Sussurros

Agora tem que todas as noites, ou quase todas as noites, ou pelo menos aquelas em que os silêncios são mais rascantes que os ruídos, eu tenho ouvido gritos. São gritos de alguém que sofre e sente dores constantes. Parece um “aaaaaiiii” de quem espera uma solução, de quem pede ajuda, dezenas de vezes, até cansar, até ser sugada pelo sono e despertada dele novamente pela dor.

Na primeira noite acordei certo que os gritos vinham dos meus sonhos; na segunda noite, sonhei que gritavam pra mim, comigo. Há dias já não sonho, mas os gritos continuam.

Há meses moro ao lado de dois hospitais e nunca havia sido importunado sequer pelo soar das ambulâncias. Agora, nesse quase início de inverno, quando nem as árvores se mexem e os sons são mínimos, os tais gritos decidem vir bater na minha janela.

E, noite sim, noite não, cá estou eu criando estratagemas para burlar a agonia de alguém que não sei quem é, não sei o nome, idade, nada. Sei só ser uma mulher. E só suponho estar em um dos hospitais vizinhos.

Por vezes deixo a TV ligada, por vezes o ventilador, mas o que tem abafado os gritos mais constantemente é a repetição incessante, no celular, de “Well-Tempered Clavier, Book 1 – Prelude & Fugue #1 in C”, de Bach. Alto o suficiente para mascarar o tormento; baixo o bastante para me deixar dormir…

Radicalismos

Paulinho da Viola já havia pedido silêncio para que pudesse escutar ‘um pouco a dor do peito’ em seu clássico Para ver as meninas, de 1971. Mesmo ali, a angústia vinha acompanhada da canção, da música. Portanto, não existia de fato o silêncio ambicionado, desejado.

Nunca há. Ao menos é o que se conclui ao se assistir o teaser do documentário ‘Silêncio’, sobre a vida reclusa de João Mello, dirigido por Cid César e Alberto Bellezia (diretor de fotografia de ‘Santiago’, de João Moreira Salles). Cid, que se define como um “antropologo/sociologo frustado”, e que já havia se embrenhado Mata Atlântica adentro atrás do ‘maluco-beleza’ Guilherme de Souza, o Hemp, agora radicaliza.

silêncio _ teaser versão zero from CCA on Vimeo.

Segundo Cid, ‘Silêncio’ rompe com a tradição documental brasileira: a maldição da entrevista. “Filmamos o silêncio. E o resultado é incrível. Sorte minha contar com uma equipe de fotografia e som tão boa. Fazer cinema com três pessoas é um exercício incrível”, surpreende Cid, que já tinha ousado bastante em Hemp.

Nada nos dois minutos e quarenta e oito segundos de teaser fazem lembrar o nome do filme. É um encadeamento de sons, ruídos, barulhos e toda espécie de atritos sonoros que, contraditoriamente, parecem dar sentido a decisão do protagonista, tomada há 27 anos, de decidir morar em uma caverna, de frente para o mar do Recreio.

“A sociologia do desvio é um assunto que estudo com pouca frequencia. Meu interesse por esses personagens é que eles nos dão grandes lições. O mundo precisa conhecer essas pessoas”, ambiciona o cineasta, dando um caráter de urgência ao que está levando às telas.

Acompanhado do canto dos grilos, do soprar dos ventos, dos matos, do chacoalhar das ondas nas rochas, o silêncio do homem conhecido como silêncio ajuda-nos, de certa forma, e minimamente, a atentar para os males que atingem (e afligem) a sociedade moderna: o excesso de fala, a deficiência de audição.

João Mello fez a opção contrária, radicalmente oposta. Cid César vai pelo mesmo caminho.