da caixola: quem é Paula Parisot?

Sim, foi a moça de 31 anos quem fez o maior contista brasileiro vivo deslocar-se do Rio para São Paulo, na manhã da última terça-feira, para prestigiar uma ‘performance’ sua. Ela se encontrava confinada dentro de uma caixa de acrílico de 4m x 3m em uma livraria paulista.

A partir dali, algumas ‘teses’ sobre a aproximação dos dois pipocaram na grande imprensa – inclusive a de que ela seria o ‘pivô’ de sua misteriosa saída da editora Cia. das Letras após 20 anos de parceria.

Por conta disso, o Café Escuro (que já havia falado do autor no post 9 milímetros) procurou algumas figuras ligadas ao meio literário e editorial (leitores inclusive) para tentar construir um perfil da menina Parisot, com base na observação alheia. Algo como ‘Parisot por eles’. Não deu certo.

Dos poucos selecionados que receberam as perguntas deste blog, apenas três se deram ao inconveniente trabalho de responder. Dois deles admitiram ter pouco a acrescentar e, como um mantra, repetiram a mesma palavra para quase todas as questões: ‘Não’. Não conheciam, não leram, não se interessavam, não acreditavam, e por aí vai.

“Não tomei conhecimento sobre a performance, apenas superficialmente. Em relação declarações de Fonseca sobre ela, acho que ‘avalizam’, com aspas mesmo, mas não tenho certeza se ‘dão credibilidade’. E, sim, acredito em promessas literárias. Lembro do Daniel Galera e da Carol Bensimon. Acho que estão no caminho”, disse o leitor gaúcho Dante Sasso.

“Levianismo à parte, penso que foi uma jogada da editora e que Rubem Fonseca ganhou um troco. Lembro que há poucos meses ele foi leiloado, mas nem sei se quem levou foi a mesma editora da moça”, lembrou o jornalista André Mansur sobre a visita de Rubem à tal performance. (N.E. Não, não foi. A nova editora de Fonseca é a Agir; a nova editora de Parisot é a Leya.)

No entanto, o primeiro questionário a pingar na Caixa de Entrada foi justamente de um escritor e, talvez por isso, o único a pedir anonimato. Era, contudo, o que trazia as informações mais consistentes.

Segundo ele, Paula pertence “a uma casta de altíssimo nível do hight society paulista”, de família muito próxima ao escritor de A arte de andar nas ruas do Rio. Ele explica que a conheceu depois que um amigo a indicou como sendo uma boa escritora, frisando que ela tinha sido indicada para a Cia. das Letras por Rubem Fonseca. “Talvez seja o motivo de desafeto ou desentedimento para a saída do escritor de Mandrake de lá”, diz, apostando em hipótese também defendida por Fábio Victor, na Folha de São Paulo.

No trecho da entrevista que segue abaixo, o escritor anônimo discorre um pouco sobre o que pensa de seus colegas de função – mentor e pupila. Revela um suposto teor sexual embutido na relação pública entre os dois; e compara a declaração do autor de Agosto, sobre a performance de Paula, com as análises de artes plásticas construídas por Mario Pedrosa e Ferreira Gullar, por exemplo.

Se todo esse movimento serviu para algo, foi para mostrar que o velho Zé Rubem continua ‘na atividade’ extra-literária e, com ela, conseguiu pôr mais uma discípula na estrada.

* * * *


Já havia lido ‘A Dama da Solidão’ ou
‘Gonzos e Parafusos’?

Li um conto de ‘A Dama da Solidão’. Não me pareceu nem melhor ou pior que Patrícia Mello ou qualquer outro arremedo fonsequiano. Mas eu teria um prazer maior em indicar mulheres, porque satisfaria meu ego masculino e meu complexo de Dom Juan, do que homens. Há um flerte ou uma malícia nessa história. Um modo inteligente de afirmar a fama falocentrica de Fonseca. Não são mulheres burras ou que escrevam mal, porque isto seria um tiro no pé do autor de Prisioneiros. Mas é uma maneira curiosa de exercitar a vaidade em todos os níveis.

O que você já ouviu dizer da literatura de Paula?

Sinceramente, não acompanho. Como o que ela faz é uma pálida sombra do que Rubem Fonseca já realizou, não me interesso pela leitura, mas deve ter lá isto que interessa aos analistas de literatura de gênero que me tacharão de insensível por desconhecer a individuação daquela voz por este, este e aquele motivo… Todo o blábláblá que se desvia do assunto principal: só existem livros bons e maus. E se a criatura não dá um passo além daquele dado pelo seu criador…

O que achou da
performance feita pela escritora?

