Movimentos 3.3

Já está nas bancas a revista Brasileiros de outubro, com um perfil do ex-capitão do Bope, Rodrigo Pimentel, feito pelo amigo aqui. A matéria está disponível na edição online e impressa. Quem não tiver paciência para ler na tela, pode ir às bancas.

Abaixo um pequeno trecho.

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Não faça movimentos bruscos

Rodrigo Pimentel desembarca de um utilitário preto, pilotado por sua mulher, em frente ao prédio de classe média alta, às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, Zona Sul do Rio. Veste jeans e camisa de malha cinza claro. Sorri e circula o carro sem olhar em volta nem demonstrar tensão. Na portaria, faz as vezes de cicerone. Explica que o apartamento está em obras, pede desculpas e aponta um canto tranquilo na espaçosa recepção. Acomodo-me em um sofá; ele escolhe uma cadeira e logo descobre que ela tem defeito em um dos braços.

“Vou ficar segurando aqui para não pegar mal”, ri, enquanto estica a tira de couro que serviria de apoio ao braço esquerdo. “Relaxa. Depois alguém conserta isso”, minimizo. “Quem tem de mandar consertar é o síndico. E o síndico sou eu”, faz a primeira de uma série de confissões.

Atuando em várias frentes, Pimentel não foi “capturado” com facilidade para as páginas da Brasileiros. A função doméstica (que inclui desde pensar no restauro dos quadros do hall ao posicionamento das novas câmeras de segurança do edifício) explica um pouco por que foram necessárias dezenas de ligações, oito adiamentos e uma série de e-mails e torpedos em um período de três meses. Como em um jogo de xadrez, conseguir uma conversa com ele requer estratégia e paciência. O rádio e o telefone do entrevistado não param. Do outro lado da linha, estão policiais civis e militares querendo passar novas histórias. E elas são muitas, como as que vêm a seguir.

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Conflitos

José Mariano Beltrame, secretário de Segurança do Estado do Rio, concedeu uma entrevista a Fábio Varsano e Vania Cunha do jornal O Dia, publicada na edição impressa deste domingo. Na conversa, Beltrame analisa as recentes ações da política de pacificação de favelas, com destaque para a Zona Norte do Rio.

Delegado da Polícia Federal, que está no cargo de secretário há quase 1200 dias (uma proeza para a função), Beltrame é experiente e trabalha com relativa frieza diante dos problemas que enfrenta. Até na hora das respostas. Em relação ao futuro recente, ele quase minimiza os problemas que irá enfrentar com a prometida ‘tomada’ dos complexos do Alemão e da Penha, que no início do Governo Sérgio Cabral foram palco de um dos mais longos e sangrentos conflitos urbanos das últimas décadas.

Da mesma maneira, meio que banaliza a guerra travada entre integrantes da cúpula do jogo do bicho no Rio de Janeiro, que matou dezenas de pessoas – duas delas em seu episódio mais recente – um atentado à bomba na mais movimentada avenida da Barra da Tijuca.

Até por todas essas questões, a entrevista é esclarecedora sobre o (indecifrável) modo de pensar e agir do secretário. Seguem abaixo os melhores trechos. O link para a entrevista completa no Dia Online está aqui.

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A secretaria sabe que os criminosos se refugiam em outras favelas. É uma estratégia isolá-los para facilitar as prisões?

O Comando Vermelho realmente foge para o Complexo do Alemão. Mas quem se refugia lá são um ou dois, e olha lá! Na verdade, são pessoas se metendo no ‘negócio’ de outras. Quantos migraram? Quinze, 20 ou cinco? A Inteligência captou que as lideranças foram para lá. Eles não têm condição de dar guarida para muitos bandidos, não têm cacife para isso. Sei que lá tem arma, tem criminosos de grande porte, mas falar em refúgio, não é assim. E pelo nosso planejamento, feliz ou infelizmente, a gente vai se encontrar. Mas vai ser a última vez.

Falando em Alemão, quando a UPP vai chegar ao complexo?

Levamos em conta o peso social de entrar lá. Não vou buscar três ou quatro criminosos e correr o risco de uma pessoa ser alvo de bala perdida. Mas se tiver a informação para entrar com a UPP e que faça virar a última operação, vamos. O pessoal do Bope comemora: ‘É a última vez que vou entrar no Pavãozinho. Chegava na esquina e tomava tiro. É menos uma na minha lista’. Vou fazer isso no Alemão, Rocinha, Jacarezinho, para implantar um sistema que recupera o que acho de mais caro para o ser humano, que é a liberdade. Quando fomos lá, detectamos um barraco com 15 mil cartuchos de 7.62. Diante de uma potencialidade bélica dessas, tinha que ir. Vai ser uma operação complexa, mas vou tirar das mãos dessas pessoas um equipamento desgraçado.

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Depois do atentado ao contraventor Rogério Andrade, quais as medidas da secretaria para evitar um banho de sangue?

Em primeiro lugar, é bom que a sociedade saiba que esse desentendimento entre essas duas ou três pessoas que dizem dominar a contravenção no Rio é uma briga de família. Pessoas que estiveram longe do estado e que tentaram desmoralizá-lo por mais de 20 anos. Isso é um problema de família, o que não quer dizer que nós não tenhamos que entrar, intervir.

Mas, secretário, houve um atentado.

É verdade, mas aquilo ali são coisas muito pessoais. É lógico que a sociedade viu e, obviamente, aquela cena choca, mas aquilo não é um atentado dirigido a dezenas de pessoas. Em relação à investigação, não posso dizer o andamento, mas não vamos deixar isso passar.

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Este é um ano eleitoral. Pelas informações da Inteligência, é possível saber se milicianos já estão se articulando, apesar das prisões realizadas?

A polícia nunca havia prendido deputado, vereador, prefeito, e nós fizemos isso. Agora, nós, policiais, temos que buscar a prova. Desde que entramos, nunca mais abandonamos a Zona Oeste. Volta e meia tem um, dois presos. E qualquer indício será remetido ao Tribunal Regional Eleitoral, temos uma parceria firmada.

Qual a principal conquista desses quase quatro anos de sua gestão? E o maior desafio que ainda não conseguiu superar?

O principal desafio não alcançado vamos deixar para o fim do ano (risos). A maior conquista foi o povo do Rio ter comandantes de batalhão, delegados, chefe de polícia, comandante-geral escolhidos por critérios técnicos e não por indicação política. Como vou fazer UPP na Cidade de Deus se o comandante não fui eu quem coloquei, o delegado não fui eu quem indiquei? Tudo o que estamos começando a colher hoje é fruto desta autonomia que o governador nos deu lá atrás.