O Rubem foi para os jornais dizer que é coisa séria. Nunca li nenhuma coluna dele sobre artes plásticas como as que possuíam Mario Pedrosa, Frederico Morais, Ferreira Gullar ou comentários como Hélio Oiticica realiza sobre, por exemplo, Jackson Ribeiro. Portanto, se alguma discípula do autor de O Seminarista quebrar paredes e se cobrir de fezes, ele achará tão importante quanto se fechar em um caixa de vidro em uma livraria e ser alimentado pelos visitantes e depois produzir um livro com as sensações. Era melhor vê-la de biquini ou calcinha ou sutiã no BBB, soaria mais sincero e atingiria uma mídia maior. Talvez rendesse até capa de Playboy.

E sobre a visita ‘surpresa’ de Rubem Fonseca à tal performance?

Uma surpresa que ele deveria estar devendo a família, porque parece que são amigos de longa data… Senão, que sentido faria sair de sua casa por achar um zé-ninguém preso em uma caixa de vidro ou seja lá o que for interessante para vê-lo. Isto aos oitenta e blau, em um momento que não se pode desperdiçar tempo ou energia. Se levarmos em consideração que o autor é sério. Eu não sairia de casa. Talvez surtisse mais efeito ir a Cuba e visitar o jornalista que está em greve de fome pela libertação de presos políticos.

Com que frequencia você está lendo os tais ‘novos escritores’?

Leio aquilo que me interessa e que preste. Porque este rótulo protege um monte de baboseiras. Autores inventados por editoras que mantém criticos presos a contratos milionários ou com garantia vitalícia de salário se nos suplementos de cultura – que agora se transformaram em Show Business – elogiá-los como novos avatares das letras e canções.

Você acredita em promessas literárias? Elas têm por hábito de contratizar?

Elas se realizaram, sim. Porque o aparato em torno deles é forte. Como  falei na pergunta anterior: criticos, colegas que foram comprados e tem que enfiar a língua se sabe onde e mesmo escrevendo melhor que companheiros ‘revelações’, foram sequestrados em seu direito de opinião por punhados favores, metais, cervejas, etc… Um tráfico de influência bem pior do que aquele que ocorre em Senados, Presidências ou locais propriamente frequentados pelo poder. Daqui a alguns anos estarão como júris dos principais prêmios literários e outras quimeras da vida literária… Mas elas se concretizaram e se mantém. Me esquivarei de citar nomes. Mas a verdadeira literatura é maior que isso e que todos esses juntos.


9 milímetros

Logo no início do século XXI fui chamado para trabalhar em um jornal carioca – projeto novo, proposta diferenciada, coisa e tal. Era um oásis, quase uma mentira, uma espécie de alucinação coletiva de algumas dezenas de pessoas. Por alguns meses.

Lá pela terceira ou quarta semana, no meio de uma entrevista, ali no Centro do Rio, nas vizinhanças do Arco do Teles, o entrevistado diz para o fotógrafo:

– Acho que lhe conheço, mas não sei exatamente de onde.

– Eu sou filho do Rubem, respondeu o outro.

Demorei três segundos para gelar e tremer, depois de considerar o sobrenome. Não era possível. Aquilo não poderia mesmo ser aquilo. Não era possível.

Na volta para a redação, ainda no carro de reportagem, eu tomava coragem para voltar ao assunto. E enfim avancei:

– Como assim, filho do Rubem?

– É, sou. Mas não é uma coisa que eu fico falando por aí para qualquer um. Pode parecer pedante.

Fiquei ali entre tudo. Pasmo, surpreso, incrédulo, orgulhoso e mais um tanto. Chegando em casa, falei para ela:

– Você não vai acreditar com quem estou trabalhando.

– Quem?

– O filho do Rubem.

Em uma confusão que só viríamos entender muito mais tarde, a reação foi quase indiferente.

– Nossa, que coincidência!

Alguns meses depois, em uma festa que jogava a pá de cal naquele sonho coletivo, ela me questionou ao ser apresentada ao ‘filho do Rubem’.

– Não é possível que ele tenha um filho dessa idade.

Só então nos tocamos que ela falava de um Rubens, e eu falava de Rubem Fonseca. Muitas risadas depois, ela entendeu minha surpresa quase histérica. Afinal, era o filho do homem.

– Ahhh, tá. Agora, sim, faz todo sentido, disse ela.

* * *

A historia acima é apenas uma introdução para lembrar que, após o lançamento de ‘O seminarista’, no fim de 2009, começam a chegar às livrarias relançamentos de clássicos do velho Zé Rubem. Há desde romances, como ‘Agosto’, ao definitivo ‘A coleira do cão’. Ou ainda ‘Lúcia McCartney’ e ‘Os prisioneiros’.

Se você é um neófito no mundo fonsequiano, avance logo sobre os hards, tipo ‘Feliz Ano Novo’, e depois vá amaciando. De todo modo, não há uma receita de bolo. O livro tem que bater verdadeiramente. Pode ser que, no fim, o leitor se deixe levar pelas viagens oníricas de ‘Vastas emoções e pensamentos imperfeitos’.

Nada impede, no entanto, que o caminho possa ser feito de trás para adiante. Se for assim, vale um aperitivo.